Robert Musil / escritor austríaco, um dos mais importantes romancistas modernos. Ao lado de Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce forma o grupo dos grandes prosadores do século XX. Nascimento: 6 de novembro de 1880

“Na luta pela sobrevivência não há lugar para sentimentalismos espirituais, só para o desejo de matar o adversário da maneira mais rápida e eficaz; nisso todo mundo é positivista; também não seria virtude no mundo dos negócios deixar-se iludir em vez de agir concretamente, e com isso, em última análise, o lucro é a superação psicológica do outro, dentro das circunstâncias. […]E, assim, não tem mais a ver com a luta por vantagens pessoais e relativamente vulgares; mas o elemento primitivo do mal, como se pode dizer, não foi perdido, pois é aparentemente eterno e indestrutível; ao menos tão eterno quanto o ideal humano, pois é simplesmente o desejo de passar uma rasteira nesse ideal e vê-lo cair de cara no chão. Quem não conhece a maligna sedução que, quando olhamos um belo vaso vitrificado, vem com a ideia de que o poderíamos quebrar em mil cacos com um só golpe? Intensificada até o amargurado heroísmo que nos diz que na vida não podemos confiar em nada senão no que for absolutamente seguro, essa tentação é o sentimento fundamental na objetividade da ciência; e se, por respeito, não a quisermos batizar de Demônio, pelo menos admitamos sentir um leve cheiro de enxofre.” (p.218-219) Robert Musil O Homem sem Qualidades / admito que ainda é incrível a leitura!

senso de espanto

É preciso ter um senso de espanto para entender o que está além da minha compreensão? Estou divagando sobre a minha volta a França…, estranha viagem! Grata a Maria Virgínia Busnello que me vestiu com o famoso/precioso casaco de visom, também a Flávio Del Mese ter me colocado em contato com Claude Bonjean, de voltar a Paris sem neve embora fosse janeiro! Voltarei a contar…E.M.B.Mattos janeiro de 2022

amor necessário

Talvez eu possa alegar, em minha defesa, que a vida em certas fases transcorre com incrível rapidez. Mas chega o dia em que é preciso começar/recomeçar a viver a nossa última vontade antes de largar seus restos, e, a urgência não pode ser adiada. Nitidez ameaçadora, já se passou quase um ano… Espero, enquanto me movo de um lado para outro em atividades insignificantes e tolas, a mudança. Falo, tenho prazer em falar demais. Vivo com a tenacidade de um pescador que baixa suas redes no rio vazio, não faço nada que corresponda a pessoa que eu sou, e talvez faça isso intencionalmente. Espero atrás da minha própria pessoa, na medida em que a palavra intencionalmente designa a parte de um ser humano formada pelo mundo e pelo curso da vida (o curso da vida define muito mais, ou quase tudo). Desespero manso e calmo retido na vontade, aumenta a cada dia. Estou na pior situação e desprezo minhas omissões. Grandes provações serão privilégio de grandes naturezas? Não. Certamente não. As mais simples naturezas têm muitas crises. Assim, na verdade, não resta neste abalo senão o resto inabalável que todos nós possuímos. Não é coragem, não é vontade, não é confiança, é simplesmente capacidade de agarrar-se tenazmente em si mesmo. Difícil! Aquilo que foi picotado, jogado no lixo, um bilhete indesejado, para ser reconstituído precisa de paciência e amor. Amor tão esvaziado! Mas, necessário. Exibo as fotos da mulher, do que restou no tempo…, sem sustos, meu amigo, cada um no seu posto: a observar. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres – um respiro, um expiro, um jeito novo

janeiro de 2022 – Torres

empurra desânimo, puxa coragem

Esta coisa de contar, e dizer o que importa. Onde está a coragem? Antes de pensar / antes de abrir os olhos já estou a censurar a confidência, a memória. Desânimo, sentimento intrometido. Este desgosto raiz! Faltou leveza: uma mãe exigente, pontual, atenta, artista, forte, inteligente e feminina. Um pai generoso, carinhoso, envolvido, alegre e decidido a ser desdobrado entre amor e o prático, o possível e o tudo. Nunca deixar faltar. O excesso. As histórias cruzadas o descrevem de mil maneiras curiosas, um amigo me diz, lembro do teu pai, gostava de futebol. Verdade, adorava escutar rádio, mas não perdia os jogos, qualquer jogo. Adorava o mar. Era um excelente caminhante, existe isso? E aqueles olhos arregalados e tranquilos nos davam paz. Eles gostavam de cães de gatos, do fogo, da água, da música e de estarem vivos. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres

Quando conversar será se narrar/ se explicar, mas c, também, costurar palavras e jeitos nas tuas, nas minhas palavras desajeitadas, e, desconfiadas. Estares por perto tem cheiro de fogaréu, de céu aberto, descobertas, e me dá um medo desgraçado de voltar a ser eu. Faz tanto tempo que não sou! Fácil deixar de existir: aos poucos nos escondemos na voz e no abraço dos filhos. Assim, passamos a ser parte da vida ganha/descoberta de cada um. Depois os netos a correr, dançar, ou pintando, sendo Valentina, sendo o novo e a força, o medo, e a coragem como Lucas e João. Sobra uma fresta para ser eu. Mas, estou, sempre, apenas espiando…

pandemônio

“Precisava desanuviar-me e pensar com calma. Fui andando pela rua Posadas na direção da Recoleta. Minha cabeça era um pandemônio: um amontoado de ideias, sentimentos de amor e de ódio, perguntas, ressentimentos e lembranças misturavam-se e apareciam sucessivamente.”

“Eu já disse que faço uma ideia bastante desagradável da humanidade; devo confessar que dos cegos não gosto nem um pouco e que sinto perto deles uma impressão semelhante à que me causam certos animais frios, úmidos e silenciosos, como as cobras.” (p.52) Ernesto Sabato O túnel

Alguns livros são perfeitos: forma e ideia, e, o necessário da perfeição em literatura. Este é um deles. Talvez, depois de atravessar outra vez, o mesmo caminho, eu possa me fazer entender. Vais ler? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres a pensar nesta beleza única / particular que atravessa o que vejo quando olho pela janela.

o toque

O corpo, as voltas do corpo. A descoberta do toque perfeito: apenas com tua própria mão. Como o olhar: nenhuma descrição/ou reprodução encontra o contorno perfeito / o certo. Há o desvio. Quando passas a mão pelo teu próprio corpo, tu o sentes, e o sabes / e o reconheces. O prazer de ser, não o outro a te descrever. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres


Com Pedro Moog na Lattoog

São Paulo, na Alameda – cliques de Ana Moog – janeiro de 2022

charlatão

“Permita-me dar à palavra ‘charlatão’ o significado que ela dee ter em vez do significado jurídico. De acordo com a lei, charlatão é qualquer um que trata pacientes sem possuir um diploma oficial que prove que ele é médico. Eu preferiria outra definição: charlatão é todo aquele que efetua um tratamento sem possuir o conhecimento e a capacidade necessários para tanto. Firmando-se nesta definição, aventuro-me a afirmar que – não somente nos países europeus – os médicos formam um contingente preponderante de charlatões na análise. Eles com grande frequência praticam o tratamento analítico sem o terem aprendido e sem compreendê-lo.”(p.208) Sigmund Freud A questão da análise leiga in Freud Biografia de René Major e Chantal Talagrand

Quem tem amor a vida obriga-se a prestar atenção.

nenhuma gota de chuva

Não sei quantas vezes virei/revirei/ ou dei voltas. O mundo de cabeça para baixo, nem sei quantas vezes vou conseguir virar, e acordar e levantar, dar risada e ter força e fazer: sigo lavando a roupa, passando, fazendo a comida, e já um pouco sem vontade de caminhar…, comprar, comprar um chapéu, voltar e ir. Depois ficar. Dormir mais e acordar depois de dormir. Quantas vezes vou conseguir virar o mundo de cabeça baixo, e fazer de conta que está tudo certo? São as palavras! Não é o mundo!? Tudo fantasia e invenção! Dolorido! Dói mesmo, mas o que posso fazer para melhorar? Tirar a roupa? Entrar no mar e voltar perfeita, bonita, feliz!? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro e 2022 – Torres. Nenhuma gota de chuva!