das estranhezas de ser eu

humor / alterado / fôlego? chequei / tá ótimo // amanheci com energia e fui e voltei // não muito longe é verdade (risos) fui até a feira ecológica / larguei as compras em casa e depois fui na outra feira… entusiasmada / voltei meio ‘morta’ de cansada, mas viva (risos) mas o tal humor / complicado… de natureza agregadora fiquei ranzinza / das coisas de fazer em casa (ah! eu gostava) credo! zero vontade / aos solavancos o básico / ler? empurrando / conversar? pois é… TÔ AZEDA! mas, contudo, todavia os verdes crescem e fome continua, a passarinhada se agita e me faz rir… a calçada está movimentada e do cinzento veio o sol… os dias estão assim, como eu, muito variados…Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

cheguei a lua

…ou na lua / a lua / estou lenta pra decidir a preposição / bem, o fato é cheguei // agora? agora? vou ver / olhar e tentar descobrir qual é o segundo passo após a chegada // será que a viagem terminou mesmo? tem volta? ou era apenas ir? entrei apressada nesta nave / parecia bem normal dentro da aventura de ir… bem, pois é, vou ter que pensar alguma coisa urgente // preciso descrever como é aqui? acho que não… vou apenas respirar certo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

8 anos / 80 anos

redondo / bonito / mágico: 8 anos começamos a interpretar / devagar / a leitura… casa não é apenas parede e telhado, também aconchego// pessoas // existem: boas, outras nem tanto! uma série de questões coloridas ou nem tanto. 80 anos novo aprendizado, outra risada / apreendemos a recomeçar /e a esquecer. sensível a coluna da Martha Medeiros / eu senti minha prima Isabel… a risada. a gentileza / senti tanta saudade! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

pode ser isso: (Elizabeth M. B. Mattos) outubro de 2026

  1. Esta questão de olhar perturba. no entanto preciso mais do que olhar, examinar. assim posso ter certeza que os olhos castanhos são melhores do que os verdes. Mãos mais eficientes, lavadas. Os cabelos devem ser presos / simulam quantidade. As roupas deveriam ser escolhidas: serão.
  2. Neste momento passei para as gavetas / não tem muita coisa. a bem verdade do fato, pouca coisa mesmo… penso, se a ideia é comprar uma peça aqui, outra ali… estas teriam que ser agitadas, não esquecidas. plano, ordem, planilha. coragem. trabalho. aproveitamento de tempo.
  3. Ter coragem. Achar, definitivamente, que vales o tempo, o passo, a comida e o pedaço da comida. os passos atrapalhados. buscar o outro, ter o teu beijo e o teu abraço vai exigir esforço de mim. preciso dar os tais passos. atravessar o medo.
  4. Atravessar não deve exigir tanto, mas a coragem arrumada do dia que chega na noite com sua utilidade completa. Ser útil será limpar, ordenar, abrir ruas, espaços chamados praças, plantar árvores, e vez que outra canteiros. Com certeza a cozinha será perfumada, convidativa.
  5. E os livros? Amigos perfeitos, mas precisam se acomodar nas prateleiras com certa alegria e suficiência. Lagos, poças, pingos, não sei. comecei a pensar: começar me traz uma certa gratidão.
  6. Deixar o filme pela metade. sim. italiano, ótimo. O sono chegou, tô sem concentração? não. Apenas com sono e vou dormir. Aquela liberdade solta, desgovernada e solitária.

consegui

EU consegui dizer que não conseguiria / isto é quase dizer: eu consegui / eu posso. estou conseguindo / vou conseguir voltar para mim. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

palavras suscitam palavras

coisas de Merleau-Ponty

A linguagem jamais se ocupa senão de si mesma: tanto no monólogo interior como no diálogo não há “pensamentos”: trata-se de palavras suscitadas por palavras, e, na medida mesmo em que “pensamos” mais plenamente, as palavras preenchem tão exatamente nosso espírito que nele não deixam um canto vazio para pensamentos puros e para significações que não sejam de linguagem. O mistério é que, no momento mesmo em que a linguagem está assim obsedada por si própria, lhe é dado, como que por acréscimo, abrir-nos a uma significação. Dir-se-ia que é uma lei do espírito só encontrar o que não procurou. (p.147) Maurice Merleau-Ponty A PROSA DO MUNDO

coisas de achar sem procurar / estranho estar a cheirar os livros perdidos / encontrar o volume / esbarrar no lido, reencontrar… esta coisa das palavras… sim, a loucura de ‘puxar’ uma ideia, de escutar e responder, ou não responder mesmo escutando, ou distrair-se do significado, da palavra e olhar, olhar vendo e deixando de ver, isso acontece… o impressionismo seria um jeito derramado de olhar que os tornou tão poderosos? eles se desviaram do que era para chamar atenção / claro! estou exagerando… mas tudo isso é a magia, dos poemas, do sonoro no significado… pois é. tenho um amigo Paulo poeta e colorista / apaixonado… acho que o definiria / não, não vou definir nada… aliás / resvalo no tempo. desencontro encontrado. ah! complicado. Elizabeth M. B. Mattos / outubro, ainda, 2016 – TORRES

ainda não

a música segue sendo mágica / fantástico… e a melodia pode, de fato curar. sinto que amanheci melhor… p corpo pesa menos, o café amargo levantou a manhã e posso caminhar. no entanto, o peso, o sombrio da memória ainda me assombra: não consigo esquecer, nem perdoar, quem apunhalou, conseguiu,. estou sendo tratada. entrei em vários hospitais, chamei emergência e socorro… fui atendida. mas a memória da dor é maior do que a própria dor. o processo de esquecer precisa ser concluído. a leveza importa. amanhã começo a mudança. talvez devesse apenas pintar as paredes… acudir os cupins (eles crescem, ficam mais fortes com o veneno) ou dançar (danser) ouvir música, voltar a selecionar os discos. comprar uma agulha nova / enfim, devagar, resgatar alegria, e bons perfumes. Comprar um perfume me faria bem. Elizabeth M. B. Mattos outubro de 2026 – Torres

GEORGE SAND

Qu’ on soit pur ou impur, petit ou grand, il y a toujours vanité, vanité puérile et malheurese, à entreprendre sa propre justification. que a gente seja puro ou impuro, pequeno ou grande, há – existe sempre vaidade, vaidade pueril ou infeliz para explicar a própria justificação. uma tradução mais ou menos.

justificar o medo, a saudade, a vergonha ou a coragem em determinada situação / o que eu posso ou o que eu não posso fazer… fracassar ou ter sucesso // ganhar ou perder // mas a gente perde sempre / perdemos, então, prosseguir é um ganho / já deve/é / com certeza / a medalha como tu sussurrarias pra mim…

quando volto aos livros de Marguerite Yourcenar / pois é, ali está o medo, de como mulher, se revelar / será mesmo permitido? elas, as poderosas, grandes mulheres, salvo Cleópatra (sempre), são reservadas… eu não, a história, sim. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

aborrecida, chateada

eu não queria que fosse assim, ou sei lá… deveria não me importar, mas eu me importo: aborrecimento da idade / ou com a idade / aborrecimento instalado / instalou-se. será que escolhi errado quando a decisão foi ficar eu comigo? ainda bem que me mandaste um beijo. careço deles. aborrecida com a ideia de perder /perco / extravio / sei lá! enumerar o perdido. / sinto falta de ti / mas me acostumo // esquisitices de viver. coisa complicada viver / escrever / um vício estar viva / tudo bem. digamos que sempre escrevi, sempre respirei / ou tentei escrever, teclar… até agora, estou viva. acreditei na observação, levar a sério a droga do escrever (que sofrencia!)/ mas agora… agora / neste momento tenho os tais 80 anos pra aceitar / atropelam, consomem… redondos / poderia já ser logo 83 anos ou 85 anos… será que seria melhor? violetas ou rosas, papoulas / hortênsia estou estremecida, sem tempo. quero flores. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

sinto saudade da ÔNIX