Sem prurido

É preciso hoje, não medo, prurido, nem sombras.

Encontrei num banco da lagoa uma professora conhecida. Alegre. Saia de estampa, camiseta. Boca vermelha, olhos sombreados com verde, voz cintilante. Contou da viuvez de cinco anos, do emprego na Prefeitura de Torres, e apresentou  novo amor apaixonada. Ele estendeu a mão áspera, olhou esperto, e seguiu acomodado no banco, e nas bermudas. Simplicidade domingueira.

Segui o passeio num passo lento, arrastado, atenta as corridas da Ônix. A chuva me surpreendeu. O cinzento refrescou o dia. Os dois riam solto num abraço.

Invenção

Tenho escrito pouco, ou quase nada: silêncio exigente.

Era de longas, tempestivas cartas! Transbordava, extravasava. Aos bilhetes, telefonemas, longas cartas! E, agora, em dias compridos, o silêncio. Não por falta de fatos, enredos. Pequeno, enorme. Histórias banais, atordoantes, novela. Beijo, abraço, êxtase. Um gato perdido… Intenso. Ou a vida era vazia de emoções (escrever se esparramava). Ou o passado virou invenção.

10155689_821718724557474_4114586665873753536_n

A mesma coisa

Sofro no calor. O calor sai pela pele, transforma, e se remexe no corpo. Estranhezas e prazer. Vai-se uma estranheza, encontra-se um afeto, já desafeto, no tempo tudo se transforma, desmancha-se no ar…  Nós nos perdemos nos abensonhados livros que nos abraçam, desgovernados. Hoje de manhã, depois das trovoavas, do parabéns, café e pão com manteiga. Chuva e sol.  Finda a conversa cinza de tantas discussões climáticas volto à livraria pra buscar aqueles títulos com quinze por cento de desconto, como o prometido a cada dia quinze do mês.  Enfrento a pouca sombra, mas vou contando amoreiras, pitangueiras do pomar circular da lagoa.

Sonhos de felicidade

A sensação de sermos unos com a natureza animal, vegetal e minera, e a sensação de mergulhar nessa sensação, não é de todo degradante. É bom sentir pulsar dentro de nós toda a nossa vida, e simultaneamente buscar aquela existência superior cuja realização só nos é possível sonhar ou pressentir!

Não permitas que considerem fantasmas os dois grandes polos do homem, a verdade e a felicidade; quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo, já a termos conquistado.

A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não felicidade. A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez, e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. (p.153 Diário Íntimo, George Sand – 1852)

 

Empilhar verbos

Torres, 2 de dezembro de 2014.

Meu amigo:

Corrupção, morte, matança, e roubo de carros fortes: dinheiro, demérito. Roubo. Depois a seca prejudicando o café, sim, a exportação. E a questão da água. Assalto a caixas eletrônicas! O fato é real. Nem politicagem, nem história de quadrinhos, nem mentiras, nem verdades, pura safadeza.

Não lembro mais o que deveríamos, ou poderíamos ter conversado. Dezembro sugere presépio, gratidão, perdão, e árvore com enfeites, pacotes. Brilho, longas noites de pirilampos. Neste dezembro bilhões e trilhões de dólares! Não vamos cumprir a meta fiscal, não vamos dizer a verdade, vamos escamotear, mentir um pouco mais, dançar outra valsa. Emagrecer: descer e subir a rampa.  É o que se vê, ou não se define, o cenário de Natal. Escândalos, corrupção, lidas domésticas. Espanto. Explode coração. Esta aflição cotidiana vai mapeando a serra, este mar . Um ano de metades: metade do esforço, do foco, do envolvimento.

Arrasto os olhos no Meu Michel: O verdadeiro motivo eu não quero escrever. As pessoas devem tomar muito cuidado ao usar a palavra motivo.”  Amós Oz. A narrativa se transforma, bordado de realce em Israel, opressão, divisão. Medo e solidão. Onde está esta coisa emparedada da alma? Esquisito mundo! Caminhos bloqueados. Jerusalém, um retrato. Ou nos encolhemos, ou afrontamos, ou apenas seguimos… Estamos divididos em susto, pânico, coragem. Entre o vivo, e a voz. Estou, outra vez, a empilhar verbos!

Estremeço

20141030_122450

Se me perguntas por olhos azuis, estremeço. História ao avesso da vida. Armadilha de respostas idiotas. Os azuis, aquarela aguada na história da vida do outro: o famoso, o importante, ou o poder. Alguma coisa quebrada, espatifada é o motor. Voz mansa, clave de sol, sedução. Jocosas conclusões, inesperadas saídas. Camuflado. Um vício. Sobrevida pisoteada, perigosa.  Escamoteado presente. Emancipada fama. Abraço gelado. Se também espreitas a morte, cuida! Atenta ao brinquedo de brincar a vida do outro. Importa quem importa. Valores invertidos numa caça esquisita de pessoas desavisadas. Se me perguntas por olhos azuis, estremeço.

Castanho, risonho, apaixonado. Estendeu-se soberbo, sério. Expectativa. Abraço, resposta, a terra, uma história..

20141013_07321220140806_115829