escrevo apressada para dizer que cheguei. a casa é pequena, tem um quintal comprido, um canteiro de margaridas, e buracos engraçados. tem uma pequena lareira, e floreiras de pedra, sem flores. quero que chegues logo. vou fazer funcionar o mais rápido possível, e logo pensar na horta. os papéis, lápis, tinteiro e cadernos prontos. comprei pincéis, tintas e duas telas. o silêncio é promissor. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres sigo lendo A vida invisível da sra. Orwel de Anna Funder / editado pela Companhia das Letras
TU ME ACHASTE mais magra, querido, não, estou apenas mais velha!
com certeza
examinaste as gavetas? os armários, em ordem: a desordem estão nos pensamentos, nem vou te dizer sentimentos, paradoxal? não. estes estão serenos e quietos a serem usufruídos devagar… ora passam pelo passado, mas logo retomam o hoje e se aninham no cheiro da primavera, nas certezas boas de se reconhecer. hoje reconheci um passado bom que me trouxe a filha Luiza, minha preciosa menina, mais uma vez eu agradeço! benção, presentes com fitas, sorrisos e uma corrida pelo jardim… o cheiro de viver! Tão bom! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres (cinzento o dia, mas casa tem um cheiro de lavanda ensolarada, eu gosto)

entrou
a porta estava aberta, ele entrou, ela veio atrás, sem constrangimento sentou. a sala cheia de jornais espalhados pelo chão, dois livros abertos. nenhuma curiosidade. ninguém tocou em nada. no banheiro se escutava o chuveiro correndo e no outro quarto, o radio explicava o rumo das eleições. íamos ter dois turnos. deitada na cama estreita do outro quarto, de baixo das cobertas, ainda febril, apenas fechei os olhos. adormeci imediatamente.
no meio da noite levantei para ir ao banheiro. perto da janela, um ramo colorido, dálias, eu acho. uma fresta da janela deixava aquele gosto de morno de primavera entrar. súbito a vontade de beijar percorreu meu corpo. senti saudade do teu abraço, meu querido, e daquele desespero bom de nos atirarmos um no outro quando não tínhamos vontade de falar, apenas abraçar. aliás, tudo já havia sido dito, o cheiro e o gosto, já era o discurso necessário… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
meu querido, embora não possa te falar, todos as vezes que eu liguei * (sigo insistindo), tua moça responde que não gostas de conversar ao telefone… acho engraçado quando lembro das nossas conversas por interurbanos, nossas urgências amorosas, das batatas sem sal, e as frutas maduras demais para o meu gosto / eras tu inventando uma vida para nós dois. a história eu conto aos pedaços porque amor se esfiapa mesmo, o bom tá no beijo demorado, no agarro e nas noites apertadas um no no sono do outro.



caverna
ainda assustador, estes redondos anos… deve passar, como as eleições passaram passarinho: o voto, não a solução nem a máquina parou… há muito, muito, muito trabalho a ser feito, e sem mordomia… sem gentileza, só no braço: tanta gente desiste! não podemos desistir nem interromper…
Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
SPACE X
Ao longo do caminho, a SpaceX colocou mais de seis mil de seus próprios satélites na constelação Starlink, cada um com o tamanho aproximado de um sofá, com uma meta de doze mil até 2027 e 42 mil BIRDs / Essa rede já pode cobrir quase todo o planeta com navegação, visibilidade, vigilância, internet sem fio de alta velocidade e outros serviços.
Hoje a Starlink cresceu e se tornou uma rede global de missão crítica, em âmbito econômico, estratégico e militar. Ela atende 2 milhões de clientes em sessenta países em todos os sete continentes. Os mais de seis mil BIRDs da Space X no ar se comparam a apenas 1.619 da Nasa e 3.303 da China. A empresa do Musk possui mais da metade de todos os satélites que pairam em órbita baixa, a cerca de 550 qulômetros acima da superfície da Terra.
No entanto, nada disso teria acontecido sem o enorme sonho de Elon Musk de chegar a Marte. E tudo isso aconteceu, mesmo que, vinte e poucos anos depois, ele ainda não tenha transformado o objetivo final em realidade. Se é que essa é a realidade verdadeira. Escreve Dennis Keale no seu livro ELON MUSK gênio ou louco?
o projeto lançado por Elon Musk / faça-você-mesmo da história do mundo: um dos maiores e mais caros projetos // pois é / eu tenho uma planilha… arregaçar as mangas e fazer, assim com os sonhos. logo estarei nos teus braços, e leremos teus poemas…
faça você mesmo / sonhe / não importa se as palavras dançam ou gritam. fotografe. as cores conversam mais do que os teus pincéis imaginam se agitar? continue, não interrompa teu fluxo de pensar, sentir / nem o movimento deles: faça feijão e arroz: rir de manhã, caminhar ao sol, choramingar porque faz frio… reclama, mas faça// sim, já te disse, as pitangas estão crescendo, a passarinhada se agita, meu jasmineiro e buganvílias brotam… logo estarei festejando meus sessenta anos e te beijando. sinto saudade todos os dias. resisto, eu sei. escrevo cartas e vou, aos poucos, te amando mais, mais. teremos confusas eleições… o Brasil acorda? não sei. gosta de dormir, das longas sestas. Elizabeth M. b. Mattos – outubro de 2026 – Torres
agora temos que votar, não viajar / vamos tentar mudar um pouco este nada / vamos tentar, vem, coragem…

assustador
assustador / é mais sério do que a gente possa imaginar / somos fantoches // não significamos nada de nada // e logo estaremos proibidos de sair / teremos horários fixos para o fundamental / descaradamente… nada que eu possa te dizer faz sentido /as letras são outras… um beijo
ficção/arremedo de vida ou um respiro bom para sair por aí… atravesso o tempo?
80 anos
tem ponto final? ou interrogação? exclamação… uauu! usei reticências. pois é uma tremenda confusão e sinto um frio danado. as pitangas começam a surgir, não reparei nas amoreiras. deve chegar o verão… ficarei sufocada ou será o tal ponto? não estou desencorajando, mas bota tempo de ser difícil, nem um filme de Wood ou tecnicolor, todos traições, vinganças e dinheiro… o mundo ficou preto e branco, e guerras, disputas, mentiras… promessas e nenhuma risada. Sim, minha amiga Magda, nós ríamos juntas. Era fácil. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2026 / com chuviscos por aqui, chuviscos e insônia. podia ser melhor?



tenho que renovar as fotos, eu sei. Ah! tecnologia / preciso de ajuda / o difícil é pedir… pedir. as histórias dos outros parecem tão fáceis de resolver, e as nossas? as minhas, se escondem aonde?
amo frutas / tô aborrecida com os tais 80 anos
minha filha Luiza deixou a geladeira, as cestas repletas de frutas, algumas incríveis! todas as possíveis, e devagar com vagar vou sentindo o sabor doce ou amargo do mundo… assim foi sua visita meteórica, de ouvir, segurar minha mão, abraçar, e me dizer, estou pernambucana minha mãe, mas entendo de chimarrão, frio e botas invernosas, de tuas misteriosas história de amor, também entendo. PODE existir amor maior do que ter alguém escute apenas o teu eu e não questione, nem tente te colocar na caixa certinha? Viver é uma estranha / perigosa e boa aventura, contradição… ah! sim! ver oportunismo… e a politica! confuso, meu querido. tanto eu queria te contar! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2026 – Torres (o lugar aonde meu pai me colocou… escolheu para eu morar!)



tô aborrecida com tais 80 anos, mas, afinal, ainda estou viva pra dizer, estou aborrecida: isso é legal!