despedida

…, estou me despedindo. Devagar: já na página trezentos e cinquenta e seis. Já disse/e te contei desta ansiedade, morosidade, últimas páginas, de um livro que gosto… Atordoamento. Tudo pode esperar: lençóis revirados, caixas empilhadas, louça por lavar, até a fome de arroz e feijão.  Loucura das velhas fotografias encontradas, e nelas o passado. Eu me apaixonei por Günter Grass  As peles da cebola. Quem quer saber dos poemas, do escultor e suas novelas? Amor, guerra e prêmios. Transcrevo. A pensar que quem ama, escreve, recorta, sente, e deseja o desejo, vai gostar da camisa puída, dos móveis usados e de pensar em Hans Christian Andersen. Estou  tomada de sono dentro da poeira. Demolição, raspagens. Frenética busca por um cano rompido entre o banheiro e a cozinha. Prazer alegria expectativa se esconde na água corrente de um chuveiro, na torneira aberta do tanque e na delícia nominada imaginação. Ou ficar quieta e olhar. Ler.

Era uma vez um armário, dentro do qual a recordação estava pendurada em cabides… E ele ainda continua aberto para mim e declama estrofe após estrofe, o que está armazenado embaixo, o que em cima, o que é quase novo, o que já está puído e apenas sussurra consigo mesmo. Nosso armário era estreito e foi negociado com um vendedor de objetos usados, e agora a saia de lã de cabra angorá estava pendurada dentro dele. Aberto, ele contava a história de ‘bolas brancas, que dormem em bolsos’ e sonham com traças, também de sécias e outras flores perigosas por suas cores de fogo’, do ‘ outono que vira vestido…’

E assim se tornou real o conto de fadas acerca do qual não se sabe ao certo quem o escreveu:

Era uma vez um escultor, ao qual de quando em quando e havendo oportunidade ocorriam poemas, entre os quais o poema ‘Armário aberto’. Quando recebeu um prêmio modesto por outro poema, ele logo comprou para sua amada e para si mesmo, uma saia e um sobretudo. E eis que a partir de então ele acreditava ser um poeta. E assim o conto de fadas seguiu adiante: o poeta, que à parte ainda era escultor e modelava galinhas, peixes, bem como outros animais, obedeceu, levando os poemas no bolso […] Os lilases floresciam no jardim semi-selvagem da mansão. Ao anoitecer, o vento soprava mosquitos do lago próximo para a frente da janela aberta.”  (p.356) Günter Grass  Nas peles da cebola

 

Era uma vez Elizabeth menina que se esquiva e se esconde na memória de um menino que sem ousar dizer sem tocar. Marcou meu corpo, definiu minha voz, majestade. Emprestou coragem e resiliência. Recordação/lembrança  pendurada em cabide, se esconde e ferve borbulhas. Sigo sem rumo, a ler devagar, voltar, ficar e apaixonada… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

mala e papéis e recortes

linearidade desastrosa

Na minha apressada, e diria até desastrosa, ida a Porto Alegre, acabei na Livraria Saraiva procurando lápis, caderno e, claro, livros, lançamentos. Ansiedade ou importância, vou ao cinema, e surpresa boa, A esposa com Glenn Close. Concorre, melhor atriz, ao Oscar de 2019, e me surpreendo. Quantas e tantas vezes alguém guarda a história / a carta / a voz de outro alguém para redefinir a sua. Não importa apenas ser, mas fazer, a voracidade da escrita, a compulsão, senão temos história nos apropriamos de quem as tem. Desde cedo persigo narrativas. Hoje menciono Iberê Camargo, Paulo Hecker Filho, Antônio Carlos Resende. Desenrolo minha trôpega vida acadêmica. Tantas muitas inacreditáveis cartas escritas cheias de erros e desmantelados equívocos, sonhos, eu te explico. Missivas compulsivas, insistentes, confessionais. Sinto o cuidado dos amigos. Já doente Iberê entrega um maço de cartas ao seu estagiário Eduardo H. para que me fossem, estas, devolvidas. Foram pinçadas, escondidas, censuradas pelo artista para preservar bravatas gaúchas e exposição. Talvez Eduardo se sirva delas para remendos. Quem vai saber? Ao longo de quarenta anos a correspondência robusteceu. Foram arquivadas pela Maria C. Camargo, mulher e guardiã da obra. O estranho foi a negociação proposta. O rapaz me entregava o que seriam as tais cartas proibidas, e queria/pedia as de Iberê. O que teria eu escrito que exigia censura? Ou o que tem as dele que seriam surrupiadas? Subjetivo. Uma teia?  Eram manuscritas garruchadas escritas sempre, às pressas, as minhas. As do artista, detalhadas, líricas, urgentes, desenhadas, algumas apaixonadas. Guardei. Os catálogos, e os livros e variado material que pode ser livro. Recortes fotografados, sublinhados, defesa do caso do tiro, que resultou na morte de um homem: uma caixa e duas pastas. Objeto de estudo para o Doutorado em Limoges de Literaturas Comparadas. O livro biográfico soprado por ele, nunca escrevi. E algumas de suas cartas foram extraviadas, abertas, antes de me serem entregues. Também era / teria sido objeto de estudo Ernesto Sábato que se arvorou pintor. Marguerite Duras tão plástica! Artistas geniais e lúcidos, literários plásticos. Nada concluído. Vida acadêmica truncada. E das cartas proibidas? Não me foram devolvidas. Não sei o fim. O proibido? A  imaginação? A dele? O beijo roubado? A minha? O que devo eu ter escrito a pensar/imaginar se não fôssemos amigos/confidentes, mas amantes. Blindados os dois. Não fomos amantes. O zelo de Iberê Camargo, preservar sua amiga/mulher e companheira Maria. Fidelidade obsessiva. Malfadado beijo roubado na escada do pequeno prédio da Viúva Lacerda no Rio de Janeiro, idas ao ateliê da Rua das Palmeiras, amizade de Iberê e Maria com os Vianna Moog. Apressadas visitas ao casal, amigos comuns, nenhuma carta macularia o sagrado. Escrevo histórias picotadas coloridas fatiadas fantasiadas. E missivas como pontes coloridas fatiadas e fantasiadas. Como Iberê foi fiel a sua Maria, e ao seu trabalho (preservou, acervo que pode ser apreciado/visitado e revisado na Fundação Iberê Camargo), eu sou fiel a minhas pequenas ambições, e apaixonada por pão e manteiga, cartas secretas. Como escreve C.S. Lewis: ”É preciso muita perseverança para forçar a si mesmo, em sua própria crítica, a prestar atenção sempre ao produto diante de si em vez de escrever ficção sobre o estado de espírito ou sobre os métodos de trabalho do autor, aos quais, obviamente, não há acesso direto. ’ Sincero’, por exemplo, é uma palavra que devemos evitar. A verdadeira questão é o que faz uma coisa soar sincera ou não. Qualquer um que tenha censurado cartas no exército deve saber que pessoas semiletradas, embora não sejam na realidade menos sinceras do que outras, raramente soam sinceras quando usam a palavra escrita. Na verdade, todos sabemos, por experiência própria, ao escrever cartas de condolências, que as ocasiões em que sentimos mais pesar não são necessariamente aquelas em que nossas cartas sugiram isso.  […]  Eu ficaria feliz em ser mais austero do que o necessário. Devo admitir que palavras que parecem, em sentido literal, implicar uma história da composição podem, às vezes, ser usadas como meros   elípticos para o caráter do trabalho realizado. ” (p.229-230) Clive Staples Lewis Sobre histórias – Tradução de  Francisco Nunes.

História pessoal, tens razão, nunca sou linear ao mencionar minha vida. Não sei dizer o porquê. Uma fuga. Não aceitação. O medo. Insegurança. Reserva, timidez.  Pânico real ou respingos, mais muito do indefinido M E D O. Tudo pesa ou não é. Seria mesmo importante? Amor transbordante. Apaixonada, dispersiva. Encabulada. Não sei. Eu me perco em detalhes, e não vajo o todo. Sei lá! Pensei que tinhas caminhado pelo  Amoras Azuis e já sabias tudo. Pretensão!  Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 201

espiando euIberê e Pedro FOTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSem Título-470 anos bethquadro geraldo pintado pelo pedrosem os cães uma cabeça virada

 

 

pontilhado chave vírgula

Tenho um fazer organizado. Costurei  investidas lembranças no espaço limpo, polido, estupidamente e escrupulosamente branco/ sem poeira, e o volume da minha saia era/ficou estupendo! Ali eu vou me deixar ficar: pernas esticadas, olhar no entardecer e o dia apontando. Vou para o hotel hoje. Serão minhas férias de rainha. Existem aqueles que fazem do fumar, uma arte, e gostam de livros que dizem o que já sabem. Eu já sei que ser rainha é bom. Limpeza é minha evidente soberana. Vou a guerra. Farei pequena mala, bens preciosos. Dormirei duas noites no hotel. Escreverei olhando para o mar, ou dormirei escutando o mar. Serão minhas boas e merecidas férias da poeira, dos azulejos caindo, das marteladas. Dois livros para serem terminados e louvados. Oxalá permitam que a ÔNIX me acompanhe. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

disquei o número

Repetidas vezes disco o número decorado, mas, logo após o primeiro chamado, volto a colocar o fone no gancho. Uma vez alguém atendeu. Assim, cheia de medo, cultivo meu amor em estado bruto. Deveria me bastar tua hesitação. Por que recuaste? Vaidade inconsequente, teimosia minha. Às vezes eu volto…, gosto de te pensar/imaginar/sentir. Tu me devolveste, na sedução, a melhor alegria. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro- Torres

Sabine: Temos que fazer alguma coisa. Não posso ficar parado vendo a porta que existe entre nós se fechar. Dê u sinal. Precisamos encontrar uma forma de nos encontrar ou estaremos para sempre perdidos um para o outro. […]” Griffin

cronologia

Seguras minha mão. Passo apertado, não correndo, atravessamos corredores e corredores… Procuramos o talvez possível do futuro. Em seguida, voltamos a revirar nas gavetas de nossos anos precoces… Do corredor, da areia, do mar… O que houve antes disso? O que houve depois? E tu olhas nos meus olhos. Vejo nos teus saudade curiosa. Quando se trata de tempo, eu tenho de admitir que muita coisa, que começou ou terminou pontualmente, só tocou minha campainha bem mais tarde, e não foi no Morro da Viúva, mas na rua Marquês de Pinedo, Laranjeiras, perto do Palácio da Guanabara. E já não lembras. Quanto mais velha fico, tanto mais frágil se torna para mim a muleta chamada cronologia. Tenho certeza que eu te vi, com amigos, rindo. A lua e o entardecer enlouquecem a memória. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

o bebê

Atravesso a sesta sem praia depois do rosto iluminado da filha, a voz da irmã. Olhos fechados me levarão ao sono pesado sem sono! Calçada iluminada. Lua reflete na lagoa. Temperatura cálida. Ansiedade do sono incerto. Abandono em luz própria, sou feliz, apenas alegria boba!  Beth Mattos – amanhã segue o quebra-quebra, novos livros. O bebê do terceiro andar resmunga. Gosto de crianças para abraço e aconchego. Beth Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

irritante

Tomada, desgovernada, inoperante, irritante. A ser descartada esta mulher poluída, não me importo. Ônix reage ao calor, ordens incoerentes, horários invertidos. Desordem, refeições irregulares. Como pode ser a vida assim  invertida? Esse enlameado criativo, não de Brumadinho, invade concentração, organização, implementação e manutenção. Não consigo pensar. Pertubação.  Excesso de trabalho. Excesso de lazer, fadiga ou medo. Preciso ficar imóvel.

Sonho ficar com as pernas balançando no ar. Segurar um bebê no colo. Sentar-se num círculo de árvores. Secar o cabelo ao sol. Assistir ao nascer do dia. Tocar piano. Orar. Escrever escrever escrever escrever.Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019 Torres