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A vida não deveria se apressar, sinto que estás a me espiar e eu a te gostar, sem coragem, os dois, mas o céu faz tempestade, faz sol, faz quietude e nos espera, pensa, quanto tempo? Vamos ter que caminhar. Talvez subir ladeira. Nadar no rio, secar ao sol, estirados na grama…

Escondi uma surpresa no bolso! Vais rir! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

perdido

Por que ficamos achando/reencontrando/ ou reinventando o perdido? O perdido deve desaparecer, completamente, e, nunca mais assombrar. Quebrou, desapareceu, alguém levou. Complicado no momento de constatar, depois, depois? Seguir em frente, largar de pensar na coisa, na pessoa, no perdido. É o jeito certo. Aquele começar que tem gente que chama de recomeço / não é, não precisa ser, pode ser sempre começo, e, ponto. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Como no amor, o amor amado de hoje é amor com letras maiúsculas: A M O R! É assim que eu me sinto quando abraçada. Sei que estás outra vez aqui, quando abres a porta, eu sei, então, o sentido do hoje, do agora, cinco horas da tarde. Conheço teu jeito no meu jeito.

dia completo

Quando o dia fica completo às quatro horas da tarde? Quando o sol explodiu depois do vendaval! Quando compramos frutas e verduras, depois mais um monte de bobagens, e, bebemos uma coca – cola. Se, ainda muito cedo, a caminhada fez os pés doerem, e, mesmo assim resolvemos fazer omelete pro café da manhã, e, tivemos boas notícias dos filhos! Parece que tudo está em ordem, porque nos apaziguamos! O exercício precisa acontecer porque apesar dos pesares e da boa vontade do sol, o mundo ainda está do mesmo jeito, embaçado. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

deveria ter sido

1.

As crianças estão bem. Ainda chovia quando saíram. Estiveram a se envolver com os cães. Acharam o Conde, agora Blake, trocamos o nome, lindo. Ele comeu banana na mão, sem susto, e se aproximou, mas segue extremamente arrisco, medroso. Deve ter sido bastante maltratado. J. e eu não conversamos. A casa fica menor quando há este constrangimento. O dia está feio. Arrumei e lavei louça. Dobrei as roupas. A casa precisando de ordem / arrumação e limpeza. Não veio o sol mas parou a chuva. Tenho vontade mesmo é de estar diante do fogo, quieta, lendo um livro. Quero alguém limpando, cozinhando, fazendo brilhar… Quero ser servida.

Nossa ida até Porto Alegre deveria ter sido festiva, aparentemente, foi completo: ao dentista, ao obstetra, e trouxemos o cachorro. Não decidimos sobre o parto, conversamos com seu pai. Visitamos a Lorena, querida, alegre e entusiasmada com ela mesma. Pessoas tranquilas. Sou eu que ando triste, não sei o porquê. Quero milagres. Preocupada com o dinheiro. Ontem confiante, hoje acabrunhada, sem vontade. O dia ficou mesmo branco e preto. que pena! Deveria estar na concentração para decidir o que vai acontecer com a greve. Nós professores neste impasse! Estou completamente desanimada. Um ano perdido! Deveria arrumar meu armário, encaixotar as coisas para a mudança, ou corrigir as provas / preparar as aulas. Pensar no francês, mas acho que vou interromper as aulas particulares também. Estes horários tardios irritam o J. (acha q não tenho tempo para nós). Eu penso nas saídas dele, nas decisões apressadas! Estou com frio. Acho que deitarei na cama do Pedro para olhar o pessegueiro…Vontade nenhuma de ir pro meu quarto, quero sumir, chorar, apequenar. Tudo está tão cinzento, desalentador hoje. (17:30) Elizabeth M.B. Mattos – maio de 1985 – Santa Cruz do Sul

André Gide

Abre o livro e verás! Lerás, não a inspiração de Paulo Coelho, mas Gide como ele é, e sempre foi! O melhor! E agora, mais, muito mais…

Conservei até o fim da noite a esperança de uma novidade de luz; agora não vejo ainda, mas espero; sei de que lado a alvorada surgirá.” (p.110) André Gide FRUTOS da TERRA / tradução de Sérgio Milliet

vai entender…

Era um frio de nevar logo de manhã bem cedo, mas, já às quinze horas, parece amornar tudo e o vento/um vento bem acomodado no devagar amenizou o dia. Ah! Temperatura que parece com as variantes de amor! Vai entender! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

transbordar

A gente vai transbordando de jeitos diferentes segundo cada memória, cada encontro, e a tal da motivação…, amei/apaixonei/vibrei/ e mergulhei em vertiginosas solidões produtivas. Até escrevi com desenvoltura de ser/ter/construir uma história. Pois é, não sei…, escrevi textos inspirados. Mas hoje eu me enfiei nesta memória. Não sei o porquê, pode ser o frio danado, intenso, e, pode ser apenas saudade contrariando… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

frio de maio

Ah!, meu querido, meu amado: o frio, o danado deste frio em maio! Estou a te pensar completamente fora de hora, como este gelado outono! Atolada numa ausência de tantos anos! Poderia ter esquecido teus olhos azuis e tua magreza, tua boca e todas as tuas chegadas! Não, num repente de susto, estou a te amar, sem pudor. Sem o gosto da sopa, sem cinema, sem amigos, sem mundo, era o nosso mundo! Imagino: tu também deves fazer uso desta saudade que engole! Apenas nós dois! Nós, e o suficiente! Tu sempre estiveste no plural dos plurais! Eu não me importava, transbordavas ao chegar! Estou assim hoje, a te amar, tão bom! Claro, como tu, eu também transbordo / transbordei e amei / amo, tu sabes! Jeito de ser Elizabeth, na Beth, na Liza e na Elisabeth, assunto ortográfico foi sempre preocupação! Eu te contaria outra vez! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

enxurrada

“Buenos Aires, 17 de maio 199 Elizabeth, gorda amada: Estou perdido no mundo. Não sei sequer que horas são, meu relógio de pulso, sem pilhas, nome do norte do mundo. Estou sozinho no meu apartamento (no meu, não no nosso), sei que é tarde pela inflexão do sol. E que é muito tarde porque estou famélico e o frio aperta mostrando que estou sem me alimentar. Aqui estou desordenado. […] todas as outras cousas da casa foram para o novo apartamento da dona N. e escrevo-te na mesa da cozinha, no pouco que aqui restou intacto. Creio – creio – que eu também restei intacto.

Intacto, mas começo a sentir o tiroteio.

Ontem recebi uma enxurrada de cartas. O porteiro as havia guardado no nosso apartamento para m’ as dar em mãos… Por conta, isso atrasou-as em uns dez dias. Talvez tenha sido bom. Se as tivesse recebido antes, talvez não tivesse enviado tantos telegramas de amor e saudade. (Ou teria enviado adeus, sem saudades???)

Li cada uma delas. E por ordem cronológica, a partir do selo do envelope. O Problema é, saber com qual das cartas fico, a qual respondo? Agitei-me no início, com as duas primeiras cartas, quando me propões ou sugeres arrumar a mala, deixar tudo, e ir viver contigo aí algures ou alhures. No meu remoto e ignoto inconsciente, me vi chegando a Porto Alegre, logo a Torres, malas nas mãos e tu me recebendo com o sorriso que te faz melhor que tudo o que és, e é um muito. Li essas cartas-convite sentado junto ao bureau. Quando, em seguida, chegou a vez de outra carta, mudei de lugar. Fui direto ler na cama, onde ainda permanece teu cheiro, nosso cheiro, mas no fundo só o teu perfume. Li a carta de rompimento deitado para que o golpe do infarto fosse menor. Em poucos minutos passei da euforia de sermos definitivamente um do outro, a depressão de não mais te ter, não mais te ver, jamais voltar a te sentir. Esquizofrênico amor o nosso. Esquizofrênicas as tuas cartas, ou o conjunto delas. Em qual delas posso confiar? Na da mulher que me ama e que me induz ao amor total não só com seu jeito, seu corpo, seu sexo, sua boca, sua alma e sua fala, mas também com suas cartas de entrega e busca, de intimação ao amor total ao viver juntos? […]

Petrópolis / Rio de Janeiro

Búzios / Rio de Janeiro

O amor vai feito furacão: acorda o corpo. A palavra Eu, um detonador de sentimento sem arrazoado, a balançar… Ninguém consegue mudar o lugar em que fomos colocados. Outro país, outra casa, outro tempo passado/ voltado / revirado. E não importa. Há quem nos olhe, e há quem nunca nos viu, nem percebem que passamos e nos devoramos, meu amado! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Torres, 199 – datas – nesta foto a desordem do tempo – tanto tempo, e foi ontem