De volta no tempo

Esta coisa de envelhecer, encolher não é só dos velhos, mas das pessoas em geral. Do mundo. Desta parada que, a seu modo, cada um vai fazendo enquanto cresce. Desânimo impreciso, ou focado nesta outra coisa que todos nós fazemos, diariamente, consumir. Se sair com a lista de compras, aventuras de vitrine, voos de rotas imprecisas, o mundo interior se transforma, aplacamos ansiedade. Usufruímos. Esquecemos o que vai acontecer… Respiramos. Muito bom. Ufanismo colorido. Lucidez, felicidade engarrafada, alegria transbordante. Festa de todos os dias. Sorrisos e beijos. Esta coisa de ser feliz nos segura, e nos insulta também. Como posso entender tanto otimismo na mesmice? Agarrada em compulsiva solidão vai gemendo a vida surpreendida. A enganação se espalha esquisita, o que foi mesmo que fiz ontem? O que vou fazer amanhã? Por que estou imóvel e assustada? Tem alguém me ouvindo? Espera, quero ir contigo conhecer  a América do Norte, espera por mim.

Sem pensar, deixar correr

1.

Desde que desmanchei o quarto do trabalho, nunca mais achei, ou me debrucei na  boa mesa boa, a certa…Sinto falta do Antônio, daquele socorro rabugento, mas amoroso, presente. Dá o abraço, esquece o chocolate… Dorme porque é inverno.

A perda responde à ansiedade. Será que posso ter carregado o passado? Lista, diz, pergunta. Outras coisas apenas somem do olhar… Comprar?Travesseiros. Perfume.

Lembro-me do fogão a lenha acesa, polido. Dos cobres. As sopeiras ordenadas. Festividade. Sempre para acontecer. A cada tempo um tempo. Jardim renovado. Cães estabanados. Diferente. Depois vem a coisa de habitar. Assim, minha filha, o tempo que parecia preguiçoso, grande, fica atormentado, atabalhoado. Espremido. E o amor com tentáculos, aperta. Sabes o que me ocorre? A vida como pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações. Arrumar e arrumar armários. Redistribuir. Doar.  Os livros livros empilho. Revejo. Acaricio. É preciso  limpar.

Imagino a casa branca, móveis brancos, espaço. Sem tapetes apenas sol e calor. Quadros como janelas… Esta coisa de lembrar, e de dizer importa.

Estou atrapalhada. Não gosto do entardecer. Gostava quando morei contigo. Jardim iluminado. Cadeiras na varanda. Mar verde. Da tua casa se escuta o entardecer… E gosto de venezianas abertas. Conversas amolecidas, sem urgência. O tempo pode ser meteórico. Arrumar faz parte desta visitação ao passado. Limpar. Listar. Ordenar. Vou usar o ponto final. Desmarquei a manicure. Fiz a sopa, Tomei café.

Escuto o gotejar. Chuva ininterrupta. Encontros apressados, atravessados de lapsos. Outro café, um pedaço de bolo. Queremos  a vida como era, ou como deveria ser, não como é…

2.

Escrevo mentalmente todos os dias. Ou pelo menos ajusto a conversa no papel. Na tua casa falo, ou melhor, atropelo teus ouvidos. Liberada.  Avolumam-se queixas. O prazer. Estou no lugar certo. E vou ficando até me dar conta que estás quase fechando os olhos… O jantar que fizeste foi tão bom! Mas não parei de falar, nem um minuto.  Desculpa. Falo demais, rápido, engatando um assunto no outro como se mais que amiga fosses o anjo, o mestre, o médico, ou sei lá quanta coisa ao mesmo tempo. Abuso. Pessoa forte, vigorosa que és me instigas a pensar e processar, e revidar. Confio.  Cutuco. Mas escuto o que me dizes também. Gostei quando me perguntaste, tão diretamente, por que não expunha o sentimento de desconforto para a irmã. Ainda penso nisso embora tenha te dado uma explicação na hora. Não entenderia. Não mudaria nada. Talvez, apenas gerasse mal estar. Não encontrei outra resposta. Esquisito isso. Depois de certo tempo não importa mais o que dizemos dos velhos e sólidos sentimentos, soa falso. Explicações podem confundir. Ou romper o elo. Conversas importantes, fustigantes, doloridas! Necessárias? Não sei. Estas esquisitices que só a terapia explica, se é que explica. Tempo aberto, infinito, e já sem voz concluiríamos que não é o discurso que importa, mas estarmos um diante do outro. Escreve. Gosto da tua tenacidade.

