as agulhas

Não fosse o excesso de móveis, o espaço entre as duas poderia ser território de paz. Avizinhadas nas tarefas, mas pressionadas por sentimentos desordenados, se ignoravam… Isabel tricota, e Lucia mastiga as pontas de um lápis a fazer palavras cruzadas do jornal. Cadeiras floridas colocadas lados a lado, e a mesa entre elas abarrotada de livros e bugigangas pode ser o bom divisor. Desordem. De qualquer forma toda a sala estava fora do lugar, num vendaval de incoerências. Os livros empilhados no tapete, e as revistas já empoeiradas pelo descaso. Pela janela escancarada sobe/entra o som de marteladas. E o sol não chegou embora já perto das onze horas. Enfadonho domingo. Com tantas restrições, conversar, ou pensar, ou assistir um pouco de televisão, escutar música, olhar nos olhos uma da outra, tudo irrita. É a pandemia. E eram tão amigas! Com energia, também bastante irritação Lucia abre o livro, vou ler  um parágrafo interessante,  acho que vais gostar. Estou sendo engolida pelo livro. Escuta.

A conhecida capacidade dos pensamentos, descoberta pelos médicos, de dissolver e distrair conflitos profundos, morbidamente enredados, que nascem de regiões abafadas do eu, repousa provavelmente apenas na  natureza social e exterior, que liga o indivíduo com outras pessoas e coisas; mas  infelizmente aquilo que lhes confere força curativa parece ser o que reduza sua capacidade de serem pessoalmente experimentados.” 

Estou sempre a te dizer Isabel, esta picuinha e choramingo que emprestas a perda deste ou aquele momento, ou ao que poderia ter sido e não aconteceu está lá do outro lado do quintal, no jardim, enterrado, na cabeça maluca daquele vizinho, nas extrapolações da tua fantasia. Não são reais. Não são tuas, e mesmo assim te fazem sofrer. Não compreendo. Mais vezes penso nas histórias que contas, mais entendo, e me avizinho da certeza dos teus insistentes equívocos. A tragédia te ronda, mas nada é autentico. Isabel levantou os olhos, interrompeu o trabalho, deixou escorrer lágrimas sentidas, e não respondeu. Lucia continua a leitura:

“A menção casual de um pelo no nariz vale mais do que o mais importante pensamento, e ações, sentimentos e sensações transmitem, ao se repetir, a impressão de que se participou de um acontecimento pessoal mais ou menos notável, por mais comuns e impessoais que sejam.”

Lucia, grita, escuta uma vez, não compreendo a tua dificuldade em aceitar o que tento explicar. A voz já escabelada. Não posso aceitar o equívoco, retruca levantando mais a voz e ataca numa peroração de dor. Eu estava preparada, certa e animada para uma conversa diferente, franca quando estendi meu olhar e minha mão para ele. Concordei, afinal, com a possibilidade de um namoro, um encontro/entrega quando José me assalta a emoção dizendo, ‘vou ter que sair!’. E logo que talvez se ausentasse por uma semana ou duas… Continuou dizendo que tinha o número do celular, ligaria para te dar detalhes. Tomou a cerveja num gole, e saiu. Já te contei mil vezes. Não consigo entender. Eu nem tive tempo para falar. O que fiz de errado? E voltou a chorar. Outra vez Lucia se impacientou. Vou terminar o que Robert Musil escreve sobre esta interferência do externo, do mundo, das circunstâncias em nosso eu, em nosso íntimo, que de tão íntimo (e sorriu), desconhecemos. Céus!

“‘É pena, mas é assim’, pensou Ulrich. Lembrou-se daquela impressão totalmente profunda, excitante, diretamente ligada ao eu, que se tem ao cheirar a própria pele. Ele se levantou e abriu as cortinas do quarto. A casca das árvores guardava a umidade da violenta. O sol brilhava, as pessoas moviam – se com animação. Era primavera no asfalto, um indefinido dia primaveril no outono, como só as cidades conseguem produzir magicamente.” (p.83) Robert Musil O homem Sem Qualidades

Não me olhes deste jeito diz Lucia fechando o livro. Tudo que sei fazer é mesmo ler histórias. Não exatamente criativo, mas meu jeito de dizer aquilo que já foi dito tantas vezes, e reafirmar o que penso. Leituras, livros, no meu entendimento, a melhor conversa / a melhor cura. No entanto, talvez, eu também te compreenda. De que resolve um amontoado de palavras se não sabemos, com precisão, fazer uso delas… Eu diria, de que vale a vida se eu sequer entendo do prazer de ser eu, apenas eu? Sim, porque depois que se atravessa o corpo com o prazer de cada pedacinho nosso (apenas nosso) poderemos, minimamente, entender o outro.  Quero que faças esta travessia, amiga.  O outro, aquele desastrado interlocutor que queres amar, e, céus! Pensa Isabel, eu também quero amar misturar cheiros, e minhas vontades. Distribuir abraços e receber beijos. Atormentados beijos de desejo, mas vou segurando a fantasia, e vou contendo os ímpetos. Queria te dizer. O dia que te esqueceres que existem os outros e te apaixonares, perdidamente, por ti mesma, o mundo ficará afinal azul e rosado e perfumado. Estou errada? Eu me sinto uma louca ao te dizer isso, minha amiga, mas não sei dizer diferente e cansei de escutar… Lucia se levantou. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

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