Amém!

Quando temos respostas simultâneas! E a vida respira ar puro… Pleno pulmão. É preciso assimilar. O coração palpita. Despedir-se, cortar, rever, recomeçar. Revitalizar. Como as plantas no jardim… Carregadas, exuberantes! Cheias! É preciso podar: aliviar os galhos, sem dó. Usar a força. Vai recomeçar a nova floração. É a dor do futuro: será melhor amanhã… Amanhã. A beleza se renova. E palpitamos! Junto à euforia o abraço da paralisação. Estou neste momento. Agitada por dentro, atenta, e com medo. O medo sinalizador, mas fervente. O fazer. Desafio. Engolir o medo. Acreditar que o gesto certo pode voltar… O abraço chega. Não é despedida, mas vida. Grito: to feliz! E volto correndo pra cama. Amém! Elizabeth M.B. Mattos – Torres – fevereiro  2013

Fervente

Esse te amo dá voltas lá por dentro, como se fosse máquina do tempo. Aquela surpresa de acordar noutro lugar, noutro século, noutra semana, noutro planeta. Tempo de não te ver! Ou no tempo de te ver, e correr pros teus braços! Aquele teu olhar meio de lado de tímido ousado. Aquele menino que se propõe acertar, mas que sente tudo pelo avesso! E que pula para dentro dos livros de Lobato, mas se esconde na Irlanda. E erra como eu errei. Escuto tua voz… E neste outro tempo não temos medo. Olhamos pra trás, contamos os passos, gritamos, e ousamos. Nem o fazer tudo errado nos preocupa, o guri, a guria, – nós juntos, mais ninguém. Que este amor não tenha se gastado, diminuído como palavra! Tantas vezes nos pensamos amando, e assim mesmo o sentimento nos atropela sem sentido! Só palavras.  Não planejamos nada. Crescemos como a Buenos Aires do filme Medianeiras. Exorcizamos o que nos oprime. Não traçamos metas, nem sabemos para onde, agora, queremos ir. Corremos sem olhar pra trás. Retenho tua fala, tua palavra, teu riso brejeiro, teus olhos claros, tua pele morena! Reter tua fala, o eu te amo. Tenho presente este jeito de olhar com meio sorriso, parece ironia, mas vai ver que não é. Tudo incerteza! Esquisito meu amigo amado! Quando dizes que não haverá luz, e assim não podemos nos ver… Eu me pergunto. Mas pra aonde iremos tu e eu, o que é mesmo que eu quero ver? Podemos ir? Ninguém nos prende? Todos nos seguram pelas mãos, pelas pernas, pelos braços, pela cintura. Ninguém quer que tu venhas, nem que eu vá. Tudo imaginação. Quando dizes que não estarás aí, desço da plataforma da nave espacial, portas se fecham, volto pra casa. Penso em mim mesma aqui no fundo das cobertas, ou ali naquele sofá revirando inquieta de um sonho, um sonho que se faz sonho em palavras. Iluminado, mas apenas um sonho! Hoje tu não estás lá! Posso tranquilamente preparar o feijão, deixar a carne mal passada, fazer a farofa, escolher bem a salada! Penso que preciso emagrecer para correr e chegar mesmo nos teus braços! Pintar os cabelos, passar todos os cremes pelo corpo, e me perfumar. Vestir uma saia solta porque não gosto de roupas apertadas.Tirar os tênis. Andar descalça. Mas o que adianta eu me preparar se não estás aí… Ontem escrevi tanto e tanto querendo ordenar a vida, tão misturada nos desencontros e desacertos que me esqueci de te olhar, concentrada no fazer de me contar…

Algumas mágoas voltaram ferventes. E também imprevidências! Excesso de tudo! Eu que gosto das sedas, dos brocados, das luzes e das pratas! Eu que amei a pintura, os livros e a música! Os sapatos de salto alto, a bainha perfeita, a dobra exata, os botões de madrepérola, os bordados delicados! Eu que bebi em cálice de cristal que se quebra tão fácil! Eu que vi filmes épicos acreditando na bravura! Eu que deixei cair tanto orgulho a cada passo! Soberba! Confusa. Obediente. Altruísta como dizia um amigo! Não, não foi nada disso! Nunca fui mulher valente, nem guerreira. Nunca encontrei o herói, nem fui princesa. Abaixo os olhos, penso nas arandelas, nas correntes de ouro, nos ricos anéis, naqueles brincos de pingente, nos bailes, nos bons costureiros, na cabeça erguida, nos soluços abafados. Tem de tudo neste quebra-cabeça. Humildade e orgulho. Casa pequena, sem teto nem paredes. Se eu respiro, se eu ainda te toco… Que medo! O danado do medo o corpo se curva. Eu te beijo na memória de menino.  Entre as árvores daquele quintal de Ipanema, pego tua mão atrás da poltrona, e vamos dormir os dois na mesma hora, na mesma cama, vestidos, eu sei. Como se fossemos aqueles bonecos moles de trocar roupa, aqueles bebês de borracha que chegavam  embalados com fitas e guarda-roupa nas festas de Natal! O que fazíamos? Apressávamos – nos a despi-los, depois botávamos em baixo das torneiras, e com trapos enxugávamos, trocávamos de vestido, as fraldas. Depois retorcidos ficavam abandonados no caixote, desgrenhados, despidos. Íamos pular corda, subir nos muros. Ou brincar de rádio: eu girava o botão e tu falavas, ou cantava. Invertíamos os papéis. Eu cantava, ou falava: ‘amanhã fará sol e chuva’. E gostávamos destas longas e perdidas horas de quintal! As bonecas dormiam todas sem fraldas, sem calcinha… As nossas pobres filhas que dávamos comida em pratinhos de plástico, e logo abandonávamos no caixote! E ninguém queria saber o que fazíamos! Ocupados com as visitas, com as conversas, a política… Lembro da Madalena deitada, e da Maria ao lado, dias e noites, noites inteiras acordadas. Ou dias inteiros deitada, e nós enfiados nas histórias que contávamos um para o outro. Eu espichava os olhos pro José. Lindo! Importante! A brincadeira do dicionário, os cálculos matemáticos! Um dia eu ia acertar como eles, eu ia também ser inteligente, não boba! Eu ia crescer, e me apaixonar pelo homem certo, é claro! Eu ia ser feliz! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2013 – Torres

Não é erudição

 

Por que não escrever com as minhas palavras. Não tenho. Contar o impossível? Distorções e deformação. Inevitável. Fico confusa quando as citações parecem pedras, e não flores… Vejo jasmins, hortênsias, pequenas orquídeas, e não pedras. Como pitangas, amoras, jabuticabas, manga, e não ostras ou caviar. Bebo água da torneira. Não é erudição, muito longe disto. Os livros são cacos, aparas, comida, estranhamento. E se comungas…Dá vontade de sair lendo em voz alta caminhando atrás das pessoas, qualquer ouvido, qualquer par de olhos, todas as horas, é a hora pra despejar no outro um pedaço do livro, uma página rasgada que possa instigar. Eu sou a voz comum. O caranguejo que vai pra frente e pra trás, O autor, aquele escolhido…É diferente! Como explicar? Transcrevo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

“O amor é o drama da inteireza, da unificação. Pessoal e ilimitado, ele leva à libertação da tirania do ego. O sexo é impessoal, e pode ou não ser identificado com o amor. O sexo pode fortalecer e aprofundar o amor, ou trabalhar destrutivamente.  (p.74-75)

O mundo do Sexo – Henry Miller.  Ed. José Olympio. 2007.

 

Aroeiras queimam

Volto os olhos. Velha infância de pecado. Não me converti em estatua de sal. Nem fui amaldiçoada. Ninguém me apedrejou. Caminho por Porto Alegre. Sim, foi preciso tirar as roupas, rir em voz alta, choramingar pelas praças… Gritar. Escabelar-me. Voltar a Rua Vitor Hugo, ao Petrópolis Tênis Clube, as calçada da Fernandes Vieira. Entrar no bonde João About, voltar ao cinema Ritz, assistir a missa na Igreja São Sebastião. Entrar no Colégio Santa Inês, dividir a merenda com a Maria do Carmo. Chegar à Escola Estadual Rio Branco, rever as professoras, Nair, Virgínia, e as outras. Espiar pelos muros do Colégio Israelita. Voltar pra casa caminhando pela Avenida Protásio Alves. Depois comprar balas no bar Tupi antes de ficar sentada em baixo dos jacarandás. Ver as bonecas na vitrine… Sentir o inverno, também o verão, assim desnuda… O sol queimando a pele! Preciso deste palco, desta retomada penosa para voltar a ser quem deixei pra trás. Preciso rever. Olhar a menina que brinca no pátio da casa de Ipanema. Aquela que pula no sofá contigo. A mesma que entra nos caixotes pra poder cantar, falar…

Choro com espanto. Nada escorreu como deveria ter escorrido. Ainda estás a me escutar Francisco. As sutilezas da proibição são urtigas. Estou me repetindo, já disse isto antes. São aroeiras que me queimam! E pensei em jasmins… Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

Voltas pelo Pátio

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Gosto da limpeza! Tapetes perfumados. Chão com cera, lustrado. Um galho de hortênsias azuis junto às garrafas de azeite, do balsâmico, perto dos temperos e das velas. Saudade de ti naquela noite tão louca, tão minha, tão tua! Noite do fundo do porão! E dizes ser de tarde! Num almoço alongado! Vai ver que não era mesmo pra ser nem noite, nem tarde, imaginação! Tua e minha.  Agora estás aqui, e eu aí nesta cidade turbulenta em que vives! Confesso saudade,  confesso escondida! Camuflada outra vez.

Bom que venhas! E eu não vá nunca mais. E ficas no quintal como o tigre de olhos azuis da Lya Luft … E eu como a boneca esquecida em dia de chuva … No meu planeta, esquisita terra destorcida, infernal, meio divina, eu te escondo, e tu me prendes. No meu planeta, te protejo. Enfeitiças ao escrever… Te aquieta. Malditas palavras inventadas!

Teu cheiro, tua voz lenta … Mansa, ou como é mesmo esta tua voz? O que diriam aqueles que nos interditaram se nos vissem agora? Vou caminhar um pouco. Inquieta e prisioneira. Faço voltas pelo pátio ..Encontro-te. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

Vianna Moog, Monteiro Lobato, Oswaldo Aranha

Clodomir Vianna Moog entre os 50 grandes brasileiros e seu legado, destaque em amorasazuis.com

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A revista Veja que chega aos assinantes e às bancas hoje, 24 de dezembro, véspera do Natal de 2011, em sua tradicional edição com a retrospectiva do ano, tem uma interessante matéria, organizada por Diogo Schelp e Julia Carvalho, cujo título é:

50 GRANDES BRASILEIROS E SEU LEGADO

A epígrafe da matéria:

AS IDEIAS, CAUSAS E LIÇÕES DE VIDA DE CINQUENTA PERSONAGENS HISTÓRICOS QUE AJUDARAM A CONSTRUIR O BRASIL E QUE AINDA INSPIRAM AS GERAÇÕES ATUAIS NA TAREFA DE ANTECIPAR O FUTURO.

A lista inclui personagens como Maurício de Nassau, Frei Caneca, José Bonifácio, Duque de Caxias, D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Visconde de Mauá, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Carlos Chagas, Oswaldo Aranha, Monteiro Lobato, Juscelino Kubitschek de Oliveira e mais figuras do mesmo nível de importância para a História do Brasil.

Há um tipo de verbete de enciclopédia para cada personagem e, no final, um comentário sobre se ele ficaria satisfeito ou insatisfeito com determinado aspecto do Brasil de hoje.

O verbete sobre o jornalista e escritor,  sociólogo, antropólogo e historiador, escrito por Fernando Figueiras, é o seguinte:

“Clodomir Vianna Moog (1906-1988)

Clodomir Vianna Moog dedicou-se ao processo de formação do Brasil. Em sua obra mais conhecida, Bandeirantes e Pioneiros, Vianna Moog especula sobre o nascimento do país pelo viés de nossa cultura política. Ele compara os processos de formação do Brasil e dos Estados Unidos interpretando os personagens principais da cultura brasileira e da americana, observando os valores e o meio material em que essa cultura existe. Por essa comparação das culturas políticas, Vianna Moog identificou que, enquanto os pioneiros edificaram uma cultura de progresso geométrico, que valoriza o bem comum, os bandeirantes edificaram uma cultura de progresso aritmético, a qual é uma cultura pública fraca, dependente do governo, predatório e privatista. Essa é uma perspectiva ainda bastante atual sobre a cultura política no Brasil, tendo em vista a democracia e os desafios do desenvolvimento.”

Na nota de fechamento sobre como sentir-se ia Vianna Moog hoje:

Ele ficaria insatisfeito em conferir que o país ainda luta com as consequências de elementos que formaram a cultura política do 021 (2)Brasil.

(1882-1948) Monteiro Lobato hoje:

Ele se sentiria vingado ao verificar que seu sonho de autonomia em petróleo é uma meta estratégica da atualidade.

( 1894- 1960) Oswaldo Aranha hoje:

Ele se decepcionaria com a postura antiamericana, sem fundamento prático, de muitos diplomatas brasileiros.

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Fragmento

“São nove horas da noite. Nesta primavera escurece tarde em Lisboa e ainda há luz do sol. Se esvai, mas existe. Vejo do meu quarto as muralhas do Castelo de São Jorge no morro iluminado em parte pelo que lhe resta de sol, em parte pela eletricidade para “tusistizar” o ambiente e fazê-lo espetacular. Esta parte velha de Lisboa – bem no centro da cidade – me emociona. Fazia calor, muito sol esta manhã quando sofregamente caminhei quilômetros a fio pela cidade, revendo cada edifício antigo, cada pedrinha na rua. Parecia o resumo (em poucas horas) de anos. ” FHT

CARTAS e diários

Diários e cartas. Alguém na intimidade. Retrato, história. Conjunto de cartas e sucessivas páginas de diário, o indivíduo. 

Novas Cartas Portuguesas: Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objeto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

Lautréamont: Il y en a qui écrivent pour rechercher les applaudissements humains, au moyen de nobles qualités du coeur que l ‘imagination invente ou qu’ ils peuvent avoir. Moi, je fais servir mon génie à peindre les délices de la cruauté!”

Umberto Eco: Não teorizamos já em outro lugar acerca da sua necessidade de ser e estar com outros, esquecido das alegrias da solidão silenciosa? Tal é a essência presente da chamada democracia, cujo mandamento parece ser: repara no que os outros fazem e segue a lei dos que forem mais numerosos; qualquer um é digno de qualquer lugar, contanto que outros se reúnam em número suficiente para elegê-lo; e quanto aos cargos não excessivamente importantes, são tirados à sorte, porque o aleatório está bem na lógica do homem-massa.”

Virgínia Woolf: A essência do snobismo é querer impressionar outras pessoas. O esnobe é uma criatura com uma mente agitada, de lebre, tão pouco satisfeita com sua posição própria que, a fim de consolidá-la, está sempre brandindo um título ou uma honra na cara das outras pessoas, para que acreditem e ajudem a acreditar naquilo que ela não acredita: que ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que eu observo em mim mesma. Vejam esta carta. Por que é que ela está sempre por cima de todas  as minhas cartas? Porque tem um brasão timbrado.”

Katherine Mansfield: Dezembro – Sem sombra de dúvida, sei mais que os outros: sofri mais, suportei mais. Sei com se aspira à felicidade e qual o preço de uma atmosfera de ternura, de um clima que não inspire terror. Porque será que não tento evocar estas coisas, cultivar o meu jardim? Agora, estou reduzida a ocupar o lugar de uma estranha entre estranhos. Porque não serei eu capaz de fazer sentir que sou uma autêntica força espiritual? (Mas para quê?) Ah, sim, deveria fazê-lo… tenho uma experiência que os outros não têm. Sim tem de ser…

Marguerite Duras: Li Um quarto só meu, de Virginia Woolf, e A feiticeira de Michelet. Já não tenho biblioteca alguma. Desfiz-me dela, bem como de qualquer noção de biblioteca. Acabou. Esses dois livros são como se eu tivesse aberto meu próprio corpo e minha cabeça e lesse o relato de minha vida na Idade Média, nas florestas e nas indústrias do século XIX. Quanto ao Woolf, não encontrei um único homem que o tivesse lido. Estamos separados, como ela diz em seus romances, (…)