sem sentir

Sem sentir escrever se esvazia. Não adiante insistir. Escrever precisa alma e porquê. Escrever precisa dizer. Impulso. Garra, incerteza… Dança. O livro feito, a história contada, o enredo perfeito. Oco. A beleza intrínseca murcha. Dor escabelada. Sentimento a gemer…, agarro as palavras, desenho o/este tempo de sofrer a te consolar. Há de passar. O grito se perde. Rua vazia, mundo vazio: a morte carrega todos. Sentimento devastado…e loucura. Há que chorar, chorar, chorar. Lavar a calçada, a praça, o tempo, com lágrimas, com lágrimas lavar alma. Cuidado…esfrega o rosto, deixa correr o tempo. Não vai embora a dor, mas ela se esconde no possível do meu/do teu corpo. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

irmã não pode morrer

Ando muda. Muda. Triste. Minha irmã morreu, parada cardíaca. Estava bem. Foi um choque. Irmã não pode morrer, Beth (diz/escreve minha amiga). Leva tua metade. Tua mamadeira. Tuas cirandas. Tuas brigas. Tuas bonecas. Tua primeira bicicleta. Teu equilíbrio no muro. Teu brinquedo de casinha. Teus brinquedos. Tuas invejas, teus namoros, teus primeiros cabelos pubianos, teus medos, teus sonhos, teu ódio por ela, teu amor amor por ela. Faz um mês. Chorei alto como criança! Não deixei ninguém falar comigo. Não quis que me dissessem ‘meus sentimentos’ (que sentimentos????????) fiquei três dias sem falar. Nem filhos quis ver nem falar. Estou assim ainda. Vai passar. Todos morremos. Mas irmã não pode morrer. […] Claro que estou louca para falar sem parar. Sem vírgulas, sem respirar.” Luiza Silla

E eu só poderia abraçar. Abraçar abraçar e entrar no teu silêncio. Tens razão, irmã não pode morrer. Elizabeth M.B. Mattos – novembro 2020 – Torres

Foto: Marina Assis Brasil Pfeifer

poder do inacabado…

Tempo…, e poder. Aconteceu tudo/tanto, mas não conosco. Escrava rainha. Livre submissa. Amante/amiga, sem me tocares, meu amado. Sabias de mim. Do meu eu. Permitias meus voos e desvios e desmandos. O que aconteceu? Não sei. Homem fiel em todas as tuas infidelidades. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

Artista menciona/discursa/agarra o inexplicável sem aprisionar. Agarra/ persegue. Viagem que não termina / não terminou…, não se repete / e continua. De repente eu sinto diferente… Bom reencontro. Obrigada. Obrigada. Furiosa tantas vezes! Amarga desiludida: agora agradecida.

No passado, Honda gostava de falar sobre os dias que vivera com Kiyoaki. Mas à medida que o homem envelhece, a lembrança da sua juventude começa a agir como uma verdadeira imunização contra futuras experiências. e estava agora com trinta e oito anos – uma idade em que a pessoa se sente estranhamente despreparada para dizer que já viveu, mas reluta em reconhecer a morte da juventude. Uma idade em que o sabor das experiências se torna um pouquinho amargo, e dia a dia se sente menos prazer nas coisas novas: uma idade em que o encanto de cada diversão logo se desvanece. Porém sua devoção ao trabalho o protegia das emoções. Honda se apaixonara por sua vocação, estranhamente abstrata.” (p.10) Yukio Mishima Cavalo SelvagemMar da fertilidade (tetralogia) – vol. 2

Esquisito voltar a te encontrar: atração. Frio vazio neste verão de novembro após temporal, chuva e vento batendo forte nas janelas: já me visitavas, e eu não compreendi.

“Quero acariciar o tempo”, Teresa

“O Tempo que me interessa é apenas o Tempo que eu fiz parar e do qual minha mente cuida com toda a atenção.“(p.402)

Fico a me deter no amanhecer cinzento, pós chuva e frescor / cor/ ardor/ dor, (estou presa nesta rima Nabokoviana, como se fosse pedaço meu. Efeito da bebedeira borbulhante desta leitura. Não. Não aconselho. Transito/vou/caminho por cavernas estranhas e peculiares ao descontrole de amar. Estou intensa, esfuziante o que responde ao comentário ardente / ardoroso/ amoroso do Fernando.

[…] “Presente é a extensão de tempo da qual temos uma consciência direta e efetiva, com resquícios de Passado recente percebido ainda como parte do momento imediato. No tocante à vida cotidiana e as confortos habituais do corpo(saúde razoável, músculos relativamente fortes, a possibilidade de respirar a brisa verde e de sentir ainda na boca o gosto mais deliciosa do mundo – um ovo cozido), pouco importa que não possamos jamais gozar o verdadeiro Presente, que é um instante de duração zero, representado por uma bela mancha, assim como o ponto geométrico não-dimensional é representado por um sinal bem visível em tinta impressa num papel palpável.”(p.410) Vladimir Nabokov – Ada ou ardor

Teresa, minha amiga, como agradecer a indicação desta leitura plural, intensa! Sigo presa ao livro (todas as despedidas de amores ardorosos demoram a sair do corpo, apontam/despontam numa coceira irritante, prazerosa). Palavra, expressão, ou afirmação me faz ou me leva a refletir. Vocabulário. Filosofia, botânica, ou viajar pela Suíça a brincar com sabores e perplexidade. A vida proibida do amor, e as implicações diabólicas. Este é Nabokov.

Quando eu era menino, disse Van, e visitei a Suíça pela primeira vez – não, pela segunda -, pensei que ‘Verglas‘ (gelo derrapante) nos sinais da estrada era o nome de alguma cidade mágica, sempre além da próxima curva, no fundo de cada descida cheia de neve, nunca vista, mas esperando para aparecer na hora certa.”(p.415)

Não posso dizer nada que não seja sorrir… Acompanho a viagem /o prazer / a surpresa de quem conhece a Suíça de anos e anos.

Através do livro Lolita conheci os Estados Unidos, longa viagem de carro. Agora estou noutro lugar, noutra temperatura… Amo viajar.

Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

amor escancarado

Quando o amor é escancarado não preciso dizer nem fazer nada. Exibido ele se mostra mesmo quando não está presente…longe se derrama, tudo explode! Não se contem, nem se segura… Amar tem uma linha estranha de permanência, do sempre. Muito cedo amei Clarice Lispector, então, nenhum tributo, nenhuma palavra a ser dita. Durante a minha vida eu me deliciei com cada palavra, contra todos e contra tudo entrei no mar… E mergulhei sem medo das ondas. “Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta.” Coisas de Lispector.

Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de um vida larga e nós a tememos. […] Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo nossa morte para tornar nossa vida possível. […] Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos do que realmente importa. Falar do que realmente importa é considerado uma gafe.“(p.47-48) Clarice Lispector Uma aprendizagem ou Livro dos Prazeres – Editora Sabiá – Segunda Edição

ditos/ ou observações

A vida é muito importante para ser levada a sério.

Se soubéssemos…

Mulheres tem passado, homens futuro.

Se soubéssemos como nossas palavras são mal interpretadas ficaríamos mais tempo em silêncio.

Para ser popular é indispensável ser medíocre.

Pouca sinceridade é perigoso, muita, fatal.

A coerência é a virtude dos imbecis.

Não deixe de perdoar seus inimigos, nada os aborrece mais.

Ninguém é suficientemente rico para comprar seu passado.

Amanhã é sempre melhor do que hoje.

caderno azul

Nunca tive aventuras. Aconteceram – me histórias, fatos, incidentes, tudo o que quiser. Mas não aventuras. Não é uma questão de palavras; começo a entender […]. As aventuras estão nos livros […]. Eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, basta que nos ponhamos a narrá – lo. E é isso o que ilude as pessoas. Um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias de outrem, vê tudo o que lhes acontece através delas, e procura viver sua vida como se a narrasse. Mas é preciso escolher: viver ou narrar […] Como se pudesse haver histórias verdadeiras; os acontecimentos o correm num sentido e nós os narramos em sentido inverso“. (p.64-65-66) Sartre A Náusea

“irreversibilidade do tempo”

Se eu me esconder num lugar pequeno, mas meu, posso dar certo… Não existe nem como nem o porquê de escolher uma cidade grande, ou poderosa, ou… Tenho que pensar nisso com serenidade. Então, depois que a pandemia se acalmar, posso pegar um avião e ir / voltar/ tornar a ir como se todos os momentos se aperfeiçoassem eternos. Irei te ver. Posso voar. Como correste ao encontro dela noutra cidade, irei te procurar, e te farei compreender o ANTES, o nosso. Assim como ficaste uma noite a esperar em frente a casa dela, como se o tempo fosse apenas amar, assim eu te reencontrarei meio ao encontro de outro tempo, o nosso. Gosto de reviver tuas histórias e amarrar tua vida na minha vida. Sem viver vivemos… Como Sartre escreve, ao contar da carne de panela que fazias, do teu tempo, entraste no meu. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020. Assim, leio teus livros e como teu pão, beijo teu beijo. E te amo.

nada especial

Não parecia haver nada de extraordinário no que ela dissera, mas, para Liévin, que significado intraduzível em palavras se abrigava em cada som, em cada movimento dos lábios, dos olhos, e das mãos de Kitty, quando falou aquilo!

Justo esta droga de sentimento louco/fora do lugar e único identifica o estado de amor. Palavras sonoras, e os olhos respondem, voam. Tenho saudade desta voz. Deste tempo de te amar. Loucura de certeza ciumenta, fora do lugar. Loucura, e por isso, derramo as queixas incertas. Sublinho, repasso tuas palavras, e nelas teu rosto… Saudade dolorida, boa. Volto ao texto de Liev Tolstói em Anna Kariênina :

Havia ali um pedido de perdão, confiança nele, carinho, um carinho meigo, tímido, e uma promessa, uma esperança, e amor por ele, um amor em que Liévin não podia deixar de acreditar e que o sufocava de felicidade.” (p.382) Parte 4

Então, eu pergunto: o que eu fiz do meu rastro de amor? Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres quando interrompo o gozo / alegria da tua voz apertada! Cortei o tempo em fatias ansiosas, perdidas. E tanto desejei ir ao teu encontro, meu amigo.

Foto: Marina Pfeifer

compromisso

Deslocada sim. Desanimada sim. Desencontro. Tumulto. Destas maternidades juvenis, competitivas, afinal massacrantes. Encantamento e aflição com fraqueza ou insegurança segura. Aborrecida com o envelhecimento: descuido com o corpo. A última e catastrófica investida no amor…, mas atrapalhada com a vida/sentimento. Preocupação com o sono sim. Sono fuga, mas reparador. Combustível. Ansiedade assusta no limite regulador da energia. Perco o pique de fazer/agir/ fazer acontecer. Amoleço. Na angústia do momento, mudo ritmo. Paciente complicada.  Emperrada. Mau exemplo, mas esta sou eu, assim, inquieta. Aquela questão da idade, num tempo apressado. Quase uma valsa / ou tango: ridículo. Talvez procure apenas ser abençoada. E as noites insones, o enjoo da indução agarrada num método de desacelerar. Enfim! Acho que sigo no meio do caminho. Não sei exatamente o que devo ajustar. Corro atrás do tempo, meio apertada pelas dores espaçadas do tempo / dos horrores / destes assassinatos brancos. Gostaria de fugir de questões intransponíveis. Não se resolvem, porque, na / em verdade, estão todas resolvidas,  não me pertencem. Quero pular obstáculos, ter vida própria, ser eu comigo, mas estou, visivelmente, enredada neste emaranhado. E, paradoxalmente, não estou. Eu me nego a ser como os outros e me ajustar. Conversar, às  vezes, me parece penoso,  inútil  e  cansativo.

novembro de 2020  / uma espécie de enfado, constrangimento, com o aborrecido compromisso com a vida / da vida. Esta evidente necessidade de vencer um dia após o outro numa pequena guerra interior q não é  exatamente vida, mas um constante despertar. Suicídio diário diante da obrigação de respirar estar e ser alguma coisa para alguém.  Talvez se fosse vigoroso na raiz, alguma coisa brotando…, ou se fosse de fato possível viver em / na bolha. Ser bolha narcisa e colorida. Não. Sabes o que acho? Vive – se na ilusão de ser egocêntrico e único e importante, apenas para nós mesmos,  mas  é  tudo ilusório, somos arrastados. Estamos sempre a explicar  e  a puxar. E nos desculpando por isso por aquilo…. ok. Posso ser eu para mim, mas não consigo alcançar o importante, ainda espio a fresta do vizinho, e peço socorro quando me assusto com sombras. Apenas sombras e poeira, eu me assusto. É  o tal do beijo e do abraço necessário, prioritário e confuso.  A vida se fecha nesta confusão misturada de ser meio ao ter, meio a violenta e agressiva solidão imposta e incompreendida. Ou seja, confusão.  O tempo fica a nos cobrar solidariedade, comunhão, generosidade,  e já o carinho e amor. Resiliência. Não entendemos nada disso, e, no final, nos explicam que somos sozinhos, únicos e metade: confuso isso. Há  que seguir, eu sei. Mesmo que não exista rumo ou rota. Cura e saúde.  Depois  da Terapia. O tratamento para dormir corretamente certo. Afinal, o grito. Depois o socorro. Perfeito artifício e não tenho mais o gancho. Pontuou. Agora o convencimento. Talvez esteja cansada. Terrivelmente cansada desta batalha constante. Desta luta diária. Ansiedade como maior mal, sim. Uma ansiedade adquirida. Relações e pressões alteram as pessoas. A cura deveria estar no momento  em que fosse possível agarrar/acertar. No momento em que a pressão de tão forte explodisse. Ou virasse doença. Há um momento x ou y em que isso se potencializa. A cura libertação, ou ainda fuga? Sim. Acho que depois de ceder ceder ceder aos eventos / e sofrer consequências mais ou menos desastrosas estou a pedir socorro. Virar as costas faz/ou fez parte das diferentes curas. É voltar ao equilíbrio,  ao prumo/eixo. Rebelar – me contra certezas.  Aceitar meus limites, ou melhor, escolher em vez de se deixar levar.  Tantos e tantos e tantos anos agradando, cedendo…, uma construção de poucos, mínimos anos… e ah! Como estou cansada  de ceder ceder ceder. Sim. Eu quero me libertar. Deixar de obedecer. Enfim! Não sei exatamente se a definição…, ou a minha doença  transbordasse além da ansiedade seria diferente, ou tarde demais.      

Pensando: talvez estejas certo, sim, passar a roupa, limpar a casa, enfim, os banhos, está coisa terrível só/apenas cheiro. A importância da limpeza, tudo casado com  a obsessão. Uma fuga prática. Vida no internato perfeita. Brutal influência materna. Limpeza e organização. Sou igual. Com menos sucesso. De fato, em tempos mais folgados a casa seria mesmo impecável. Agora não consigo fazer, estou a envelhecer. No trabalho consegui preencher minhas exigências, digamos, com sucesso. Qdo fraquejei,  eu me aposentei.  Interessante que a leitura tenha sido precisa. Sim. Acho que acertaste. E  minha ansiedade está  apoiada, sentada, sedimentada na vontade de acertar como mãe, mas não consigo me libertar… Do que exatamente seria necessário, não sei, estou cega. Não há libertação, mas omissão. Maternidade sempre sempre presente. Sim. Poderia ser festiva e normal, mas me foi imposta pela vida. Não consegui me rebelar, nem fazer  diferente. Ansiedade transborda qdo recomeço do zero. Este eterno recomeçar infernal. Altivez pesada. Este remar para ser o que não sou. Alguém que se inclina, e se dedica / deseja / ama. As sombras me definem. Penso. Não me considero, não levanto a cabeça. Não ouso. Esta audácia me paralisa. (Paradoxal, eu sei.) Há  sempre uma cruz a ser removida . É depois vem Torres. Uma não escolha, ou a escolha do mais fácil. Contexto negativo? Eu me sinto vencedora. Ainda vou chegar lá, terei meus textos em livro. A história vai se escrever com enredo e personagem e não serei culpa. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

Beleza de aquarela. Onde se prende/ onde está ela escondida/exibida esta beleza? Na simplicidade, no despojamento, num jato de luz, no primeiro plano virgem, a ser feito… Ali esta a beleza perfeita.

Adiar ansiar amorar

Perco/passo tempo enorme sem encontrar o lugar para escrever. Como pode ser assim tão confuso o elementar, básico?! Claro. E mil vezes explicado… Esta sou eu. Como me atrevo a pensar conselhos, a dizer isso ou aquilo, penso assim ou daquele jeito, o que importa o que penso? Um mata borrão. Da tinta fresca vestígios ou excessos. O som de uma risada, um nada depois.

Procuro o Natal, como quem procura encanto, luz, outra nova surpresa. Caixas desmanchadas com o que não foi bem guardado. Empoeirado, estragado aqui e ali. Coisas de Beth. Peguei as duas árvores, comecei a enfeitar. De certo alguma coisa eu dei, perdi, ou ficou para trás…, de certo perdi. Perder, velho hábito. Desculpa de mudanças, de idas e vindas, do inquieto viver ansioso, sem lugar definido (nunca estou onde deveria estar, nem com quem deveria estar). Uma coisa fluida como agarrar alegria. Ou como se agarra a ponta do vestido em festas juninas. Segurar água da cascata. Colocar mãos no bolso, se enfiar num chapéu. Ou se esconder em álbuns de fotografia. Céus! Tanto já vivi! Tudo em caixas, guardado. Agora com vontade de encontrar. Estranho desaparecer… Alguma coisa me desfiz. E vou passando de foto em foto a encontrar o que se escondeu… E importa? Tão fugaz o intenso perdido. Sempre querendo chegar. 

Sem entender arrumo, faço acontecer. Encontrei coisas esquecidas… A área de serviço limpa e arrumada. Transformar se aloja na limpeza. (sabão em pó, ventania engarrafada, sol estocado, água e água). Sótão ou porão, poesia: conversas esquecidas, a infância outra vez. Num lampejo das caixas o movimento. Posso rir e chorar ao mesmo tempo. Caixas mágicas conversam. Há que se guardar o velho pião, o urso e a boneca. E as fotos, desordenadas e belas fotos. Estremeço de prazer enquanto vou folheando uma revista que traz na capa, o nome de minha mãe. Beth Mattos – novembro de 2020 – Torres