extravagância do medo

Estou no 28 de setembro 2025 amanhecer começa a ser perfeito / mas não me habituei a escrever com leveza por aqui / na verdade, estou precisando tudo atualizar. sigo com a ideia: ditar uma história / contar as coisas do meu jeito / voar /mais como altura sem, sem reservas / não sei se eu vou conseguir // mas eu gostaria assim/ livre. menina pequena: coisas imaginadas. a casa da Victor Hugo o tempo de ir pro colégio / o internato / a vida nas cônicas de Santo Agostinho Agostinho, as madres agostinianas // a importância desse/deste período. aulas de piano, minhas tentativas de costurar cozinhar. o que, realmente, ficou? acho que aprendi a cozinhar/ limpar// não sei costurar não sei pintar ou desenhar nem escrever: passo trabalho / não sei tocar piano / depois de oitenta anos? gosto da vida e de respirar / escrever e ler e ler! gosto da música e de chuva também. gosto de gostar e eu me apaixono um milhão de vezes ou muitas vezes / de amor de cheiro e tato, eu gosto! gosto de gostar!

12 de outubro / domingo / outra vez o domingo / a mãe morreu neste dia / já estou mais velha do que ela… pensei na mãe e no pai / é claro, na rua Vitor Hugo 229 / a casa ainda está lá / as pedras / as paredes / as árvores e os gramados / os alpendres / a infância / os sonhos e as boas experiências de crescer / quero minha vida de volta / meus hábitos / uma rotina em que eu respirava. / e sentia o dia feliz.

Torres / 15 de julho de 2026 // ainda com sol // e frio // hoje menos gelado. Eu tive uma queda horrível / tropecei num fio // e fiquei horrivelmente violeta / agora me dou conta que tenho “uma bola” na minha sobrancelha direita // que medo tenho da doença / de morrer não sei // mas do penoso que “o errado” carrega // acho que isso se chama envelhecer / o medo / medo do remédio / da cura / da intervenção// uma súbita covardia // sentimento péssimo // não é aos pouquinhos / é de repente! talvez o cansaço como um mal incurável! viver é este vagar que súbito fica acelerado numa consciência ativa // um passo diante do outro // mas os tropeços as quedas assustam… uma noite mal dormida – um dia perdido // uma incerteza que galopa // assusta! que medo eu sinto! pequenas canções me acalmam // a música tem um efeito extravagante ( pode ser ) // os jovens metaleiros e agitados // remexidos pelas baterias! isso me assusta também// não são as cascatas / nem água correndo no rio // nem excesso de chuvas mas excesso de medo//// e tanto ruindo / tanto agito! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2026 – Torres / claro! hoje senti saudades da ONYX!

área de serviço

tão importante quanto sala e quartos / área de serviço importa //desprezar / minimizar o lugar de colocar “as intimidades” da casa é como… nem sei explicar // sim, hoje temos tele entrega pra tudo / não precisamos nem cozinhar, nem pensar, e pelo visto, nem lavar roupa / vou fazer uma caminhada e… lamentavelmente, o visual dos prédios! os varais de roupa enfeitam as salas / não consigo me acostumar // encolhem as áreas de serviço mas as pessoas convivem com roupas penduradas no seu estar // sei lá… talvez herança italiana janelas como bandeiras… lá, muito pitoresco! aqui não é o grito da alegria, mas o descuido ao planejar… eu acho. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2026 – Torres (abençoados arquitetos!)

rejeição

pequena ou grande, imóvel ou a se movimentar / explode…

chega de um olhar depois atropela. eta! sentimento pesado! sei de sentir / e quem recebe entorta. nos cães podemos analisar o comportamento / o preferido, o rejeitado… nas crianças a rejeição tem o peso de um elefante / incalculável / vai saindo do caminha, da estrada, segue atalhos. vivi as minhas / períodos distintos /, um fato apagando o outro, ou borrando um pouco… a que me persegue foi a do noivo a desmanchar o compromisso meio do nada / sem explicação lógica. entre um beijo e um abraço o pai do moço foi conversar com o pai da moça / desfeito. bem, eu era virgem, seria este o motivo? falta de virilidade? nunca soube. na época eu tinha belos fartos cabelos / saúde e sorriso fácil. Que CAVERNOSO encontro neste desencontro!

história de contar, daquelas misteriosas, incompletas… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2026 – Torres com sol, inverno um pouco menos: casa limpa, dever florindo e boas ideias!

lençol perfumado

lençol perfumado / estala o prazer do aconchego e o livro certo na hora inquieta! gosto de viver… colorido este tempo frio das mantas quentes / lágrima pelo que sofre sem abrigo // a gente reclama… deveria ser mais para todos. dividido, eu sei. Elizabeth M.B. Mattos – julho – num repente, nostalgia! 2026 – Torres

meias quentes

meias quentes ou não / coloridas / ou pretas ou brancas / as meias de lã do inverno! ando às turras com o inverno!!!! não deveria / deveria ter o gosto da infância, da calçada da rua Vitor Hugo, sei lá / das lareiras acesas / do cheiro da lenha / dos nós de pinho chorando, mas o que tenho sentido é bem diferente / nenhuma nostalgia / apenas frio… e a minha ‘carioquice’ grita… no Rio de Janeiro o inverno ensolarado é ocasião pra vestir um casaquinho / enfeitar o corpo com golas e mangas e o tal friozinho é festejado. como não rodei mundo, nem viajei muito / as idas ao Uruguai e Argentina foram no verão / vi os lagos…até estive numa neve quente em algum destes lugares… deve ser coisa do tempo passando… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2026 – Torres

obsessão

“O amor ao livro e o hábito da leitura vêm de longe e constituem um dos interesses centrais da minha vida. Esses interesses poderiam ter sido atendidos sem que tivessem resultado numa biblioteca de proporções talvez excessivas, se eu me tivesse sempre limitado aos livros que conseguisse ler, comprando um livro de cada vez, e só comprando o seguinte depois de ter lido o anterior. Mas não foi o que aconteceu.

O livro exerce uma atração multiforme, que vai muito além da leitura, embora esta seja um ponto de partida fundamental. Em primeiro lugar, existe sempre a ilusão de que se vai conseguir ler mais do que na realidade se consegue. Depois vem o desejo de ter à mão o maior número possível de obras de um autor de que se gosta – já é o começo de uma coleção. Conseguindo o conjunto possível, surge o interesse pelas primeiras edições […]” José Mindlin Uma vida entre livros Reencontro com o tempo

[…] primeiras edições, geralmente, raras, e a atração pelo livro como objeto, e também como objeto de arte, em que entra a qualidade do projeto gráfico, a ilustração, a diagramação, o papel, a tipografia, a encadernação; e aí já surge a busca da raridade. Quando se chega a esse estágio, aquele que pensava em ser na vida apenas um leitor metódico, está irremediavelmente perdido. Sua relação com o livro passa a ter uma dimensão quase patológica, pois a compulsão de possuí-lo é mais ou menos irreversível ( mais mais do que menos ).

Ele é ótimo! Como me identifiquei! Claro! Minhas proporções emocionais / não reais // mas as coisas de ler ler e ler estão no que ele escreve. ” O que não gosto, e raramente acontece, é de ler por obrigação.

Desconfio dos livros de sucesso, e desses, em geral, só vou ler os que tiveram um tempo de decantação. Se os próprios escritores, especialmente os principiantes, pusessem o livro na gaveta […] reconheço que isso é meio utópico. […]

Procuro, neste assunto, ter em mente a frase de Thomas Mann, segundo a qual a leitura de bons livros deveria ser proibida, porque existem os ótimos – mas não sou tão radical. Há muitos livros apenas “bons” que merecem ser lidos, e nem sempre o bom e o ótimo são classificados uniformemente por leitores diferentes.

Não gosto de livro difícil, a não ser excepcionalmente, e só com boas razões. […]

Aqui ele conta / explica os motivos e quais autores importam / depois cita Montaigne (Segundo Livro dos Ensaios):

‘Quando encontro dificuldades na leitura não me preocupo demais, pois se insistisse perder-me-ia e o meu tempo; meu espírito é de compreensão imediata. O que não entendo a primeira vista, entendo menos me obstinando, não faço nada sem alegria.’

Não faço nada sem alegria diz/ escreve Montaigne // aqui o grande segredo // parece meio categórico ou impossível, mas é o segredo de viver / da leitura / até da preguiça / de fazer a comida, de cuidar de um filho, de tagarelar na esquina, de beber um copo d´água, de comprar frutas, ou se deixar fazer nada A L E G R I A ALEGRIA

Alegria é a palavra mágica tanto no frio quanto no calor // a pequena descoberta é a grande e fantástica alegria… IMPULSIONA

Les difficultez, si j’en rencontre en lisant, je n’en ronge pas mes ongles. je les laisse là, après leurs avoir fait une charge ou deux. Si je m’y plantois, je m’y perdrois & le temps: car j’ ay un esprit primsautier: ce que je ne vois de la première charge, je le vois moins en m’y obstinant. Je ne fais rien sans gayeté” (primeira edição de 1588)

UAUU! ALEGRIA sempre. Elizabeth M.B. Mattos julho de 2026 Torres

risadas

gosto bom de liberdade frouxa… envelhecer tem este sabor doce. o picante agita por dentro. qualquer caminhada, qualquer fazer reabilita as vontades… eu posso, eu consigo. a casa me agrada, o verde me atrai, plantas conversam. a desordem discute comigo…dou risadas. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2026 – Torres