um dia ou dois dias?

Esta coisa de fugir do próprio pensamento talvez seja estratégia de guerra. Calçada vazia, espaçoso e cheio e vazio. Fantasmas se divertem: jeito simpático de voltar, insistir e se instalar…, tu vens para uma visita de um dia, ou de dois dias? Escrever, absolutamente artificial. O maior de todos os obstáculos, o silêncio. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres Acreditar no sonho/desejo e seguir cega e surda: o mar responde, o sol responde, o verão responde, e o outono faz promessas. E eu sei que estás esperando por mim…

meu querido,

As cidades se reconhecem pelo andar, como as pessoas. Abrindo os olhos, o recém-chegado deduziria o mesmo da vibração nas ruas, muito antes do que de qualquer detalhe típico. Ainda que fosse só imaginação, não importa. A supervalorização da pergunta: onde estou? vêm do tempo dos nômades, em que era preciso registrar os locais de pastagem.” […] Portanto, não se dê valor maior ao nome da cidade. Como todas as cidades grandes, era feia de irregularidade, mudança, avanço, passo desigual, choque de coisas e acontecimentos, e no meio disso tudo, pontos de silêncio, sem fundo, era feita de caminhos e descaminhos, de um grande pulsar rítmico e do eterno desencontro e dissonância de todos os ritmos, como uma bolha fervente pousada num recipiente feito de substâncias duradouras das casas, leis, ordens, tradições históricas. (p.9-10) Roberto Musil O Homem sem qualidade

Quero dormir e acordar num sonho: estaremos juntos, sem ansiedade: nesta pandemia, solidão, somos amantes. Não é incrível? Abraçados, misturados um no outro: tempo de benção, gratidão… Haverá um atalho, dois ou três e seremos nós. Voaremos, JMKCLXY. Quando eu me pergunto “Onde estou?” Sei que estou no teu sonho, e que tu estás no meu: abuso maravilhoso de beijar.

cupins a porta fechada

13 de abril de 2021: Torres, anoitecer agradável. Caminhamos apressadas, mas poderíamos fazer a volta na lagoa se eu não tivesse já um fio de medo crônico instalado. Será que eu deveria comprar um carrinho que me permitisse sair e ir e vir como se eu ainda fosse pessoa mulher capaz de beijar ou abraçar? Ah! Cruel associação! Estou fazendo pequenas e curiosas elucubrações. Amanhã converso com o filho, ou pergunto por aí, se afinal aperto meu orçamento e coloco um carrinho a minha disposição. AH! Esta ladeira da garagem vai ser dureza! Os sentimentos que uma mulher com minha idade entre 73 anos, ou 74, completando 75 anos?!! Dificuldade números e certezas… Suponho que esta experiência de envelhecer e rejuvenescer não tem como contar/explicar, em/com números; somos tu e eu a brincar. A matemática elementar… Nasci em 1946 -, nove de setembro. A pandemia alonga a loucura boa dos desejos. Alonga a organização interior exterior do/para fazer o necessário. Alonga a distância / barreira e intensifica o sentimento.

Coloca alguns livros a serem relidos ou dispensados, definitivamente, e nos prepara para voar, fazer pequenas loucuras ingênuas (ou nem tanto!) e definitivas. Agarra um copo de vinho, de whisky, uma caipirinha. Tudo seria/pode ser mais completo, detalhado, mais tu e eu. Não ver televisão: desafio de três ou quatro dias. Desligar o celular para não cometer esta louca de se jogar a filmar o próprio corpo / imagens / enredos (alucinações). Todas construídas de vaidade tesão e equívocos.

Última garrafa de vinho colocada na adega por ti: bebo dois cálices do vinho encorpado… A saborear devaneios aproveito os arrepios indecentes que se espalharam no meu sofá. Escrevi longas e detalhadas cartas (alertas) para os amigos, conversei com os filhos. Viajo de um estado para outro… Os teus, os meus que se misturam como nossos. Depois de arrumar a cortina, uma inversão solução, e mandar fazer as do quarto eu me sinto heroína: a descupinização alcançada no seu quinto dia, com vedações e esperanças. Sem TV, sem trocar a roupa, sem mexer nos livros, aguardo ansiosa o momento da limpeza. Escutei o piano até adormecer: velhos discos de vinil , com ranhuras. Tropeço nas águas da música. Volto ao tempo de menina: entrar / invadir / inventar a história de te encontrar. Loucamente te beijar. Do tímido vagar, para o amolecer da alma. Entrega, que pode ser apenas silêncio. Que vida temos levado! Que vida temos imaginado! Que vida inventada, tão boa! 

Leio curiosidades empurradas, outras sugeridas. Sinto tua falta para comentar a vírgula, a bobice desta expressão, a audácia daqueles escritos. Sinto tua falta! Sinto falta de ti. Sinto falta de você. As enlouquecidas ideias penduradas nos meus cachos, escapam dos bolsos afoitas. Quero desdobrar tudo, tecer tudo. Quero te amarrar… Não preciso dizer da saudade que sinto dos teus afagos, tua mão pelo meu corpo, teus beijos à beira do fogão e nossas loucuras amorosas pela casa. Então eu danço, na imaginação te envolvo: eu te amo nesta alegria. Claro! Lamento não termos nos encontrado mais cedo, tanto carregamos de experiências, outras vidas a partilhar. Escreve. Telefone, tão logo chegues em casa / ou te aproximes. Corro ao teu encontro (como nos filmes)…. Faz já tanto tempo que não toco teu corpo! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres – Tu te importas? Na velhice, num galope, não me cuidei… Nesta juventude de hoje estou redesenhada de/por amor. Mas, mas, mas, assim mesmo, tu podes apagar a luz quando fores me beijar.

TER ou não TER

“E não poderia mesmo ter ido ao enterro. Mas as pessoas não compreendem isso. Não sabem como nos sentimos por dentro. Porque os homens bons são raros. As outras, talvez, tenham tido um assim. Ninguém sabe como a gente se sente, porque não sabem nada sobre como são as coisas nesse caso. Eu sei. Eu sei muito bem. E se eu ainda viver vinte anos, que irei fazer? Ninguém me dirá o que devo fazer e nada existe a fazer todo o dia e apenas começar imediatamente a fazer alguma coisa. Isso é o que eu preciso fazer. fazer e nada existe a fazer, senão aceitar as coisas como aconteceram. Ernest Hemingway TER OU NÂO TER (p.258)

O terrível das leituras é esquecer os detalhes, até mesmo o enredo, a história inteira esquecemos…

canção

“[…] nos mistura bem dentro ti / cuida bem de nós / mistura dentro de ti porque ninguém vai dormir nossos sonhos”

Depois de tanto trabalho, de esvaziar tudo, coloco Gimo Cupim (batalha inútil, a guerra não termina). Vou me intoxicar: e a pequena Ônix… Ardem as mãos, os pés, a imaginação. Por dois dias isolei um quarto. Encontro livros extraviados, cadernos misteriosos, cartas. Tenho ideias, sinto sono, vontade de que… Limpo os tapetes, escolho os lençóis, perfumo a casa, estou a te esperar. As flores morreram enfeitiçadas, estou disputando/lutando. Alguém te puxa, será que te quer? Eu cedo. Choramingo. Escondida? No café da esquina, sou eu lenta e covarde, na doceira da praça do quiosque, Lenta e covarde. Fecho as janelas. Deixamos de sair. Será que estás m Torres? Vai dar cedo. Conhecemos todos, fazemos a festa. Covardes. Estremeço. Beth Mattos – estou dormindo.

afeto

…pode ser inexplicável o nó (aquela coisa apertada no meio da corda), o que vira laço e segura. Uma coisa / uma ideia/ depois, uma estranheza e um susto: assim eu te sinto. Pessoas viram correntes. O susto te obriga a seguir, sobreviver, ali / nesse momento / a hora de esquecer… O último amor? Ou seria o primeiro? Como posso classificar? Preciso ler uma, duas vezes, três vezes tuas cartas. É tanto a me dizer/ explicar (um grito para que eu me salve!) / eu corro em tua direção, exatamente na tua direção. Quero completar, não consigo. Existe o específico de cada um, uma resposta traz tantas perguntas! Eu me confundo quando fazes o elogio, talvez eu não me sinta pronta, no caminho, nem suficientemente… Tanto a ser lido, ou pensado, ou dividido! As possibilidades se espremem / ou se apertam e a urgência se derrama… Podíamos tanto / podemos, mas vamos encolhendo. O que acontece no mundo ilustra este jeito de diminuir. Então eu espero/aguardo notícias, imagino, esqueço, depois volto. Voltar parece perfeito. Interferir não. Tenho vontade de voltar ao começo… Falar ou escrever, chegar perto, tocar pode ser assim difícil… Existe um ponto. E eu nunca quero chegar nele. Pintar /desenhar pode ser maior, mais definitivo do que escrever… OU não, quantos pintaram a mesma / na mesma tela cem mil vezes. Rasparam, recomeçaram. Diluíram… Tudo é mesmo inacabado. “Como a tempestade que despedaça o céu.” escreve Bachelard tentando descrever Simon Segal: “Ele sabe que sobre uma paisagem tranquila pode soprar uma tempestade. É preciso então que a paisagem tranquila possua reservas de dureza; é preciso que a paisagem tranquila conserve o traço de uma primitividade selvagem.” (p.32) O Direito de Sonhar Gaston Bachelard / ainda não disse o que quero te dizer, amanhã. Beth Mattos – abril de 2021 – Torres

