ardente

Vincent Van Gogh para seu irmão Théo: A partir do momento em que nos reforcemos em viver sinceramente, tudo irá bem, mesmo que tenhamos inevitavelmente que passar por aflições sinceras e verdadeiras desilusões; cometemos provavelmente também pesados erros e cumpriremos más ações, mas é verdade que é preferível ter o espírito ardente, por mais que tenhamos que cometer erros, do que ser mesquinho e demasiado prudente. É bom amar tanto quanto possamos, pois nisso consiste a verdadeira força, e aquele que ama muito realiza grandes coisas e é capaz, e o que se faz por amor está bem feito. […] Se continuarmos a amar sinceramente o que na verdade é digno de amor, e não desperdiçarmos nosso amor em coisas insignificantes, nulas e insípidas, obteremos pouco a pouco mais luz e nos tornaremos mais fortes. Quanto antes procuramos nos qualificar num certo ramo de atividade e numa certa profissão, e adotamos uma maneira de pensar e de agir relativamente independente, e quanto mais nos ativermos a regras fixas, mais firme se tornará o caráter, sem que para isto tenhamos de nos tornar limitados. E é sensato fazer estas coisas, porque a vida é curta e o tempo passa depressa; se nos aperfeiçoarmos numa única coisa e a compreendemos bem, alcançamos além disso a compreensão e o conhecimento de muitas outras coisas. Às vezes é bom ir ao fundo e frequentar os homens, e as vezes somos obrigados e chamados a isto, mas aquele que prefere permanecer só e tranquilo em sua obra, e não quer ter mais que uns poucos amigos, é quem circula com maior segurança entre os homens e no mundo. É preciso não se fiar jamais no fato de viver sem dificuldades ou sem preocupações ou obstáculos de qualquer natureza, mas não se deve procurar ter uma vida muito fácil. E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter de Robison Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultiva-la. (p.8-9) Amsterdam, 3 de abril de 1878

toda a coragem, os estudos, a força, a fé, ele derramou no desenho, usou com seus pincéis / foi pouco acreditado / adoeceu e a loucura do desespero / morreu jovem… nunca, nem um minuto parou de trabalhar / importante saber e conhecer bem o nosso quintal, nossa horta, nossa pequena vida para pintar/escrever/fazer música / fazer acontecer o que temos de grande e belo dentro de nós / e derramar o amor… / meu querido amado, queria poder olhar nos teus olhos… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

subjetivo

tempo / lugar / palavras… eu existo? em qual olhar? volto aos velhos / questionamentos / os mesmos… fico pra trás, tu desistes… eu aceito / neste curto, subjetivo tempo. poucos anos. o que vivemos, tu e eu, foi apenas o esforço / derrubamos barreiras? derrubaste? não sei, ousamos… obstáculos diferentes / e. não mudamos nada: estás aí, eu estou aqui. tu na tua vida, eu na minha / importa se eu digo? um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

sim é tudo verdade / e tu sabes

POLÍTICA E POLITICALHA

(1918)

A política afina o espírito humano, educa os povos no conhecimento de si mesmos, desenvolve nos indivíduos a atividade., a coragem, a nobreza, a previsão, a energia, cria, apura, eleva o merecimento. Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, a que entre nós se deu alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda todo o desprezo do objeto significado. Não a dúvida que rima bem com criadagem e parolagem, afilhadagem, e ladroagem. Mas não tem o mesmo vigor de expressão que os seus consoantes. Quem lhes dará com o batismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo pejorativo queima como um ferete e desperta ao ouvido uma consonância elucidativa.

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente. A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de o explorar a benefícios a interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou um conjunto de funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada. RUY BARBOSA in coletânea literária – 1868 – 1922 (organizada e anotada por Baptista Pereira – 1928)

pensando atrasada

meu querido, uma ventania cinzenta chegou / a pensar que ontem ainda era verão… só uma ventania? deve ser, apenas isso… acontece tanta coisa ao mesmo tempo! ela carregou / levou meu tempo de te pensar pra um vazio esquisito /

de repente, saltei do sono / da sesta / escutei as trovoadas… urgente te dizer que / se não te penso forte, lembra, não te esquece, tu me levas no teu bolso, estou contigo escondida, cochilando… acordei muito cedo hoje, e, valente, fiz uma meia lagoa num passo bom, apenas eu na rua… não posso deixar de fazer as coisas por aqui… as de fora, as de dentro… vira logo caos completo. tenho que ser muitas BETH, algumas Elizabeth mas não completo o roteiro todo: começo e não termino, escrevo e não concluo, penso e durmo ao mesmo tempo. AH! já estou no Rio de Janeiro outra vez. vou segurar o vento! mas te digo que as panquecas ficaram boas… a salada perfeita. e o sono me agarrou agora, assim, no meio da tarde. mas sigo igual te amando nesta ventania, na atrapalhação, entre um parágrafo e o silencio. te cuida, te cuida muito. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres / e a chuva desceu forte… te cuida?

balas e pedaços de pedras

Há neste estrambótico e complicado negócio, que é a vida, certos períodos estranhos em o homem considera o universo inteiro como uma simples e enorme farsa, ainda que mal vislumbre em que pode consistir a brincadeira e tenha bastante confiança de que esta (a farsa) se realiza à sua custa. Entretanto, nada o desalenta e nada parece valer a pena enquanto está lutando. Engole todos os acontecimentos, ideias, credos e opiniões e todas as coisas, visíveis ou invisíveis, por mais encaroçadas que sejam; como um avestruz de poderosa digestão engole balas e pedaços de pedras. E quanto as pequenas dificuldades, preocupações, perspectivas de desastres imediatos, perigos, grandes e pequenos, tudo isso, e até a própria morte, aparecem apenas como dissimuladas, benévolas e graciosas palmadinhas nas costas, dada pelo velho e misterioso trocista. Essa espécie de humor estranho e rebelde se apodera do homem apenas em momentos de extrema angústia e surge no meio da própria ansiedade; de modo que, o que até então parecia da maior importância torna-se uma alternativa a mais da enorme farsa. Nada como os perigos da caça de baleias para criar essa espécie de filosofia caprichosa e temerária […] p. 256 Herman Melville MOBY DICK

literatura universal, o que a gente ainda chama de clássico. Moby Dick foi suporte de filmes / literatura infantil, por quê? porque a verdade e a vida não tem nacionalidade nem idade / importa tudo, sempre: todos os sentimentos / fico a me perguntar o que e como fazemos hoje… atravessamos guerras, fotos e fotos de beldades, notícias e notícias políticas desfocadas, atrapalhadas. excesso de calor que trará excesso de frio, e, conversas de nada sobre o nada // já vencemos na/com música, até na pintura, a pescar literatura / poetamos com política e posições, cinema meio empacado no mesmo do mesmo (ou não sei nada?!) temos Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas (texto e filme), temos HISTÓRIA para contar… a do Brasil, pouco divulgada / tão setorizada! português é língua preciosa / rica / difícil e o brasileiro esta fala aonde está? pois é, ainda temos um pedaço da Amazônia e falastrões, aos montes. não sei se estou mesmo a pensar… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres num dia de calor calor calor e parado, sem se mexer… eu agitada, por dentro.

despedaçado amor

nostalgia aguda. amor despedaço que tenho por mim mesma. eu me esforço, alimento o querer, decidir, voluntariar. projeto no outro um sentimento esfarrapado, o meu. meus cães / minhas saudades, amores submissos / entregues. passarinhos tão alegres / laboriosos e fiéis, livres, ah saudade da Dark, Ônix, Coca, do Chima, Mia a gata amarela, ou a gata preta sem nome selvagem, tão minha também! aonde as batalhas? perdidas guerras, todas. eles / amaram, aceitaram, e, se submetem… e nós? e eu? o que eu faço? choro pelos cantos. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

muito muito quente por aqui… muito quente o sentimento, o dia, a saudade: escondidas vozes… amar tem este gosto despedaçado, esfarrapado do impossível no possível.

O SONHO é mais FORTE do que a experiência

Aquilo que é puramente fictício para o conhecimento objetivo permanece portanto profundamente real e ativo e, relação aos devaneios inconscientes. O sonho é mais forte do que a experiência.

(p.43) Gaston Bachelard A psicanálise do fogo (coleção Omega -1972

Manuel Bandeira com as evidências do corpo in Arte de Amar e Bachelard a nos fazer pensar o sonho. Querido, querido // estou nos teus braços, a te pensar… No devaneio do amor nunca deixaste de estar comigo, nunca, estou contigo. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação,

Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo estender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(p.351) Manuel Banderia – POESIAS