MANGÁ

MANGÁ

A correspondência que não caminha pelo correio, nem por letras japonesas, nem desenhos, nem cotidiano,  nem cartões, ainda pode ser a descoberta, o caminho para o amado… A cor, o traço, o pincel no mangá… Ainda assim, e quase sempre a mesma história….a minha, a nossa.

“Eu não te contei nada até agora… Mas vou casar na primavera do ano que vem. Por isso, eu só vou poder escrever cartas a você, deste jeito, até o dia da cerimônia. Eu sei que estou sendo egoísta, mas você pode me comprender, não pode? Eu sou uma pessoa afortunada por ter conseguido trocar correspondências com você durante mais de 10 anos, desde que me formei no ginásio. Independente do conteúdo da carta, receber e ler suas cartas me trouxe muita felicidade.

Você sempre torceu por mim…”

(p.122) Bakuman

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Tempo de Magliane

Estou às voltas com o tempo que abocanha esperanças, complementa certezas. Interroga a perplexidade. Incoerência, inconformismo. No entardecer o vizinho coloca seu barco-brinquedo na lagoa, e as horas escoam nas manobras de ir e vir. A distância da margem ao centro da lagoa, o desafio. Este ir e vir da lancha a motor, caça ao tempo… Lazer, prazer, vagar, sem desafio. O nada de horas e horas ditas vazias! Aliviar a tensão. O mesmo efeito da jardinagem: remexer a terra, cavar, podar, afofar, cortar a grama, libertar os galhos, colher as frutas, as flores… É o tempo! O livro certo. Atada na cadeira. Não, logo a mente se desvia. O tempo se remexe… Altera a velocidade. Posso ver o dia se fechando. Os pássaros, o cheiro, a luz invasores! Levanto os olhos pro nada, e já não tenho mais tempo. Posso ver o trabalho agitado, apertado da pintura de Maria Lidia Magliane! Eu me curvo.

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Ágata, Esmeralda

Era uma vez um alguém… Esmeralda, Ágata, Rubens, não Eduardo. Era uma vez a ansiedade. Escrevo. Elas, as histórias, esbarram na incompetência. Repito: conto histórias reais porque a vida não é real. Desafio. Reconheço o inferno: ardência, fracasso. Terror imediato. Sinto o movimento no estomago. Sinto o pânico roer a dignidade. Não consigo aceitar o razoável. Nem bons ventos, ou boas chuvas. Bom sol, boa bebida, nada justifica. O corpo pesado aperta minha alma. Apatia, miséria suicida. Miséria visual. E este peso nos braços, no corpo! Se eu morrer é preciso que saibam que foi tudo equívoco, eu queria viver. Vou pedir outro café, acender um cigarro.

Bolsa azulão

— Há tanto de humano nesta rua, nos canteiros, até nas árvores… As folhas se fecham em arco!  Mesas e cadeiras. Toldos… A natureza da cidade é diferente. Na mesa o pão, manteiga, suco, fruta cortada. É a melhor refeição. Padre Chagas, Moinhos de Vento, Porto Alegre. Rio Grande do Sul. A queda, uma perda, as marcas! Sinto tua falta. Minhas costuras não têm linha, não uso dedal, nem agulha. Ainda tenho os livros: leio mapeados por anotações tuas! E não estás aqui! Sofrer a felicidade como diz Proust, ou ter apenas o colorido quente do dia? As vitrines, abertas a imaginação! A possibilidade. Então visto aquela saia longa, a botina marrom, uma camiseta verde escura colada no corpo, e aquele blusão cinza com as pontas longas… Linda a bolsa azulão! Bebo mais um gole de café. E me pergunto: Quem são estes novos homens sem lei nem ética que abrem os braços? E brilham!  Em princípio não me importo, depois me aborreço…

Crianças da lua

Rousseau inventou as crianças, elas acordaram, saíram das amas de leite e começaram a falar… Até aí tudo bem. Mas as duas grandes guerras inventaram as mulheres. Elas saíram para trabalhar fora de casa, substituir os homens mortos na guerra. Bem, isto é história… Espiaram o mundo pela primeira vez? Não, apenas se libertaram dos machos, e descobriram que pensar, ou fazer era possível.  Dolorido. Complicado, mas possível. As mulheres surgiram guerreiras, autoritárias. Queixosas? Não, isto ficou enterrado no fim do século dezenove. Depois das Bovary de Flaubert, veio a Ema de Ibsen que abandonou o marido e vida doméstica. A Marilyn Monroe. Elas queriam o sexo do jeito delas, ser ouvidas. Estar nas ruas, como os homens. Ser reconhecidas. Abandonaram os corpetes, as saias largas, mostraram o corpo.  Conhecer o fumo, o cigarro, e o álcool era importante. Ler também. Alfabetizaram-se! E as crianças? Cresceram. A informática, os desejos, as exigências de hoje acompanham este novo mundo infantil-adulto. Pai e mãe saem de casa, trabalham, lutam, investem, querem, e as crianças estão crescendo livres, cada uma com seu psicólogo possível. É bom? Ser livre como a mulher se desejou livre? Deve ser. Ninguém voltou atrás.  Como fazer sexo é liberdade e domínio do corpo. Trabalhar pertence ao homem e a mulher em igual condição. Onde estão as crianças? Afogadas na própria condição de ser crianças: cheios de desejos, felicidades e alegrias. Elas, as crianças, querem sua cota de felicidade, não podem imaginar que exista dor ou sofrimento num mundo tão cheio de prazer e individualidades. Elas não têm mais modelos a ser seguidos, mas homens-robôs poderosos, guerras, conquistas, heróis. Eventualmente pai e mãe. Onde estão as nossas crianças? Na lua. Um dia chegamos lá.