São Paulo na Antônio Bento

“Na verdade, ninguém reconhece o momento mais feliz da sua vida no instante em que  vive. Pode ser que, num momento de grande alegria, alguém possa acreditar sinceramente que está vivendo esse instante de ouro “agora”,mesmo já tendo vivido antes um momento igual, mas, pense o que pensar, numa parte de seu coração ainda acreditará na possibilidade de um momento futuro mais feliz. […] pensar que se encontra no momento mais feliz da sua vida, terá sempre a esperança de que seu futuro venha a ser igualmente lindo,  ou ainda  mais.”(p.86) Orhan Pamuk O museu da inocência

(…) esta alegria de dentro, interior, e forte se derrama e faz explodir o coração. Um  tremor estranho, é preciso agarrar o tempo. E não posso esperar. Elizabeth.M.B.Mattos – junho de 2018 – São Paulo 

inocentes cruéis caçadores ou guerreiros

“Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” Marguerite Duras escreve como  se pintasse um quadro. Encena o texto como se estivesse no palco. Individualiza o que pertence a todos. Que a imaterialidade se faça desenho no texto, na imagem. Efervescência e paixão. Recorte de mulher. Há estranhamento na opção mulher/sozinha, homem sozinho. De alguma forma nos espiamos pelas frestas. Toda a vez que penso em fluxo de consciência acrescento a sombra masculina, embora a vida e escolhas tenham sido essencialmente minhas. Vivo fechada, compartimentada, talvez. Nunca dois. Luta de vida inteira: ser eu. Tentativa. Maleável ao amor, ao sentimento. Sofro a condição, mas tenho orgulho da liberdade. Demorei para ser gente grande, atravessei campo minado. Tenho a impressão de que amadureci apenas depois de perder mãe e pai. Eles me tiveram pela mão por longos e intermináveis anos. Sair de casa não é tão evidente como parece. Cortar laços, eleger/escolher a família sem pieguice, mas por afinidade, só a maturidade permite.  E  a tal liberdade que apenas o trabalho nos dá. Fui tentada a permanecer agarrada na irmandade sanguínea. É como estar no útero por toda uma vida, protegida. Amarras.  Enquanto leio Duras eu perco pedaços de Beth ou de Elizabeth ou de Liza …, eu desapareço daquela condição feminina de ser apenas mulher. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018

“Acho, fundamentalmente, que a situação da mulher, não mudou. A mulher se encarrega de tudo na casa; mesmo que conte com ajuda, mesmo que esteja muito mais alerta, muito mais inteligente, muito mais audaciosa que antes. Mesmo que agora tenha muito mais confiança em si própria. Mesmo que escreva muito mais, a mulher, relativamente ao homem, não mudou. Sua aspiração essencial continua sendo proteger a família, distraí – la, cuidar dela. E se ela mudou socialmente, tudo o que faz, faz em acréscimo a isso, a essa mudança. E o homem, mudou? Quase nada. Reclama menos, talvez. Também se cala mais atualmente. É. Parece que é tudo o que podemos observar. Acontece – lhe de ficar em silêncio. De atingir o silêncio, naturalmente. De descansar do ruído de sua própria voz. […] e, quando o homem se aproxima do lar, a mulher aceita isso? Digo que sim. Sim, porque a partir desse momento o homem passa a fazer parte das crianças. É preciso atender as necessidades do homem e às crianças. E isso para a mulher, também é um prazer. O homem imagina que é um herói, sempre como a criança. O homem gosta da guerra, a caça, da pesca, das motocicletas, dos automóveis, como a criança. Quando ele dorme isso é visível, e nós, as mulheres, gostamos dos homens assim. Não podemos nos enganar a esse respeito. Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” (p.51-52) A vida Material, Marguerite Duras

As ideias estão atrapalhadas manchadas indefinidas. Há que se deter na sombra, na imagem, na coragem, e nesta confusão. Amanhã vou saber mais do que hoje.

nada de nada

Nada de nada e chego onde estás. O silêncio é um universo de entendimento e  a melhor forma de se saber/ poder conhecer a si mesmo. Foi como estar no jardim: entrei na ponta dos pés e pude te cuidar, alimentar, embalar e te fazer acreditar que ainda somos viáveis. Ou ao contrário, foste tu  a me acolher cuidar enternecer e mimar explicando o inviável. O inatingível. Se despe e olha com desejo e com prazer. Saber o que você quer e pode: sim, ser mais desejável para você mesma. E depois,  joga sobre a nudez  a cor que mais lhe agrada. Verá quem deseja ser, o alguém que você ama antes de qualquer coisa. Primeiro ser você apenas você.  Não culpa sons nem quem disse, ou deixou de dizer. Remodela ouvidos e o espírito. E não esquece que intensidade exagerada é desastrosa. Pés no chão e cabeça nas nuvens. Cultivar resiliência.  Be cool como a coca- cola.  Você comigo neste silêncio que tamborila na janela e molha o gramado, e lava o coração. Elizabeth M.B. Mattos junho de 2018. Chuva forte constante e sonora. Arrumo a mala naquela desordem particular distraída da música e da vontade de ficar e ir.

Resiliência, –  palavra do momento desta modernidade molhada de hoje.
substantivo feminino
  1. 1.
    fís propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
  2. 2.
    fig. capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
    “Nous vivons des myriades de secondes et, pourtant, il n’y en a jamais qu´une, une seule, qui met en ébullition tout noutre monde interieur”  Stefan Zweig
    Sim, apenas uma miríade, uma ínfima parcela de um segundo faz a diferença, e gera encantamento premência ansiosa saudade da tua palavra, você se inclinou e disse falou e ajudou. Por um segundo,  a diferença. Estamos. Beth Mattos
    BEth de pijama

vestida de letras

Entreolhamo -nos, com certo desespero, e dizemos depois: ‘É, até aqui chegamos nós dois.’ Da tua voz, o vento. E com o vento a tempestade. ‘Afinal tens razão, nada a nos dizer. Nada a fazer.’ Não compreendi …, não importa. O que fizemos? Nada. Sequer saímos do lugar. Sigo vestida de letras. Não é preciso compreender. Nem dizer/ falar ou pensar. Frágil, mas não vou quebrar a ilusão. Sonhos abertos insones nas mãos. Eu te convido para imaginar/desejar juntos, e apertar a vida no mesmo momento, agora, vai ficar eterna …, a vida.  Beth Mattos – junho de 2018

turbilhão

Involuntariamente, sua mão fez o gesto de quem afasta alguma coisa, de quem afasta um pensamento. A verdade é que, no mais íntimo  do seu íntimo, ele temia essa força que tem o nome de paixão. Esse turbilhão que leva pelos ares como folhas secas tudo o que um homem tem de sólido, de ponderável, de respeitável! Isso não era com ele. Essa labareda que se consome prodigamente na própria fumaça … Não, ele preferia queimar lentamente.” (p.109) Jens Peter Jacobsen – Niels Lyne Cosac& Naif, 2000 – Coleção Prosa do Mundo

Já que eu não posso te falar nem dizer o que penso. Nem ouvir os comentários da nossa precária vitória  antes da Copa. (Haja futebol! Vamos torcer!) Eu imagino as coisas por dentro, mesmo que não sejam, eu imagino! Um sim ou um não categóricos, um pró ou contra, para que eu deva saber exatamente o que devo odiar e o que devo amar. Estranhezas deste inverno que se fez ameno hoje, durante o dia. Beth Mattos – junho de 2018 quase chegando a São Paulo

gosto dos dois

Inverno. Eu gosto. Um pouco de sol que mais é luz do que calor. Domingo cheio de vozes a esquentar o que dizemos ser amor. Uma receita do que é bom: uma caipira toda iluminada. Filés na manteiga com alho e cebola. Farofa também na manteiga, certo. Aipim macio, frito ou sem ser frito, delícia: gosto dos dois. Mexi tudo com alegria. Revira. Sente o cheiro e o gosto. Delícia. É domingo. Estou estupidamente feliz. A música é o rádio …, que fala e conta coisas que às vezes escuto outras não. E danço. Adoro dançar. Que venha esta alegria toda a transbordar.  Elizabeth M.B. Mattos e vou ao Rio e para São Paulo, Recife também. Muito bom ser eu alegre mãe, e mulher. Junho de 2018

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