meu querido: escreve logo. aqui o sol voltou, o frio se instalou. engraçado mencionar o tempo, o excesso de calor, o excesso de frio me encolhe. não se trata de escolher, mas suportar. o que acontece? com os anos a me engolir / e com pressa… eu me assusto, ou seja, eu me espanto mesmo… era tão fácil! tão fácil! coragem vizinha do susto me abençoava com força. lágrimas levavam… modificava tudo, e, ser criança era era ser forte. ser / ter e descartar… viver. querido, pois é assim, eu espero tua carta com ansiedade, sem nenhuma calma. estás comigo, estou contigo no silêncio que se chama vazio. não consigo intelectualizar. quero que escrevas, que venhas, que sejas, que me digas… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 – Torres
importa Eduardo
O que importa de ler ou escrever / importa o passo em direção ao outro, a revelação ou exposição feita / somos caramujos, carregamos a casa /esconderijo o tempo todo… (muito bom voltar a conversar contigo hoje). Escrever é aquele ato corajoso de deixar ‘escorregar’ um pouco do que somos, o todo, nem nós mesmos sabemos, assim, um pedacinho é muito. Quando alguém lê, alguém responde, sorri ou chora a mágica foi feita: somos.
Abro o livro e leio as referências feitas a nossa juventude. Tirei toda a roupa sim / mas não aconteceu nada / certo ele // eu era a menina apaixonada, fui a mulher e fui mãe e fui uma vida desoladamente apaixonada por ele / a gente atravessa o tempo assim, em estado de amor. // procurei agora o número do telefone / queria lhe dizer… o quê exatamente, não sei. E fico irritada porque ele escreve Betina / nunca, nunca ninguém me reconheceria neste diminutivo /talvez quisesse escrever Betinha / sempre me chamou de Betinha / que me ofendia um pouco por eu ser desabrochada no meu encantamento por ele.
abrindo o livro / voltando assim no tempo releio: (p.300- 303)
“Não vou deixar de comentar as 14 cartas de uma querida prima, muito bonita, morena de olhos verdes, mais jovem do que eu, o que eu espero que ela releve.
Beth Mattos era a mais nova das três irmãs. A mais velha talvez fosse um pouco, um ano, eu acho, mais velha do que eu, e todos brincavam que eu gostava dela a ponto de eu acreditar nisso quando eu tinha uns dez anos e, meio envergonhado, não me aproximar muito. Depois tinha a do meio, que era com quem eu brincava desenvolto. A Beth era a pirralha, a mais dependente dos pais, e regulava em idade com meu irmão, uns quatro anos mais jovem do que eu.
Ela tinha interesse em literatura e desenvolveu o lado romântico e sonhador. Quando fui pro Amazonas ela estava noiva de um amigo meu. Começou a me escrever como a um irmão que ela não teve, dizia, falando de suas inseguranças.
No entanto, alguns meses depois, houve o rompimento com seu noivo, aliás, filho de um político importante do PTB do Rio Grande do Sul. Escreveu páginas sobre esse sofrimento em várias cartas e seu esforço de recuperação da autoestima. Até que resolveu passar um período distante do seu ninho familiar no Rio de Janeiro. Lá conheceu um filho de Vianna Moog, o escritor ensaísta de Bandeirantes e Pioneiros, e com quem ele viria a se casar, cessando nossa correspondência.
Por coincidência, eu tinha levado esse livro para Boca do Acre e lido os dois primeiros capítulos. Não tive como não dá-lo para o deputado Renato, quando ouviu que já lera.
Beth passaria a morar no Rio. Para satisfazer curiosidades, conto que apesar disso não a encontraria mais antes de sua separação, quando seu filho mais velho tinha uns 8 anos. Continuava bonita, alegre e comunicativa. Nada demais, continua hoje uma mulher bonita e sensível, que adora literatura.
A Beth casaria, pois, muito cedo, como aconteceu com minha irmã, e certamente acontecia com a maioria das mulheres, interrompendo assim seus estudos formais e entrando na saga de do cuidar de filhos sob dependência econômica, numa sociedade atrasada e estado omisso. Mas a separação sociais ou a viuvez nas classes médias fazia esses mulheres se desdobrarem e voltarem a estudar, formando-se mais tarde, já que contavam, via de regra, com apoio familiar. Já era um novo comportamento. Percebo que aqui tenho um registro histórico e antropológico de 50 anos atrás face a um problema de gênero ainda presente, que determinou mudanças no comportamento das mulheres e o aparecimento de movimento importante no seio da sociedade brasileira.
Avançamos bastante nisso, nossas filhas solteiras já compõem cerca de 50% das classes médicas, por exemplo, quando na minha turma de faculdade eram apenas 5% ( uma delas já fez o curso casada).
Há muito a cuidar nas classes populares, onde a inexistência de apoio familiar, nas grandes cidades, e do apoio devido acaba por levar as mulheres ao mercado de trabalho e à marginalização de suas crianças de modo definitivo.
Lembrar a campeã em cartas daqueles cerca de oito meses de correspondência me dá também a oportunidade para falar do livro do seu ex-sogro, e da sua utilidade para entender essa floresta amazônica.
Vianna Moog era gaúcho e apoiou a revolução de 30, mas logo tornou-se crítico de Getúlio e participou da contra revolução de 32. Acabou preso e anistiado, tendo passado alguns anos no Amazonas e outros nos Estados Unidos. Lá, fez as observações do livro que citei, publicado em 1954. Agora penso em relê-lo de novo.
O sumário que retenho na memória por mais de 50 anos dá conta da condição ambiental para o desenvolvimento. Para muitos brasileiros mais instruídos, o brasileiro preguiçoso, descendente de portugueses desregrados, é o culpado por nosso atraso. Ah! Se os anglo-saxões tivessem aportado aqui! tudo seria diferente, como o é nos Estados Unidos da América. Um colega meu chegava a propor que o Brasil contratasse uma administração holandesa para tentar sair do atraso. – Afinal vejam o tamanho daquele país e seu poderio econômico! – Até hoje temos de aguentar essas asneiras repetidas sem fim.
Vianna Moog faz observações decisivas e documentadas (Moog, 1961). Com a vitória na guerra de secessão, houve uma emigração americana de famílias de ricos e laboriosos adversários políticos da nova ordem. Um contingente deles veio para o Brasil, dividindo-se em dois grupos: um foi para o Amazonas e outro para São Paulo.
Todos sabem o que aconteceu com os que foram para São Paulo. Se consolidaram como uma comunidade influente economicamente no interior do estado, onde o município de Americana subsiste por sua origem. Não formaram comunidades em termos de prosperidade no entanto, tão diferentes das que vieram formadas por pobres camponeses da Itália, por exemplo.
E o que aconteceu com os que vieram para a Amazônia? À primeira vista, sumiram. Vianna Moog encontra alguns poucos descendentes, entre eles, caboclos de olho azul e nome estranho. A floresta os engoliu. O modo de produção extrativo foi o caminho possível da subsistência.
Valia contar. Obrigado, Betinha, por me fazer lembrar disso.
A associação de idéias me leva a outra carta, de um político também já falecido que teve uma trajetória como a do Vianna Moog. Revolucionário em 30, se tornaria crítico também de Getúlio Vargas. Foi o importante Secretário de Educação do Rio Grande do Sul, marcado por tornar obrigatório o ensino de português nas escolas do estado. Deputado Federal pelo Partido Libertador, dissentiu do golpe de 64, saindo da vida pública. POr relações familiares distantes, ele era o “tio” Coelho – José Pereira Coelho de Souza. Foi também o sogro da minha irmã.
Reproduzo, para mostrar o sentimento de brasilidade de uma geração desaparecida, da qual somos órfãos, trechos da carta de cinco páginas datilografadas que me enviou. (p.303)
Não vou reproduzi-la embora a minha vontade seja essa. O livro do Eduardo Azeredo Costa deve estar nas livrarias. Fica aqui o beijo, a fantasia – a palavra (liguei ansiosa para ele) – a retomada do seu livro, o segundo. Saudade tem este gosto de memória que pode ser hoje. Obrigada Dado! Ainda estou aqui a te esperar. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 Torres
estás
e tu não existes por que eu existiria? apenas pra te criar / agora que foste , eu me inquieto cada dia // cada minuto me aflijo porque não estás / depois / acalmo o amor e te respondo / reviro a vida e no ontem dentro deste hoje eu te beijo no amor de amar! tu estás no silêncio de existir, respiras! Beth Mattos
vida /medo /empate /eu jogo
sou eu? citações, o mesmo…
o que se pode escrever? pensar e mergulhar, sobreviver… de repente a vida não é só enxaquecas e depressão, nem caminhar no jardim florido, ou escutar Chopin ou comer um bolo. ou não fazer nada. ou colher alfaces da horta. ter saudade da rua Vitor Hugo, seguir no bonde com a tia Joana pra Escola Estadual Rio Branco. lembrar do internato nas cônegas / na aulas de piano, nas missas em gregoriano e imaginar… assistir futebol e torcer pelo Brasil. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres / vai começar o jogo…
Estás toda iluminada hoje. e isso torna-te mais pela ainda. E Mancha também é linda. e Andrei seria belo também, se não houvesse engordado tanto. a gordura não lhe vai bem. Mas eu… eu envelheci. Emagreci demais. talvez porque me irrito muito na escola com as minhas alunas. Deve ser isso mesmo: hoje estou, que estou livre, fiquei em casa, não tive dor de cabeça e sinto-me mais jovem do que ontem. Só tenho vinte e oito anos… Tudo vai bem, tudo vai segundo a vontade de Deus. No entanto, se eu me cassasse e pudesse permanecer em casa, parece-me que as coisas correriam melhor (Pausa.0 Eu haveria de amar meu marido. (p.10) Anton Tchekhov As três irmãs
volto a ler…volto a ficar, como posso dizer, intensa com a leitura / descobertas, reencontros.
Dentro de duzentos ou trezentos anos, a vida na terra será extraordinariamente bela. O homem tem necessidade dessa vida e, se ela ainda não existe, deve pressenti-la, esperá-la, sonha-la, preparar-se para recebê-la e para isso procurar ver e conhecer mais do que viram e conheceram seu avô, e seu pai (ri) E vocês lamentam conhecer coisas supérfluas! (p.32)
sem explicação
chegar perto, responder, fazer: armas ou bandeiras. pois é, amar não tem receita: crescer, ser pessoa, ser apenas tu / bem do jeito que és / cheio de contradições… mas és tu, meu amado. complicado ter coragem de ser / porque nunca estamos acertando, estamos apenas sendo… o que é preciso? trabalhar, agir, ou se deixar ficar na alegria de viver, sem esquecer, o sol / a chuva, as vozes e os prazeres, o toque somos nós a nos mexermos. confia. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres

12 de junho
bom enfeitado e perfumado dia / um pouco de sol / depois um pouco de chuva / ainda não aquece e congela no mesmo dia… mas todas as estórias se complicam animadas no que é história / namorar segue sendo muito bom! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres
intocável
tocar um instrumento, tocar alguém, tocar a vida, tocar / ou fazer acontecer… qualquer coisa assim (deste jeito sem palavra).tocar letras / fazer acontecer palavra: ponte, o outro lado, estender a mão… intocável sentimento, incomunicáveis emoções… como é mesmo que posso dizer o que eu sinto? será que eu sei exatamente a dimensão? por que o braço dói, a cabeça aperta. eu sinto o frio de dentro pra fora. o gelado vem dos ossos… o frio é um galope. a pele pode ser um tecido extremamente leve. o suor joga pra fora, o frio recolhe. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 – Torres / muito frio, bastante
fio desencapado
fatal pode ser um fio desencapado / a corrente está passando e ele esticado a nossa frente… a explosão tira tudo do lugar, desarruma o mundo / a hora. tem qualquer coisa, ou muita coisa de macabro no amor ou na falta de amor, ou deve ser na solidão… no desequilibro da vida, dentro da perda / talvez naquilo que a gente pense ser mundo / mas a/ é a loucura disfarçada / a doença das relações. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 – Torres ( 14 horas )
JCKCLJAKGLFHTS
Sonhe um breve sonho comigo. Lá… Se é sonho tudo pode porque nada é. Sonho caminha, olha, entende, faz visita. Depois tu esqueces o sonho, o pensar e tudo, afinal, sonho é sonho… Anjos tem penas, por isso voam… Desejo, sonho, destino e eu a te pensar, ainda.
Faz frio. É inverno por dentro e por fora. Quero escrever sobre o que aconteceu, mas está tudo travado, demora para amanhecer e o corpo inteiro faz dor… De repente a gente envelhece. Sim, de repente. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres
Eu penso que vou escrever, vou contar como foi acordar, pensar… Caminhar. Está dolorido por dentro, outra vez eu transformo tudo em bordoada. Esqueço que viver é um suspiro de alegria e espanto. Escrever, uma rotina. Não pode escapar o minuto, a hora, o tal tempo. O principal, escrever, pensar, reescrever e contar tudo outra vez. Não é tudo, (risos) esquecemos, propositalmente, detalhes, esmigalhamos tragédias ou… Preciso deixar as frestas e escancarar as janelas.
Voltar a ter rotina. Beth Mattos