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Sonhe um breve sonho comigo. Lá… Se é sonho tudo pode porque nada é. Sonho caminha, olha, entende, faz visita. Depois tu esqueces o sonho, o pensar e tudo, afinal, sonho é sonho… Anjos tem penas, por isso voam… Desejo, sonho, destino e eu a te pensar, ainda.

Faz frio. É inverno por dentro e por fora. Quero escrever sobre o que aconteceu, mas está tudo travado, demora para amanhecer e o corpo inteiro faz dor… De repente a gente envelhece. Sim, de repente. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres

eu penso que vou escrever, vou contar como foi acordar, pensar… caminhar. está dolorido por dentro, outra vez eu transformo tudo em bordoada. esqueço que viver é um suspiro de alegria e espanto. escrever, uma rotina. não pode escapar o tempo, é o principal, escrever, pensar, reescrever e contar tudo outra vez. não é tudo, (risos) esquecemos propositalmente os detalhes, esmigalhamos tragédias ou … preciso deixar as frestas e escancarar as janelas.

O Conto de Genji (volume 1)

Era setembro, e até a cor na tarde silenciosa penetrava na pele. A grama das moitas do jardim estava ressecada, e até o canto dos insetos já era tênue. E, contemplando a paisagem como um quadro, em que aos poucos as folhas começavam a se tingir. Ukon sentiu o peso estranho de ter acabado, sem esperar, como dama numa casa aristocrática. A casa de Gojõ, onde as flores de y~gao mal começavam a abrir , era algo que só de lembrar lhe dava vergonha. Ao ouvir, no bambuzal, um pássaro chamado iebato (pombo doméstico) cantar fora do tom, Genji não conseguia afastar da memória o rosto assustado de Y~ugao quando aquele pássaro cantou naquele in – ainda lhe parecia tão delicado.

“Quantos anos ela tinha? pareceria ainda mais jovem do que uma moça comum – foi por ser de vida curta, não é?”

“Ceio que tinha, sim, dezenove anos. Eu era a lembrança deixada pela outra ama de minha senhora; e o Sanmi-sama teve bondade comigo, criando-me junto da senhorita. Quando penso nisso, fico envergonhada de estar vivendo assim, tranquila, depois que ela morreu. Eu Ukon, vim confiado naquela pessoa frágil como no único senhor em que podia se apoiar.”

” Eu gosto mais de mulheres frágeis. Talvez por eu mesmo não ser tão esperto: não gosto de mulheres demasiado inteligentes, que não se deixam mover pelos sentimentos. Eu gosto de alguém que, embora pareça que poderia até cair em tentações, ainda assim é recatada e entrega toda a vida ao homem que fez seu amante; e penso que seria bom educar, à minha maneira, uma pessoa assim, calma e fazê-la crescer” […]

Mas não lhe saiu uma canção de resposta, e Ukon sentiu o peito apertar, pensando em como seria se, numa hora dessas, eles dois estivessem ali juntos. Mesmo lembrando o barulho incômodo do kinuta (pilão de bater panos). Gengi sentia saudade daquela noite e cantava: Agosto, setembro – longas noites. Mil vozes, dez mil vozes, sem hora de parar. Murasaki Shikibu

junho de 2026

eu me detenho nos meses, nas flores, na nostalgia do gostar, na quietude de que a vida está toda acomodada num ritual de estar junto, um estar junto prazeroso, gratificante, sem mais ou muito, apenas contínuo. como que o futuro inserido num hoje-passado. asssim escrever pode ser agarrar o momento, prolongar a vida, idealizar o romance. acordar a experiência, a disciplina.

meu querido – acordei no meio da noite e tomei um leite quente / a cozinha ficou caótica, o tempo de ser hoje está anarquizado, não porque me estatelei num fio de aspirador esticado, mas porque este vagar dos gestos demonstra uma tristeza grudada, um desespero não definido e agora este meu olho direito avariado cheio de pregas. Vai demorar para tudo voltar ao normal, mas não tem normal. Estas marcas horrendas ficarão. O jantar / almoço que te propunhas se desmancha nesta desagradável visão. Mas posso procurar um tapa-olho de Pirata e será curioso se eu me vestir como tal. Sem medo.

amamhã tentarei seguir a rotina, limpar a casa, prestar atenção. ler menos, pensar mais, sossegar a alma e pensar coisas boas. de repente fazer o fazer como se nada tivesse acontecido. o roxo-quase preto / uma máscara cheia de pele… uma cirurgia plástica colocaria tudo no lugar? tudo? como será ter o rosto avariado assim? Elizabeth M.B. Mattos- junho de 2026- Torres bem muito frio. Talvez eu gostasse de estar em Paty / talvez eu quisesse que o Pedro estivesse aqui. Talvez eu me apaixone por Bonito. Ou consiga resolver a piscina da/ na casa da Ana. Joana, minha filha, sinto saudade. nunca haverá um ponto, mas sempre esperança. E o João segue sendo João.

narrativas japonesas me encantam… costumes certos, numa nota de acerto lenta, colorida, mansa, carregada de amor encantado /fantasia. viver é uma fantasia. Beth Mattos volta.

apoio estratégico / rotina / olhar / pausa

não sei bem como combinar tudo / amar fica meio transloucado… sem medida justa / tudo num minuto, no impulso. como ajustar estar coisas no meio de fazeres comuns como tomar banho, comer, limpar e deixar o mundo entrar pela janela, sim, mas fechar na hora certa?! não cair / sair para as tentações! as danadas tentações do prazer imediato… como vou explicar isso. como se apreende a viver? Cônegas de Santo Agostinho. Não foi apenas o colégio // estar no internato, acompanhar o embalo das missas diárias (nunca obrigatórias) esquisito isso… haviam regras a serem observadas e flexibilidade. explicar estes acertos pode ser complicado. eu gostava de ter cartilha e seguir o que importava, seguir a fantasia de ser apesar de / apesar de eu era apenas eu…Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 – Torres

meu querido: deves ter chegado ao teu destino. viagem acidentada a tua. cheia de objetivos… ah! esta onde de possibilidades do mundo assusta. as pessoas estão remexidas, aturdidas entre o certo e errado, comida esquisita, ar estranho, estradas confusas. preciso te escrever com calma. não imaginas o que me aconteceu?! tropecei no fio do aspirador (eu com minhas manias de limpar) e fui direto na parede… uah! meu olho está apenas terrível! aparentemente estou viva! na semana marcarei um médico, uma radiografia, um alguma coisa que confirme: estás viva! poderás seguir com teus projetos de 100 anos/ quem sabe 120 embalando melhor a sorte. um beijo

pense, pense outra vez

penso, desenho, imagino o mundo com grilos (muitos)… o mundo dos carvalhos e das violetas. desenho o que seria o troco de um carvalho, enorme, e um grilo desajeitado, ali. e as violetas também… vou ver as cerejeiras em flor no espetáculo, espetáculo anual da primavera no Japão… flores: o sorriso da natureza…, eu li. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 – Torres num inverno que diminui com tanto sol… ( eu sigo esquisita, tanto! talvez um sono fora do lugar me faça bem, talvez um sorriso, quero flores)

o filho – da – estrela

Era uma vez dois pobres Lenhadores que estavam indo para casa através de uma grande floresta de pinheiros. Era inverno, e fazia um frio terrível. A neve estava alta no chão e recobria os ramos das árvores; o gelo ia estourando os raminhos mais tenros, enquanto passavam; e quando chegaram à Torrente da Montanha ela estava pairando no ar, imóvel, pois o REi do Gelo já a beijara.

O frio era tão intenso que nem mesmo os animais e os pássaros sabiam o que pensar.

– Uuuhh! – rosnou o Lobo, enquanto capengava entre as plantas rasteiras, com o rabo entre as pernas. – Isso é o que eu chamo de tempo realmente pésssimo. Por que será que o Governo não faz alguma coisa?

-Piu!piu!piu! – chilrearam os Pintarroxos. – A velha Terra morreu e foi embrulhada em uma mortalha branca.

-A Terra vai se casar, e esse é seu vestido de noiva – sussurrou uma Pomba-rola para outra.

Seus pezinhos cor-de-rosa estava congelados, mas as pombas achavam que era seu dever encarar tudo com certo romantismo.

-Que bobagem! -grunhiu o Lobo. – Estou dizendo que é culpa do Governo, e se não me acreditarem, eu as comerei. (p.109-110) Oscar Wilde –Histórias de Fadas

deu vontade de contar às minhas fadas adormecidas histórias que eu vivi / aquela, por exemplo, que o mundo berrava, urrava de tanta chuva com trovoada, sábado de manhã – eu tinha que abrir a galeria Garagem de Arte e fechar às 13 horas / não importava ser sábado, nem chover, nem ter clientes / regra é regra: os sábados eram longos no verão…

agora fico pensando na lógica.

aconteceu sábado, sexta feriado, já feriado // Porto Alegre quase esvaziada… horário é horário // e o que eu conseguira para não ficar presa na cidade? uma carona pra Torres / 14 horas o combinado para me buscar e seguir viagem. Moinhos de Vento deserto, tudo quente e deserto. Fomos sequestrados. Foi horrível! Revólver na barriga / entraram na caminhonete, os três e seguimos… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de um ano que não lembro agora / junho de 2026 / Torres

eu

tive mania por bolsas / bainhas impecáveis / perfumes. adoro cheiro, bananas fritas, batatas fritas e balas de goma. ah! laranjas, bergamotas e cerejas. nunca fui boa nas contas, estudei mais ou menos, li, li de um jeito acelerado… com prazer é claro, e sempre quis ser escritora, escrevinhar me salvava do tédio. histórias e estórias. certeza certa, eu me apaixonei muitas vezes pelo improvável, mas segui o possível. não sei se isso é escolha, bom ou ruim. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres – janelas abertas e uma preguiça terrível de seguir o dia.

transformações / morena, loira, castanha e cabelos brancos antes da moda, muito antes…

surpresasssssss

quando se menciona, ou se pensa o outro… vira meta / o outro se transforma em meta. caminho de amor, de amizade: amontoado de A a ah há de ter / de contido! arrepia… sou / estou equivocada porque quero estar no outro: consciente ou não, o modelo / o lugar é aonde o outro está / é /defino / desenho a partir deste modelo. quem eu sou? eu sei? acho que ainda não sei. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2026 – Torres / dia ensolarado / escuto o tempo passar / o que será

atrás da casa, atrás do vento, atrás da árvore se esconde um homem

um homem indeciso que poderá convidar para jantar, ou tomar um chá ou me dar um beijo atrasado. vamos rir /porque nossos vinte anos estão escondidos, nas tardes do clube, nos passeios/ temos Porto Alegre, temos Torres/ora ora ora temos 80 anos, mas ainda faremos estrepolias…. prometo comprar um tênis, uma blusa legal, fazer um cabelo legal… será que tu achas não vou conseguir…///// ou vamos sentir os dois e fazer de conta…sinto saudades tuas, ler junto e vamos conversar também

sempre te amei/ vai ser divertido / porque sempre te conheci, e sempre te amei, mesmo agora, longe. Elizabeth M. B. Mattos

um dia

um dia, antes foi fácil / eu conseguia / seguia / não que a vida fosse rosas cor-de-rosa / não era, nunca foi. mas a vida era mais fácil… esquisito. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2026 – Torres

pensei: porque dependia apenas da minha vontade / agora, não depende mais de mim… com o tempo fui ficando leve, muito leve… e o vento decide.