Caráter é destino

Estou muito apaixonado, escreveu ele, sabendo como era surpreendente que fosse capaz de escrever essas palavras. Sua vida era estritamente reservada, e ele próprio não teria esperado que o amor encontrasse um meio de transpor as fronteiras vigiadas do seu estranho exílio interno. E, com tudo isso, ali estava o amor, muitas noites e fins de semana, atravessando o Tâmisa alegremente, de bicicleta, à sua procura” (p.260) Salman Rushdie Memórias

…, e eu a me despedir do livro, do autor de Os Filhos da meia-noite que ganhou o Booker Prize em 1981. Escrevo isso a título de informação. Mas na realidade, não importa nominar caminhos percorridos, todos importam.

Quanto a mim …, encolhida, em tempo, fico pensando naquela última mensagem que chegaste a me mandar: Tu …durmas bem. Mereces. Fico pensando …, fico pensando neste merecimento que não me salva e não chega ao coração, aperta. Só para me despedir do livro, (eu demoro nas despedidas,) no amor sou lenta. Enfim! Tenho tentado dormir cedo, e tomar chá. Eu me preparo para te abracar neste verão.

Se a arte do romance revela alguma coisa, era que a natureza humana era uma grande constante em qualquer cultura, em qualquer lugar, em qualquer tempo, e que, como dissera Heráclito dois mil anos antes, o ethos do homem, sua maneira de ser no mundo, era seu daimon, o princípio orientador que modelava sua vida – ou, na formulação mais medular, mais familiar da ideia, que caráter era destino. […] e, sim, agora o terrorismo podia ser destino, a guerra podia ser destino, nossas vidas não estavam mais em nosso controle total; mas, ainda assim, era preciso insistir em nossa natureza soberana, talvez mais do que nunca em meio ao horror era importante defender a responsabilidade humana individual, dizer que os assassinos eram moralmente responsáveis por seus crimes e que nem sua fé, nem sua raiva dos Estados Unidos eram desculpa; era importante, na época de ideologias gigantescas, inflamadas, não esquecer a escala humana, continuar insistindo em nossa humanidade essencial, continuar fazendo amor, por assim dizer, numa zona de combate.” (p.606) 

ESTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Não sei fotografar, não importa. Fragmento. Estou a me despedir. Estranho isso …, ter lido neste nosso momento político. Com ameaças de morte como ele viveu alguns anos importantes da sua vida … SALMAN RUHDIE nasceu em Mumbai, na Índia, em 1947. Mudou -se para a Inglaterra nos anos de 1960 e se tornou cidadão britânico. Por meio de uma irônica terceira pessoa, entremeada com ‘ cartas imaginárias’ a figuras com influência nos acontecimentos narrados, o escritor conta suas peripécias pessoais e profissionais durantes os anos de clandestinidade: os amores, os filhos e os livros […]

 

desaniversário

Deveria ser a melhor hora a do amanhecer. Deveria ser bom um dia depois do outro porque a carroça anda, as abóboras se acomodam, os cães festejam latindo. A estrada se transforma, e se ilumina ao amanhecer. As árvores conversam com a passarinhada que acorda. As flores abrem porque o sol está ali, ao amanhecer. Deveria ser a melhor hora quando o mundo se apresenta passado a limpo, liso. Perfeito. Mas nesta manhã está tudo diferente. É a história. Nem sempre o fio condutor da manhã é o melhor tempo. Nem sempre as noticia são boas, nem sempre podemos apenas seguir e sorrir. Tem dia que amanhecemos assim, estremecidos com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Nem todas as manhãs são produtivas, nem todas as tardes nos adormecem, nem todas as noites são cúmplices. Existe o tempo de chorar. O tempo de lamentar. De festejar, e há (gosto deste verbo antigo, o haver no sentido de existir porque está no Eclesiástico, na Bíblia, e a Bíblia é o livro dos livros) também o tempo do perdão que se espreme aflito entre alívio e raiva.

A história está começando, e como todas estas estórias de vontade de escrever, não devem terminar porque o tempo de passar tem esta gota importante da exaustão, esvaziamento. O que se está pensando neste momento, pronto, completo, feito para nascer e sair de jorro já se esgota num outro segundo. Esquecer pode ser triste também, como esvaziar, como choramingar, como se queixar, como toda coisa que se coloca na balança do apagado. E a história se prepara avolumada pra explodir, eclodir, nascer, e pronto, num repente termina. Ou sei lá, quem sabe se completa no imaginário do leitor. Se for a história de um menino, se pensa na menina. Tinha-se avó, se imagina o avô, se pretendia explicar abandono, se imagina liberdade. E a independência flutua sobe as ruas como festa, e era para ser solitária. Estar só pode ser mais completo do que estar com o Outro se este Outro não nos vê. Estranha história de olhar… Esta diferença, esta incógnita do olhar, do desejo de compartilhar, pode ser tão frustrante! E por isso nos dizem que estar bonito ao amanhecer, pentear, perfumar, frisar a roupa, desenhar os olhos tem que ser alguma coisa pessoal de nós para nós mesmos. Assim, todas as estórias, ou histórias se completam no leitor que atento e ativo se retrata, se pinta, se desenha, e se enxerga em cada letra. Não vou explicar porque hoje é um dia triste. Vou contar que hoje a minha filha está de aniversário. A filha que mais gosta de festa e de acertos. Das rezas, dos cantos. A filha que prepara, organiza a felicidade da alegria (isso existe?) como se estes sentimentos fossem pessoas vivas, não projeções, não abstratos, mas concretos como uma cadeira, uma mesa, uma flor. A filha que se agita inteligente entre sentir, fazer com a mesma energia vigorosa. Esquecemos porque cansamos, mas ela não. Desistimos, mas ela não. Acabrunhamos, mas ela não. Estar com esta filha é contar histórias alegres, resolvidas, e sempre com bons resultados. Com expectativas certeiras. Histórias de superação.  Balões, flores, velas, docinhos, música, risadas. E os equívocos, os erros se diluem. Risadas. Um pacote de coisas boas. Ela nasceu linda. Ela nasceu inteligente.  Ela nasceu no dia nove. Ela pintou, bordou, recortou, viajou, namorou, agitou, conquistou festiou (festear existe? Vem de festejar), e casou. Sempre neste ritmo acelerado de que a vida é um galope feliz. Que as boas coisas se abrem desajeitadas, mas se fecham harmoniosas. E se hoje é aniversário. Hoje só posso contar história boa, não as tristes… Engaveto, coloco na caixa. Guardo. Esqueço, e deixo para contar amanhã a história do menino que tropeçou no degrau e sangrou o joelho. Nem conto as melancólicas, muito menos as trágicas. Tudo amanhã, como (Katie) Scarlett O’Hara no filme (romance escrito por Margaret Mitchell) E o vento levouAmanhã é outro dia. Afinal, amanhã é mesmo um novo dia! Por pior que seja à noite, amanhã é outro dia… 
Vou escrever amanhã. Não há, não existe, não tem tempo de chorar, mas de recomeçar para quem faz aniversário hoje. Hoje minha filha faz aniversário. Elizabeth M.B.Mattos – 9 de maio de 2016 – Torres (para minha filha Joana)

Reedito o texto no desaniversário,  eternizado por Alice*! Preciso de toda a energia que ela, a minha filha tem. Estou num momento político / interno (que será prolongado) complicado! Desavisado o povo brasileiro!, desavisadas as pessoas …, desavisada eu que desestabilizo. Tempo tem limite. Velhos envelhecem todos os dias. Dores no corpo,  fôlego curto, vontade esgaçada, desânimo. Olhos cabeça costas …, doem. E a vontade de ficar aquietada espremida espiado dormitando parece maior. E toda a independência espiritual, todo o amor desfocado, a desesperança  tira o  ar, sufoco …, e nem sinto. Pois hoje, relendo este texto, eu me pergunto dos sonhos sonhados e esquecidos. Desanimo / desanimas, eu sei. Não, eu não deveria desanimar. Nem tu deverias desanimar. Como guerreira devo morrer na esperança, dentro do tempo. Abraçada pela vida, alerta. Fechar os olhos pacificamente. Mas …, amanhã é outro dia. Ainda temos um amanhã, eu acho …

*Charles Lutwidge Dogson – pseudônimo Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”
Eclesiastes 3:1-8

JOANAAAAA HOJE no teatro

Joana – Rio de Janeiro – outubro de 2018

acordo magra, e logo, gorda outra vez

Acordo magra, e duas horas depois estou, outra vez, gorda. Detesto isso. E também não posso olhar os braços, o corpo. Eu me deprimo. De repente o rosto, bem …, não parece tão horrível assim …, talvez a boca. Os olhos cansados, quase desmaiados. Os cabelos, já me acostumei. Indisposição…, resfriado, gripe, sei lá o quê, … estes pruridos enjoados antes da eleição, ou antes do verão, ou antes de encontrar. Ou um livro terminado e o outro, a se arrastar. Eu sou meio perdida. Amigos amigas queridos amadas filhos netos, eu sei. Estou perto e absurdamente, longe. Os advérbios devem ser/estar entre vírgulas? Tudo entre vírgulas. O que desejo me escapa. Ora se fosse hora de amar eu entenderia, mas passou. Tem uma qualquer coisa de ridículo. É a danada da sedução eterna, enroscada, altiva a me seduzir. Não vais acreditar! Todo desencontro tem um sabor de desejo ardente, enamoramento, paixão obscura, presente neste permanente hoje do momento que foi/é o teu encontro. (ihhiii! Ficou enorme esta coisa que escrevi …, um parágrafo numa frase, não, numa oração!ah! que horror!) Estás comigo entrelaçado nesta confusão de ser sem existir. És pura imaginação! Como se eu pudesse calçar aqueles sapatos com saltos altos, e cruzar as pernas, uma sobre a outra sem ser displicente. Sendo tão distraída e avoada, mas elegante. E o vestido fosse impecável, as costuras lisas, a bainha com aquele peso no caimento, e o confortável colar de pérolas misturado com as correntes. Sem maquiagem, com brincos e o cabelo fora do lugar. Paradoxalmente gosto tanto deste meu eu que veste jeans e camisetas puídas, o mesmo lenço no pescoço para socorrer os cabelos fora do lugar, e o desavisado tênis …, e um desleixo com as roupas. Gosto desta negligência. Armário reduzido, camisolas e pijamas. Duas gavetas do que se chama roupa e calças pretas de todos os tamanhos, porque, invariavelmente eu acordo magra, mas depois de duas horas já estou gorda. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

intrigado

Sentou na poltrona em frente a janela …, ficou a me olhar intrigado: não era quem esperava que fosse, afinal, era apenas eu. Estendi o livro de Pamuk, O Livro Negro. Abriu aleatoriamente, … e eu lhe disse: “O amor é uma procura”. Página 109. Nem te amo nem deixo de te amar. Estamos a pensar e a procurar, e … no meio deste caminho, igual, preciso do teu beijo abraço, e tu precisas do meu beijo abraço. E sussurrando continuei: tu vais me perdoar, eu apenas me apaixonei, e é tão tarde! Beth Mattos

ameixas e ameixass

Francisco Brennand

A leitura de Salman Rushdie me manteve amarrada a Turquia por mais de mês. Liberta, desta memória, do reencontro com Paul Auster,  J. M. Coetzee, volto a Francisco Brennand. Retomo o Volume I do Diário. O presente atrapalha qualquer tempo verbal, atropela na urgência: respirar fazer e sentir. O escrever, secundário. Suponho que a leitura atravessa o tempo deste desencontro turbulento da conversa / desejo e silencio. Como se não tivesse face, ou a mesma o tempo inteiro até se misturar ao passado, que será, imediatamente, classificado. Estas leituras absorvem meu imaginário. Prazer rarefeito, num tempo passado,  súbito é o presente: estou com Francisco. Volta a imagem que guardei dele: …, voz gesto (com tremor essencial, explica) e os passos. Estou em Recife com a minha Luiza.  Oficina Brennand, – pura magia. (p.33-58)

“É como se o desenho existisse na natureza das coisas e não fosse apenas inventado.”

” A vida não é literatura. É algo bem mais violento e irreparável.”

“Nesta manhã, o azul é mais profundo, a brisa mais fresca, o céu mais claro, e as esperanças diante do desconhecido bem mais acentuadas do que durante aquelas angustiadas viagens de uma prisão para outra.”

Sempre me pareceu muito curiosa a minha incapacidade de anotar qualquer acontecimento presente, como se o presente não tivesse nenhuma face, como se fosse algo que apenas se preparasse para uma diluição ou esquecimento e em seguida o pretexto de recomeçar uma história, desta feita, no passado e propícia ao devaneio, aos devidos ajustes, todos na dimensão de nossa desatenta compreensão. O passado como fiel da balança. “

“Embora a história não se repita, os homens através dos tempos – com uma imaginação limitada – não fazem senão repetir – se.”

“Só se vence batalhas, pelejando, só se domestica um cavalo, montando. Jamais realizei nenhuma dessas proezas. […] sou um neófito, ávido de iniciações […]

As coisas deixam de ser provisórias para de repente assumir ares de realidade a ser vivida e resolvida. ”

[…] “ beber um Château Mouton Rothschild. Não sei com segurança como definir um vinho ‘encorpado’, desde que não sou nenhum enólogo. Em todo o caso, me vêm à mente a consistência, o aroma, o paladar como se a boca estivesse cheia de alguma substância incorpórea, que ao mesmo tempo liberasse e sufocasse algo quase enlouquecedor. Não passei de uma taça e, sem terminar o meu jantar, me retirei para o camarote. ”

“Esta palavra ‘ destino’ teve um efeito negativo no meu espírito, pois me soou como uma espécie de condenação”

“Pasmosa solidão, entremeada pelo ruído cadenciado e veloz que em parte impedia de olhar a paisagem, nem que fosse por segundos. ”

Assim são as nossas emoções, sempre baseadas no pressuposto de que temos o tempo e a vida como aliados, quando, na realidade, acontece exatamente o contrário.”

Francisco Brennand – Diário