incoerência

pilhas de livros: nuit blanche / entusiasmo perfeito a pensar o tempo de devorar livros / os mais importantes / mais intensos / proibidos. leituras inquietas, azuis, bordadas, e completas. violetas margaridas debruçadas. certeza que não haveria tempo para completar desejos / nem usar os pincéis: cores inquietas saltitantes se agitavam… traduções preciosas, e muito francês. seguia o conselho dos professores: não interrompa leitura, anota e segue, nem soluça, leia… pausa de tudo, acelerar e pensar, refletir, escolher. tempo de ser gente grande, abençoada lua. aos vinte anos passam intensos os trinta nos abençoam e os quarenta ficam vermelhos amarelos e maduros. ah! o tempo! escolho o livro devagar, não passei pelos que pretendia ler, não aprendi como imaginei. tropecei no português, em mim mesma… escolhi autores. eu me apaixonei por este, aquele. indefinidos. eu me apaixonei pela alma. sem tempo, reli meus autores, amei os amados, os certos? Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

deixou morrer

estranho que tenha sido exatamente assim, desespero de não saber mais o que fazer, então ele a deixou morrer / de alguma forma era o limite do limite de todos os acertos e de todos os limites que a vida deles significou… estranho porque dois anos ou três anos depois ele revisitou a história toda e decidiu que usaria, implacável, o sistema de justiça, não poderia privilegiar uma filha como tinham combinado. não faria isso, faria como achava que tinha que ser feito, igual. e assim o fez. como ele morreu? morreu sem medo… acreditou que a vida continua e que vamos mesmo nos reencontrar e responder por isso ou por aquilo num tribunal intimo e perfeito entre macieiras, pessegueiros, laranjeiras. nus todos, nus. bom que a gente cuide da pele, hidrate e proteja dos insetos, das contusões. neste lugar de responder e se olhar, olhos nos olhos, pediremos perdão e ou seremos apenas perdoados, talvez haja tempo para chorar. agora, foi assim, ela morreu querendo sair, querendo ser socorrida, mas ficou tarde…doeu outra vez, apertou o peito todo, gritou e morreu. ele sentou no sofá e se pôs a chorar como um menino, inconsolável, sozinho, perdido, triste, e magoado, olhando a companheira de toda a vida, a coragem, e a força se esvair… “revelação de falta de valor de uma alma. Os homens podem parecer detestáveis como sociedades anônimas ou como nações, pode haver patifes, loucos e assassinos, muitos homens tem rostos vulgares e magros, mas o homem como ideal, é tão nobre tão resplandecente, tão grande e esplêndida criatura que diante de qualquer mancha ignominiosa que sobre ele caísse, todos os seus semelhantes deveriam cobri-lo com os seus mais custosas trajes. Essa virilidade imaculada nós a sentimos dentro de nós, às vezes, tão dentro de nós, que permanece intacta quando todo o caráter exterior parece ter desaparecido- e é ela que sangra com a mais penetrante angústia, ante o espetáculo oferecido por por um homem de coragem arruinada.”(p.147) Herman Melville. depois ele fico imóvel muito tempo, e durante muito tempo chorou sozinho segurando os dois chinelos. era o fim. era o começo. era alguma coisa indefinida, inútil e triste. ele estava definitivamente sozinho. Sozinho com seus medos, seus sustos, seu amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres – muito longe da vida como deveria ser vida se estivéssemos todos juntos

por que eu não consegui/

por que eu não consegui e não conseguiria mais ser uma pessoa normal, no ritmo de vida comum, normal, entre pessoas e… pois é, posso apenas me apaixonar, me erguer, ou em entregar numa loucura de amor, nada mais do que isso… ou tentando isso dançar! em que momento eu me transformei em folha? as cores se alteram: verde, amarelo, marrom. uma árvore fica cor de rosa como as cerejeiras… aquela flor pequena… posso cair no rio e ir indo, chegar no mar? uma folha! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

posso ser eu posso ser tu, posso ser nós num momento de sol, numa chuvarada de verão… posso, eu posso querer, estudar japonês, voltar ao francês e chegar em New York / voltar a Limoges ou atravessar o Uruguai, outra vez. metas de sol /de ser feliz!

sempre assim?

Como menina fui sempre quietinha / no colégio, internato, quietinha… Na vida, quietinha / acho eu… Quem me conheceu confirme, sei lá, o que se entende por quietinha? Brinquei muito na calçada, na piscina do clube, no verão, no inverno, indo e ficando. As árvores mágicas: vontade de subir e medo de cair. Muros? O bom limite. Em casa, quietinha, talvez por ser a mais nova, muita gente adulta, irmãs tão mais velhas! Naquela época seis anos já fazia diferença, hoje emparelhamos… Preciso de/do sinal verde: embalo das pessoas, é claro. Então, nem me dou conta, viro papagaio cheio de ideias e vontades de falar fala falar, rir e brincar, a Beth, Elizabeth (para a mãe e o pai) quer participar, ajudar, ceder, sei lá…. Mas se colocam o pano na gaiola durmo… Temos uma gaiola limite… Eu acho. Ah! O tempo de dormir… Quero dizer de ter sono em qualquer lugar! E o mundo? Sempre fascinante na minha visão -, bem na medida de mundo: jardim, calçada, no triste / no decepcionante, gente, silêncio e barrancos, correrias, calçadas… Ah! Viver! E se apaixonar…Tão bom!

O tempo vai indo, neste caso, a palavra saudade é BOA / CERTA e GRATIFICANTE… Já estou enfiada nela: saudade do passeio que fiz de manhã… Cheiro de feira livre… Das calçadas frescas. Claro, dos meus cães!

l o n g o

Foi um longo e delicado, complicado, amor. Atravessamos por caminhos de pedras, lisas como seixos e tantas carregadas, cheias de limo, de musgos e… Penso. Estas pedras estão com vida. Embora pareçam, mais velhas, mais tempo pedras. Não mais tristes, ao contrário, plenas, alegres e velhas pedras… Velhas porque viveram, viveram…vivem. Cada pedacinho de dor, de decepção. As noite mal dormidas, o excesso de calor, o excesso do novo e a vontade pulsando, pulsando… A vontade sendo maior do que o acontecer. Ah! O amor de viver, de ser, de sonhar o muito o bastante, o enorme, sonhar crescer e poder! Sim, com certeza, isso é viver. Que venha a chuva, a muita chuva prometida! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres

nem o diabo sabe

Se bem que nem o diabo sabe o que é que as pessoas lembram, nem por quê. Na realidade, sempre pensei que não existe memória coletiva, o que talvez seja uma forma de defesa da espécie humana. A frase “todo o tempo passado foi melhor” não indica que antes acontecesse menos coisas ruins, mas que felizmente – as pessoas as lançam no esquecimento. Evidentemente, semelhante frase não tem validade universal; eu, por exemplo, caracterizo-me por lembrar perfeitamente os fatos ruins e, assim, quase poderia dizer que “todo tempo passado foi pior”, se não fosse o presente parecer-me tão horrível quanto o passado; lembro-me de tantas calamidades, de tantos rostos cínicos e cruéis, de tantas más ações, que a memória é para mim como a tormentosa luz que ilumina um sórdido museu da vergonha. (p.7) Ernesto Sábato O túnel

assim começa este genial livro deste genial escritor e pensador. eu, modestamente, acho que existe memória coletiva, um lado onde estamos todos querendo, diariamente, sair. atualmente é sair da cama a dificuldade, mas ficar na cama também é ruim ou pior. pensar, difícil, não pensar vazio maior. tomar pílulas para melhorar, não tomar, parece mais idiota. namorar é bom, mas não ter namorado liberta. volto ao vento, ao caminhar, aos morangos, água gelada, café ou chá? nota baixa para os dois, adoro a coca-cola, e vidros limpos. mas o que vou dizer? os vidros estão terrivelmente sujos. seguindo Sábato: Pensem o que quiserem: não ligo a mínima para a opinião e a justiça dos homens.(p.9) e os vidros seguem sujos.

por que é mesmo que as pessoas leem? não tenho ideia. por que não leem? para fugir da palavra, eu acho. por isso não escrevem, para não se encontrarem com as palavras, não se trata de destinatário… mas da tal fuga eterna. do quê? de nós mesmos. aquele bicho papão que nos assombra: o EU. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

meu querido amado:

não se trata de bater na porta, ser convidado para entrar, aceitar uma xícara de chá / quem sabe uma gasosa, ou uma cerveja posto que está tão quente. meu querido, não se trata de falar, nem explicar, nem trazer flores – (embora flores abram mais portas do que as possíveis). não se trata de brincar nem de fazer confissões. estas tu já fizeste encarreiradas lembras? feito terapia recreativa, e como tais encarei, acho que não esqueci, mas não pontuaram… ou pontuaram? eu te fiz herói? mas, cá entre nós, de heróis, estamos fartos não é? acho que carecemos de gente gente, com ossos e corpo, e coração, menos enlouquecidas pelo poder, o abstrato poder e comando / uaiiii! chatice isso de querer / dizer / comunicar / resolver / embaralhar e enfeitar a avenida. uauuuu! estamos precisando de concretitude. enfim: manda flores, vou gostar, no dia seguinte manda flores outra vez e no terceiro dia, manda flores e no quarto dia, manda flores e bombons, e no quinto dia, manda uma carta. adoro cartas… e estaremos unidos para todo o sempre meu querido. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres – ainda estou em Torres, inacreditavelmente pareço cimentada… haja vontade de voar, voarei.

…uma ideia louca

[…] considerando-se o fato friamente, de maneira razoável, não se podia deixar de julgar uma ideia louca, essa de pretender reconhecer no vasto oceano sem fronteiras uma baleia solitária, e admitindo que fosse encontrada, julgar que o seu perseguidor a pudesse identificar com a perspicácia daquele que identificasse nas ruas congestionadas de Constantinopla um mufti de barba branca. Sim, porque a fronte branca de Moby Dick e sua nívea corcova não podiam deixar de ser inconfundíveis. (p.230) Herman Melville MOBY DICK

…e o pensamento voa. a ideia louca surge… a gente tendo assinalado, reconhecido, sabendo quem / e como o mal nos agarra… por cabelos esticados e grisalhos, por encaracoladas ideias possessivas insiste em resolver. não tem solução. as mãos agarradas no erro, acertam afinal… é preciso reconhecer. sem solução, solucionado está. claro! levantar a âncora deve dar um trabalho enorme – mecanizado hoje, mas mesmo assim chegar ou partir é sempre assustador. Elizabeth M. B. Mattos- fevereiro de 2026 – Torres

confissões ilustradas

Principalmente esta: ao me acompanhar depois da aula, ele para perto da porta e diz de repente: Há muitos trechos supreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem a qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer. Ideia curiosa. E é ainda mais curioso que ela me tenha ficado na memória. Talvez tenha me sentido honrado em poder ouvir uma confidência do mestre, um segredo, um truque que só os iniciados tinham o direito de saber. (p.161 Milan Kundera Os testamentos traíDos – ensaios