socorro / e a palavra não sai, ah! a palavra

Esta coisa da fala, dooutro, de olhar e dizer…medicinal e pacífica pode ser a palavra, necessária. esta coisa de ouvir / dizer uma loucura necessária, por que não me entendes? por que não me socorres? por que não te compreendo? quero então te abraçar muito e muito, chegar perto, mesmo no silêncio, no tempo noturno de dormir, não tenho hora pra dormir, fecho os olhos durmo…e tenho tido magníficos e povoados sonhos, coloridos, cheios de fala, tensões e surpresas. Outro mundo /universo os sonhos destas cabeças de tanto dormir! E os filhos e movimentão, sorriem, se completam no tempo. A magia da gravidez! o iluminado prazer de fazer vida… depois a saudade miuda de todo o tempo, do amor, do acompanhar, do ocupado e engenhoso tempo de ser mãe…, onde está a volta da curva? a paz/sossego? não, não posso parar, multipliquei um milhão de vezes a sensação… e as tais palavras se milturam incompreensíveis, o que digo ou o que penso não alcança ninguém, não chega em lugar nenhum, não tem fim. As conversas são enfrentar uma floresta densa, populoça, inacreditavelmente, falante e silenciosa. Ah! as nossas interrompidas, movimentadas e agitadas conversas, meu querido! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

a vida é curta e o conhecimento, ilimitado

“No Admirável Mundo Novo, distrações ininterruptas da mais fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo, com a finalidade de impedir o povo de prestar demasiada atenção às realidades da situação social e política. O mundo da religião é diferente do mundo do entretenimento, mas os dois apresentam semelhanças num ponto: ‘ no fato de não serem deste mundo.’ Ambos são divertimentos, e, se usufruímos dele de forma excessivamente contínua, ambos podem tornar-se, segundo Marx, “o ópio do povo”, transformando-se assim numa ameaça à liberdade, e apenas os que estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a esperança de se governar a si próprios eficazmente por meios democráticos. Uma sociedade na qual a maioria dos membros esbanja grande parte de seu tempo não na vigília, não aqui e agora e no futuro previsível, mas em outra parte, nos outros mundos irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às investidas daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.”(p.56-57) Aldous Huxley Regresso ao Admirável Mundo Novo

dormindo

Antes de abrir os olhos já bebi água, um litro. Antes de pensar já estou cansada. A preguiça domina meu corpo, e stop…, sou eu no verão, um contínuo nada. Droga! Como escrever pode ser assim tão complicado, difícil? Como pode a imobilidade dominar o universo? O meu, ela domina. Depois da guerra perdida: desanimo. Um minuto pra reajustar, mas, mas, mas… Ah! Esta vida a se arrastar… Não desisto, eu quero dominar, quero voltar, quero ler, quero escrever, falar inglês posto que não posso aprender nem o russo, nem alemão, nem japonês, é claro. voltar para o front / nada de arrastar o tempo, mudar, acelerar as conversas, conhecer outras pessoas… Está claro? Ou nem tão claro assim, afinal, mas podemos tudo, em qualquer idade, em qualquer tempo podemos ‘virar a mesa’, plantar margaridas, colher jasmins, e descascar laranjas. Espremer limões… Céus! As frutas, as hortaliças! A berinjela me surpreende. Sentei para escrever sobre o corpo, sobre a vontade, e estou nas verduras, no pingo da torneira, pensando na roupa que vou recolher, na limpeza. (uauuu!) Que cabeça tão absurdamente doméstica! Eu juro que sentei na frente do computador para priorizar uma história, qualquer uma, mesmo a do espelho, pretendia desafiar a imobilidade, arrancar a vergonha, refazer a vontade, deixar acontecer o sentimento. Por que não estou conseguindo? Acordei tarde, é verdade, acabei de beber o café, e ainda não me decidi do que fazer neste dia estupidamente quente. A praia, pois é, abdiquei do mar e do sol (risos) e também de (fazer) ou escrever livros. Ou cadernos coloridos com caneta de tinteiro. Vou deixar para mais tarde, vou reorganizar o quarto, aspirar, lmpar, pendurar a roupa, juro que volto. Elizabeth M.B.Mattos – janeiro (ainda) de 2023 – Torres.

segredo simples

Um segredo muito simples: o amor. Tudo o que nos fascina no mundo inanimado, os bosques, as planìcies, os rios, as montanhas, os mares, os vales, as estepes, e mais e mais, as cidades, os edifícios, as pedras, ainda mais, o céu, o pôr-do-sol, as tempestades, e muito mais, a neve, a noite, as estrelas, o vento, todas essas coisas, em si vazias e indiferentes, enchem-se de significado humano porque, sem que o suspeitemos, contêm um pressentimento de amor.

Como fora tolo em não perceber isso antes. Que interesse haveria em uma cordilheira, uma floresta, uma ruína se aí não estivesse implícita a espera. E espera de quê, de quem a não ser dela, da criatura que nos poderia fazer feliz? (p.127) Dino Buzzati Um Amor

vagar do tempo

As crianças. Vivem em um tempo que não se acaba: quanto falta para o Natal?, quanto falta para o meu aniversário? Para eles, o passado não existe, e, o futuro é invisível. E, então, cada dia é eterno. Muitas vezes me detive, sozinho em meu estúdio ou com amigos, a meditar sobre este tema, sobre a diferença entre o tempo existencial e o tempo cronológico: este é igual para todos; aquele, o mais pessoal de cada homem. (p.37) Ernesto Sabato Antes do Fim

desapegar / desatrelar

Desapegar parece despedir-se antes do fim, largar antes de ser largado, resolver antes de virar problema. E vamos nos desfazer para simplificar supondo que a vida fica mais leve. Ir e vir se resolve fácil – uma filosofia atual, tão sem alma…

Estou a pensar nisso e me surpreendo, sou tremendamente apegada, apegada às coisas, ao estilo, ao tudo, e a todos: detesto pensar que tenho que deixar ficar / soltar para seguir. Ah! Se eu pudesse teria guardado tudo: os pedaços, o todo. As bonecas, os copos, as flores secas nos livros, a lembrança, eu teria tudo de antes, e o de hoje.

A música não toca igual sem discos de vinil, canecas não substituem xícaras… Uma essência se perde quando temos que escolher. Se a água fosse de fonte, se o amor pudesse ser parar sempre, se o namorado namorasse sempre, e o marido, o amigo, o tempo… Se ninguém, nem coisa nenhuma se identificasse com a passagem, se tudo fosse permanente… E liberdade fosse mesmo o sentido inteiro / sem divisão. Se não existisse ontem, mas sempre hoje:

se estivesses aqui

eu seria

eu seria

eu seria

a chuva e o sol. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres, e, não precisaria me reinventar, ou te imaginar, seríamos. Nem escolher isto ou aquilo, aquilo ou isso. Tudo emaranhado! O tempo todo misturado.

A MEMÓRIA está grudada /colada no APEGO

odor

cheiro / odor, que sejam perfumados… o cheiro define, descreve. a minha imaginação aguça depois do cheiro… é o caminho que eu percorro, o sentimento que guardo, o vísivel para mim. tudo o mais funciona no rastro do cheiro. e as roupas, os pertences guardam / seguram o cheiro da pessoa. O cheiro tem formas definitivas, perfeitas ou imperfeitas. não preciso tocar para saber, pelo cheiro tenho o todo. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres

51

Escrever para contar / dizer / fixar o que nunca aconteceu, nem acontecerá e está ali, derramado diante dos olhos como a nossa experiência, a vida que se alarga, “vida” no sentido narrativo…, pois é assim, escrever: derramar. A infância, bem como a memória, fontes de erros, enganos, ilusões. A imaginação é descaminho e confusão. Dor e envelhecer perfumam o agora, com um colorido inusitado, cheio de sol, sol de verão. E nada altera o sentimento de pertencer / depois perder / doer e depois doer / doer. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres

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A solidão tem ideias próprias, trajetos certos, conclusões absurdas. Não posso mudar, eu desconverso, finjo não ver nada, escuto música. Procuro pessoas, converso, dou risada. Não adianta, ela me espia, incrível, como insiste! Nem no sono ela me deixa: segura, agarra, e se explica. Não respondo. Igual, ela não vai embora, insiste. Ah! Estas coisas de não estares em casa…. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres