Inquieta vida, povoada

Inquieta vida, povoada.Pigmentação de ouro, seiva verde das florestas … Perfume/cheiro do gramado. Orvalho. Esconderijo. Floração. Céu vermelho e dourado. O homem e suas esmeraldas… Unhas de marfim, braços e pernas de ébano. E a voz? A voz se faz a resposta. Inquieta vida, povoada, e assim mesmo, solitária. Ser apenas tu e eu, eu contigo, nós, ou a ilusão mesmo de ser um. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

desentender

Quando eu penso em escapar, e me isolar, desentender que te amo, ou fugir e voltar a ser eu, de antes de te reencontrar, de agora…Tu segues a me seduzir. Eu te penso e volto para a menina, e logo num beijo, e num abraço demorado sou tua, és meu. Ouso. Volto. Nem um minuto nos deixamos! … e nestes longes: campos e mares (tantos) que nos afastam, eu te penso tão perto! Não importa. O verão te traz… Sou completamente tua. Ridiculamente entregue…, de repente eu me assusto. Penso: e se não me queres? Beth Mattos  – agosto de 2020 – Torres

carne de panela feliz

– Não resisto: e te conto apressada: ficou delicioso, mais do que delícia. Muito mais que maravilhoso o molho. Textura, cheiro. A carne perfeita, eu acho, faltou o nhoque, a massa feita em casa. Lembrei da carne de panela que fizeste (inesquecível para mim). Comprei um tatu redondo/lagarto dizem no Rio e cozinhei na panela de ferro, nos antigos moldes: devagar. Adorei ter acertado, ou voltado para o prazer da cozinha, como antes. Tenho me entusiasmado. Levantei uma pedra. Tirei o enjoo e conquistei, acertei num certo prazer. Fui fazendo aos poucos, com vinho, devagar, com paciência. Queria te contar.

 – Olá. Cozinhar é como a arte da sedução. Se te deixar levar pelas misturas e pelas ideias, combinações de aromas e sabores, te realizas. Cada ingrediente tem uma magia, seu timing  e sua conjugação. Da esmerada e dedicada combinação e tempo, com cenário culinário adequado, dependerá o resultado. E os melhores resultados não surgem se não acompanhados de um bom vinho durante a viagem.

…registro: com mau humor faça jejum, não cozinhe. Mas se estiver de bem com a vida… cozinhe, muito. (6 de agosto de 2020), às 20:42)

Não sou rainha, sou escrava da tua fantasia, da tua vontade. Que eu seja eu, a mesma, a diferente, a nova Beth, a Elizabeth daqueles anos perdidos / perdidos porque não foram apenas nossos, perdidos porque não nos encontramos mesmo a nos saber pelo cheiro, pelos olhos, pela voz. Aturdida com tua voz, e me despedaço na distância. Então, eu durmo. Agora, irei seguir a mágica de transbordar alegria na cozinha. E te conto… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres (08/08/2020 00:22:34)

conversas se confundem, ou ideias se evaporam…

Começo sempre com um livro aberto, o da hora. Do acaso. A ler, e repassar, ou reviver. Voltar, reencontrar…

O futuro. Este danado futuro a caminhar no meu entardecer, estremeço. Eles, os jovens, florescem. Estico o dia, mas me afundo de qualquer jeito. Posso chorar, o tempo não volta… Segue, assim mesmo, em cada um deles, estes jovens sobrinhos, netos. Volto no/ao tempo. O mesmo.

Sinto teu cheiro. Lembro das apressadas madrugadas: encantamento enfeitiçado. Abraço teu corpo magro. Lembro de Iberê Camargo: redes, laços, somos nós dois. Estamos, tu eu, gelados. O abraço incompreendido. Vieste a Torres. A pressa de sermos nós. Vês, se passaram/passou trinta anos, e foi ontem. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

As coisas devem ter se passado de modo completamente diverso, mas que importa, a maneira como as coisas se passam, desde que se passem? E todos aqueles lábios que tinham me beijado, aqueles corações que tinham me amado (é mesmo com o coração que se ama, não é, ou será que estou confundindo com outra coisa?), aquelas mãos que tinham brincado com as minhas e aqueles espíritos que quase tinham me possuído! As pessoas são realmente estranhas.” Samuel Beckett Primeiro Amor Este livro com tradução e desenhos de Célia Euvaldo – Cosac Naify 2004 – uma joia. Artesanal edição. Vou fotografar.

“Sim, eu a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim, ao que eu fazia, naquela época.

desassossego

“A amizade dos dois jovens se baseava na divergência entre seus sentimentos do eu e do meu, os de um ansiando pelos do outro. Pois, a encarnação causa isolamento, o isolamento cria diferenças, a diferença provoca comparações, das comparações nasce o desassossego, o desassossego faz surgir o espanto, o espanto tende para o desejo de troca e união Etad vai tad. mútuas. Isto é aquilo. O preceito se aplica sobretudo à mocidade quando o barro da vida é ainda moldável e os sentimentos do eu e do meu ainda não se petrificaram na divisão da personalidade isolada.”(12-13) Thomas Mann Cabeças Trocadas

Conceitos difíceis! Eu e Meu. Tendo a misturar tudo, e querer a identificação do grupo. Ser igual, ter as mesmas coisas, dividir amores amados, lugares. A “encarnação causa isolamento“. constatação simples/complicada. Respondo a vida inquieta, sigo o caminho, e qualquer desvio parece aventura. Quero sempre me encontrar no outro, e o outro se perde num outro, numa roda interminável de desencontros. Volto aquela estranha história que me aconteceu ao apaixonar – me por palavras, pontualidade, confissões. Uma ideia de amor, não o amor nele pessoa, real, mas no imaginado. Projetei o físico, a profissão, o tempo, a vida. Se analiso esta questão eu me surpreendo. O físico, a beleza, (que é pessoal), as qualidades todas do ser amado são ilusão. Como água / oásis, no deserto. Se outro (que não o da minha imaginação) se apresenta como um alguém igual, ou semelhante, ou pertencente ao mundo. Uauuu! Céus! Se desmancha… Quero paz, certeza e encontro. Quero a caminhada. Um beijo, um abraço, o sexo, o cheiro, o tato, o suor e depois, nada. Beber a mesma água, ser o mesmo como que para assumir o outro, carregar o outro, estar no outro, depois voltar para mim mesma. Confusas implicações da vida e das relações. Se fosse apenas troca, e não competição…Por um estranho, outro complicado sentimento, a competição nos deixa exaustos. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres colorida, lua e sol.

coisas do amor

Via/caminho/rota pouco definida a correspondência,  um sopro. A cada um sua cruz / destino/ prazer/ encontro e alegria. Eu me apaixono por palavras. Depois o som, a voz…, todas as terapias se amontoam (não quero dizer/ quero imaginar, ou escrever). E o tato, o cheiro, os olhos. Vinte anos ou trinta de uma confissão apressada, eletrônica, e dois anos de embalo: eu te gosto. Contou/ conto,disse/digo dos amores, nem tão amados, mas instigantes. Depois, a questão juvenil ou tumultuada, ou apaziguada. Depois a maturidade. E nos encolhemos na idade. Cada um com seu biombo. …, estamos adiando, mesmo assim, amando.

– E eu o amo – disse suavemente Julie. […] Nada mais perigoso do que uma bela mulher que esquece até que ponto o é. […] Não, Julie, eu não quero dizer que a amo…Apesar do que pensam os românticos, o amor é uma coisa que a gente se permite ou não, salvo nos primeiros golpes, diante dos quais nada podemos fazer…Mas é uma felicidade para mim estar passeando aqui com você. É um esquisito privilégio, feito de angústia e de alegria, Vê – la a tal ponto iluminada por sua existência pessoal, que é capaz de referir – se a minha vida, como se nunca lhe houvesse ocorrido a possibilidade de perturbá – la. Estes conselhos que me pede e que parece ter o desejo de seguir…Muito bem. Eu não estou em condições de dizer se você é ou não inimiga de Lewis. (p.211) Charles Morgan – A Fonte –

Que livro! Que autor! Passo os olhos no meu volume todo despencado.’Invadida‘, volto as minhas anotações, volto… Assim mesmo, penso em ti. Que importam os livros que não leste? Não nos separam. Despeçados pedaços das nossas conversas. O jeito atravessado de amar. Estamos do blindados, eu sei. Não podemos mudar isso? Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

Charles Morgan 2

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Charles Morgan a capa

sapatos

Mágicos sapatos. Despedida: chinelas da mãe, e sapatinhos do Pedro, tênis da Luiza?

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Terminei de lavar a louça preguiçosa a se demorar no balcão. Molhei as plantas, abri a janela para a madrugada entrar, o frio, aquele grandão, se foi… Aumentei o testamento de saudade: esqueci de mencionar os lápis, os diários, as revistas, os prismas. Empacotei alegria e coloquei fitas diferentes, cruzadas. Cores de beleza a se desfiar em arco-íris… Netos, filhos ocupam/aquecem/aceleram fantasia. Abastecem amor e preocupações. Cuidar da Ônix, (vou deixar cartazes explicando/ e o roteiro), enroladas as duas. Bom! A noite se carrega/encarrega das estrelas. Eu vou ter mesmo que morrer, mesmo querendo ficar. O chapéu, Ana usará na praia, mesmo a desfiar. É estranho quando se abre as gavetas: lenços, panos, saias, camisetas de sol e sabonetes. As caixas estão cheias de beijos, cartas em algumas, abraços, e risadas em muitas. Então, abram devagar…Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres com lua, lua e luas…céu entrando.02/08/2020 04:13:04

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Livre de vírus. www.avast.com.

Cecília Meireles

Epigrama 8

Encostei a ti, sabendo bem que eras somente onda. / Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. / Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar quando caí.”

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Esquisito ler o poema e a cada palavra ler a vida e a fragilidade toda de nossas escolhas. Quero negar as sombras, quero esquecer sem nominar, apagar sem mencionar, e depois engolir as lágrimas tristes decepcionadas e aflitas que não vou chorar. Qualquer tarefa pequena, qualquer cheiro atrapalhado do guisado, da farofa, dos ovos mexidos, daquela salada verde colorida pelos tomates, pelo pepino, pelo palmito se transforma em banquete. E o palácio tem o perfume das roupas no varal, dos vasos úmidos e daquela tristeza toda brilhando no domingo que se rasga. Os lápis ainda estão espalhados por grupos indefinidos. E o Pedro recebeu seus presentes, e a Bárbara filmou, e as risadas chegaram…e nossos parabéns se universalizam coloridos. Esquecemos a pandemia porque reinventamos tudo. Nós os mágicos do tempo. Amanhã vou fazer ensolorar o dia… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

beleza

“A beleza do mundo é tudo aquilo que aparece em seus elementos singulares como as estrelas no céu, os pássaros no ar, os peixes na água, os homens sobre a terra.” Guilherme Conches / “A Beleza é Verdade, a Verdade, Beleza” – isto é tudo o que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.” John Keats “O Belo é sempre bizarro. Não digo que seja voluntariamente, friamente bizarro, pois, em tal caso, seria um monstro fora dos trilhos da vida. Digo que contém sempre aquele pouco de estranheza que o faz ser particularmente Belo.” Charles de Baudelaire

Ummberto imagem belao livro inteiro ECO