André Gorz

Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou de uma conversa. ‘Se eu pelo menos pudesse saber o que se passa na sua cabeça.’, você dizia às vezes, diante de meus longos devaneios em silêncio. […] Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você.’ Então escreva!” (p.21) Carta A D.

sem intuições ou afetos, não há inteligência, nem sentido”

estacionada

Estacionada, apertada. Trancada a porta, fechadas janelas; mas o sol está lá… Vou caminhar, caminhar…, caminhar, caminhar até cansar. Compreendo a quietude e o silêncio. Tenho o mapa para chegar a Rocamadour, tenho certeza. Então vamos! Estas acordadas na madrugada revolucionam a vontade. Aceito e estremeço. Beth Mattos

metade

A metade, o meio não deveria me satisfazer, metade de indolência, ou de preguiça, ou de remoto desânimo feliz, fico pela metade, na metade. Dia ensolarado. Beleza particular, cheia, vamos pegar o inteiro! Caminhada metade. Faço metade da arrumação. Não estão em ordem os livros, nem as estantes definidas, nem as louças, nem o lugar certo. Um dia quero arrumar fazer bonito, ter tempo para nada fazer, sem culpa. A poltroninha nova vai definir tudo, nada de leituras na cama, mas sentada, comportada. Vamos ver! Almoço, fico na omelete, meio copo de vinho, meio tempo, meia fruta. Meio sol, meia lua (se for pão francês, delícia), meio livro. Sim. Milhões de páginas, metas importantes (Grande Sertão, 4321, Escritos, Bela do Senhor, Bíblia, O Homem sem Qualidades (já na cabeceira) para terminar de ler, não. Vergonhosamente, metade. Hoje especialmente feliz eu me disponho a vencer a fazer a ser gentil, alegre, a ler desavergonhadamente. Foi mesmo Rocamadour a definição, vou voltar a França, um dia indefinido, claro! Pensamento metade. Quero salvar o tempo, o sol, e tua poderosa generosidade. E a CPI da COVID por inteiro a digerir, Brasil importa, ou também pode ser metade? A luz por inteiro, e a noite completa, por inteiro. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

entre ele e mim amor e resistência intensidade insuportável

assumir que o pensamento nunca é dissociável das violentas peripécias do amor” Alain Badiou e Nicolas Troung

te amar / uma experiência pelo prisma da diferença “o mundo praticado, vivenciado, examinado e vivenciado a partir da diferença e não da identidade.” amo te amar nesta incerteza perdida, sem evidência, nem certeza, nem tato. Inventamos este nosso querer fugindo negando, escondendo e por isso nosso: “o amor é uma reinvenção da vida / O amor inventa um jeito de durar ao longo da vida“.

despir-se

entregar o próprio corpo

ficar nu para o outro

renunciar ao pudor

por que eu não seria justa comigo? por que eu não me posiciono como principal, por que te quero sem me quereres? por que sou imaginação, não sou eu? (as perguntas se desenhariam na página inteira, acotovelando -se confusas,

as armadilhas de ficar / será que é amor se amarrar nas surpresas de um filho / objetivo futuro definido? O outro me entrega o fato consumido do sonho desmaiado: se lhe dou o filho, o amor é bom e eterno / amor de negócio/troca de acertos, “papai, posso ficar”? Estacionar?

Se tu me amas, se eu te amo renunciamos

matemática ativa / estranhadas somas / subtrações / divisões, mas a multiplicação deve entrar neste céu. Céus! Já não é amor, mas um negócio. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

Rocamadour

Sim. Persigo sonhos pelos/através dos livros. Feliz / alegre e com sofreguidão. Este, eu materializei, fui a Rocamadour. Realizei. ROCAMADOUR. E não tirei fotos. Tenho a/na memória viva, excitada, feliz de lembrar a subida árida, amarela. Aqueles rochedos. E chegar… Beth Mattos. Amo a França do meu jeito esquisito, antes a língua, o francês, os exaustivos estudos, os autores, as “pegadas” da minha mãe, como não poderia deixar de confessar, a biblioteca…, mas Henry Miller e Anaïs são meus, muito, bastante, completamente meus. Li os Trópicos, de Câncer e Capricórnio com sofreguidão, e tudo que pude do que ela escreveu e senti o erótico o sensual, o proibido.

preguiça

espreguiçando este jeito novo/desconfiado de me olhares, eu te sinto indo…,

devagar a te afastar.

o tempo limite de amar, talvez…, ou a liberdade do grito, te sentes preso?

não sei.

Não gosto das amarras, mas das certezas. Faz sentido? No silêncio vou consumindo a energia inteira que me deste, que tenha sido livre e boa

sem artifícios, apenas encontro amar amor amado

saudade é um assunto sério

eu te estendo as duas mãos, mas não te prendo, não me prendes, tenho gosto de “eu por mim e possível” Beth Mattos – maio de 2021 – Torres iluminada pelo outono escabelado (venta um pouco), pela abundancia das frutas

especialmente cansada

Específica verdade, escondida num pote de certezas. A lucidez estraga toda e qualquer brincadeira. De repente imagino: armários, prateleiras arrumadas, segundo cada dono ou gosto, na lógica simples das necessidades. Eu, particularmente, complico: vou empurrando o que é possível quebrar para o fundo, lá escondido, estão meus copos, xícaras, porcelanas. Os preferidos. O som se mistura…, a música me atrapalha. Não é possível arrumar prateleiras, selecionar livros, sentar na mesma poltrona, e tentar se fazer entender: não. Não sei onde estou. E devagar vou desaparecendo… Esta brincadeira de esconder e achar, pegar e correr preenche tardes de folguedo. Somos viciados em correrias… No faz de conta. Hoje estou especialmente cansada. Beth Mattos

fora do contexto

Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres humano e seres não-humanos. Alterando a analogia, pode -se dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento até à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, uma prisão, um receptáculo cem nossa volta… até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. Notemos simplesmente a conexão possível entre sanidade mental, socialmente prescrita, tratamento psiquiátrico e caixas.” (p.35) David Cooper Psiquiatria e Antipsiquiatria -Editora Perspectiva – Coleção Debates – 1967

Já transcrevi outras vezes este parágrafo, na simplificação permite um avanço, uma ideia simples… E na brincadeira podemos catalogar as caixas, colocar idades de tal a tal ano para organizarmos estas emoções extraordinárias criadas por uma única pessoa. e pensar o esforço que deve existir para sair da caixa, e ser outro, acrescido de nova experiência. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres