ainda Cecília Meireles

Não ser, não ambicionar e se deixar levar doce, mansa, sem pressa, devagar ao sol… Eu me reencontro, e depois eu me perco. Que o sono seja alerta, e o tempo sonolento. O encontro pequeno, e as flores miúdas e perfumadas.

Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

Não queiras ser. Não ambiciones. Não marques limites ao teu caminho. A Eternidade é muito longa. E dentro dela tu te moves, eterno. Sê o que vem e o que vai. Sem forma. Sem termo. Como uma grande luz difusa. Filha de nenhum Sol.”  Cecília Meireles – Cânticos

nas arrumações cds e trico 

Salamanca do Jarau

A lenda da ‘Teiniaguá’, também conhecida como Salamanca do Jarau é uma lenda gaúcha, que conta a história de uma princesa moura que se transforma em uma bruxa e que vem em uma urna de Salamanca, na Espanha para uma caverna no Cerro do Jarau, em Quaraí, no Rio Grande do Sul.
Glauco Rofrigues A Lenda do Jarau
Glauco Rodrigues / bico de pena maquete envidraçada – foi presente para minha irmã Suzana nos idos tempos em que ele se hospedou no estúdio lá da casa Vitor Hugo, 229 – Petrópolis – Porto Alegre. Eu criança mereci um retrato – menina, bico de pena. Imagino as cores do vestido de lã; deveria ser azul com flores miúdas bordadas. Festiva menina atrás daquela franja bem reta, olhos arregalados e boca morango. Era 1954 e as irmãs já eram mocinhas. Na mesma data os grandes painéis do cinema Cacique  foram executados: o que aconteceu com eles, não sei. A arte se encerra nela mesma: preservar,  enlevar, traduzir e contar, desaparecer… Glauco acabou casando e vivendo no Rio de Janeiro. E tudo virou carioca… Eu também. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres
Estar perto do mar vai descrevendo a memória de treze anos no Rio de Janeiro – anos de formação e ficar gente grande: fui em 1967 (fim de 1966, se for precisa), e voltei em 1980. Sou péssima em datas. Eu me esforço, e não corro atrás do documento… Espero! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

sem memória / última página

Esforço desmedido de nada ajuda: idealizo. Alguém virá ao meu socorro e terei ordem, não apenas nas inúmeras caixas, mas em prateleiras, dentro haverá a tal ordem. Terei o prazer visual / visão / maravilhamento de passado presente e futuro como conjugação verbal em bom funcionamento: todas as anotações estarão por data, o inútil  estará no lixo, o embrião guardado, e terei dez horas ou apenas oito horas de trabalho contínuo na produção possível, deixando a ideia correr e o passo solto, chegarei ao começo do fim e terei os pequenos volumes ordenados. Seguirei lendo lendo lendo autores que gosto, conheço ou descubro. Relendo pequenos / grandes livros anotados. Lerei lembranças coerentes. E os personagens assumirão papéis definidos: mãe, tio, pai, irmã irmão, filhos netos avós e ninguém, ou o alguém que estará batendo na minha porta. Amados amores terão poeticamente suas cores definidas. Os azuis se acomodarão na cesta das frutas, e os vermelhos serão malha tricotada, e os verdes estarão no arraiolo dos tapetes. As almofadas serão amarelas e castanhas. Tudo iluminado. Perfume e luz. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres por ordem cronológica.

Não posso mais confiar em minha memória. Já há algum tempo surgem subitamente em minha imaginação cidades, corpos, coisas que penso conhecer muito bem, sem contudo saber em que situação concreta de mina vida encaixá – las […] Aflitivas projeções de uma imaginação enfraquecida pela idade, confusos encadeamentos, não mais sujeitos a qualquer cronologia[…] Por alguns momentos, minha memória perde consistência. Ela produz acontecimentos que vejo com grande nitidez, sem que eu seja capaz de vislumbrar a mim mesmo nessas cenas. Não apareço mais, extingui – me numa vida que – é de supor – eu mesma levei.” (p.2–25) Michael Krüger – A Última Página

sonho meu e de Verlaine aussi

Seguido eu faço / construo / tenho este sonho estranho e profundo / penetrante / intenso, tão meu! De um homem desconhecido que eu amo e que me ama. Conhecido e desconhecido ao mesmo tempo: eu amo e ele me ama. Ele não é sempre o mesmo, e não é outro, és tu, e tu sabes, mas te assustas, recuas. E sou eu, a mesma pessoa que lembras. Não me amas,  ou amas o medo de me querer. O querer no medo… Como o meu de ter e não ter de sentir não sentindo, nem tocando, e assim, neste ir e não ir, neste sonho que chega e desaparece tu ficas preso, para sempre no meu/ no teu imaginário de te querer, sem querer, porque não és. E não sou mais. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

ANTOLOGIA francês.jpg

Je fais souvent ce rêve étrage et pénétrant

D’une femme inconnue, et que j ‘aime, et qui m’ aime,

Et qui n’ est, chaque fois, ni tout à fait la même

Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend. […] Verlaine

fragmento 1

Estou, faz já uns dois dias, a conversar contigo, agora, embalada com a chuva forte, com os trovões. Desabou o céu, como o noticioso (como diria nosso pai) anuncia desde ontem, ou antes de ontem. Penso no João que deve atravessar tudo isso (a chuvarada forte) valente nas pedaladas (tem uma bicicleta possante) saindo do emprego que insiste segurar! Mas esta é outra história. Abri bem as cortinas (precárias, esfarrapadas) para ver o céu, acompanhar as riscas fortes desta chuva pesada. Clarões. Enquanto escrevo escurece. As batidas da chuva diminuíram… Posso te adiantar que a lagoa e a rua se misturam em alagados inacreditáveis. Nem tanto! Nos nossos verões também chovia, e as ruas transbordavam para as calçadas. Lembras? Feito a Nilo Peçanha lá da Luiza que fica rio com correnteza…Penso nela, no Recife, quadro típico Heitor dos Prazeres. Vou lendo os poemas que escreve, contidos, corretos, como devem ser. Intimidades e rasgos tenho eu. Tão viciada em me descrever que estou tropeçando nas crônicas de uma oficina com Walter Galvani. Não sei. Não consigo escrever, dizer, e explicar. Estou aqui a pensar! Não consigo me colocar de frente como seria preciso, estou sempre meio saindo, não chegando, nem entrando. Voltando a Torres. Lembras quando o pai alugou aquele apartamento térreo de janelas marrons? Uma aventura chegar na SAPT quando chovia. Bons verões! No entanto agora só tenho presente esta Torres de morar. De olhar pela janela, voltear a lagoa. Pensar em buganvílias, silêncio sem mar. Engraçado! Estou na cidade apertada, mas com vida própria. Hoje na tempestade das águas de março, já outonais. Tanta coisa quero contar! Telefone não vale depois de tanto tempo sem conversar. Tem que ser o susto de escrever. Conversar vai ser bastante. Escrever é nossa voz. Quando te penso escuto tua risada, ouço bem o jeito maroto de dizeres o imponderável. Humor, ironia! E aquelas anedotas indizíveis que estão lá pra escandalizar mesmo.

Fragmento (1 )de carta enorme para Suzana, já faz dez anos –

Elizabeth M.B. Mattos – 2019 – Torres

brincadeira sem graça

Convulsão, ou verdade ou ilusão, ou brincadeira sem graça. Vida de envelhecer, de esquecer ou entristecer. Fui ver o mar, lindo! Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. Meu. O frio não permite chegar mais perto, venta. Volto para dento de casa, aproveito o calor e o fogo forte das lareiras e do fogão à lenha que a casa da Ana tem. Cozinhamos o pinhão e o feijão do jeito que tem que ser feito. Faltaram os pães e as geleias açucaradas da Maria. Mais acalmada na paz caminhei pela cidade. Sem mar é feio, ou melhor, desfeito. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. O mar lá estava, no fundo, e as pedras. O bonito. Ilha dos Lobos. Lagoa do Violão, coitada! Poluída! Rio Mampituba mágico. Daquele lado eu gosto. O cheiro, outro e os barcos bonitos / lindos. Pescadores genuínos. Magia à margem do rio, encantamento. Posso me deixar ficar até o entardecer olhando o rio que desemboca no mar, ou o mar festivo em conversa de explodir risos. Se ainda pudesse fazer grandes caminhadas viria outras manhãs visitar o rio, e me despedir das dunas, e olhar, olhar o namoro do rio com o mar.  Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

teu sorriso explica

Aprendo, tens razão

terror do homem deve ser apenas ser homem. O mundo / a natureza  conversa, ninguém escuta…

Vejo teu sorriso! Envolvida / embrulhada neste apressado fazer sem fazer, desejo de presença na imaginação do outro…

Somos o que não somos – fingimos ser ou não sentimos. Se eu fosse eu, se tu fosses tu e se ele fosse apenas ele, estaríamos na ciranda da boa política / do bom fazer.

Uma ideia / Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres