amor não tem posse

frutas galho e alho

Inverno doce de sol e amenidade. A caminhada alegra. Pitangueira florida. Amoreira carregada, ramo avermelhado, madura azul … no prazer fotografo desastrada. Excesso. Ninguém domina ninguém, nem sentimento. Somos o que somos, surpreendentes. De repente se ama enlouquecido por inteiro despedaçamos aos sessenta aos setenta aos oitenta e aos noventa. Não tem risco ou parêntese, ou linha que limite. O amor não tem posse … amoras festejam  o sol. Elizabeth M.B. Mattos, Torres julho de 2017.

 

amores contrariados

A história desses amores contrariados foi outro dos assombros da minha juventude. De tanto ouvi – la contada pelos meus pais, juntos e separados, achava que estava completa quando escrevi La hojarasca, meu primeiro romance […] Os dois eram excelentes narradores, com a memória feliz do amor, mas chegaram a se apaixonar tanto em seus relatos que quando finalmente decidi usar esta memória em O amor nos tempos do cólera, eu ,mesmo passado de meus cinquenta anos, não consegui os limites entre a vida e a poesia.” (p.47) Gabriel Garcia Marquez – Viver para Contar

… e desta leitura só me encontro com amores amados, não os contrariados que me deixam amarrada neste vazio de imaginar que é possível. Aonde o amor de verdade? Elizabeth M.B. Mattos – Torres, julho de 2017.

Pierre Bonnard                                      tela /quadro de   Pierre Bonnard

se eu pintasse

PIERRE BONNARD

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Pierre Bonard mulheres

pierre bonnard (4)652fee411a4610d181539a21c6e312be.jpg bonnardPierre Bonnard 2.jpg mimosasMARAVILHOSA ESTA

Recife, 2017 … Oficina Francisco Brennand

“Eu já fizera naturezas mortas no Recife, filtradas pela visão colorida e orientalista de Pierre Bonnard, mas  neste espaço parisiense, só cabia mesmo um rigoroso amor pela forma.

Diário de Francisco Brennand

pois é amor …

— Como é que me dizes que não sabes NADA a meu respeito? Sabes o que nem eu sei … Eu que me desconheço nestes altos e baixos de dizer e desdizer, tu que insistes, e me esperas, e me queres como nem eu me quero … Como me dizes que não sabes …  Só tu conheces o que nem sei e nem percebo. Só tu vês o que não vejo, e ninguém vê (amor desobediente/ despencado/ escondido) … Só tu estás aonde me perco …

— Tens razão. Talvez haja mesmo um certo exagero neste NADA saber. Há um saber, um saber pouco que é mais do que nada, não sendo muita coisa … um saber de ti e nosso que é pouco …, mas no interior deste entendimento rarefeito descontínuo de tão pouca informação tua presença deixa rastros indícios e aromas que se misturam … os teus nos meus. A continuidade se antecipa/espera/aguarda o saber recíproco que existe além de nós os dois …  Este saber tem um sabor que se regozija neste provisório incompleto que não sabe e nem necessita saber de desencontros, ou perdas ou descaminhos, pois é amor.

Elizabeth M.B.Mattos – Torres, julho de 2017.

 

Rabiscos primeira página BENEDETTI

A Trégua  –  Mário Benedetti: Editora Alfaguara, Objetiva 2007

As pessoas me olham, me sorriem, algumas até chegam a fazer a careta que precede o soluço; depois se dedicam a abrir o coração. E, francamente, há corações que não me atraem.” (p.23)

Sim, o trabalho amordaça a confiança. Mas também existe a galhofa. Todos somos especialistas em galhofa. A disponibilidade de interesse ante o próximo tem de ser gasta de algum modo; do contrário, ela se instala e sobrevém a claustrofobia, a neurastenia, sei lá.” (p.103)

BENEDETTI CAPA

 

 

força para não decepcionar

Eu não gosto de ir nem de vir quero ficar. Essa tensão me pega de tal jeito que me impossibilita de fazer ou ser  como outras pessoas. Ser natural, leve … E isso me aborrece, incomoda, atrapalha. Eu me sinto exigida presa ao que os outros esperam, imaginam a meu respeito (e nem sei se existem outros) … Abro os braços, acolho/recebo. Abro o espaço. Faço esforço para não decepcionar já decepcionando. Como se não tivesse força, mas tenho. Eu me esvazio  agradando. Erro … Se fosse escolha feliz tudo bem, mas não é. Gostaria de viajar amar outra vez abraçar/amado/amante amigo alguém ao meu lado. Alguém que me tomasse pela mão … Enfim, ser como os outros, mas não sou. Vou eu mesma me excluindo como se fosse solução. Se estar ou ficar escondida resolvesse problemas… mas não consigo descobrir onde estão as amarras. Por que  Elizabeth/ Liza/ Isabel / Beth se transforma em idealista sem ideal? Esta aposentadoria pesa e atrapalha. O dia parece muito menor/ apertado/ ínfimo. Escrever restito a cartas diários desabafos anotações… Não molhei a grama, não cuidei das flores, e não descrevi a menina de vestido amarelo, sapatos de verniz que espia as irmãs.

Como era meu pai? Gentil, preparado, permissivo. Bonito. Inteligente. Provedor. Olhos arregalados esverdeados … Educado, gentil, o meu querido. Minha mãe, linda! Mulher que transitava entre literatura, artes plásticas, lógica. Dominava o teatro. Elegância, bom gosto. Generosa e acolhedora. Cenógrafa. Poeta e amiga. Bom gosto … fez o que precisava ser feito para tocar/chegar na beleza. Difícil descrever. O que importa? Revelamos/ dizemos, mas esquecemos outras tantas trilhas … Elizabeth M.B.Mattos, julho de 2017 – Torres –

sutileza do olhar

Foto julho de 2017, Rio de Janeiro. Ana Cristina Gilbert – Sutilezas do olhar –

Os outros

” — A vida de um homem é tudo o que há de importante para ele. Ele prova, sente, vê, ouve … e julga ser o centro do do universo. Isso é perfeitamente natural, pois ele não pode provar, sentir ou ver para ninguém mais. A sua dor é dele próprio, e ele nem é capaz de descreve -la. E nas células sombrias e reclusas do seu cérebro, os pensamentos acham-se tão sós  como cadáveres enterrados no chão.

 — Mas — continuou — em volta de si, no espaço e no tempo, existem outros como ele; e quando ele fala, esses podem ouvi -lo. De sorte que, afinal, ele não seja o centro de coisa algum.“(p.78)

SOU EU SÉRIA E BONITA SERENA

“Não sentia amargura alguma, apenas um grande cansaço. Não sei o que tínhamos em nós, nem  porque foi como foi. Nunca houve nada tão belo … Era como se aquilo precisasse existir; e durante todo o tempo não o pudesse, e nós o ignorássemos. Não foi culpa de ninguém; sua ou minha. Creio que sempre nos amamos; creio que sempre haveremos de nos amar. Mas sempre é a eternidade, e a vida é apenas um momento.”(p.152)

Robert Nathan A Luz da Manhã –  Editora Globo, 1944. Coleção Tucano – capa de Edgar Koetz.