estabilidade do amor

Fiquei a pensar no sentido: existe esta questão interna do amor próprio, existe desdobramento no amor, existe simultaneidade também. Paixão e outros sentimentos. A estabilidade mencionada se mistura com cultura, religião, e tantas outras questões, … todas embutidas no amor. E afinal, o que, exatamente, define o sentimento, esta palavra que se desgasta no imaginário das pessoas? Não é filosofia, não é razão …, de repente, penso: a cada um o jeito, a qualidade. O amor ele mesmo se define íntimo, pessoal. Como pode  o amor  ser igual  por cada filho, por exemplo? Estarão na mesma esfera? O que significa, exatamente, esta divisão e este poder …  E o homem amado? Este outro que se atravessa no universo do amor e que se divide como pai, amante, irmão, amigo … Estou a pensar. Elizabeth M.B.Mattos – dezembro 2017  – Torres

O amor tem algo de – defeituoso, eu não diria defeituoso, pois o defeito está em nós mesmos: mas existe algo que não compreendemos na natureza do amor. […]  O amor possui uma estabilidade terrível, e cada um de nós tem direito a um certo quinhão de amor, uma certa ração. Ele é capaz de se manifestar em uma infinidade de formas, e de associar-se a uma infinidade de pessoas. Sua quantidade, porém, é limitada, pode esgotar – se, ser arruinada e desaparecer antes que atinja seu objeto genuíno. Pois  seu destino encontra-se em algum ponto das regiões mais profundas da psique, onde reconhecerá a si mesmo como o amor-próprio, o solo em que erigimos a psique saudável.” (p. 124)

Lawrence Durrell – Justine – O quarteto de Alexandria

 

Em nossa amizade, éramos capazes de compartilhar pensamentos e ideias íntimas, compará – los  de uma forma que seria impossível se estivéssemos ligados por laços mais estreitos que, por mais que soe paradoxal, engendram separações mais profundas que qualquer união, embora a ilusão humana impeça – nos de acreditar nisso.” (p.125)   Laurence Durrel in Justine

se você não sonha

“Nunca vou esquecer aquele olhar, tão breve, que ele pousou então em mim, mergulhando em meus olhos antes de sair novamente voando pela janela, como eu próprio, depois, pousei o meu em tantos outros. Aquele olhar doloroso queria dizer uma só coisa, que todos os aprendizes sabem: o tempo não passa se você não sonha.” (p.497) Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho,  Companhia das Letras – 2004, São Paulo

Começo a compreender o porquê de estarmos, tu e eu, a reservar tanto dizer de amor. Estamos, tu e eu, a sonhar a permanência. Enquanto sonhamos um dia entra no outro, e o ano se apressa a passar. Somos amanhecer (qualquer manhã). Apressamos o tempo, e arrastamos a noite.

Adormeço depressa, sonho sonhos: nossos ou trovoadas, sinos natalinos, porque já é dezembro. Ao acordar, imediatamente, estou a te pensar. Rotina do pincel da tinta da letra, dobra de estranheza. Estamos na rede de estar vivo. Conto o dia, contas tu a noite insone, ou o resmungo do gato. E toco teu corpo pelo fio do telefone. Como escreve Pamuk o tempo não passa se você não sonha. Então, tu e eu sonhamos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

contraditório

“Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamento contraditório sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.” (p. 29)  

“[…] cada frase de um bom romance suscita em nós um senso do conhecimento profundo e essencial do que significa existir neste mundo. Também aprendi que nossa trajetória por este mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.” (p.28)

ORHAN PAMUK O romancista ingênuo e o sentimental – Companhia das Letras – São Paulo 2011

envelhecemos

Esforço enorme! … o sentimento em ordem certa sacode. Velhos choram… Queria ser para sempre. É fato. Estranhamento. Preciso respirar.  Na tenda de oxigênio percebo a finitude. Inexplicável conversa com o desconhecido-próximo. Penosa oscilante impossível. Nego a vida mais do que aceito. Tropeço, bebo além da conta, … transbordo. Ter ido ver/estar perto do m a r, e não a m a r, nem molhar os pés! Insegurança. Num repente venderia a alma para ser jovem bela e atraente outra vez. Envelhecer é amargo. Certeza de não ser mais. Inteligência versus maturidade resolveria. Perfeito estar na luta. Retaguarda. Arrepia limite / define, pontua. Queria poder seguir desejando … se te pergunto o porquê de sermos dois … envelhecemos. E ainda não dançamos, tu e eu. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

 

Camile Claudel  no movimento da dança.

 

 

migalhas

Percebi então a verdade sobre todo o amor: é um absoluto, que tudo toma ou tudo perde. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura e assim por diante, existem apenas de forma periférica e pertencem às construções da sociedade e do hábito. Ela, porém – a austera Afrodite -, é pagã. Não toma para si nosso cérebro ou nossos instintos  –  mas nossos ossos.“(p.101)  Quarteto de Alexandria Justine – Lawrence Durrell

Em se tratando do intenso, … as relações se tornam frágeis como …, como o fogo de um palito de fósforo?, … não sei explicar, apenas frágeis, inconsistentes. O grande sentimento  não consegue esticar outros possíveis existentes sentimentos. Ou é isso, ou é aquilo. Se raiva ódio culpa existem, todos os outros sentidos desaparecem.  A traição  ou o desprezo engole o sorriso, o perdão, a benevolência. O que importa/ ou o que chegou primeiro/, o genuíno permanece saltando … Esta caça ao amor é um movimento perdido … temos que reconhecer  a austera Afrodite entre tantas tentativas/ buscas frustrantes, … e cada rosto cada história tem um jogo particular, trágico, violento, belo. Qual importa?

…, tenho a sensação que não existe cura para a vida porque não se esconde/apaga a memória, nem a esquecida … dor é chaga permanente. A boneca que não chegou no abraço, o beijo apressado, o boa noite escuro, a morte da mãe do Bambi na fogueira, o beliscão por baixo da mesa. Não esquecemos o tal esquecimento …, se houve abandono, nunca mais …  não somos o que pensamos ser, infelizmente. Interpreto o possível,  … mas guardo enterro com raízes a dor, e ela volta/ nasce/ se faz mato outra vez. Pensar a vida seria atravessar/ desbravar uma floresta e este misterioso quintal pantanoso. Não há esconderijo possível. Um livro de memórias nunca será ele mesmo a verdade …, mas arremedo, tentativa tendenciosa.  …, impressionismo,  apenas palavras.

Elizabeth M.B. Mattos – 9 de dezembro  de 2017 – Torres

caes caes caes

Foto de Luiza M. Domingues – Alagoas – 2017

 

 

 

 

blindada

Pouco do nada é não ter. Nem estar entre balões.  Pouco do nada é querer fazer sem fazer. Esperar por milagre. Milagre não existe, ou é ou não é …, ilusão ou miragem?  Fica a vida por conta desta fantasia. Desvio, ou é um beco. Estacionei. Espero na nuvem. Guardada, blindada. Palavra com sentido invertido. …, abraçar e beliscar, … imagino, e tu me vês. Não sou eu, não és tu. Invento. Sonho no meu sonho. Escondida. Onde estás? Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

balão amarelobalões

balão amarelo

sussurando

“Despertei Justine de seu sono inquieto e explorei sua boca, seus olhos e seu cabelo delicado com uma curiosidade ansiosa, que para mim sempre foi o principal da sensualidade.”(p.84)

…., sensualidade presa no detalhe do desejo: prazer súbito do azul, da magreza.  Sensual, a boca … Devoro a voz que se modula com consciência. O ritmo da fala escorrega, escapa, há mesmo que ter consciência! A leitura completa gozo e prazer. A descoberta das manhãs afundam na expectativa das tardes; a noite estremeço, e durmo, mas logo na madrugada o livro me agarra.

…, pois é assim a leitura, cotejante, arrebatadora. Segue o veio apaixonado da mão que procura. (…,  nunca deixamos de farejar, saltar a rotina , … sorrindo).

Há o luto a trovejar no tempo de resguardo escondido/guardado. Há também esquecimento e lamento. O caminho proibido, a esquina ruidosa. Cheiro de sal, ou de sol, …  E desperto o melhor que paradoxalmente teimo em esconder: o desejo. Desejo do sussurro, arrepio. Vontade tenho de ser apenas mulher. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

“Recordo o langor furtivo com que nos vestimos e, silenciosos como cúmplices, descemos pela escadaria sombria até chegarmos a rua. Não ousamos dar-nos os braços, mas nossas mãos insistiam em encontrar – se poe acidente enquanto caminhávamos, como se ainda não tivessem rompido o encanto da tarde e não suportassem a ideia da separação. Foi também em silêncio que nos despedimos, em meio às árvores moribundas da pracinha, torradas pelo sol até assumirem a cor do café; despedimo-nos com um único olhar – como se desejássemos assumir um lugar eterno na mente do outro.”(p.85)

” [ …] ‘Você parece distraído. O que houve?’, senti vontade de responder com as palavras de Amr moribundo:’é como se os céus estivessem mais próximos da Terra e eu estivesse preso entre ambos, respirando pelo buraco da agulha'” (p.85) O Quarteto de Alexandria Justine – Lawrence Durrell

sofá ótima