acervo de carta e memória

Um carta de Iberê Camargo

Porto Alegre, 20 – 2 – 91

Querida Beth,

Continuas a guria bonita que sempre foste. Não percebi a gordura de que falas, talvez pela posição do corpo. Como tens falado muito na pintura do cabelo arrisco minha opinião sobre o assunto: acho que se deve sempre usar a cor que assemelha à natural, para não criar visual disparatado. Recebi um carinhoso cartão da Ana Maria, linda Alemanha. Fiquei muito contente e vou responder. Eu continuo com meu problema com a rinite ou coisa parecida. Ontem procurei o médico que me fez as aplicações de cobalto para saber se havia errado no local da aplicação. Felizmente não há motivo para preocupação. Tudo está bem. Quanto ao problema da renite propriamente, é preciso saber a causa e descobrir a cura. Como experiência aboli o uso da terebintina [..] Pode ser que a causa esteja em um destes produtos. Essa coisa me enfurece, não sou de aceitar mazelas, nem limitações. Estou também enfrentando muitos outros problemas […] Acho que vou entrar numa briga […] Beth, muito carinho, muita saudade

P.S. Não fiques preocupada

um bilhete de  abril de 2005 de P.H.Filho: Opções de leitura para Beth […] e a lista dos livros a serem lidos.

um poema – bilhete de Jean Jacques:

Ô, toi, ma douce Colombe

Venue des terres lointaines

Auras – tu apaisée mon âme

Dans tes étrentes pour l´eternité?

um bilhete de Flávio Tavares:

ElizaBeth, caríssima

O meu artigo deste domingo não é poético de jeito nenhum. Escrevi –o em verso, apenas isso. Poesia não é verso. E verso não é poesia. E o reverso? Se o reverso do verso, pode ser poético. Lê de novo, preferentemente no jornal em papel, não na versão eletrônica, e verás que é apenas verso, não poesia. Que a benção do natal se renove pelo ano inteiro,

Búzios, sob chuva, 23.12. 2006

uma carta  de Paulo Hecker Filho

Alegre, 28 de novembro de 2003

Só tu, Beth,

Com que paixões sonhas! O Schüller tem 350 anos e, apesar disso, continua bem casado. Anaïs e Miller já eram horas e continuas só neles desde que nasceste. Miller nem sempre é bom e Anaïs nem sempre superficial. Pelo menos lê a revista que deixei na tua caixa de correio. Vais me ver dizendo que não é tanto o sexo que move as pessoas, mas a procura de serem aprovadas. Manda uma crítica geral que o editor, Gilberto Wallace, anda pedindo. Léo Dexheimer sobressai em nosso contexto, bem mais sutil que a maioria. Conta que gosto do que faz e tenho gravuras suas nas paredes. Bicotes

Outra carta de Paulo Hecker Filho:

P.Alegre, 21 de junho de 2004

Beth,

Recebo tua agitada carta. Não te preocupes com aniversários, sobretudo meu, não dou bola. Nem com saúde, ainda mais minha, que sempre foi bem, e continua, eu não mereço! Mas tudo isso é educação. Na verdade, tua preocupação se escreve com um f e um t. E ela está aí, ao alcance da tua mão e dando sopa em vários canais de tevê, velhinha, velhinha. No vídeo ao menos, foi –se aquele menino irresistível, querendo e conseguindo beijinho. Anoto isso para ver se te acalmo um pouco. Já é preciso alguma decisão para […] f e t, ainda mais que andas em meias chiques, outro departamento. Claro, se ele sorrir, estás perdida, mas pelo menos no canal 2 estava muito despenteado para chegar a sorrir. Não te julgues a injustiçada. Só eu conheço mais três viúvas de Flavinho e, como me dou com pouca gente, devem ser trinta, tens muita gente solidária. E trinta, hem, para um Tavares só, […]  Ao leres esta, ele já deve ter voltado para Búzios, te deixando mais em ti. Nárrame tu life.

Um fragmento de carta de Roberto Acízelo Quelha de Souza:

Rio, 12/07/83

Querida Beth, recebi tua carta de 04/07, tão cheia de carinho, amizade e saudade. Fiquei, porém, sem saber se você teria recebido uma carta que te escrevi em junho, se não me engano em 17/06, dia do aniversário da Fátima, pois você não faz referência a ela. De qualquer modo, estou certo de que você entende por que, já há bons meses, minhas cartas se tornaram breves e pouco frequentes. Por mais que eu queira manter contato regular e estreito com você, como – vá lá a palavra – antigamente, a vida anda uma dureza só, não havendo tempo para tudo o que é verdadeiramente essencial. Nossa vida aqui permanece a mesma: Letícia […]  Eu estou de férias […] Eu Fátima e Letícia pretendemos sair um pouco do Rio […] Finalmente, agora, começo a sentir o desafogo das férias, fui ver para você aqueles casos do MEC e do DETRAN. […] Pelo que vejo no noticiário as chuvas devem continuar até o fim da semana, o que nos inquieta, considerando as cenas que acompanhamos pela TV e as notícias do jornal. […] é o pouco que a gente pode fazer, além da comoção, o sentimento de solidariedade, a tristeza por todo esse sofrimento do nosso pobre povo (no momento, que triste país o nosso, arrasado pela natureza no Sul e no Nordeste, por motivos tão opostos, mas principalmente arrasado por um governo de cínicos, incompetentes e corruptos.) Bem, querida Beth, já escrevi mais do que previa. Deixa eu escrever as procurações, antes que a Leticinha acorde do soninho de depois do almoço, dificultando qualquer iniciativa que não gire em torno dela. Um beijo, cheio de saudades. Beijos nas crianças. Abraço no Jorge. 

Relendo as cartas penso em fazer referência a vida pessoal, alongo a história de cada missiva. Elas já são a narrativa. A do Iberê me leva a Porto Alegre depois do incidente trágico no Rio, e no final, ouso dizer, a não adaptação do meu amigo. Já o poema da Jean Jacques para a França. Para Limoges, para Juliette, minha orientadora do Doutorado. Flávio Tavares conheci na casa de Iberê. Faço ponte entre os dois. Paulo Hecker Filho acompanhou a Beth de Torres de mudanças, de tantos momentos!  E a carta do Roberto desenha a volta para o Rio Grande Sul. Acorda o tempo carioca que foi tão importante! Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018 – Torres

 

 

 

 

 

 

 

relampejar

Prima Norma me contou de ti …, saudade e tudo! beijuca, admiração!

Que incrível! Que perfeito chegar em ti …, saudade daqueles meninos que fomos caminhando sobre sacos, nos galpões, onde foi aquilo? Saudade dos pais que tivemos, e do cheiro de ser criança! Boa sensação, te imaginar percorrendo o Amoras. Como será que tu estás?

Sei lá como estou! Estás bem? (rindo) Emocionado com teu texto …ranjou um fã … deste jeito (rindo)

Com vontade de conversar mais. Não lembro a idade que tínhamos quando nos vimos pela última vez. Boa sensação de reencontro. Coloquei no Amoras uma foto do Érico Veríssimo e da mãe com a Rita. Eram padrinhos. Viste? Estamos bem tu e eu, certamente estamos bem.

Fui ali e vi que faltou um O em como estou! Espia lá http://palavrasavoantes.wordpress.com

 assim começou …

Eu vi. Droga de tempo mágica de tempo! Parece que te vi ontem, e eu te vejo. Estranho! Entrei no palavrasavoantes do mesmo wordpress —, fiquei inquieta te lendo e te pensando, já tinha lembrado do violão …, e a Rita linda! ligados pelo fio da história de nossos pais! Tempo …, e onde moras? Estou mexida pelo encontro.

Magia … Chove muito aqui! Mas me faz bem RELAMPEJAR, …

Se relampejamos acontecemos …, se sentimos, criamos. Se o passado volta volta o mistério, e os tropeços ! O mágico. Surpresas. Éramos nós crianças. Imagem guardada. Bons cheiros destes sentimentos …  Não vejo nem o Alberto, nem a Nelly, nem meu pai ou minha mãe! Apenas nós dois, crianças. Estou rindo. A chuva se mistura com o sol! Elizabeth M.B. Mattos – 2014 Torres

“Não tenha medo da vida”

” Hoje, tantos anos mais tarde, quando me lembro das palavras que me vieram à mente com a ajuda de Deus, ainda sorrio, mas vejo nelas alguma verdade: ‘ Talvez eu esteja com medo da vida, doutor.’ E esta seria minha última visita ao psicanalista, que não pôde fazer mais do que se despedir de mim com as palavras: ‘ Não tenha medo da vida, Kemal Bey“. (p.195) Orphan Pamuk Museu da Inocência

Obsessão amorosa e embate entre tradição e modernidade. Não importa a idade do apaixonar, enamorar porque sempre está impregnada do que há de melhor na vida. Beth Mattos – julho frio e molhado e cinzento de 2018

insuportável

Insuportável  sentimento. Impotência. Escondo a voz na chuva. Busco no vazio outro nada, outra invenção. O desejo sai da vontade e do querer. “O que ontem era insuportável de tanto que doía e queimava hoje não dói mais. Você está sentado num banco e está sereno. Pensa algo como:’Frango recheado’. Ou: ‘Mestres-cantores de Nuremberg’. Ou: ‘Preciso comprar uma lâmpada nova para o abajur.’ E isso tudo é realidade e é igualmente importante. Ontem tudo era improvável, frágil e sem sentido, e a realidade era completamente diversa. Ontem você ainda desejava vingança ou redenção, queria que ele telefonasse ou que precisasse de você […] Sabe, enquanto você sente coisas assim, o outro se alegra à distância. Tem poder sobre você […] Mas chega um dia em que você acorda, esfrega os olhos, boceja, e de repente percebe que não quer mais nada. Não se importa nem de encontrá-lo na rua. Se ele telefonar, você vai atender, como se deve. Se ele quiser vê -la e você precisar encontrá-lo, pois não, que disponha. […] Já pode, porque não dói mais.” (p.127) Sándor Márai  De Verdade

Dentro de mim  não passou,  lateja / grita / volta como se pudesses te materializar. E eu me consumisse no teu beijo.

Envelhecer assusta. Um sinalizador da impotência/ inviabilidade do que antes poderia ser apenas audácia. Racionalizo e constato palavras, apenas um amontoado de palavras. Imaginação. Não posso te esperar em nenhuma rodoviária, nenhum aeroporto, não existem pontos de encontro. Não existe o outro, estou plantada na minha própria imaginação. Elizabeth M.B.Mattos –  Torres, julho de 2018

quadross

pode ser reivindicado

Não sei como me desfazer do desagrado, nem do vazio, nem da sensação de lutar em vão. Lutar contra a sombra que me acompanha zombeteira. Palavras voam fazem rasantes se esparramam no meio da sala. Preciso encontrar o jeito …, a reza, ou o caminho. Insólito sentimento. Elizabeth M.B. Mattos julho de 2018

confiar seus males

O tempo não tinha desbotado minhas lembranças (como eu pedira a Deus), nem curado minhas feridas como dizem que sempre faz. Eu começava cada dia na esperança de estar melhor, com minhas lembranças um pouco menos aguçadas, mas acordava sempre para a mesma dor, como se um lampião negro ardesse o tempo todo dentro de mim, irradiando as trevas. Como eu ansiava por pensar nela só um pouco menos, e acreditar que, com o tempo viria a esquece – la! Mal havia um momento em que eu não pensasse nela; a verdade é que, com poucas exceções, pensava nela o tempo todo.” (p.177) Orhan Pamuk / O Museu da Inocência ...,fico possuída e tomada de raiva porque não consigo apagar uma ideia uma possibilidade um café uma rodoviária, um possível sorriso, ou seja, um nada me assombra. Eu posso sapatear, abrir espaços buracos negros pra jogar todos os escritos e então deixar de me assombrar com o que não acontece. Sigo lendo desanimada e a história do livro Neve me assombra. Terei que caminhar e ir até o mar, mergulhar, pular, ouvir todas as músicas, esquecer, ir ao cinema, magia negra. Então ficará apenas pó. Beth Mattos – fevereiro 2018 A Copa terminou deixando um grande vazio. Amanhã começam os nossos jogos. Será que vou me animar a correr/torcer pelo Internacional? Não sei. E. Menna Barreto Mattos fevereiro 2018 – Torres