Ah, era um par de asas! Como me sentia leve

E, antes de mais nada, dizia de mim para mim, cuidarei bem desta minha liberdade: levá-la-ei a passear comigo por caminhos planos e sempre novos e nunca lhe farei usar nenhuma roupa incômoda. Assim que o espetáculo da vida, nalgum ponto, se me apresentar desagradável, fecharei os olhos e passarei a outra freguesia. Procurarei ater-me, de preferência, as coisas que se costuma chamar inanimadas e irei à procura de bonitas vistas, de lugares aprazíveis e tranquilos. Aos poucos darei a mim mesmo uma nova educação, transformando-me com paciente dedicado estudo, de tal sorte que, no fim, possa dizer não só que vivi duas vidas, mas que fui dois homens. (p.99-100) Luigi Pirandello O falecido Mattia Pascal

este par de asas queremos todos nós, e nos educar mil vezes, também quero, ser muitas e ser eu, e ser duas ou três. como amar muito e diferentes pessoas, e tantas e todos e que amarei mesmo, ou amarei menos, apenas, quem eu sou, serei: o melhor jeito de ser gente, ter este cuidado atento a quem somos: tortos, desajeitados mas/ e conscientes. sou eu mesma, assim deve ser. e o lógico e certeiro caminho é poder me reconhecer no espelho, alimento a vontade alegre de ser eu. sim, reencontrar velhas e fortes e poderosas leituras é muito bom! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres atrás dA Montanha Mágica de Thomas Mann eu desarrumei as estantes e esparramei o passado pela casa, cada livro, tem uma história de leitura, de prazer.

Ana Maria pai e mãe / Rio de Janeiro

meta e meta e recomeçar e reiniciar

bem engraçado constatar que fico assim: meta, recomeçar e reiniciar. resolvi limpar as estantes, atrás de um livro / um livro colocado no lugar errado, e, naquele momento, urgente. como sinto urgência na saudade de uma pessoa, de outra… claro, tão urgente é a vida e cada sentimento! umas depois das outras importantíssimas, as pessoas. fundamentais… com estas alianças atravessei a vida / e contar história ou estórias passa por todas elas. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

desenhar um prego

meu querido: tens sido severo nos teus julgamentos contigo. eu te imagino e eu te penso alegre, de mãos dadas com a vida, querendo e conseguindo. desenhar um prego / gostei, mas deve ser difícil mesmo / viver, esperar e esperar também / envelhecer é sentir os dedos ou ter câimbras ou insônia, ter medo. sei lá. sentir tá apertado! eu te quero querendo e conseguindo. divagações! um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

outros tempos / a juventude no Rio de Janeiro, a maturidade Torres e o neto – Lucas / ficou bom o recorte, eu acho.

experiências do sentimento

“Experiências do sentimento, estranhas experiências do sentimento, as quais muito mais tarde se acumularam naquela determinada vivência que – de modo muito aproximado – circunscrevo à imagem do revenant, contestam-me o direito de me absorver na amada (mesmo sendo infinito o espaço que ela oferece). Por mais que eu tenha de reconhecer a lei nesse domínio, parece-me que me encontro ao mesmo tempo constrangido e despótico em seu meio. A minha consciência mais profunda me atormenta, e o medo que me distrai não aquele medo da criatura diante da doce aniquilação que provém do cerne do amor; é o horror de um abandono que sempre me agita e me exorta, dizendo que não compete a mim dispor de minhas inclinações: como se o patrimônio de meus sentimentos fosse repartido e eu me tornasse pobre, como se eu amado, e amante, retirasse um quinhão há muito exaurido de heranças desconhecidas e já destituídas de sentimentos. Em algum lugar, na amplidão do espaço de meus sentimentos, emerge uma inquietação, uma contrariedade; lamentos que não compreendo sopram em minha direção; levam-se ameaças em meu ser: já não me sinto concorde comigo mesmo.” (p.64-65) Rainer Maria Rilke O testamento

Explicar revenant – eu devo? Aquilo que volta, o fantasma que me persegue, aquilo que parece que terminou, mas está lá, outra vez dentro de mim, grudado. O sentimento que não termina, aquilo que quero sem querer mais, já não sei, mas está lá presente, a remplir / encher e transbordar meu sentimento inquieto. Pensei. Será que eu quero mudar de lugar, de casa. Sair desta vida agora para seguir não fazendo, não sendo ou para encontrar, achar, o que não tenho? Mas se eu nunca tive, como será procurar? Se não sei exatamente o que quero apoiado apenas no que não quero? Será diferente se eu estiver noutro lugar, não farei ou farei as mesmas e muitas coisas e ainda outras, que nem faço? deslocar-me não é suficiente. Preciso saber aonde / lugar, momento, sei lá, quero chegar e o motivo, o porquê de toda esta reviravolta. Atirada neste meu nada / no não fazer como vou, de fato chegar no fazer, na construção exata do meu querer? Confuso. Grande confusão… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

começo animada

animada, animadíssima, vou ordenar, limpar e embelezar, mas logo, tão imediatamente, sinto vontade de comer abacaxi, folhear outra vez o livro, beber o suco e despejar a preguiça inteira entre travesseiros e sono. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

envelheci dos trinta para os quarenta anos…

depois vivi… vivi com tal e tanta intensidade que nada mais importa / claro, quando se vive a vida, não as plásticas de embelezamento e enganação (sou contra) /nem as dietas e convenções, estou me referindo a viver: acordar triste, chorar. estar alegre porque a borboleta é pura beleza! viste? pousou tão perto! porque hoje comprei cerejas… mas tô com saudade das laranjas / do sol de inverno… saudade do beijo apressado, de te mimar… tanto tempo longe! dos trinta anos para os quarenta era um jogo de xadrez e soluções, em cheque: entendi bem, o tempo passa… alegria transborda: sinto a exata sensação de estar aonde estou e feliz.

pai mãe tios filhos netos e…

amigos.

árvore, raiz, tronco e galhos e frutos e flores… travas, acelerações, doçuras e um EU.

filmes, livros e conversas. pois é… tanto! uma citação, outra vez:

Norberto Bobbio in O tempo da memória:

Muitas vezes são colóquios imaginários com interlocutores reais, escritores, jornalistas, visitantes ocasionais, nos quais exprimo não só sentimentos e ressentimentos, simpatias e antipatias, intolerâncias, pequenas indignações e enormes desprezos, mas também comentários sobre os acontecimentos do dia, breves raciocínios para desfazer uma dúvida, argumentos a favor ou contra uma tese controvertida, rascunhos de artigos futuros.” Estou voltando aos meus autores preferidos, volto ao tempo, deve ser isso, voltar. Então penso no erro cometido, no que foi acerto, refaço a memória. Já esqueço isso, acrescento aquilo… coisas do eco / do vento… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

parágrafo

Eu acho que o VORNY era casado, por isso não passava do portão, mas vinha visitar: ficavam um tempão no portão os dois: conversavam, conversavam até a tarde ficar noite. aos domingos.

Eu era pequena / sei lá, segunda ou terceira série primária. criança quieta / sempre com ela / de manhã de tarde e de noite: comia o que ela comia / fazia o que ela mandava. Não sei se gostava de mim. Um dia, eu sei, ela me escutou dizendo ‘eu te odeio, eu te odeio’ / claro, nunca me perdoou. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

sonho

não é para ser comprado… sonho a gente não vende, nem compra, nem recebe de presente… difícil explicar. impressiona como sou tentada a explicar, quero sair por aí com cartilha de sonhos… confundo com desânimo, ânimo… credo! já não sei mais com o que eu confundo: esperança de alegria confete, cartilha é coisa de professora mesmo, não existe… o y, z, n ou m, ou o z se ajustam devagar, alfabetização é questão interior / todas as crianças ao mesmo tempo? todas separadas… todas individualmente alfabetizadas, o processo é pessoal, único, interno. vou fechar os olhos. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

tempestade sem trovoada

a gente se recupera, mas igual é gelado… o sentimento é fraco pra ser exatamente amargura, forte para ser apenas rancor. sentimento dolorido e difícil de controlar, a lágrima ajuda… coisas de despedida, de retomada de energia, alguém me empurra, tropeço / mas não preciso conferir, apenas não desistir da caminhada, a minha… ah! tenho que voltar a usar a maiúscula… tenho que recomeçar, mesmo sem ter certeza aonde / em que lugar, exatamente, eu vou chegar. não posso desanimar, então, eu abro um livro, decoro a conjugação de um verbo, repasso a lição de análise sintática… eu recomeço. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

vou te dar a mão, depois pensamos qual o caminho menos difícil… o que importa é não desistir.