estranho que tenha sido exatamente assim, desespero de não saber mais o que fazer, então ele a deixou morrer / de alguma forma era o limite do limite de todos os acertos e de todos os limites que a vida deles significou… estranho porque dois anos ou três anos depois ele revisitou a história toda e decidiu que usaria, implacável, o sistema de justiça, não poderia privilegiar uma filha como tinham combinado. não faria isso, faria como achava que tinha que ser feito, igual. e assim o fez. como ele morreu? morreu sem medo… acreditou que a vida continua e que vamos mesmo nos reencontrar e responder por isso ou por aquilo num tribunal intimo e perfeito entre macieiras, pessegueiros, laranjeiras. nus todos, nus. bom que a gente cuide da pele, hidrate e proteja dos insetos, das contusões. neste lugar de responder e se olhar, olhos nos olhos, pediremos perdão e ou seremos apenas perdoados, talvez haja tempo para chorar. agora, foi assim, ela morreu querendo sair, querendo ser socorrida, mas ficou tarde…doeu outra vez, apertou o peito todo, gritou e morreu. ele sentou no sofá e se pôs a chorar como um menino, inconsolável, sozinho, perdido, triste, e magoado, olhando a companheira de toda a vida, a coragem, e a força se esvair… “revelação de falta de valor de uma alma. Os homens podem parecer detestáveis como sociedades anônimas ou como nações, pode haver patifes, loucos e assassinos, muitos homens tem rostos vulgares e magros, mas o homem como ideal, é tão nobre tão resplandecente, tão grande e esplêndida criatura que diante de qualquer mancha ignominiosa que sobre ele caísse, todos os seus semelhantes deveriam cobri-lo com os seus mais custosas trajes. Essa virilidade imaculada nós a sentimos dentro de nós, às vezes, tão dentro de nós, que permanece intacta quando todo o caráter exterior parece ter desaparecido- e é ela que sangra com a mais penetrante angústia, ante o espetáculo oferecido por por um homem de coragem arruinada.”(p.147) Herman Melville. depois ele fico imóvel muito tempo, e durante muito tempo chorou sozinho segurando os dois chinelos. era o fim. era o começo. era alguma coisa indefinida, inútil e triste. ele estava definitivamente sozinho. Sozinho com seus medos, seus sustos, seu amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres – muito longe da vida como deveria ser vida se estivéssemos todos juntos