MADRE SANTO AMBRÓSIO

atravessei os 80 anos rumo aos 90 anos pensando que ainda tenho 30 anos / uma balzaquiana // como se diria noutros tempos / hoje não temos mais referências literárias / temos um tremendo fogo cruzado, uma confusão, um país cor de maravilha, não é mais verde amarelo, nem azul… muita confusão! será que ainda temos Amazonas? Santa Catarina, papagaios e e periquitos? orquídeas, é certo, goiabeiras? pitangas? laranjas e os parreirais? ainda estarão lá? tudo é incerto… confuso. que o sol venha! que o verão venha! que a irmandade se apresente, e os amigos não debandem… SOS SOS SOS / obrigada Roberto, pensei na Soninha, na Magda, na Ana Helena, na Suzana, a Lica, Luiza, Nádia, nas meninas das cônegas / nas Madres. Pois é, Maris Stella que foi próxima, Madre Hermínia… eu atravesso o jardim, os eucaliptos, e deixo a janela do meu quartinho aberta para enxergar um pouco de céu /// ando nostálgica / será que posso agradecer? devo. eu te agradeço em especial, meu querido, mas como sigo apaixonada não vale muito, mais um beijo. Elizabeth M. B. Mattos outubro de 2026 – Torres // Partenon? Não, era um pouco mais longe / o colégio Nossa Senhora das Graças / Cônegas de Santo Agostinho / as francesas / vou lembrar, devagar, vou lembras das faixas verdes, azuis, amarelas, amarelas com risca e depois vermelha / vermelha com risca branca, com duas riscas? e a branca, branca com risca… eu guarde algumas… éramos felizes, as externas, internas e as semi-internas. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

M. Delly

M. Delly em língua portuguesa

A Coleção Delly foi lançada em Portugal, pela Editora Livraria Progredior, no Porto, com todos os títulos de M. Delly. A Livraria Figueirinhas, também no Porto, publicou vários títulos de Delly na Biblioteca das Famílias.

No Brasil, os romances de M. Delly foram publicados, entre os anos de 1930 e 1960, numa coleção intitulada “Biblioteca das Moças”, pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo. Teve 35 títulos publicados num total de quase 180 títulos da coleção,[5] teve o maior número de edições, tornando-se popular entre mulheres jovens, e suas obras foram consideradas, na época, como uma “literatura cor-de-rosa”.

enchente doméstica

pois é. pois acontece de chover dentro de casa / levei um susto! a água entrava por todos os lados, justo na sala onde guardo livros / só no banheiro não tenho livros, é verdade, mas isso é um detalhe. o terrível era / foi a água / lembrei das enchentes de Petrópolis / no Rio de Janeiro e agora que acontecem no Rio Grande do Sul / a eficiência de morar num barco, apenas com o essencial, não com livros, nem eletrônicos…

entre o fácil e o complicado, viver e respirar também tem equilíbrio, Elon Musk quer povoar Marte se eu já não fosse tão passada dos anos também eu me candidataria, seria voluntária… será que lá dá pra escrever? pra pensar deve dar não é? senão… senão, seria como morar no Brasil outra vez. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

batidas e batidas e eu senti, de longe o vento chegando pelos galhos, ou melhor, eu vi.

súbitos e esdrúxulos caminhos de luz que atrapalham a visão. o que eu sinto? aquele comum e tradicional medo que a ausência de teus braços me faz sentir. acomodei tão fácil, tão fácil! aquela certeza certa que estarias comigo para sempre! foi tudo tão rápido, não me deu tempo nem mesmo de desistir… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres (o café não estava tão bom como o que o João faz, mas bebi)

querido:

escrevo apressada para dizer que cheguei. a casa é pequena, tem um quintal comprido, um canteiro de margaridas, e buracos engraçados. tem uma pequena lareira, e floreiras de pedra, sem flores. quero que chegues logo. vou fazer funcionar o mais rápido possível, e logo pensar na horta. os papéis, lápis, tinteiro e cadernos prontos. comprei pincéis, tintas e duas telas. o silêncio é promissor. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres sigo lendo A vida invisível da sra. Orwel de Anna Funder / editado pela Companhia das Letras

com certeza

examinaste as gavetas? os armários, em ordem: a desordem estão nos pensamentos, nem vou te dizer sentimentos, paradoxal? não. estes estão serenos e quietos a serem usufruídos devagar… ora passam pelo passado, mas logo retomam o hoje e se aninham no cheiro da primavera, nas certezas boas de se reconhecer. hoje reconheci um passado bom que me trouxe a filha Luiza, minha preciosa menina, mais uma vez eu agradeço! benção, presentes com fitas, sorrisos e uma corrida pelo jardim… o cheiro de viver! Tão bom! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres (cinzento o dia, mas casa tem um cheiro de lavanda ensolarada, eu gosto)

entrou

a porta estava aberta, ele entrou, ela veio atrás, sem constrangimento sentou. a sala cheia de jornais espalhados pelo chão, dois livros abertos. nenhuma curiosidade. ninguém tocou em nada. no banheiro se escutava o chuveiro correndo e no outro quarto, o radio explicava o rumo das eleições. íamos ter dois turnos. deitada na cama estreita do outro quarto, de baixo das cobertas, ainda febril, apenas fechei os olhos. adormeci imediatamente.

no meio da noite levantei para ir ao banheiro. perto da janela, um ramo colorido, dálias, eu acho. uma fresta da janela deixava aquele gosto de morno de primavera entrar. súbito a vontade de beijar percorreu meu corpo. senti saudade do teu abraço, meu querido, e daquele desespero bom de nos atirarmos um no outro quando não tínhamos vontade de falar, apenas abraçar. aliás, tudo já havia sido dito, o cheiro e o gosto, já era o discurso necessário… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

meu querido, embora não possa te falar, todos as vezes que eu liguei * (sigo insistindo), tua moça responde que não gostas de conversar ao telefone… acho engraçado quando lembro das nossas conversas por interurbanos, nossas urgências amorosas, das batatas sem sal, e as frutas maduras demais para o meu gosto / eras tu inventando uma vida para nós dois. a história eu conto aos pedaços porque amor se esfiapa mesmo, o bom tá no beijo demorado, no agarro e nas noites apertadas um no no sono do outro.