Ler Boris Fausto, logo

O autor divide o diário em anos, e coloca pequenos títulos com datas. Long Live  Bukovina 5 de junho. Este começa assim:” Termino uma resenha de Tempos fraturados , o último livro de Eric Hobsbawm […]” Vale a leitura urgente. Segue no dia 7 de junho, com  o título Preconceito.

Páginas 152-156. Vou citando sem transcrever. De repente, num repente, pega-se o livro na Saraiva ou na Livraria Cultura e já se dá conta do recado. Não o dele, mas o meu é fácil. Estou mesmo presa na leitura.

Calendário

“Um dos efeitos da solidão consiste no modo como percebemos o calendário. Os fins de semana são difíceis, especialmente o domingo, em que a solidão torna ainda mais penosa a chamada neurose dominical. Os feriados prolongados, que despertavam uma expectativa gostosa, tornam-se um desafio. Como atravessá-los incólume? Natal e ano-novo, para quem não está para festas, são datas que mal se encaixam, momentos que fazem as recordações de outros natais, outras viradas de ano saltarem a nossa frente como cenas do passado esvaziadas de personagens vivos”(p.83)  Boris Fausto, O brilho do Bronze [um diário]

Bilhete com vinho

Fantasia. Bilhete eletrônico. Mágica do dia. Chegas no meio da manhã, risonho. O avião sobrevoa sinalizando. Almoçamos. Prosaico guisado, farofa, batatas, ovos cozidos. Salada. Vinho aberto, descontração, e passado. Faz sol, não venta. Primavera, buganvílias floridas. Somos os mesmos.

Encontro com Boris Fausto

Escreve bem. Vida perfumada pelo sucesso laborioso. Luxo cotidiano, lapidado. Conforto, fartura intelectual. Inchado  parágrafo. Ironia. Curta narrativa.Texto dois desdobra na citações. Subjacente… Envolvida pelO brilho do bronze [um diário] de Boris Fausto. CosacNaify, 2014. Leio o bom vinho a cada detalhe. Fecho os olhos e acompanho Cynira.

“O quarto dos mortos

Há algumas semanas li o livro de Michelle Perrot Histórias dos quartos, um bom exemplo da ampliação temática produzida pela Nova História. Quando fala dos quartos, Perrot se refere a duas atitudes opostas; de um lado, a de tudo preservar; de outro, ade tudo tentar apagar, até mesmo a lembrança da voz do morto. Fico rememorando a voz da Cynira, fazendo força para não esquecê-la , temendo que isso aconteça. Por quê, nas nossas longas conversas sobre a vida que em parte reproduzi em Memórias d um historiador de domingo, não gravei alguma coisa, preferindo deixar  a conversa escorrer livremente?

Michelle Perrot

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Objetos

 Em incontáveis memórias, passagens de livros de ficção e diários se fala da angustia ao contemplar roupas e objetos que pertenceram a alguém muito querido, Ao realizar essas tarefas incontornáveis, parece que apagamos, a cada passo, um pouco da lembrança de quem se foi. […] Se roupas e outros pertencem perturbam, não é fácil também encarar espaços vazios. Esses espaços tornam cômoda a vida de quem permaneceu e traduzem outro vazio, que não é material, deixado por quem se foi. Dramática e ironicamente, resolvi o problema da minha quantidade de livros que não tinha onde guardar, mas o sentimento não é bom, é como se ocupasse, indevidamente, espaços que não me pertencem”(p.55-56)

Boris Fausto

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