presságio

são anúncios ou presságios que dizem respeito a mim e ao mundo simultaneamente: no que concerne a mim, não se trata de acontecimentos exteriores da existência, e sim daquilo que ocorre por dentro, no íntimo, no que concerne ao mundo, não se trata de nenhum fato particular, e sim o modo de ser de tudo. a gente acorda e o tal homem já está fazendo declarações pitorescas, carnavalescas como se vivêssemos mesmo na terra das bananas / sem bananas… e o palhaço se agita importante. mas sem palhaços o circo pede a graça, o jeito… aceitar? sim, parece que precisamos aceitar e pronto…. tá terminando o reinado? se não for ele, vou eu fechar os olhos…Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

ainda espero, quem sabe eu tenha e eu possa querer um companheiro para me dar a mão

do tempo que moramos em Rio Pardo, na fazenda Santa Branca:

acumulávamos beleza, nós dois.

e desenterramos (porque tanto Jorge como eu, éramos de natureza alegre) toda a alegria possível…. acreditávamos em nós dois. teríamos atravessado o mundo e embarcado para a colonizar a lua se fosse vontade de Elon Musk e ele nos designasse passageiros…

Torres nos acolheria sempre que fosse possível enfrentar a estrada e a paz… assim, Jorge e eu, colorimos os dias, e aceitamos a rota: viver

não sou mais aquela moça da foto, ah! cabelos brancos, experiências empilhadas. humor esquisito, sim, no mínimo desorganizado, nada festivo. mas posso contar estórias, escutar as tuas // neste momento de ouvir preciso me concentrar, é verdade: não palpitar ou ‘achar isso ou aquilo’. tenho tendência horrível de não escutar até o fim, interferir e achar azul, rosa, verde ou roxo, e ainda desfolhar a história, sentir os cheiros… adoro banheiras com pétalas de rosa, água morna… sou dispersiva / eu me atravesso nas minhas próprias fantasias e o mundo se descasca como uma romã? ou como um pêssego? sou visual também… desleixo? só aceito o meu. o teu, eu vou pontuando e polindo e atucanando… mereço uma voz a me escutar? (desculpa meu querido) quantas latinhas de coca-cola, abacaxi? gosto. gosto dos cheiros e do vento. vou me aquietar. talvez eu não mereça nenhum beijo furtivo, muito menos um homem jovem como a mulher de Omar Sharif imagina / mas concordo com ela, a juventude tem perfume. e, a gente sempre quer… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

meu querido:

não sei como posso ficar tanto tempo sem notícias tuas! já estava deitada, chamando o sono, mas precisei levantar para te perguntar: como foi / quando foi que te pensar e te querer virou uma necessidade física? responde rápido. preciso organizar minha vida, voltar a fazer exercício, pensar em ter uma peluda preta outra vez, Ônix me faz falta. trocar de casa, ir a Porto Alegre. pensar em te ver / tocar / falar. tens certeza que estás mesmo voltando para casa? sinto tua falta – faltam me teus beijos. não temos tanto tempo assim, ou melhor… tenho medo que não voltes. é isso amor? Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

pernas coloridas

pernas independentes, e a vontade caminha neste prazer de voar… de desaparecer, voluntariosas pernas com ideias próprias / independência. fico exausta no mando… nem posso me demorar na alegria intensa de guardar estes limões preciosas, procurar o azul, encontrar luz e a cor madura da folha! a beleza numa exaustão quente, ainda é verão! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

fevereiro – carta 2

mãe: estou apressada porque inquieta. fiz tudo errado: dormi muito, não arrumei a cama, empurrei as coisas para baixo da cama, mas abri as janelas pro calor chegar amanhecendo… afinal, aqui é verão e faz um sol timído, pacífico. ontem as conversas com kf foram atrapalhadas, as explicações viraram divagações e as mãos estavam no lugar errado. depois te conto detalhes. um beijo

fevereiro, (2026)

carta 1

mãe, querida: demorei a te escrever – minhas promessas são voluntariosas, teimosas. castigos sufocam, não exatamente sufocam… parecem privação sem sentido: não compreendo. entre escolhas eu estudo, espero o sono chegar com a janela aberta / estou no meio do campo. rezo depois do sino tocar. imagino como te sentes, sem muita certeza, mas, determinada… assim desenhaste uma vida para ti, com talento. um beijo Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro 2026 – Torres

bomba e guerra

guerra e bomba / por que nunca termina? ganância ou falta de fé? homem no homem, mulher na mulher… as crianças deixaram de brincar nas calçadas? esquecemos de rir e desconfiamos desconfiamos / não parece absurdo apenas desconfiar… o reino do Vaticano… também está incluído? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres /

LEON TROTSKY

Minha infância não conheceu fome nem frio. Quando nasci, a família dos meus pais possuía uma certa abastança. Mas era o bem estar-rigoroso da gente que sai da indigência para se elevar e não tem nenhuma vontade de parar no meio do caminho. Todos os músculos eram tendidos, todas as ideias dirigidas no sentido do trabalho e da acumulação. Neste gênero de existência, o lugar reservado às crianças era mais que modesto. Não conhecíamos a necessidade, mas também não conhecemos tampouco as larguezas de vida, nem os seus carinhos. A infância não foi para mim uma clareira ensolarada como para uma minoria ínfima; também não foi a caverna da fome, dos maus tratos e dos insultos, como acontece a muitos, como acontece à maioria. Foi uma infância cinzenta, numa família pequeno-burguesa, na aldeia, num canto perdido, onde a natureza é larga, mas os costumes, as opiniões, os interesses são estreitos, mesquinhos. (p.17) Leon Trotsky Minha Vida Editora Paz e Terra – 1969

estas coisas da infância são os pés de barro da diferença / dos sonhos miúdos e das grandes vitórias porque tecem quem somos: as urgências, as metas, as carências e visam o tal sucesso… a tal meta, a tal vontade, o tal caminho que vai mesmo fazer a diferença. medem os beijos que não damos, as propostas que nos envolvem, os escondidos das nossas escolhas, mitigam felicidade e alegria, e se agarram nas balas de goma ou nas barras de chocolate com que nos lambuzamos, nos fazem crianças espertas ou distraídas. ah! esta habilidade de entender a infância e plantar margaridas! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres