culpada a mulher

Culpada a mulher.  Javier Marías faz uma nota ao final do romance para esclarecer o título Tomorrow in the battle think on me . Cena III do Ato V de Ricardo III Amanhã, na batalha, pensa mim -, frase que aparece muitas vezes ao longo do livro. Essas são e não são estritamente de Shakespeare, depende. Em certas ocasiões são citação textual, em outras apenas paráfrase. E há um adjetivo, ‘ferruginosa’, aplicado a uma lança, que não está em absoluto em Shakespeare, mas em Juan Benet e antes dele em Miguel Hernández. (p.376) Javier Marías

Quero impressão mais justa, apertada, concreta. Quero sair da raiva obstinação.  …,  estou arrependida de ter escrito/ dito que ele persegue/maltrata as mulheres. Repensar. Sem negar. Estou naqueles dias avizinhados de muito amor quando tenho vontade de bater xingar gritar, (pareço monstro! a escandalizar). Prisioneira. Assustada porque desavisada. E não quero ouvir nada. Digo que estás proibido de ficar doente, de morrer ou respirar. Estás proibido de pensar de engordar de emagrecer. Estás proibido de dizer. Vou bater, bater até doer muito. Depois tu / você pode chorar. Depois. Depois que eu chorar tudo que preciso chorar. De gritar até ficar exausta. Depois que eu mesma morrer. Depois …, tu/ você respira, ou choras / chora ou passa a sorrir porque me pensa/pensas. Depois …, ANTES estás / está PROIBIDO.  Vou para o vício, ler Assim Começa o Mal ou Enamoramentos, os livros estavam a me esperar na prateleira. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018

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marca venenosa

Marca …, imperceptível, ou adequada, ou nítida, perceptivelmente venenosa. Leitura, ato de coragem, de consciência. Perigo se desamor … “ Tudo se contagia muito facilmente, de tudo podemos ser convencidos, a razão pode estar sempre conosco e tudo pode ser contado se acompanhado da sua exaltação, da sua desculpa, de seu atenuante ou de sua mera representação, contar é uma forma de generosidade, de tudo se pode sair impune ou, ao ainda mais que isso, indene. ” (p.369) Javier Marías in Amanhã, na batalha, pensa em mim.  Referência rei Henrique IV in Falstaff de Shakespeare – a traição. O poder corrompe o amor. Não entendo.  E as mulheres carregam a culpa dos pecados.

Henry de Montherlant no Les Jeunes Filles: I Les jeunes filles (1936), II Pitié pour les femmes (1936) III Le démon du bien (1937) e IV Les lépreuses (1939) contamina as mulheres …, castiga, e por quê? Raivoso perigoso. CUIDADO com as LEITURAS …. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

 

Sempre a culpada, por mais rosado esteja a parede azulada …

“[…]como se nossas ações e nossa personalidade fossem em parte determinadas pela percepção que os outros têm de nós, como se chegássemos a crer que somos diferentes do que críamos ser porque o acaso e a passagem descabeçada do tempo vão mudando nossa circunstância  externa e nossas roupagens. Ou são os atalhos e os tortos caminhos de nosso esforço que nos mudam e acabamos acreditando que é o destino, acabamos vendo toda a nossa vida à luz do último ou do mais recente, como se o passado tivesse sido apenas preparação e o fôssemos compreendendo  à medida que se afasta de nós, e o compreendêssemos  totalmente no fim.” (p.152) Javier Marías – Amanhã, na batalha, pensa em mim

Apenas vou saber no ponto final. E na vida, e nas histórias, e nos encontros, e nas explicações, e no beijo, e no abraço, em tudo, … nunca quero chegar ao ponto final. E.M.B.Mattos

 

 

uma dívida

“Fico lhe devendo essa, não sabe como lhe agradeço. Fica me devendo a história, mais tarde […] sim, mais tarde – disse eu,  e pensei que talvez já estivesse devendo a muita gente, contar uma história em pagamento de uma dívida, ainda que simbólica ou  não cobrada, ninguém pode exigir o que  não sabe que existe e de quem não conhece, o que ignora que aconteceu ou está acontecendo, e portanto não pode exigir que se revele ou que cesse.” (p.123) Javier Marías – Amanhã, na batalha, pensa em mim

E porque as histórias não podem ser contadas se apimentam, e se apertam em conversas idiotas, constrangidas dentro de outras histórias incontáveis, proibidas. Gaguejantes, ou confessionais. Espremo entre uma risada e outra, uma explicação idiota, ou uma observação mais descabida ainda porque, afinal, … não quero dizer nada do que disse, ou do que penso, ou sei. Não fui ao cinema, não terminei nenhum livro, cansei da fuga de Salman Rushdie, e sei que sobreviver não é viver quando amor não é paixão, e sei também da preguiça, da nostalgia enfiada na lentidão do dia, e na inquietude úmida deste londrino cinzento torrense. Tenho pressa. Que a noite chegue noite, depois sinto medo de te esquecer, que seja logo de manhã e … Sim, eu me agarrei nesta não história obsessiva que me emprestaste, confessional, irreverente. E em todas histórias que deixei para viver depois, depois e depois, não aconteceu, ou como neste livro:  imprevisto, impremeditado, ou inevitabilidade. ‘Não procurei, não quis.’ Ou quando as coisas saem mal. Fico pensando o que significa mesmo sair mal. Deixar de acontecer? A vida tem aquele caminho florido certo absoluto que segue ao temporal, tufão, furacão.  No entanto, tu sabes, eu sei como foi/ ou o que deixou de ser: eu te vejo. Tem um café na rodoviária, no aeroporto, um beijo, um avanço ou um recuo. Na verdade, tem a droga do tempo e da idade e da memória que  nós dois não perdoamos. Elizabeth M.B.Mattos – Torres – 2018 e, a bem da verdade, não tiveste medo. Nunca tiveste medo, nisso eu te admiro.

trivial

…sim, é o que penso, ou sinto, nem sempre digo. Amanhã, na batalha, pensa em mim  título síntese. Ou nada, sempre, fomos JAVIER MARÍAS. Alguns/ certos autores, não digo, nem escrevo penso, transcrevo. É o jogo. “Nós nos envergonhamos de coisas demais, de nosso aspecto e crenças passadas, de nossa ingenuidade e ignorância, da submissão ou do orgulho que outrora mostramos, da transigência e da intransigência, de tantas coisas propostas ou ditas sem convicção, de termos nos apaixonado por quem nos apaixonamos e termos sido amigo de quem fomos, as vidas frequentemente são traição e negação contínuas do que houve antes, adultera – se e deforma -se  tudo conforme vai passando o tempo, e no entanto continuamos tendo consciência, por mais que nos enganemos, de que guardamos segredos e encerramos mistérios, embora a maior parte seja trivial. Como é cansativo mover -se na sombra ou, ainda mais difícil, na penumbra nem uniforme nem igual a si mesma, para cada pessoa são umas as zonas iluminadas e outras as tenebrosas, vão variando seu conhecimento, os dias, os interlocutores, as ambições, e nos dizemos constantemente: ‘ Já não sou o que fui, dei as costas a meu antigo eu'” (p.230-231) Javier Marías outra vez, outra vez. E as leituras se completam. Seu Rosto Amanhã, a trilogia, se esparrama nas muitas citações. Como pude esquecer que este livro … bem, este tu podes ler, por favor, sem saudade. Amanhã. Não me esquece. Elizabeth M.B.Mattos – setembro 2018 , – não sei nada de nada. Aprendi a lição de ler em ti o que sou. Somos.

assédio

1.

Faço a mudança quarta-feira. Caixas fechadas. Tempo estacionado. O sofá não me deixa dormir, preciso de cama desarrumada, com travesseiros, dois, ou três, cheia de cobertas. Cama é uma boa palavra. Os gatos seguem a conversar durante a noite. Não quero cães, nem gatos, nem ratos, nem passarinho piando. Não sei exatamente o que eu quero. Talvez … (risos). Que não me perguntem em quem vou votar, se o Brasil merece isso ou aquilo. Não diga nada. De preferência nem olhe nos meus olhos. O apartamento parece/está apertado. Vou sentir falta dos jasmins. Vou sentir falta de mim mesma. Alguém bateu na porta. Controlei o meu ímpeto de deixar tocar, deixar chegar, deixar sair, deixar acontecer apesar de … (risos), vou abrir. A Lispector tinha razão quando se debruçava nela mesma para escrever, e se escondia no escuro. Todos devem ter minimamente razão quando dizem basta, chega, não quero, não vou. Estranha e parcial decisão. Nem eu entendo … Assédio. Tudo se trata de assédio. O outro faz a diferença nesta corrida de obstáculos. Nada farei, nem exercício, nem maratona, nem matemática. Não darei nenhum passo. Vou me mudar. Sair do planeta e pronto. Sem endereço. Uma cama, um amontoado de ideias com tinta, invento. Adoro esta palavra cama …, ama,  caixa, isso. Deita. Abraça. Pega. Segura. Chega. Vou beliscar, arranhar, bater. Chega! A palavra era/ é  C A M A. Comprei dois galões, pincel, o rolo … Guardei aquele caixote. Ah! Gosto da cadeira de madeira, espaldar reto. E a mesa da cozinha com aqueles dois gavetões vai me servir também. Não sei porque L. conseguiu escolher um estofado tão demais e muito tão horrível! Fico com ele, e vou me espantar com estas flores amarelas e este roxo gritando. Fecho os olhos. Vou carregar o vaso, plantar um verde qualquer … que não seja exigente e tenha cheiro de flor. Não será iluminado envidraçado, nem ventilado. Céus! Como é mesmo aquele apartamento? A porta! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018

COZINHA LABORATÓRIO

de mãos vazias

Gosto em ti tudo o que não conseguirei ser. Gosto do poder que tens de dominar / jogar. Gosto da sedução e como ousas ousar. Outro campo outro cheiro, outro interesse… Gosto. Da estranheza. Justamente, ou exatamente o que não temos, o que não é meu, nem teu. A voz me atrai. A diferença. Se sou tímido quero alguém extrovertido, se sou nostálgico quero alguém no agora, ou no amanhã. Se gosto de ler, quero alguém que fale / diga. Quero conviver (viver com, junto), não me isolar. Se sou desajeitado, quero um alguém de soluções. Sem mesmice, mas prazer… Volto vou e me deixo ficar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro – 2018 – Torres

[…] “o país dos sonhos, que nos dá a ilusão de ser ilimitado e de mudar constantemente, tem na realidade apenas alguns caminhos curtos, fixos e conhecidos, percorridos por todo o mundo e nunca ultrapassados. Os homens podem ser muito diferentes, seus sonhos não o são: neles obtêm sempre as três ou quatro coisas que cobiçam – mais ou menos depressa, mais ou menos completamente, mas sempre -, pois ninguém sonha em ficar realmente de mãos vazias. Eis porque ninguém descobre a si próprio quando sonha de olhos abertos, ninguém toma consciência da sua personalidade; de nada adianta a imaginação quando se trata de antever a satisfação de conseguir o que desejávamos, a incapacidade de reter o que nos escapa, o prazer que nos enfara, a direção para a qual nos voltaremos quando começarmos a sentir falta do que perdemos.” (p.125) Jens Peter Jacobsen (romancista dinamarquês do século XIX (1847-1885) NIELS LYHNE

editado pela Cosac & Naify na Coleção Prosa do Mundo – escreve Rainer Maria Rilke: “Agora se lhe revelará Niels Lyhne, um livro de esplendores e profundezas. Quanto mais o leio, mais tenho a impressão de que tudo está aí dentro, do perfume mais discreto da vida ao sabor pleno e forte se deus frutos pesados.”