Antoine de Saint-Exupéry

“Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco. Não fui lá muito honesto ao lhes falar dos acendedores de lampiões. Corro o risco de dar uma falsa ideia do nosso planeta àqueles que não o conhecem. Os homens ocupam, na verdade, muito pouco espaço na superfície da Terra. Se os dois bilhões de habitantes que povoam a Terra se mantivessem de pé, colados um ao outro, como para um comício, acomodar-se-iam facilmente numa praça pública de vinte milhas de comprimento por vinte de largura. Poder-se-ia ajuntar a humanidade todo na menor das ilhas do Pacífico. As pessoas grandes não acreditarão, é claro. Elas julgam ocupar muito espaço. Imaginam-se tão importantes como os baobás.” (p.84) Antoine de Saint-Exupèry O PEQUENO PRÍNCIPE

a gente tá sempre aumentando um pouco, também a tristeza, também o amor / quero que chegues logo. por que demoras tanta? vou aquietar a ansiedade. e votarei certo / com consciência / Elizabeth M. B. Mattos- outubro de 2026 – TORRES tô exausta com a expectativa a confusão /// as paredes falam… estranho movimento…

GIANFRANCO LARDI

sobrevivemos todos, pois é.

amamos errado, caminhamos certo,

ou somos excessivamente distraídos?

dia de sol, dia de vento, de batatas fritas, e expectativas…

o carro chega, o carro sai, a rua se encheu de bandeiras…

o dia acorda, mas sinto uma enorme grande…

gigante, estupenda

virar o travesseiro e acreditar!

pois é… nunca entendi direito,

deveria estar certo.

eu sempre tive as crianças

número um, dois três quatro cinco

seis sete nove quinze ou dezenove, 229 / 329 / 999

Elizabeth M.B. Mattos – outubro 2023 TORRES

sobreviveremos todos

deste jeito mesmo que temos sobrevivido: sobreviveremos. faço pequenas loucuras e sigo / ora morro cedo mais, ora entrego os pontos. depois morro de te amar, eu me surpreendo. estás ali… tão perto! sobrevivo enfiada na floresta, pelo deserto procuro água… Marta Medeiros tem razão, sobreviveremos melhor pensando na arte, reproduzindo vida, criando socorro, despertos ou meio adormecidos, no gozo e nas lagrimas de viver… sobreviveremos desenhados nas cavernas / e nós nos redescobriremos. e voaremos para Marte. eu sobrevivo quando te beijo e me escreves, no teu silêncio, eu te amo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

Admirável NOVO MUNDO

No ADMIRÁVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley distrações ininterruptas da mais fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo, com a finalidade de impedir o povo de prestar demasiada às realidades da situação social e política. O mundo da religião é diferente do mundo do entretenimento, mas os dois apresentam semelhanças num ponto: “no fato de não serem deste mundo”. Ambos são divertimentos, e, se usufruímos deles de forma excessivamente contínua, ambos podem tornar-se, segundo MARX,

” o ópio do povo”,

transformando-se assim numa ameaça á liberdade. Só uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os que estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a esperança de se governar a sí próprio eficazmente por meios democráticos.

Em sua propaganda, os ditadores atuais litam-se, na maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização – repetição de estribilhos que pretendem sejam aceitos como verdades, supressão de fatos que eles pretendem sejam ignorados, desencadeamento e racionalização de paixões que podem ser aplicadas nos interesses do partido ou do Estado. (p.56-57) Aldous Huxley ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

SÓ UMA PESSOA VIGILANTE CONSEGUE CONSERVAR A LIBERDADE

pois é / o tempo amassa tudo // mas… mas mas mas ainda se pode reler Aldous Huxley e… pois é, pois é… alguém deve escrever o que importa ler / os livros não pode terminar, digo a leitura, tampouco pessoas que leem… não se trata de estudar, ler, a cada um seu jeito de sentir // necessariamente não entendemos / sentimos a mesma coisa nem lendo Olavo Bilac / um poema de amor. eu digo te amo te agosto te amo, te beijo, eu te abraço, os gestos, a voz, as palavras espalhadas, significam o mesmo… será que atravessam teu jardim e… estamos, mesmo, os dois deitados na grama? as bibliotecas, grandes, ou pequenas, precisam existir //// muitos livros foram queimados, muitos, enterrados… algum leitor escondido seguiu, alguém não deixou terminar. ah! hoje fez sol. é bom.

dependência

ir pedindo / delegando poderes, deixar para o outro /// pedir é uma carência e não fazer é desaprender / recuar… invento os motivos / certos ou errados, o fato é / simples/ não sei mais fazer, ou nunca quis fazer, desaprendi… vestir uma roupa para sair, olhar-se ao espelho, fazer para si, mas para o outro / seja lá a justificativa… de repente eu me dou conta como o outro importa / resmungando, ou não, eu fazia // foi deixando de fazer que desaprendi, até no amor é assim / o outro é uma alavanca / o outro significa tanto quanto eu própria… as lições não terminam. Elizabeth M.B, Mattos – outubro de 2026 – Torres

insisto em te pensar

insisto / penso // depois penso/ concluo, penso… a vida termina. eu protesto, mas sei que termina. durmo e acordo animada, mas o mesmo ranço recomeça… limpo a prateleira, logo o chão, depois lavo a louça, depois espero a chuva passar… ainda penso na ônix / era bom saber que ela precisa sair, passear, difícil admitir o tudo, o todo, e não me culpar por isso ou por aquilo… ela conseguiu sobreviver ao meu jeito avoado de ser… como sinto saudade. eu não agarrei o tempo do jeito certo, não olhei, não aceitei… deixei passar. esquisita pessoa! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

preguiça

preguiça soma sentimentos antagônicos esdrúxulos e precisos quando concluo: não quero. esquisitices de estar viva / insisto no sentimento. quero comer o fruto maduro… analogias. pensar que a vida se desenrolou tão sem esboço! cores alienadas, vontade escorregando... era assim ser menina? ser jovem? garotos esfolavam melhor joelhos, cotovelos: corriam mais. o espelho atrapalhava alguma coisa? ou exigia mais? velhos podem ser mais preguiçosos, velhas também? ando inquieta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torre

passados tantos anos…

fico indignada ao lembrar dos filhos amorosos que tivemos / e / depois de longo silêncio / bom tempo sem nos falar e tanta história estranha a rondar… teres sido feliz bastante com outra mulher (aliás ela estava junto) quando me fizeste a pergunta… enquanto escrevo fico pensando, tu não me achavas feliz? ou o quê? eu nunca soube fazer perguntas, ainda não sei… enfim! soltaste, a queima roupa: tu amaste alguém? olhei estupefata… bobamente, respondi, acho que amei o Flávio /// resposta certa no momento certo. como pude responder assim? de certo fui apaixonada pelo Tavares, fui mesmo, encerrei a história num acesso de ciúmes que nunca admiti… com o Flávio, contigo, também com o Jorge, fui cancelando amados, o Marco, o Gianfranco…, não, Gianfranco terminou comigo. eu estava errada. será que nunca amei ninguém? nem o pai dos meus filhos? e se amei não me fiz entender?

histórias devem ser retocadas... escritas, contadas, por quê? para quem? sou apaixonada pela vida / amo o amor / o tal sentimento de estrelas e encontros e pipocas e bolo doce, e pimenta… e estou sempre recomeçando, recomeçando a amar muito, contar outra vez, escrever, reler os diários, detalhar as fotos, perguntar coisas esquisitas para os filhos.

saber quem a ente é / como a gente sente que gosto nosso olhos podem ter… e mistério o gesto de abraçar esconde… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

culpar o outro

o filho com dificuldade é meu / nasceu assim, deficiente, com problemas / eu aceitei, cuidei: busquei solução mas não foi fácil, consegui que entrasse num avião… enfim, vivi a vida com ele e para ele. a guerra chegou, perto, veio, e se instalou… ele acabou no meio da confusão e adoeceu, e morreu. sigo achando que a culpa não é / nem foi minha, nem dele, mas da guerra. vejo assim, ele não precisava ter morrido, nem vivido se eu penso bem, sofreu tanto. MAS de QUEM É MESMO A CULPA? muito mais fácil, concluir, a culpa, se culpa existiu foi da guerra. não ele ter nascido com problemas, mas morrido tão cedo! É ESTE o jeito de pensar? Então eu posto fotos lindas dele… e queria tudo de volta. tu me explicas o que existe ainda dentro de mim? culpa? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres