amanheceu …

  1. Inveja

Deves perfumar limpar catalogar a beleza desta  casa – espaço que definiste / idealizaste como tua. Posse completa com sabor / gosto de mel. De modo estranho e vago, fico a pensar na minha na tua e na dela …, vidas. Complementares. O tempo de viver se esfarela neste é meu, é teu, é nosso, era. Foi meu, não será mais, ainda é …, ou não. Lamentável! Não serei / será. Nem teu, meu nem nosso. Imaginação, quase um equívoco. Finalmente chegaste / voltaste para dentro da vontade gulosa de querer e possuir. Eu posso. Poder tem raízes, floração e desdobramento. Absolutamente eu. Por que te escrevo estas coisas? Pura e absurda inveja. Simples assim. Eu, eu te invejo tanto, e muito, desarrazoadamente. Ás vezes saio de dentro da minha desordem tão particular e absoluta, quase que absurda, e fico a imaginar como seria ser outra pessoa noutro lugar, e feliz / alegre do jeito e maneira que és feliz e alegre. Eu te vejo debaixo do toldo, regando plantas, abrindo e fechando venezianas para o céu, arejando o perfumado refúgio que escolheste para envelhecer.

2. amanheceu

Tu ainda estás comigo. Visitas noturnas, diurnas, sombreadas esmaecidas, para soar e rimar. A mão na minha mão. Este jeito ajeitado e desajeito que escolheste para pular a muralha do tempo. Ainda estás comigo. Vou te segredar a verdade escondida: eu não me importo nadinha de nada que me fujas, que me escapes. Vou usar o teu nome e desenhar o despedaço desejo de acordar no teu sorriso, na hora que me escapas do travesseiro porque amanheceu. Bruxarias feitiços e a boa cozinha, tuas risadas puídas, amorosas. De manhã o perfume das rosas e dos cravos transformados em jasmins nos fazem chorar. Não te importa, meu querido. Sou tua. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

“Durante toda a noite pesadelos circulam pela minha cabeça como a água pelas guelras de um peixe. Quase de madrugada acordo para descobrir que a casa não foi reduzida a cinzas nem fui abandonado em minha cama como um doente incurável. ”(p.251) Philip Roth  O professor do desejo

GRIFFIN fotografia

 

 

vontade

Vontade de mudar tudo do lugar. Casa pequena com varanda. Hortênsias rosadas e azuis. E que o piano tocasse uma sonata. Queria tudo outra vez, queria de volta o teu olhar castanho e sossegado. Teu sorriso brejeiro. Tuas histórias arteiras. Acreditar em tudo outra vez. E nem me importaria de ser eu a envelhecer no teu olhar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

ameixas amarelas e o prego amarelo

 

do trabalho

Em cada ofício é preciso conhecer a história de seu desenvolvimento. Se os operários de cada setor de produção, ou melhor, de cada fábrica, soubessem como esta surgiu, como pouco a pouco se desenvolveu, aperfeiçoando a produção, trabalhariam melhor do que trabalham, com uma compreensão mais profunda do sentido histórico e cultural de seu labor e com maior entusiasmo. É necessário também conhecer a história da literatura estrangeira, porque, em sua essência, a criação literária em todos os países e de todos os povos é igual. A questão não é a relação formal, externa, nem que Púchkin tenha sugerido a Gógol o tema de Almas Mortas, o próprio  Púchkin, provavelmente, emprestou- o de Viagem Sentimental, do escritor inglês Stern; não importa a semelhança temática entre Almas Mortas e As aventuras do sr. Picwick, de Dickens, o importante é verificar que, em todo lugar e há muito tempo, vem sendo tecida uma rede para ‘captar’ a alma humana’, sempre e em todos os lugares houve e há pessoas que tinham e têm, como objetivo de seu trabalho, libertar o homem de superstições, julgamentos e preconceitos.

[…] O idealismo filosófico ensina que acima do homem, dos animais e de todas as coisas que o homem cria existem e prevalecem ‘ideias’. Elas servem de imagens perfeitas de tudo o que é produzido pelas pessoas que, em suas atividades, dependem das ideias e todo o seu trabalho se resume em imitar as imagens, ‘as ideias’, cuja existência ele sente, segundo se diz, de maneira vaga. Desse ponto de vista, em algum lugar acima de nós, existe a ideia dos grilhões e do motor de combustão interna, a ideia do bacilo da tuberculose e da espingarda de descarga rápida, a ideia do sapo, do pequeno-burguês, da ratazana e de tudo que existe na Terra e é criado pelos homens. […] o mais belo mundo é aquilo que se cria com trabalho, com a mão inteligente do homem, e todos os nossos pensamentos, todas as ideias surgem do processo do trabalho, disso nos convence a história do desenvolvimento das artes, da ciência e da técnica. O pensamento vem depois do fato.”(p.160-196) Máximo Górki  Três RUSSOS e Como me tornei um Escritor

…, queremos fugir. Não fazer. Ou prazeirar. Logo nos damos conta que Macunaíma de Mário de Andrade foi / é nosso herói sem nenhum caráter -, e o que podemos dizer / pensar? Arregaçar as mangas. Não existe o de graça, nem o fácil, existe trabalho. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

Caráter é destino

Estou muito apaixonado, escreveu ele, sabendo como era surpreendente que fosse capaz de escrever essas palavras. Sua vida era estritamente reservada, e ele próprio não teria esperado que o amor encontrasse um meio de transpor as fronteiras vigiadas do seu estranho exílio interno. E, com tudo isso, ali estava o amor, muitas noites e fins de semana, atravessando o Tâmisa alegremente, de bicicleta, à sua procura” (p.260) Salman Rushdie Memórias

…, e eu a me despedir do livro, do autor de Os Filhos da meia-noite que ganhou o Booker Prize em 1981. Escrevo isso a título de informação. Mas na realidade, não importa nominar caminhos percorridos, todos importam.

Quanto a mim …, encolhida, em tempo, fico pensando naquela última mensagem que chegaste a me mandar: Tu …durmas bem. Mereces. Fico pensando …, fico pensando neste merecimento que não me salva e não chega ao coração, aperta. Só para me despedir do livro, (eu demoro nas despedidas,) no amor sou lenta. Enfim! Tenho tentado dormir cedo, e tomar chá. Eu me preparo para te abracar neste verão.

Se a arte do romance revela alguma coisa, era que a natureza humana era uma grande constante em qualquer cultura, em qualquer lugar, em qualquer tempo, e que, como dissera Heráclito dois mil anos antes, o ethos do homem, sua maneira de ser no mundo, era seu daimon, o princípio orientador que modelava sua vida – ou, na formulação mais medular, mais familiar da ideia, que caráter era destino. […] e, sim, agora o terrorismo podia ser destino, a guerra podia ser destino, nossas vidas não estavam mais em nosso controle total; mas, ainda assim, era preciso insistir em nossa natureza soberana, talvez mais do que nunca em meio ao horror era importante defender a responsabilidade humana individual, dizer que os assassinos eram moralmente responsáveis por seus crimes e que nem sua fé, nem sua raiva dos Estados Unidos eram desculpa; era importante, na época de ideologias gigantescas, inflamadas, não esquecer a escala humana, continuar insistindo em nossa humanidade essencial, continuar fazendo amor, por assim dizer, numa zona de combate.” (p.606) 

ESTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Não sei fotografar, não importa. Fragmento. Estou a me despedir. Estranho isso …, ter lido neste nosso momento político. Com ameaças de morte como ele viveu alguns anos importantes da sua vida … SALMAN RUHDIE nasceu em Mumbai, na Índia, em 1947. Mudou -se para a Inglaterra nos anos de 1960 e se tornou cidadão britânico. Por meio de uma irônica terceira pessoa, entremeada com ‘ cartas imaginárias’ a figuras com influência nos acontecimentos narrados, o escritor conta suas peripécias pessoais e profissionais durantes os anos de clandestinidade: os amores, os filhos e os livros […]

 

desaniversário

Deveria ser a melhor hora a do amanhecer. Deveria ser bom um dia depois do outro porque a carroça anda, as abóboras se acomodam, os cães festejam latindo. A estrada se transforma, e se ilumina ao amanhecer. As árvores conversam com a passarinhada que acorda. As flores abrem porque o sol está ali, ao amanhecer. Deveria ser a melhor hora quando o mundo se apresenta passado a limpo, liso. Perfeito. Mas nesta manhã está tudo diferente. É a história. Nem sempre o fio condutor da manhã é o melhor tempo. Nem sempre as noticia são boas, nem sempre podemos apenas seguir e sorrir. Tem dia que amanhecemos assim, estremecidos com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Nem todas as manhãs são produtivas, nem todas as tardes nos adormecem, nem todas as noites são cúmplices. Existe o tempo de chorar. O tempo de lamentar. De festejar, e há (gosto deste verbo antigo, o haver no sentido de existir porque está no Eclesiástico, na Bíblia, e a Bíblia é o livro dos livros) também o tempo do perdão que se espreme aflito entre alívio e raiva.

A história está começando, e como todas estas estórias de vontade de escrever, não devem terminar porque o tempo de passar tem esta gota importante da exaustão, esvaziamento. O que se está pensando neste momento, pronto, completo, feito para nascer e sair de jorro já se esgota num outro segundo. Esquecer pode ser triste também, como esvaziar, como choramingar, como se queixar, como toda coisa que se coloca na balança do apagado. E a história se prepara avolumada pra explodir, eclodir, nascer, e pronto, num repente termina. Ou sei lá, quem sabe se completa no imaginário do leitor. Se for a história de um menino, se pensa na menina. Tinha-se avó, se imagina o avô, se pretendia explicar abandono, se imagina liberdade. E a independência flutua sobe as ruas como festa, e era para ser solitária. Estar só pode ser mais completo do que estar com o Outro se este Outro não nos vê. Estranha história de olhar… Esta diferença, esta incógnita do olhar, do desejo de compartilhar, pode ser tão frustrante! E por isso nos dizem que estar bonito ao amanhecer, pentear, perfumar, frisar a roupa, desenhar os olhos tem que ser alguma coisa pessoal de nós para nós mesmos. Assim, todas as estórias, ou histórias se completam no leitor que atento e ativo se retrata, se pinta, se desenha, e se enxerga em cada letra. Não vou explicar porque hoje é um dia triste. Vou contar que hoje a minha filha está de aniversário. A filha que mais gosta de festa e de acertos. Das rezas, dos cantos. A filha que prepara, organiza a felicidade da alegria (isso existe?) como se estes sentimentos fossem pessoas vivas, não projeções, não abstratos, mas concretos como uma cadeira, uma mesa, uma flor. A filha que se agita inteligente entre sentir, fazer com a mesma energia vigorosa. Esquecemos porque cansamos, mas ela não. Desistimos, mas ela não. Acabrunhamos, mas ela não. Estar com esta filha é contar histórias alegres, resolvidas, e sempre com bons resultados. Com expectativas certeiras. Histórias de superação.  Balões, flores, velas, docinhos, música, risadas. E os equívocos, os erros se diluem. Risadas. Um pacote de coisas boas. Ela nasceu linda. Ela nasceu inteligente.  Ela nasceu no dia nove. Ela pintou, bordou, recortou, viajou, namorou, agitou, conquistou festiou (festear existe? Vem de festejar), e casou. Sempre neste ritmo acelerado de que a vida é um galope feliz. Que as boas coisas se abrem desajeitadas, mas se fecham harmoniosas. E se hoje é aniversário. Hoje só posso contar história boa, não as tristes… Engaveto, coloco na caixa. Guardo. Esqueço, e deixo para contar amanhã a história do menino que tropeçou no degrau e sangrou o joelho. Nem conto as melancólicas, muito menos as trágicas. Tudo amanhã, como (Katie) Scarlett O’Hara no filme (romance escrito por Margaret Mitchell) E o vento levouAmanhã é outro dia. Afinal, amanhã é mesmo um novo dia! Por pior que seja à noite, amanhã é outro dia… 
Vou escrever amanhã. Não há, não existe, não tem tempo de chorar, mas de recomeçar para quem faz aniversário hoje. Hoje minha filha faz aniversário. Elizabeth M.B.Mattos – 9 de maio de 2016 – Torres (para minha filha Joana)

Reedito o texto no desaniversário,  eternizado por Alice*! Preciso de toda a energia que ela, a minha filha tem. Estou num momento político / interno (que será prolongado) complicado! Desavisado o povo brasileiro!, desavisadas as pessoas …, desavisada eu que desestabilizo. Tempo tem limite. Velhos envelhecem todos os dias. Dores no corpo,  fôlego curto, vontade esgaçada, desânimo. Olhos cabeça costas …, doem. E a vontade de ficar aquietada espremida espiado dormitando parece maior. E toda a independência espiritual, todo o amor desfocado, a desesperança  tira o  ar, sufoco …, e nem sinto. Pois hoje, relendo este texto, eu me pergunto dos sonhos sonhados e esquecidos. Desanimo / desanimas, eu sei. Não, eu não deveria desanimar. Nem tu deverias desanimar. Como guerreira devo morrer na esperança, dentro do tempo. Abraçada pela vida, alerta. Fechar os olhos pacificamente. Mas …, amanhã é outro dia. Ainda temos um amanhã, eu acho …

*Charles Lutwidge Dogson – pseudônimo Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”
Eclesiastes 3:1-8

JOANAAAAA HOJE no teatro

Joana – Rio de Janeiro – outubro de 2018

acordo magra, e logo, gorda outra vez

Acordo magra, e duas horas depois estou, outra vez, gorda. Detesto isso. E também não posso olhar os braços, o corpo. Eu me deprimo. De repente o rosto, bem …, não parece tão horrível assim …, talvez a boca. Os olhos cansados, quase desmaiados. Os cabelos, já me acostumei. Indisposição…, resfriado, gripe, sei lá o quê, … estes pruridos enjoados antes da eleição, ou antes do verão, ou antes de encontrar. Ou um livro terminado e o outro, a se arrastar. Eu sou meio perdida. Amigos amigas queridos amadas filhos netos, eu sei. Estou perto e absurdamente, longe. Os advérbios devem ser/estar entre vírgulas? Tudo entre vírgulas. O que desejo me escapa. Ora se fosse hora de amar eu entenderia, mas passou. Tem uma qualquer coisa de ridículo. É a danada da sedução eterna, enroscada, altiva a me seduzir. Não vais acreditar! Todo desencontro tem um sabor de desejo ardente, enamoramento, paixão obscura, presente neste permanente hoje do momento que foi/é o teu encontro. (Ihhiii! Ficou enorme esta coisa que escrevi …, um parágrafo numa frase, não, numa oração!ah! que horror!) Estás comigo entrelaçado nesta confusão de ser sem existir. És pura imaginação! Como se eu pudesse calçar aqueles sapatos com saltos altos, e cruzar as pernas, uma sobre a outra sem ser displicente. Sendo tão distraída e avoada, mas elegante. E o vestido fosse impecável, as costuras lisas, a bainha com aquele peso no caimento, e o confortável colar de pérolas misturado com as correntes. Sem maquiagem, com brincos e o cabelo fora do lugar. Paradoxalmente gosto tanto deste meu eu que veste jeans e camisetas puídas, o mesmo lenço no pescoço para socorrer os cabelos fora do lugar, e o desavisado tênis …, e um desleixo com as roupas. Gosto desta negligência. Armário reduzido, camisolas e pijamas. Duas gavetas do que se chama roupa e calças pretas de todos os tamanhos, porque, invariavelmente eu acordo magra, mas depois de duas horas já estou gorda. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres