CARTAS PARA LORENA – outra entre tantas

Torres, segunda-feira, 26 de abril de 1999 (12:57)

Minha amiga querida baiana, ainda gaúcha, também (eu acho) risos. Penso e sinto saudades. Sinto saudades e penso em vocês, em nós, no Capão Seco / Rio Pardo: campo, piscina, ovelha, churrasco, noites longas e tardes masmorrentas, quase placitas pelas redes, nos avarandados da tua casa. E eu vendo o campo todo, o cheiro dos eucaliptos mas feliz com os cinamomos, minhas preferidas; enquanto a Dark (estabanada, com o rabo) quebra teus vasos. Lembras? Eu sempre a levava comigo. Naquele tempo ela não corria nem matava ovelhas. Quero ter outro bicho (chorei muito quando ela morreu em baixo daquela casa, presa, apavorada com a tempestade, presa). Mas ainda choro muito… Foi triste!

Os dias continuam a acontecer, uns depois dos outros. Faz sol e chuva. Calor e feio. Agora é assim. Isto não é exatamente uma estação, mas dizem, anunciam o outono, pela data parece que sim. Mas as coisas da vida acontecem tumultuadas e tempestivas, exatamente, como eu estou descrevendo. Engraçada ou lamentável. Não sei. eu te escrevo enquanto a sopa de ervilhas ferve na panela e Luiza tosse no quarto, esticada, vendo televisão. Bonita, sim, ela é bonita mas também um feixe de ossos herméticos, às vezes, carinhosa, difícil para conversar. Quieta. Ou sou eu que não falo com ela?!? Tantas coisas tenho que fazer e dizer e querer que não sobra tempo para este amor adolescendo?!? Pois é. Tudo isso está aqui em Torres agora. Os dias são pequenos e eu também sinto sono embora muitas vezes tenha insônia, não é incoerência?

Agora já quero terminar a carta, mas nem te contei ainda que encontrei com Cláudio Noronha e a mulher na locadora de vídeos em Torres. Que vou seguido ver as irmãs em Porto Alegre, e que acabei por reencontrar amigos conversando, conversando nas calçadas: uma Beth de antes surge tímida mas segura. Velha, com cabelos brancos que todos querem pintados de preto (está muito caro pintar!) coisas de tempos passados estes reencontro. de Country Club, festas e danças, jantares e tantos risos. Alguém já comeu peixe no Shirlley, no Leme, no Rio de Janeiro? Atrás do prédio onde moram os Moog. Os melhores peixes, as lagostas, os siris e o cheiro de mar! Ah! Estas conversas me dão vontade de tudo voltar. Ao voltar, de repente, não tenho mais nada a ver com a Beth de Rio Pardo ou Santa Cruz do Sul que desapareceu atrás da minha incrível gravidez / chegada da minha Luiza e as escolas públicas barulhentas e tristes.

Vou correndo até ao banco buscar dinheiro para pagar o gás, avisar que o micro ondas e a máquina de lavar estragaram, e decidir logo a procurar uma faxineira. A mesa da sala está tapada de provas, trabalhos para serem corrigidos. Hoje é aniversário do Roberto, meu amigo do Rio, meu professor, meu orientador, meu guru, eu não lhe escrevi ainda. Não mexi mais na papelada tese mas ainda quero ter um namorado, talvez casar mais vez e ter a vida quieta de antes. MAS eu gosto do que sou agora e de como estou agora. Falo mais alto, perco os cadernos pela casa e com pessoas, mas acho divino, maravilhoso estar viva e neste mundo. Será que não é só isso o que importa? Minha amiga querida, não era esta a carta mas é esta mesma que eu vou mandar. Oxalá chegue logo e a tua traga notícias baianas e quentes destes lados daí… Quando vens? Adoro vocês. Mas, mesmo assim, quando penso que estão felizes aí e nós nos amamos no silêncio mesmo da distância eu me sinto bem… Seguimos. Espero novas.

Beijos da Luiza

Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

(correspondência encontrada nas caixas)

CARTAS PARA LORENA

Santa Cruz do Sul, 21 de maio de 1992

Lorena, amiga querida: o silêncio enorme é o atropelo que tem sido a minha vida. Tantas e tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo! Como poderia contar tudo! O meu pé torcido me ajudou a descançar: repouso absoluto. Nem senti o enorme calor que foram aqueles dias. Lamentei não ver a Onni, nem fiquei sabendo detalhes da saúde do Filipinho. O tempo se fechou nele mesmo. Fiquei em silêncio porque as coisas me aconteciam e se amontoavam… Ana Maria veio da Alemanha, já foi, talvez volte mais uma vez: morre de saudades. Joana trabalha no Waecheter, na Loja do Boticário. Pedro vivendo em Petrópolis, no Rio de Janeiro, se adaptando, levando a vida. Luiza crescendo e sendo feliz… assim me parece. Somos as duas muito agarradas, dorme comigo, e faz tudo comigo. Ruim, mas este amor nutre as duas. Perdi uma grande amiga, Maria Luiza, filha do advogado Lia Pires, fomos colegas nas Cônicas, todo o ginásio e segundo grau. Fiquei chocada. Não tenho ido a Porto Alegre. Cortei meu cabelo bem curto, tirei toda a tinta, está branco. Infelizmente não consegui emagrecer. Jorge continua o mesmo. Atualmente muito querido.

SCSUL, 25 de maio / isso mesmo, parei a carta, não pude terminá-la antes, uma loucura, isso mesmo. Aliás, de acordo com o Jorge a louca sou eu mesma, ultimamente é este o seu maior desaforo. Anda tendo umas crises. Aliás, te confesso que não sei se não sou eu mesmo que as tenho. Mas, voltamos a não nos entender, uma droga. Fico super triste e MUDA. Não quero que comentes sobre isso, já tive problemas por causa das cartas, da minha correspondência. Não é ciúme. É perda de poder, já descobri. Acho que ele não me aguenta mais, esta é a verdade. No final devo ser meio chatíssima mesmo. Hoje não estou nada legal. Não queria te escrever nesta situação, mas não vou deixar para mais tarde ainda. Eu te gosto muito. Minha amiga da maturidade. Sinto muitas saudades. Andei tentando encontrar a Armanda, mas é bastante difícil. Telefonei, convidei, mas estamos as duas amarradas, sem encontrar o tempo. Precisava mesmo conversar com ela. De alguma forma estamos vivendo situações semelhantes. Ela está advogando. Horários apertados. Beijo

Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres (velhas cartas)

És a viúva?

Mãe dos filhos dele? Ou não. És quem se casou faz pouco. Pois, é. Algumas pessoas se envergonham do nome de nascimento / ou sei lá… se sentem diminuídas, ou casam por poder e destaque e trocam de nome. Eu me atrapalhei quando vi teu nome… Sou velha. Desculpa. Pouco comum atualmente trocar de nome. Eu te compreendo. O peso de ser mulher ainda pesa… os homens não trocam de nome, muito raramente… Tem tanta coisa que pesa sobre os ombros de um mulher! Num dia de sol as sombras pesam também! Meus sentimentos! Ainda faz frio, é isso. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

Antoine de Saint-Exupéry

“Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco. Não fui lá muito honesto ao lhes falar dos acendedores de lampiões. Corro o risco de dar uma falsa ideia do nosso planeta àqueles que não o conhecem. Os homens ocupam, na verdade, muito pouco espaço na superfície da Terra. Se os dois bilhões de habitantes que povoam a Terra se mantivessem de pé, colados um ao outro, como para um comício, acomodar-se-iam facilmente numa praça pública de vinte milhas de comprimento por vinte de largura. Poder-se-ia ajuntar a humanidade todo na menor das ilhas do Pacífico. As pessoas grandes não acreditarão, é claro. Elas julgam ocupar muito espaço. Imaginam-se tão importantes como os baobás.” (p.84) Antoine de Saint-Exupèry O PEQUENO PRÍNCIPE

a gente tá sempre aumentando um pouco, também a tristeza, também o amor / quero que chegues logo. por que demoras tanta? vou aquietar a ansiedade. e votarei certo / com consciência / Elizabeth M. B. Mattos- outubro de 2026 – TORRES tô exausta com a expectativa a confusão /// as paredes falam… estranho movimento…

GIANFRANCO LARDI

sobrevivemos todos, pois é.

amamos errado, caminhamos certo,

ou somos excessivamente distraídos?

dia de sol, dia de vento, de batatas fritas, e expectativas…

o carro chega, o carro sai, a rua se encheu de bandeiras…

o dia acorda, mas sinto uma enorme grande…

gigante, estupenda

virar o travesseiro e acreditar!

pois é… nunca entendi direito,

deveria estar certo.

eu sempre tive as crianças

número um, dois três quatro cinco

seis sete nove quinze ou dezenove, 229 / 329 / 999

Elizabeth M.B. Mattos – outubro 2023 TORRES

sobreviveremos todos

deste jeito mesmo que temos sobrevivido: sobreviveremos. faço pequenas loucuras e sigo / ora morro cedo mais, ora entrego os pontos. depois morro de te amar, eu me surpreendo. estás ali… tão perto! sobrevivo enfiada na floresta, pelo deserto procuro água… Marta Medeiros tem razão, sobreviveremos melhor pensando na arte, reproduzindo vida, criando socorro, despertos ou meio adormecidos, no gozo e nas lagrimas de viver… sobreviveremos desenhados nas cavernas / e nós nos redescobriremos. e voaremos para Marte. eu sobrevivo quando te beijo e me escreves, no teu silêncio, eu te amo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

Admirável NOVO MUNDO

No ADMIRÁVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley distrações ininterruptas da mais fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo, com a finalidade de impedir o povo de prestar demasiada às realidades da situação social e política. O mundo da religião é diferente do mundo do entretenimento, mas os dois apresentam semelhanças num ponto: “no fato de não serem deste mundo”. Ambos são divertimentos, e, se usufruímos deles de forma excessivamente contínua, ambos podem tornar-se, segundo MARX,

” o ópio do povo”,

transformando-se assim numa ameaça á liberdade. Só uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os que estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a esperança de se governar a sí próprio eficazmente por meios democráticos.

Em sua propaganda, os ditadores atuais litam-se, na maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização – repetição de estribilhos que pretendem sejam aceitos como verdades, supressão de fatos que eles pretendem sejam ignorados, desencadeamento e racionalização de paixões que podem ser aplicadas nos interesses do partido ou do Estado. (p.56-57) Aldous Huxley ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

SÓ UMA PESSOA VIGILANTE CONSEGUE CONSERVAR A LIBERDADE

pois é / o tempo amassa tudo // mas… mas mas mas ainda se pode reler Aldous Huxley e… pois é, pois é… alguém deve escrever o que importa ler / os livros não pode terminar, digo a leitura, tampouco pessoas que leem… não se trata de estudar, ler, a cada um seu jeito de sentir // necessariamente não entendemos / sentimos a mesma coisa nem lendo Olavo Bilac / um poema de amor. eu digo te amo te agosto te amo, te beijo, eu te abraço, os gestos, a voz, as palavras espalhadas, significam o mesmo… será que atravessam teu jardim e… estamos, mesmo, os dois deitados na grama? as bibliotecas, grandes, ou pequenas, precisam existir //// muitos livros foram queimados, muitos, enterrados… algum leitor escondido seguiu, alguém não deixou terminar. ah! hoje fez sol. é bom.

dependência

ir pedindo / delegando poderes, deixar para o outro /// pedir é uma carência e não fazer é desaprender / recuar… invento os motivos / certos ou errados, o fato é / simples/ não sei mais fazer, ou nunca quis fazer, desaprendi… vestir uma roupa para sair, olhar-se ao espelho, fazer para si, mas para o outro / seja lá a justificativa… de repente eu me dou conta como o outro importa / resmungando, ou não, eu fazia // foi deixando de fazer que desaprendi, até no amor é assim / o outro é uma alavanca / o outro significa tanto quanto eu própria… as lições não terminam. Elizabeth M.B, Mattos – outubro de 2026 – Torres