intenso

Dia de cansaço e de trabalho: bom perfume. Limpeza e dever. Musica, acerto, e a surpresa. A vida não se repete. Sentimos intenso, A voz se equilibra. Tenho certeza, o melhor beijo, a melhor festa, a melhor temporada, com ou sem poemas. O caminho, a escolha me pertence. Avanço para depois descansar: prazeres naturais se fecham com flores… Estou na beleza do lugar certo. Sempre estive no melhor lugar: o lugar certo. É onde estou. A mágica funcionou enquanto eu estava lá do teu lado… Extensão. A mágica se desdobrou gentil e boa… Aqui eu agarro o sol com a mão direita, seguro a chuva com a esquerda, e faço acontecer a dança na madrugada…Tanta é a beleza, tanta é a magia! Elizabeth M.B. Mattos – abril – Torres – 2021

a resposta

Não existe resposta. Perguntas se amontoam / não param. Mais perguntas, nenhuma resposta. Sossego zero, inquietude a transbordar. Respostas empilhadas, engavetadas, misturas. Perguntas / interrogações inúteis. Pausa e silêncio tropeçam nesta ventania. Corrida desabalada. Insano pensar. Não existe resposta. São tantas! Mudam a todo instante, elas se agitam estas respostas, ou se esquivam.

Eu me confundo com vírgulas, pausas, verbos complicados / difíceis de conjugar. Cuido o passo / vou devagar, mas eu me apresso, não adianta… Não sei se me parece trágico ou muito engraçado. Coisas de envelhecer. Envelhecer significa se aproximar. O novo, um novo velho conhecido, aquele passado que volta vez que outra. Ou sentir confuso… Arrepiar a alma, perder o sono, dormir demais.

O mar estava chocolate hoje. Pois é, justo hoje. Cada dia eternidade de superação. O mundo acelera confuso: imagens falantes / narrativas de tanto e tudo. Mal respiro. Recomeço a pisotear, cavar e umedecer, única forma de florir. Concentração de beleza / de técnica. Verdade e tragédia. Tudo… E qualquer pequena ilusão, palavra, ou aceno ou abraço se transforma em narrativa / romance ardente. Leitura / filme / confidencia, conversa. Tudo demais / muito / excesso / maior. Até a lágrima se transforma em temporal. Um sorriso transborda em felicidade! Excesso… Cuidado! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres com vento / ventania outra vez.

O Homem sem QUALIDADE

A gente pode fazer o que quiser”, disse o homem sem qualidades para si mesmo, dando de ombros, ” que isso não tem a menor importância nesse emaranhado de forças!” depois afastou-se, como uma pessoa que aprendeu a renunciar, quase mesmo como um enfermo que teme qualquer contato forte; e quando atravessando o quarto de vestir anexo, passou por um punching ball ali pendurado, deu -lhe um soco rápido e forte, que não é propriamente comum em momentos de resignação ou estados de fraqueza. Robert Musil O Homem sem Qualidade (p.12)

Paulo Hecker Filho

O INSONE

Que coisa estranha, possuo um corpo.

A alma é fácil, sou eu; já o corpo é seu.

Tem ímpetos, cansaços, anda, chega,

tem as venturas de comer, livrar-se,

sabe de cor respirar,

pronto ao que eu quiser deliberar.

Com uma velha exceção, não quer dormir.

Há duas horas espicho-o na cama,

o encolho, desencolho,

me volto, revolto, apaziguo,

faço a alma calar,

não penso, não sinto, não reclamo,

e não dorme.

Ao que, ó noite, ele estará reclamando? P.H.F.

Gosto / perfeitos poemas. Aliás, tudo o que escreve: crônicas, teatro, novelas, o crítico. Artista completo.