PETER PAN

Peter Pan tem razão… As histórias podem ser boas, as noites passam fáceis, mas voar é muito melhor… Estar apaixonado, aceita: a voz doce, a certeza, o aconchego do quarto, mas o mundo…, o mundo, os mares, o capitão Gancho, o tic-tac do jacaré, ah! Crescer deve ser bom, mas não tanto assim… Apaixonar-se é ter amarras… e também sofrer…

Quero muito, muito mesmo voltar nas histórias, depois de dormir, de descansar, de acreditar, ouvir, chorar no teu abraço… Ah! como tenho sentido saudade! Misteriosa saudade lacrimejante, mas ainda não abri a porta, está chaveada. Espera, amanhã eu vou estar melhor, amanhã… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2026 – Torres chuvisca, chove, molha, depois seca, depois chove outra vez… incerto, és tu. Um beijo

confissão de amor para FRANCISCO – SACI e as histórias

cheiro e gosto das conversas de verão, ou não era verão? nós dois a falar e a falar, era agosto, era choro de amor de teu consola nas minhas lágrimas: consolo, não sei, era Francisco e eu. tu e eu juntos a recordar infância -, adultos, machucados nós nos amamos. os caixotes e as árvores de Ipanema / gosto e cheiro de nós dois a brincar de casinha, nós dois… e nos reencontramos. Porto Alegre nos escondeu? guardou / guarda / segura este amor juvenil desencontrado e achado. casaste com uma Elizabeth / viveste uma vida bonita! misturados nós dois, Francisco e Elizabeth. semente amorosa gaúcha por inteiro. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres – um beijo

malheur de aimer

dores de amar, cores de arco íris // do dia: couleur d’ orange / cor de laranja, azul, cinzento e o preto da noite e o amarelo do sol: vida vida e amor! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres e também o gosto do sono nos teus braços, meu querido!

transparente ou invisível

a gente quer ser tanto como o outro, ter o que o outro tem, parecer -se com o outro, ser mais do que o outro, entristecer por causa do outro. comer o que o outro come. vestir a moda, pentear-se como o outro, amorenar-se ao sol como diz a saúde e a medicina. o dinheiro faz bem isso tudo. os mesmos jardins, os mesmos envidraçados, as mesmas casas lisas, suntuosas, os muros de vidro, para que tudo seja tropicalmente visto… a mesma imponência. salvam-se as flores e as árvores, eu acho, porque são feitos experimentos e mutações. (rosas azuis) e tal gosto tropical pelos coqueiros e palmeiras, o toque do dinheiro. resultado: transparente e invisível as pessoas, as moradas. desapego do passado, perfeito, e viva também o porcelanato! um hoje limpo e transparente, invisível e psicanalisado: perfeito. para todos o mesmo ócio / as mesmas magníficas contas bancárias! (ah! se o que escrevo fosse verdade! O admirável mundo novo e A Ilha de Aldous Huxley e…) Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

  • bugigangas diferentes! uauuuuu!

incoerência

pilhas de livros: nuit blanche / entusiasmo perfeito a pensar o tempo de devorar livros / os mais importantes / mais intensos / proibidos. leituras inquietas, azuis, bordadas, e completas. violetas margaridas debruçadas. certeza que não haveria tempo para completar desejos / nem usar os pincéis: cores inquietas saltitantes se agitavam… traduções preciosas, e muito francês. seguia o conselho dos professores: não interrompa leitura, anota e segue, nem soluça, leia… pausa de tudo, acelerar e pensar, refletir, escolher. tempo de ser gente grande, abençoada lua. aos vinte anos passam intensos os trinta nos abençoam e os quarenta ficam vermelhos amarelos e maduros. ah! o tempo! escolho o livro devagar, não passei pelos que pretendia ler, não aprendi como imaginei. tropecei no português, em mim mesma… escolhi autores. eu me apaixonei por este, aquele. indefinidos. eu me apaixonei pela alma. sem tempo, reli meus autores, amei os amados, os certos? Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

deixou morrer

estranho que tenha sido exatamente assim, desespero de não saber mais o que fazer, então ele a deixou morrer / de alguma forma era o limite do limite de todos os acertos e de todos os limites que a vida deles significou… estranho porque dois anos ou três anos depois ele revisitou a história toda e decidiu que usaria, implacável, o sistema de justiça, não poderia privilegiar uma filha como tinham combinado. não faria isso, faria como achava que tinha que ser feito, igual. e assim o fez. como ele morreu? morreu sem medo… acreditou que a vida continua e que vamos mesmo nos reencontrar e responder por isso ou por aquilo num tribunal intimo e perfeito entre macieiras, pessegueiros, laranjeiras. nus todos, nus. bom que a gente cuide da pele, hidrate e proteja dos insetos, das contusões. neste lugar de responder e se olhar, olhos nos olhos, pediremos perdão e ou seremos apenas perdoados, talvez haja tempo para chorar. agora, foi assim, ela morreu querendo sair, querendo ser socorrida, mas ficou tarde…doeu outra vez, apertou o peito todo, gritou e morreu. ele sentou no sofá e se pôs a chorar como um menino, inconsolável, sozinho, perdido, triste, e magoado, olhando a companheira de toda a vida, a coragem, e a força se esvair… “revelação de falta de valor de uma alma. Os homens podem parecer detestáveis como sociedades anônimas ou como nações, pode haver patifes, loucos e assassinos, muitos homens tem rostos vulgares e magros, mas o homem como ideal, é tão nobre tão resplandecente, tão grande e esplêndida criatura que diante de qualquer mancha ignominiosa que sobre ele caísse, todos os seus semelhantes deveriam cobri-lo com os seus mais custosas trajes. Essa virilidade imaculada nós a sentimos dentro de nós, às vezes, tão dentro de nós, que permanece intacta quando todo o caráter exterior parece ter desaparecido- e é ela que sangra com a mais penetrante angústia, ante o espetáculo oferecido por por um homem de coragem arruinada.”(p.147) Herman Melville. depois ele fico imóvel muito tempo, e durante muito tempo chorou sozinho segurando os dois chinelos. era o fim. era o começo. era alguma coisa indefinida, inútil e triste. ele estava definitivamente sozinho. Sozinho com seus medos, seus sustos, seu amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres – muito longe da vida como deveria ser vida se estivéssemos todos juntos

por que eu não consegui/

por que eu não consegui e não conseguiria mais ser uma pessoa normal, no ritmo de vida comum, normal, entre pessoas e… pois é, posso apenas me apaixonar, me erguer, ou em entregar numa loucura de amor, nada mais do que isso… ou tentando isso dançar! em que momento eu me transformei em folha? as cores se alteram: verde, amarelo, marrom. uma árvore fica cor de rosa como as cerejeiras… aquela flor pequena… posso cair no rio e ir indo, chegar no mar? uma folha! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

posso ser eu posso ser tu, posso ser nós num momento de sol, numa chuvarada de verão… posso, eu posso querer, estudar japonês, voltar ao francês e chegar em New York / voltar a Limoges ou atravessar o Uruguai, outra vez. metas de sol /de ser feliz!

sempre assim?

Como menina fui sempre quietinha / no colégio, internato, quietinha… Na vida, quietinha / acho eu… Quem me conheceu confirme, sei lá, o que se entende por quietinha? Brinquei muito na calçada, na piscina do clube, no verão, no inverno, indo e ficando. As árvores mágicas: vontade de subir e medo de cair. Muros? O bom limite. Em casa, quietinha, talvez por ser a mais nova, muita gente adulta, irmãs tão mais velhas! Naquela época seis anos já fazia diferença, hoje emparelhamos… Preciso de/do sinal verde: embalo das pessoas, é claro. Então, nem me dou conta, viro papagaio cheio de ideias e vontades de falar fala falar, rir e brincar, a Beth, Elizabeth (para a mãe e o pai) quer participar, ajudar, ceder, sei lá…. Mas se colocam o pano na gaiola durmo… Temos uma gaiola limite… Eu acho. Ah! O tempo de dormir… Quero dizer de ter sono em qualquer lugar! E o mundo? Sempre fascinante na minha visão -, bem na medida de mundo: jardim, calçada, no triste / no decepcionante, gente, silêncio e barrancos, correrias, calçadas… Ah! Viver! E se apaixonar…Tão bom!

O tempo vai indo, neste caso, a palavra saudade é BOA / CERTA e GRATIFICANTE… Já estou enfiada nela: saudade do passeio que fiz de manhã… Cheiro de feira livre… Das calçadas frescas. Claro, dos meus cães!

l o n g o

Foi um longo e delicado, complicado, amor. Atravessamos por caminhos de pedras, lisas como seixos e tantas carregadas, cheias de limo, de musgos e… Penso. Estas pedras estão com vida. Embora pareçam, mais velhas, mais tempo pedras. Não mais tristes, ao contrário, plenas, alegres e velhas pedras… Velhas porque viveram, viveram…vivem. Cada pedacinho de dor, de decepção. As noite mal dormidas, o excesso de calor, o excesso do novo e a vontade pulsando, pulsando… A vontade sendo maior do que o acontecer. Ah! O amor de viver, de ser, de sonhar o muito o bastante, o enorme, sonhar crescer e poder! Sim, com certeza, isso é viver. Que venha a chuva, a muita chuva prometida! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres