não quero ser triste

” Na realidade, a angústia  que cerca o dinheiro é muito maior do que admitimos para  nós mesmos. Não estou falando de ‘riqueza’ e da ‘pobreza’, ou seja, dos conceitos teóricos, mas do dinheiro, essa matéria cotidiana indefinidamente perigosa e única, essa coisa mais explosiva que a dinamite, dos dezoito florins e dos trezentos e cinquenta florins que ganhamos ou não ganhamos, que entregamos ou negamos a outro ou a nós mesmos … Sobre isso ão se fala. Sobre isso não se fala. As angústias diárias da vida assim se reúnem em torno dessas quantias lamentáveis, as tramoias, as fraudes, as denúncias, os pequenos gestos heroicos, as renúncias e os sacrifícios diários, sacrifícios que se transbordam em tragédias no âmbito das possibilidades de trezentos e cinquenta florins. A literatura fala sobre a economia como se ela  fosse uma armação.  Também no sentido mais profundo da palavra … (p.156) Sándor Márai – De verdade

E afinal, sinto um aperto por não ter a liberdade do dinheiro fácil. Das soluções fáceis. Do sorriso que abraça sem constranger, porque tudo é fácil. De repente a incompetência de não ter pesa nos ombros, e acabo triste. E eu não quero ser triste. Elizabeth M.B. Mattos fevereiro 2018

 

quando chegares

não terei vergonha de te olhar. Ficaremos imóveis estupefatos sem nos reconhecer,  … depois, teus ombros pesados, … uma dia uma tarde uma noite e estarei a tua espera entristecida de amor … Elizabeth M.B.Mattos fevereiro 2018 Torres

intermináveis telegramas

Amar não termina, … lembrei tanto e tanto de ti e do tamanho que éramos, tu e eu, eu e tu, grande enorme, redundante! O amor afoga devora agitado insone e preguiçoso, … eu sei. Não quero repetir nem voltar atrás. Quero hoje.  Encontrei … aqueles intermináveis telegramas! Ansioso, intenso.  …, não eu não queria tudo outra vez …, não vou explicar. Um vazio no tempo. Respiro. Refaço. Avanço. Mas …, tu não prestas atenção quando falas comigo, …digo outra vez: dia 12 de julho estarei em Porto Alegre, aniversário de 79 anos de minha tia, não prestas atenção.  Quem arrebentava de saudade era eu: “Lundi segunda liguei ninguém encontrei tentarei chegar PAlegre anoitecer  quarta telegrama da estrada confirmado exatidão após cruzar Chui vg espero não estejas Oiapoque como hoje vg arrebento de saudades beijos abraços Gafa

telegrama

explico …

VESTIDO 

 

…, enroscada na fantasia reinvento o amor. Bom quando chove chuva forte como agora: o cheiro da terra molhada … o cheiro/ perfume e gosto do corpo! …, atravessa espaço rompe a distância. Isso é bom. Comer abacate faz bem para a pele, estar apaixonada faz também muito, muito  bem para a pele.  Respiro melhor. Estico beijo. Este gostar faz tudo ser, escandalosamente, colorido.  Elizabeth M.B. Mattos – 19 de fevereiro de 2018. Torres

 

amor rombo estrago

É como eu disse, nós nos gostávamos/ gostamos. (…, é o perigo). Sempre que se usa a palavra gostar é disfarce porque gostar é diferente …, não é conversa, não pode ser pouco, nem mais ou menos, não pode ser amigo, não tem medida pequena, sempre fica muito e transborda, atropela, passa por cima de todo e qualquer bom sentimento, vira paixão, rombo, estrago. Gostar de/ amar apaixonar não tem idade, chega de um jeito tordo azedo, definitivo violento. Destes amores queria contar. Na verdade, não é um único amor, não é aquele, mas muitos de jeitos diferentes. Acesos. Perfeitos. Intensos e, que o tempo apaga.

E agora vou lhe dizer uma coisa, caso você não saiba: o amor, se for de verdade, é sempre mortífero. Quero dizer que seu objetivo não é a felicidade, o idílio, a mão na mão, o devaneio, até a minha morte, até a morte dela, sob a tília em flor, atrás da qual, no alpendre, arde o brilho manso da luminária e o lar resplandece com seu perfume fresco … Isso é a vida, mas não é isso o amor. Ele é uma chama mais sombria, mais perigosa. Um dia vem na vida o desejo de conhecer a paixão exterminadora. Sabe, quando não queremos mais guardar nada para nós mesmos, não queremos que um amor nos proporcione saúde, paz, satisfação, mas querermos ser, por inteiro ainda que a preço de extinção. Isso vem tarde, muitos não conhecem o sentimento, nunca …. Eles são prudentes. Não os invejo. ” (p.241)  Sándor Marái De verdade

o mesmo

afinidade idade, enfim

Enquanto procuro uma coisa, perco outra e encontro o que já não estava mais a procurar.  …, numa frase, num sorriso, o estranho. Nunca falamos, sequer olhamos. E, de repente esbarramos.  Posso me esconder atrás da árvore, na sombra, no silêncio! Nenhum lugar esconde. Olhos abertos, pele exposta, …não, não sei explicar. As histórias se prendem umas nas outras. Temperamento, afinidade, descaminho. O que importa nesta roda é a legitimação de ser como somos … , amorosos. Elizabeth M.B. Mattos – 2018 Torres

Sua vida é feita na medida exata da sua alma. […]  os eventos acontecem a cada um  conforme suas afinidades peculiares.  Cada um encontra o que lhe convém. Assim, se a pessoa se contenta com o medíocre que tem, prova que este medíocre corresponde à sua dimensão, e nada diferente acontecerá. Destinos feitos sob medida. Necessidade de romper suas roupas como o plátano ou o eucalipto, ao crescerem, rompem sua casca.” (p.44) André Gide PALUDES

ambivalência

…, sentir fazer acontecer…, verbos incompatíveis com a correria da idade. Intensidade soluço e amanhecer no meio da tarde. Não entendo, não aceito, aperta. Virado e fora do lugar. As coisas não se desacomodarão … Desordem. Caos. Ninguém controla ambivalência … nos afogamos. Normalmente caminho pela calçada, cuido buracos, saliências, raramente tropeço. Ninguém deveria mergulhar onde não deve…, deveria não acontecer, mas acontece. Estes estranhos fenômenos da natureza deixam o mundo virado. Cabeça virada, corpo do avesso. Não faz sentido. Estou com mais de setenta anos … mais, muito mais.

Monções, o siroco, ou sei lá quantas ventanias … sinto medo. Antes não era assim, não me assustava, apenas estremecia.  Certezas próprias adequadas perfeitas. Noites insones, dores no corpo, ou cabeça fervendo, normal, agora, sinto medo. A desordem me atormenta. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2018 – Torres

desordemdesordem dois