passados tantos anos…

fico indignada ao lembrar dos filhos amorosos que tivemos / e / depois de enorme e longo silêncio / bom tempo sem falar e tanta história estranha a nos rondar… teres sido feliz bastante com outra mulher (aliás ela estava junto)… enquanto escrevo fico pensando, tu não me achavas feliz? ou o quê? nunca soube fazer perguntas… enfim! soltaste, a queima roupa: tu amaste alguém? olhei estupefata… e bobamente, respondi, acho que amei o Flávio /// resposta certa no momento certo. como pude responder assim? de certo fui apaixonada pelo Tavares, fui mesmo, mas eu mesma encerrei a história num acesso de ciúmes que nunca admiti… com o Flávio, contigo, também com o Jorge, fui cancelando amados, o Marco, o Gianfranco…, não, Gianfranco terminou comigo. eu estava errada. será que nunca amei ninguém? nem o pai dos meus filhos? e se amei não me fiz enteder?

sei lá se as histórias devem ser retocadas… escritas, contadas, por quê? para quem? sou apaixonada pela vida / amo o amor / o tal sentimento de estrelas e encontros e pipocas e bolo doce, e pimenta… e estou sempre recomeçando, recomeçando a amar muito, contar outra vez, escrever, reler os diários, detalhar as fotos, perguntar coisas esquisitas para os filhos.

saber quem a ente é / como a gente sente que gosto nosso olhos podem ter… e mistério o gesto de abraçar esconde… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

culpar o outro

o filho com dificuldade é meu / nasceu assim, deficiente, com problemas / eu aceitei, cuidei: busquei solução mas não foi fácil, consegui que entrasse num avião… enfim, vivi a vida com ele e para ele. a guerra chegou, perto, veio, e se instalou… ele acabou no meio da confusão e adoeceu, e morreu. sigo achando que a culpa não é / nem foi minha, nem dele, mas da guerra. vejo assim, ele não precisava ter morrido, nem vivido se eu penso bem, sofreu tanto. MAS de QUEM É MESMO A CULPA? muito mais fácil, concluir, a culpa, se culpa existiu foi da guerra. não ele ter nascido com problemas, mas morrido tão cedo! É ESTE o jeito de pensar? Então eu posto fotos lindas dele… e queria tudo de volta. tu me explicas o que existe ainda dentro de mim? culpa? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

história estória (in)história descabelado som de tambores

amontoado de palavras para dizer que viver, afinal, viver é ser colorido de energia. na escola fomos treinadas para ser perfeitas. comermos do melhor. reconhecermos o bom, jogar tênis, vôlei e correr. nunca abandonar o corpo. costurar e bordar também. servir a mesa. saber o lugar dos talheres e quantos pratos. fazer doces.

esta parafernália toda era necessária para viver. os homens apreendiam a manejar as armas, calçar e lustrar as botas e estarem limpos. ser espertos, saberem matemática química e física. desenvolverem os músculos. saberem inglês, e também francês, os da fronteira falavam espanhol. beijar.

eu gostava das bonecas, as que me eram designadas, caixas pequenas, paninhos para fazer de roupa. gostava muito de recortar revistas e fazia bonecas de papel. custei muito para apreender a ler, não era boa nas contas e tão distraída! jogada na grama, com os cães em volta, sempre, muitos cães no jardim – eu me imaginava tocando piano e escrevendo. Duas habilidades divinas. Podia ficar assim bastante, muito tempo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

meu filho é professor

minha filha é professora, minha mãe, professora. meu pai é professor // estes mestres importam. talvez, tenha desaparecido o uso dos possessivos. não desapareceram os professores da minha família / professores importam. nas empresas, nas famílias, nos grupos: professores, aqueles que ensinam, genuinamente… quem ensina acolhe, dá o exemplo… diferente de quem manda, outra gama de pessoas. orgulho pensar que os seus ensinam… tenho a impressão até de que desapareceram os possessivos… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres – orgulho ser lembrado / professor

valores estão despencando

medo ou pânico

faz parte do medo a surpresa, qualquer maldade. a grande paralisa ou a pequena, constrange. / qualquer lugar, qualquer olhar atravessado estremeço de medo. a fragilidade não está na fraqueza mas num susto grudado… como se nenhum lugar… não vou escrever. uma alma inquieta é sempre um susto em movimento. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

balzaquiana / quem é o autor

quem / qual autor vai substituir BALZAC … a IA / a turma do Elon Musk / eu acho Steve Jobs começou o Vale do Silício ainda está lá… ou foi inundado. tudo acontece tão depressa! estou sobrevivendo? a rua Vitor Hugo, a Independência, até na Santo Inácio eu morei… depois sacudi as tranças em Rio Pardo, Santa Cruz do Sul e Montevidéu… esqueci tanta coisa! o esquecido deve boiar em algum lugar….Elizabeth M. B. Mattos – 2026 – Torres

cansada de estar comportada

furiosa. posso escrever assim? estou furiosa com as notícias / sem notícias, ou com notícias. estou assim. acertos enfiados no saco dos erros… detesto tudo. desabafo. queria mesmo conversar contigo, não seria conversar, tu sabes. ficaria quietinha nos teus braços. detesto escutar explicações ou ser consolada ou… saber que estás com razão, ou que encontraste um jeito… se trabalhas, se tens disciplina ou se sentes dor, ou não sentes… se hoje molhaste as plantas da sacada, se ontem leste o jornal, se a televisão está ligada… se alguém te deu um abraço. apenas quero saber se pensas em mim e se planejas me visitar, um dia… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

APOSTA DE LONGO PRAZO

O X é uma aposta de longo prazo, e um ano não é suficiente para Elon Musk medir o seu sucesso ou seu fracasso. Apesar de um ano de existência, o grupo de investidores de Muk perdeu mais de US$ 4 milhões, com a Fidelity (como se perde fazendo um casamento ruim) reduzindo seu investimento de US$316 milhões em 65%, e a estrela investidora da tecnologia Cathie Wood, da ARK Investiment Menagement, cortando 47% do valor declarado de sua participação no Twitter. Enquanto isso, Morgan Stanley e os outros credores tiveram uma queda de US$2 bilhões no valor de revenda de seus US$12,8 bilhões em empréstimos de ações do Twitter, Ai!

Mas suas perdas no papel são insignificantes em comparação com as do próprio Musk: sua participação de 30 S$ bilhões caiu US$19 bilhões um ano após a comprar do Twitter. Por outro lado, ele está protegido por uma margem de erro muito maior para fazer apostas ruins, agora que seu patrimônio líquido às vezes ultrapassa US$ 200 bilhões. A quantidade de zeros é impressionante em sua conta, e a capacidade de Musk de apostar em si mesmo parece não ter paralelo com a vida vivida pelo resto de nós. No entanto, os mesmos princípios estão em jogo, quer você tenha um patrimônio de bilhões de dólares ou menos de US$ 1 milhão.

apostar em si mesmo / no meu caso, voltar a juntar as letras, impressionante como estou tendo dificuldades e cada dia mais desorientada.

MADRE SANTO AMBRÓSIO

atravessei os 80 anos rumo aos 90 anos pensando que ainda tenho 30 anos / uma balzaquiana // como se diria noutros tempos / hoje não temos mais referências literárias / temos um tremendo fogo cruzado, uma confusão, um país cor de maravilha, não é mais verde amarelo, nem azul… muita confusão! será que ainda temos Amazonas? Santa Catarina, papagaios e e periquitos? orquídeas, é certo, goiabeiras? pitangas? laranjas e os parreirais? ainda estarão lá? tudo é incerto… confuso. que o sol venha! que o verão venha! que a irmandade se apresente, e os amigos não debandem… SOS SOS SOS / obrigada Roberto, pensei na Soninha, na Magda, na Ana Helena, na Suzana, a Lica, Luiza, Nádia, nas meninas das cônegas / nas Madres. Pois é, Maris Stella que foi próxima, Madre Hermínia… eu atravesso o jardim, os eucaliptos, e deixo a janela do meu quartinho aberta para enxergar um pouco de céu /// ando nostálgica / será que posso agradecer? devo. eu te agradeço em especial, meu querido, mas como sigo apaixonada não vale muito, mais um beijo. Elizabeth M. B. Mattos outubro de 2026 – Torres // Partenon? Não, era um pouco mais longe / o colégio Nossa Senhora das Graças / Cônegas de Santo Agostinho / as francesas / vou lembrar, devagar, vou lembras das faixas verdes, azuis, amarelas, amarelas com risca e depois vermelha / vermelha com risca branca, com duas riscas? e a branca, branca com risca… eu guarde algumas… éramos felizes, as externas, internas e as semi-internas. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres