sempre assim?

Como menina fui sempre quietinha / no colégio, internato, quietinha… Na vida, quietinha / acho eu… Quem me conheceu confirme, sei lá, o que se entende por quietinha? Brinquei muito na calçada, na piscina do clube, no verão, no inverno, indo e ficando. As árvores mágicas: vontade de subir e medo de cair. Muros? O bom limite. Em casa, quietinha, talvez por ser a mais nova, muita gente adulta, irmãs tão mais velhas! Naquela época seis anos já fazia diferença, hoje emparelhamos… Preciso de/do sinal verde: embalo das pessoas, é claro. Então, nem me dou conta, viro papagaio cheio de ideias e vontades de falar fala falar, rir e brincar, a Beth, Elizabeth (para a mãe e o pai) quer participar, ajudar, ceder, sei lá…. Mas se colocam o pano na gaiola durmo… Temos uma gaiola limite… Eu acho. Ah! O tempo de dormir… Quero dizer de ter sono em qualquer lugar! E o mundo? Sempre fascinante na minha visão -, bem na medida de mundo: jardim, calçada, no triste / no decepcionante, gente, silêncio e barrancos, correrias, calçadas… Ah! Viver! E se apaixonar…Tão bom!

O tempo vai indo, neste caso, a palavra saudade é BOA / CERTA e GRATIFICANTE… Já estou enfiada nela: saudade do passeio que fiz de manhã… Cheiro de feira livre… Das calçadas frescas. Claro, dos meus cães!

l o n g o

Foi um longo e delicado, complicado, amor. Atravessamos por caminhos de pedras, lisas como seixos e tantas carregadas, cheias de limo, de musgos e… Penso. Estas pedras estão com vida. Embora pareçam, mais velhas, mais tempo pedras. Não mais tristes, ao contrário, plenas, alegres e velhas pedras… Velhas porque viveram, viveram…vivem. Cada pedacinho de dor, de decepção. As noite mal dormidas, o excesso de calor, o excesso do novo e a vontade pulsando, pulsando… A vontade sendo maior do que o acontecer. Ah! O amor de viver, de ser, de sonhar o muito o bastante, o enorme, sonhar crescer e poder! Sim, com certeza, isso é viver. Que venha a chuva, a muita chuva prometida! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

nem o diabo sabe

Se bem que nem o diabo sabe o que é que as pessoas lembram, nem por quê. Na realidade, sempre pensei que não existe memória coletiva, o que talvez seja uma forma de defesa da espécie humana. A frase “todo o tempo passado foi melhor” não indica que antes acontecesse menos coisas ruins, mas que felizmente – as pessoas as lançam no esquecimento. Evidentemente, semelhante frase não tem validade universal; eu, por exemplo, caracterizo-me por lembrar perfeitamente os fatos ruins e, assim, quase poderia dizer que “todo tempo passado foi pior”, se não fosse o presente parecer-me tão horrível quanto o passado; lembro-me de tantas calamidades, de tantos rostos cínicos e cruéis, de tantas más ações, que a memória é para mim como a tormentosa luz que ilumina um sórdido museu da vergonha. (p.7) Ernesto Sábato O túnel

assim começa este genial livro deste genial escritor e pensador. eu, modestamente, acho que existe memória coletiva, um lado onde estamos todos querendo, diariamente, sair. atualmente é sair da cama a dificuldade, mas ficar na cama também é ruim ou pior. pensar, difícil, não pensar vazio maior. tomar pílulas para melhorar, não tomar, parece mais idiota. namorar é bom, mas não ter namorado liberta. volto ao vento, ao caminhar, aos morangos, água gelada, café ou chá? nota baixa para os dois, adoro a coca-cola, e vidros limpos. mas o que vou dizer? os vidros estão terrivelmente sujos. seguindo Sábato: Pensem o que quiserem: não ligo a mínima para a opinião e a justiça dos homens.(p.9) e os vidros seguem sujos.

por que é mesmo que as pessoas leem? não tenho ideia. por que não leem? para fugir da palavra, eu acho. por isso não escrevem, para não se encontrarem com as palavras, não se trata de destinatário… mas da tal fuga eterna. do quê? de nós mesmos. aquele bicho papão que nos assombra: o EU. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

meu querido amado:

não se trata de bater na porta, ser convidado para entrar, aceitar uma xícara de chá / quem sabe uma gasosa, ou uma cerveja posto que está tão quente. meu querido, não se trata de falar, nem explicar, nem trazer flores – (embora flores abram mais portas do que as possíveis). não se trata de brincar nem de fazer confissões. estas tu já fizeste encarreiradas lembras? feito terapia recreativa, e como tais encarei, acho que não esqueci, mas não pontuaram… ou pontuaram? eu te fiz herói? mas, cá entre nós, de heróis, estamos fartos não é? acho que carecemos de gente gente, com ossos e corpo, e coração, menos enlouquecidas pelo poder, o abstrato poder e comando / uaiiii! chatice isso de querer / dizer / comunicar / resolver / embaralhar e enfeitar a avenida. uauuuu! estamos precisando de concretitude. enfim: manda flores, vou gostar, no dia seguinte manda flores outra vez e no terceiro dia, manda flores e no quarto dia, manda flores e bombons, e no quinto dia, manda uma carta. adoro cartas… e estaremos unidos para todo o sempre meu querido. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres – ainda estou em Torres, inacreditavelmente pareço cimentada… haja vontade de voar, voarei.

…uma ideia louca

[…] considerando-se o fato friamente, de maneira razoável, não se podia deixar de julgar uma ideia louca, essa de pretender reconhecer no vasto oceano sem fronteiras uma baleia solitária, e admitindo que fosse encontrada, julgar que o seu perseguidor a pudesse identificar com a perspicácia daquele que identificasse nas ruas congestionadas de Constantinopla um mufti de barba branca. Sim, porque a fronte branca de Moby Dick e sua nívea corcova não podiam deixar de ser inconfundíveis. (p.230) Herman Melville MOBY DICK

…e o pensamento voa. a ideia louca surge… a gente tendo assinalado, reconhecido, sabendo quem / e como o mal nos agarra… por cabelos esticados e grisalhos, por encaracoladas ideias possessivas insiste em resolver. não tem solução. as mãos agarradas no erro, acertam afinal… é preciso reconhecer. sem solução, solucionado está. claro! levantar a âncora deve dar um trabalho enorme – mecanizado hoje, mas mesmo assim chegar ou partir é sempre assustador. Elizabeth M. B. Mattos- fevereiro de 2026 – Torres

confissões ilustradas

Principalmente esta: ao me acompanhar depois da aula, ele para perto da porta e diz de repente: Há muitos trechos supreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem a qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer. Ideia curiosa. E é ainda mais curioso que ela me tenha ficado na memória. Talvez tenha me sentido honrado em poder ouvir uma confidência do mestre, um segredo, um truque que só os iniciados tinham o direito de saber. (p.161 Milan Kundera Os testamentos traíDos – ensaios

carta errada

a gente engole / digere, depois sai andando. faz o exercício, a tal musculação e funciona. embaralha tudo, e descarta do jogo, não o coringa, mas a carta errada / a carta ficou fora do baralho? distração completa, não está no jogo…. de repente a gente se dá conta que está jogando sozinho, sabe que não importa? pois é. a surpresa para o que era o bom da rodada tá fora do jogo. simples assim. não era jogo, mas vida. na verdade, o trunfo é interno e nada que seja aparente, nenhum castelo encerra alegria. nem o que a gente chama de realização ou sucesso é possessivo, mas compartilhado. confuso. o nosso time, somos nós e a nossa vontade, ufa! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – TORRRES