Carta para Cristina

Temos uma balança interna que mede a vida: a energia entra e sai. Quem está perto capta o positivo, e o negativo. Busco energia nas plantas: mexer, remexer. Converso com elas: pobres jasmins escravizados, limitados por vasos… Como pássaros em gaiolas, sem quintal… Noutra escala, nós somos também domesticados por limites. Sem vontade própria: somos o que os outros esperam que sejamos… Como as plantas, os pássaros nos adaptamos para sobreviver.

Olho o verde, escuto a música, e tento acalmar minha inquietude enquanto te escrevo.

Paradoxalmente temos que entender a cidade que nos aprisiona: as escolhas erradas, ou certas são internas, perigosamente nossas. Compreendo o que sentes, vejo como tu, esta cidade que paraliza, mas exercito o olhar, namoro jacarandás e paineiras. Caminho todas as manhãs pelas ruas do bairro abastecendo a casa com frutas, pão, busco o cheiro do café energizante que já fizeram as cabras saltitarem vivazes… como conta a lenda… E posso sentar por uma hora ou duas nestas mesas que ocupam as calçadas. Retomo a cidade ainda vazia, mas sempre verde. Entendo que pode sorrir, ou abraçar. A cidade. Por que somos estranhas? Ela é maior do que nossa percepção, ou nosso quarteirão. Os limites são internos, nossa a rebeldia. E o cheiro do mar traz nostalgia. Saudade de antes, do que já tivemos e não conseguimos segurar. Porto Alegre das ruas estreitas, arborizadas, com pefume de terra. É preciso sair do lugar, ousar, ou morremos presas ao ninho. Possuímos amarras. O dolorido da situação é que assim como queremos voar, ser novos/outros, nos sentimos presas ao ranço do lugar conhecido, presas ao familiar, e frágeis para grandes vôos. Sucumbimos.

É preciso livros, filmes…vontade, determinação. Fazer o espetáculo acontecer. É preciso olhar e sair do palco, soltar as amarras.

E tu, minha pequena, tens o amor, o beijo, o aconchego, o vinho quente de uma noite em concha. Sinto falta de um par. Das noites/conversas, e dias com o amado… Com ele, apenas estar, era bom… Que aproveites a vida! A irmandade enriquecedora. Assim, Porto Alegre pode ser o mundo inteiro, basta abrir os braços, e fazer acontecer lá dentro de nós mesmas a transformação… Acho que me prolonguei. Como chove! Fiz uma boa limpeza nos vasos, e nas plantas. Varri a sacada para esperar a chuva, e como! Gosto. Sinto um pouco de frio… Elizabeth M.B. Mattos – 2005 – Porto Alegre

ameaça

Havia uma ameaça, o possível, a boa ameaça: eu ir ao teu encontro, ou (remota) de vires ao meu encontro. Promessa florida. E as chuvas, o sol quente, as temperaturas de ir e vir nos acompanhavam festivas. Hoje tudo mudou: silêncio e ausência se misturam, eu compreendo.

Chuva forte, frio e eu volto para as cobertas desanimada: mais um dia, menos um dia. Teu nome se arrasta cansado. Viagem longa de esquecer… Beth Mattos – agosto – 2020 – Torres

As vidraças respondem ao gritedo desta chuva, sem vento, uma água pesada…

fora do lugar

Ficou tanta coisa fora do lugar…pressão, alguma coisa aperta, outra estica e não faz sentido, não é manta, nem cachecol, nem casaco, faz frio… vamos rei ventar o inverso e o cinza, não as imaginas, vamos puxar as cores.Eu quero o presente do Pedro. A alegria da Luiza, a disposição da Joana e as aulas da Ana. Sim. Quero tudo de volta. Vou dar uma volta. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020

negligente e distraída

Horas, vagares e possibilidades…, sobrando. Escrever e cuidado, tão pouco! Derramar o vinho, o leite, toda a água e esperar. Talvez a chave seja esperar. O outro lado da lua. Há um nonsense nesta epidemia. A reclusão abre as portas para ser Eu, eu com letra maiúscula, escorrego sem interesse. Abro as gavetas a procurar alegria, disposição. Boa vontade, mas um certo desencanto, a frustração se impõe. Será que estou vendo mais do que deveria ver / alucino? Duplico o real? Olhos abertos. As coisas como elas são, ou deveriam ser, mas quero mais. Cansaço localizado na ponto dos pés. Caminhar, caminhar, deixar as pegadas para voltar, tolerar. Estou exausta, mas sequer saí do lugar. Culpo o frio. Este cinzento misturado no céu a desvendar um dia que se esconde gelado. O mistério do inverno se prolonga.

