meu querido amado:

não se trata de bater na porta, ser convidado para entrar, aceitar uma xícara de chá / quem sabe uma gasosa, ou uma cerveja posto que está tão quente. meu querido, não se trata de falar, nem explicar, nem trazer flores – (embora flores abram mais portas do que as possíveis). não se trata de brincar nem de fazer confissões. estas tu já fizeste encarreiradas lembras? feito terapia recreativa, e como tais encarei, acho que não esqueci, mas não pontuaram… ou pontuaram? eu te fiz herói? mas, cá entre nós, de heróis, estamos fartos não é? acho que carecemos de gente gente, com ossos e corpo, e coração, menos enlouquecidas pelo poder, o abstrato poder e comando / uaiiii! chatice isso de querer / dizer / comunicar / resolver / embaralhar e enfeitar a avenida. uauuuu! estamos precisando de concretitude. enfim: manda flores, vou gostar, no dia seguinte manda flores outra vez e no terceiro dia, manda flores e no quarto dia, manda flores e bombons, e no quinto dia, manda uma carta. adoro cartas… e estaremos unidos para todo o sempre meu querido. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres – ainda estou em Torres, inacreditavelmente pareço cimentada… haja vontade de voar, voarei.

…uma ideia louca

[…] considerando-se o fato friamente, de maneira razoável, não se podia deixar de julgar uma ideia louca, essa de pretender reconhecer no vasto oceano sem fronteiras uma baleia solitária, e admitindo que fosse encontrada, julgar que o seu perseguidor a pudesse identificar com a perspicácia daquele que identificasse nas ruas congestionadas de Constantinopla um mufti de barba branca. Sim, porque a fronte branca de Moby Dick e sua nívea corcova não podiam deixar de ser inconfundíveis. (p.230) Herman Melville MOBY DICK

…e o pensamento voa. a ideia louca surge… a gente tendo assinalado, reconhecido, sabendo quem / e como o mal nos agarra… por cabelos esticados e grisalhos, por encaracoladas ideias possessivas insiste em resolver. não tem solução. as mãos agarradas no erro, acertam afinal… é preciso reconhecer. sem solução, solucionado está. claro! levantar a âncora deve dar um trabalho enorme – mecanizado hoje, mas mesmo assim chegar ou partir é sempre assustador. Elizabeth M. B. Mattos- fevereiro de 2026 – Torres

confissões ilustradas

Principalmente esta: ao me acompanhar depois da aula, ele para perto da porta e diz de repente: Há muitos trechos supreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem a qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer. Ideia curiosa. E é ainda mais curioso que ela me tenha ficado na memória. Talvez tenha me sentido honrado em poder ouvir uma confidência do mestre, um segredo, um truque que só os iniciados tinham o direito de saber. (p.161 Milan Kundera Os testamentos traíDos – ensaios

carta errada

a gente engole / digere, depois sai andando. faz o exercício, a tal musculação e funciona. embaralha tudo, e descarta do jogo, não o coringa, mas a carta errada / a carta ficou fora do baralho? distração completa, não está no jogo…. de repente a gente se dá conta que está jogando sozinho, sabe que não importa? pois é. a surpresa para o que era o bom da rodada tá fora do jogo. simples assim. não era jogo, mas vida. na verdade, o trunfo é interno e nada que seja aparente, nenhum castelo encerra alegria. nem o que a gente chama de realização ou sucesso é possessivo, mas compartilhado. confuso. o nosso time, somos nós e a nossa vontade, ufa! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – TORRRES

presságio

são anúncios ou presságios que dizem respeito a mim e ao mundo simultaneamente: no que concerne a mim, não se trata de acontecimentos exteriores da existência, e sim daquilo que ocorre por dentro, no íntimo, no que concerne ao mundo, não se trata de nenhum fato particular, e sim o modo de ser de tudo. a gente acorda e o tal homem já está fazendo declarações pitorescas, carnavalescas como se vivêssemos mesmo na terra das bananas / sem bananas… e o palhaço se agita importante. mas sem palhaços o circo pede a graça, o jeito… aceitar? sim, parece que precisamos aceitar e pronto…. tá terminando o reinado? se não for ele, vou eu fechar os olhos…Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

ainda espero, quem sabe eu tenha e eu possa querer um companheiro para me dar a mão

do tempo que moramos em Rio Pardo, na fazenda Santa Branca:

acumulávamos beleza, nós dois.

e desenterramos (porque tanto Jorge como eu, éramos de natureza alegre) toda a alegria possível…. acreditávamos em nós dois. teríamos atravessado o mundo e embarcado para a colonizar a lua se fosse vontade de Elon Musk e ele nos designasse passageiros…

Torres nos acolheria sempre que fosse possível enfrentar a estrada e a paz… assim, Jorge e eu, colorimos os dias, e aceitamos a rota: viver

não sou mais aquela moça da foto, ah! cabelos brancos, experiências empilhadas. humor esquisito, sim, no mínimo desorganizado, nada festivo. mas posso contar estórias, escutar as tuas // neste momento de ouvir preciso me concentrar, é verdade: não palpitar ou ‘achar isso ou aquilo’. tenho tendência horrível de não escutar até o fim, interferir e achar azul, rosa, verde ou roxo, e ainda desfolhar a história, sentir os cheiros… adoro banheiras com pétalas de rosa, água morna… sou dispersiva / eu me atravesso nas minhas próprias fantasias e o mundo se descasca como uma romã? ou como um pêssego? sou visual também… desleixo? só aceito o meu. o teu, eu vou pontuando e polindo e atucanando… mereço uma voz a me escutar? (desculpa meu querido) quantas latinhas de coca-cola, abacaxi? gosto. gosto dos cheiros e do vento. vou me aquietar. talvez eu não mereça nenhum beijo furtivo, muito menos um homem jovem como a mulher de Omar Sharif imagina / mas concordo com ela, a juventude tem perfume. e, a gente sempre quer… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

meu querido:

não sei como posso ficar tanto tempo sem notícias tuas! já estava deitada, chamando o sono, mas precisei levantar para te perguntar: como foi / quando foi que te pensar e te querer virou uma necessidade física? responde rápido. preciso organizar minha vida, voltar a fazer exercício, pensar em ter uma peluda preta outra vez, Ônix me faz falta. trocar de casa, ir a Porto Alegre. pensar em te ver / tocar / falar. tens certeza que estás mesmo voltando para casa? sinto tua falta – faltam me teus beijos. não temos tanto tempo assim, ou melhor… tenho medo que não voltes. é isso amor? Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres