ir pedindo / delegando poderes, deixar para o outro /// pedir é uma carência e não fazer é desaprender / recuar… invento os motivos / certos ou errados, o fato é / simples/ não sei mais fazer, ou nunca quis fazer, desaprendi… vestir uma roupa para sair, olhar-se ao espelho, fazer para si, mas para o outro / seja lá a justificativa… de repente eu me dou conta como o outro importa / resmungando, ou não, eu fazia // foi deixando de fazer que desaprendi, até no amor é assim / o outro é uma alavanca / o outro significa tanto quanto eu própria… as lições não terminam. Elizabeth M.B, Mattos – outubro de 2026 – Torres
dizer teu nome repetidas vezes pode ser esquecer…
insisto em te pensar
insisto / penso // depois penso/ concluo, penso… a vida termina. eu protesto, mas sei que termina. durmo e acordo animada, mas o mesmo ranço recomeça… limpo a prateleira, logo o chão, depois lavo a louça, depois espero a chuva passar… ainda penso na ônix / era bom saber que ela precisa sair, passear, difícil admitir o tudo, o todo, e não me culpar por isso ou por aquilo… ela conseguiu sobreviver ao meu jeito avoado de ser… como sinto saudade. eu não agarrei o tempo do jeito certo, não olhei, não aceitei… deixei passar. esquisita pessoa! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
preguiça
preguiça soma sentimentos antagônicos esdrúxulos e precisos quando concluo: não quero. esquisitices de estar viva / insisto no sentimento. quero comer o fruto maduro… analogias. pensar que a vida se desenrolou tão sem esboço! cores alienadas, vontade escorregando... era assim ser menina? ser jovem? garotos esfolavam melhor joelhos, cotovelos: corriam mais. o espelho atrapalhava alguma coisa? ou exigia mais? velhos podem ser mais preguiçosos, velhas também? ando inquieta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torre
passados tantos anos…
fico indignada ao lembrar dos filhos amorosos que tivemos / e / depois de longo silêncio / bom tempo sem nos falar e tanta história estranha a rondar… teres sido feliz bastante com outra mulher (aliás ela estava junto) quando me fizeste a pergunta… enquanto escrevo fico pensando, tu não me achavas feliz? ou o quê? eu nunca soube fazer perguntas, ainda não sei… enfim! soltaste, a queima roupa: tu amaste alguém? olhei estupefata… bobamente, respondi, acho que amei o Flávio /// resposta certa no momento certo. como pude responder assim? de certo fui apaixonada pelo Tavares, fui mesmo, encerrei a história num acesso de ciúmes que nunca admiti… com o Flávio, contigo, também com o Jorge, fui cancelando amados, o Marco, o Gianfranco…, não, Gianfranco terminou comigo. eu estava errada. será que nunca amei ninguém? nem o pai dos meus filhos? e se amei não me fiz entender?
histórias devem ser retocadas... escritas, contadas, por quê? para quem? sou apaixonada pela vida / amo o amor / o tal sentimento de estrelas e encontros e pipocas e bolo doce, e pimenta… e estou sempre recomeçando, recomeçando a amar muito, contar outra vez, escrever, reler os diários, detalhar as fotos, perguntar coisas esquisitas para os filhos.
saber quem a ente é / como a gente sente que gosto nosso olhos podem ter… e mistério o gesto de abraçar esconde… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
culpar o outro
o filho com dificuldade é meu / nasceu assim, deficiente, com problemas / eu aceitei, cuidei: busquei solução mas não foi fácil, consegui que entrasse num avião… enfim, vivi a vida com ele e para ele. a guerra chegou, perto, veio, e se instalou… ele acabou no meio da confusão e adoeceu, e morreu. sigo achando que a culpa não é / nem foi minha, nem dele, mas da guerra. vejo assim, ele não precisava ter morrido, nem vivido se eu penso bem, sofreu tanto. MAS de QUEM É MESMO A CULPA? muito mais fácil, concluir, a culpa, se culpa existiu foi da guerra. não ele ter nascido com problemas, mas morrido tão cedo! É ESTE o jeito de pensar? Então eu posto fotos lindas dele… e queria tudo de volta. tu me explicas o que existe ainda dentro de mim? culpa? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

história estória (in)história descabelado som de tambores
amontoado de palavras para dizer que viver, afinal, viver é ser colorido de energia. na escola fomos treinadas para ser perfeitas. comermos do melhor. reconhecermos o bom, jogar tênis, vôlei e correr. nunca abandonar o corpo. costurar e bordar também. servir a mesa. saber o lugar dos talheres e quantos pratos. fazer doces.
esta parafernália toda era necessária para viver. os homens apreendiam a manejar as armas, calçar e lustrar as botas e estarem limpos. ser espertos, saberem matemática química e física. desenvolverem os músculos. saberem inglês, e também francês, os da fronteira falavam espanhol. beijar.
eu gostava das bonecas, as que me eram designadas, caixas pequenas, paninhos para fazer de roupa. gostava muito de recortar revistas e fazia bonecas de papel. custei muito para apreender a ler, não era boa nas contas e tão distraída! jogada na grama, com os cães em volta, sempre, muitos cães no jardim – eu me imaginava tocando piano e escrevendo. Duas habilidades divinas. Podia ficar assim bastante, muito tempo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
meu filho é professor
minha filha é professora, minha mãe, professora. meu pai é professor // estes mestres importam. talvez, tenha desaparecido o uso dos possessivos. não desapareceram os professores da minha família / professores importam. nas empresas, nas famílias, nos grupos: professores, aqueles que ensinam, genuinamente… quem ensina acolhe, dá o exemplo… diferente de quem manda, outra gama de pessoas. orgulho pensar que os seus ensinam… tenho a impressão até de que desapareceram os possessivos… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres – orgulho ser lembrado / professor
valores estão despencando
medo ou pânico
faz parte do medo a surpresa, qualquer maldade. a grande paralisa ou a pequena, constrange. / qualquer lugar, qualquer olhar atravessado estremeço de medo. a fragilidade não está na fraqueza mas num susto grudado… como se nenhum lugar… não vou escrever. uma alma inquieta é sempre um susto em movimento. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
balzaquiana / quem é o autor
quem / qual autor vai substituir BALZAC … a IA / a turma do Elon Musk / eu acho Steve Jobs começou o Vale do Silício ainda está lá… ou foi inundado. tudo acontece tão depressa! estou sobrevivendo? a rua Vitor Hugo, a Independência, até na Santo Inácio eu morei… depois sacudi as tranças em Rio Pardo, Santa Cruz do Sul e Montevidéu… esqueci tanta coisa! o esquecido deve boiar em algum lugar….Elizabeth M. B. Mattos – 2026 – Torres