Arranco pedaços da leitura: ” uma das mãos sonhadora em seu colo de estampa colorida” (p.235) Nabokov / Lolita . Especial a roupa descrita desta forma. Depois uma coleção de recortes: lassidão amorosa, na lucidez dos meus ciúmes, fico alguns segundos a pensar no ciúme, sentimento cortado, maligno, e ainda lúcido? Em que momento da vida somos lúcidos? Ao casar? No primeiro baile, ou quando a amiga morre e o amor termina, porque nunca existiu, quando lavamos a louça somos lúcidos, não fazendo amor. Será que a lucidez te agarra quando a desilusão chega? …ensolaradas ninharias, duas palavras fantásticas. ” […] “abarrotado de crianças e do hálito quente das pipocas“. (p.199) Maravilhoso! Sessões de matinée. E constato: não apenas uma ideia, ou um enredo, uma história. Um autor/poeta/escritor nasce de uma semente cuidada. Há que se somar educação, meio, estudo e estudo, conhecimento linguístico de um idioma, dois e três… Então, o que já sabemos surge numa roupagem de purpurina, lantejoula, bordada e rebordada, numa renda feita por mãos mágicas. E das leituras guardadas /absorvidas/ revolvidas… De escrever escrever, não um livro por ano, mas uma vida para o brilho. Uma linha, um acaso depois depois ocasos…, este fazer que se parte dividido, mas uno. Alucinante experiência de encontrar a conjugação sonora de um verbo conjugado em todos os tempos e modos, com a sofisticação peculiar a gramática, ao som música/sonata/melodia de um tempo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020- Torres

Inquieta vida, povoada

Inquieta vida, povoada.Pigmentação de ouro, seiva verde das florestas … Perfume/cheiro do gramado. Orvalho. Esconderijo. Floração. Céu vermelho e dourado. O homem e suas esmeraldas… Unhas de marfim, braços e pernas de ébano. E a voz? A voz se faz a resposta. Inquieta vida, povoada, e assim mesmo, solitária. Ser apenas tu e eu, eu contigo, nós, ou a ilusão mesmo de ser um. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

desentender

Quando eu penso em escapar, e me isolar, desentender que te amo, ou fugir e voltar a ser eu, de antes de te reencontrar, de agora…Tu segues a me seduzir. Eu te penso e volto para a menina, e logo num beijo, e num abraço demorado sou tua, és meu. Ouso. Volto. Nem um minuto nos deixamos! … e nestes longes: campos e mares (tantos) que nos afastam, eu te penso tão perto! Não importa. O verão te traz… Sou completamente tua. Ridiculamente entregue…, de repente eu me assusto. Penso: e se não me queres? Beth Mattos  – agosto de 2020 – Torres

carne de panela feliz

– Não resisto: e te conto apressada: ficou delicioso, mais do que delícia. Muito mais que maravilhoso o molho. Textura, cheiro. A carne perfeita, eu acho, faltou o nhoque, a massa feita em casa. Lembrei da carne de panela que fizeste (inesquecível para mim). Comprei um tatu redondo/lagarto dizem no Rio e cozinhei na panela de ferro, nos antigos moldes: devagar. Adorei ter acertado, ou voltado para o prazer da cozinha, como antes. Tenho me entusiasmado. Levantei uma pedra. Tirei o enjoo e conquistei, acertei num certo prazer. Fui fazendo aos poucos, com vinho, devagar, com paciência. Queria te contar.

 – Olá. Cozinhar é como a arte da sedução. Se te deixar levar pelas misturas e pelas ideias, combinações de aromas e sabores, te realizas. Cada ingrediente tem uma magia, seu timing  e sua conjugação. Da esmerada e dedicada combinação e tempo, com cenário culinário adequado, dependerá o resultado. E os melhores resultados não surgem se não acompanhados de um bom vinho durante a viagem.

…registro: com mau humor faça jejum, não cozinhe. Mas se estiver de bem com a vida… cozinhe, muito. (6 de agosto de 2020), às 20:42)

Não sou rainha, sou escrava da tua fantasia, da tua vontade. Que eu seja eu, a mesma, a diferente, a nova Beth, a Elizabeth daqueles anos perdidos / perdidos porque não foram apenas nossos, perdidos porque não nos encontramos mesmo a nos saber pelo cheiro, pelos olhos, pela voz. Aturdida com tua voz, e me despedaço na distância. Então, eu durmo. Agora, irei seguir a mágica de transbordar alegria na cozinha. E te conto… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres (08/08/2020 00:22:34)

conversas se confundem, ou ideias se evaporam…

Começo sempre com um livro aberto, o da hora. Do acaso. A ler, e repassar, ou reviver. Voltar, reencontrar…

O futuro. Este danado futuro a caminhar no meu entardecer, estremeço. Eles, os jovens, florescem. Estico o dia, mas me afundo de qualquer jeito. Posso chorar, o tempo não volta… Segue, assim mesmo, em cada um deles, estes jovens sobrinhos, netos. Volto no/ao tempo. O mesmo.

Sinto teu cheiro. Lembro das apressadas madrugadas: encantamento enfeitiçado. Abraço teu corpo magro. Lembro de Iberê Camargo: redes, laços, somos nós dois. Estamos, tu eu, gelados. O abraço incompreendido. Vieste a Torres. A pressa de sermos nós. Vês, se passaram/passou trinta anos, e foi ontem. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

As coisas devem ter se passado de modo completamente diverso, mas que importa, a maneira como as coisas se passam, desde que se passem? E todos aqueles lábios que tinham me beijado, aqueles corações que tinham me amado (é mesmo com o coração que se ama, não é, ou será que estou confundindo com outra coisa?), aquelas mãos que tinham brincado com as minhas e aqueles espíritos que quase tinham me possuído! As pessoas são realmente estranhas.” Samuel Beckett Primeiro Amor Este livro com tradução e desenhos de Célia Euvaldo – Cosac Naify 2004 – uma joia. Artesanal edição. Vou fotografar.

“Sim, eu a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim, ao que eu fazia, naquela época.

desassossego

“A amizade dos dois jovens se baseava na divergência entre seus sentimentos do eu e do meu, os de um ansiando pelos do outro. Pois, a encarnação causa isolamento, o isolamento cria diferenças, a diferença provoca comparações, das comparações nasce o desassossego, o desassossego faz surgir o espanto, o espanto tende para o desejo de troca e união Etad vai tad. mútuas. Isto é aquilo. O preceito se aplica sobretudo à mocidade quando o barro da vida é ainda moldável e os sentimentos do eu e do meu ainda não se petrificaram na divisão da personalidade isolada.”(12-13) Thomas Mann Cabeças Trocadas

Conceitos difíceis! Eu e Meu. Tendo a misturar tudo, e querer a identificação do grupo. Ser igual, ter as mesmas coisas, dividir amores amados, lugares. A “encarnação causa isolamento“. constatação simples/complicada. Respondo a vida inquieta, sigo o caminho, e qualquer desvio parece aventura. Quero sempre me encontrar no outro, e o outro se perde num outro, numa roda interminável de desencontros. Volto aquela estranha história que me aconteceu ao apaixonar – me por palavras, pontualidade, confissões. Uma ideia de amor, não o amor nele pessoa, real, mas no imaginado. Projetei o físico, a profissão, o tempo, a vida. Se analiso esta questão eu me surpreendo. O físico, a beleza, (que é pessoal), as qualidades todas do ser amado são ilusão. Como água / oásis, no deserto. Se outro (que não o da minha imaginação) se apresenta como um alguém igual, ou semelhante, ou pertencente ao mundo. Uauuu! Céus! Se desmancha… Quero paz, certeza e encontro. Quero a caminhada. Um beijo, um abraço, o sexo, o cheiro, o tato, o suor e depois, nada. Beber a mesma água, ser o mesmo como que para assumir o outro, carregar o outro, estar no outro, depois voltar para mim mesma. Confusas implicações da vida e das relações. Se fosse apenas troca, e não competição…Por um estranho, outro complicado sentimento, a competição nos deixa exaustos. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres colorida, lua e sol.