Segue a luz da memória

Música recupera sentimentos enquanto a alma segue a luz da melodia. No silêncio, escutamos com olhar.

A memória agarrou uma xícara, este livro, aquela cadeira, depois a tela com tintas escorridas de Jean Lehmans. A carta, este caderno. A caixa das fitas as pérolas descascadas. O bule branco. Objetos. Não sinto o cheiro dos eucaliptos, nem das magnólias. Esqueci o jardim dos jacarandás. Seguimos construindo a memória com fitas, vidros, caixas, cartões, e fotos. Guardados escondidos no porão. Elas caminham, estas coisas… Não ficam a espera.

Desvio favorável

Escrever já é um desvio favorável ao esconderijo” escreve Patrícia Galvão. Também penoso, difícil, perigoso! Palavra deslocada, desfocada. Pelas janelas abertas a Lagoa do Violão iluminada, a chuva miúda. Antes, e depois da descoberta? Referência esquecida. A história antes, e depois. O que verdadeiramente importa? Afetos, mesmo escondidos. Chorar importa. A alma se esvazia na lágrima. Escorre dor, e medo.  A chuva continua.

 

 

Analogias, associações

Trem noturno para Lisboa, o livro de Pascal Mercier desperta, alimenta inquietações:

“A vida não é aquilo que vivemos, é aquilo que imaginamos viver.”

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O autor tece, estabelece, costura novas, ou velhas leituras dando o fio, o motivo, o mote para as ditas inquietações que atravessam personagem, e afinal, a nós leitores. Não há como não seguir viagem com Gregorius.

Nossas vidas são os rios que escoam no mar aonde morrem diz Jorge Manrique na abertura do livro. “Nuestras vidas son los ríos que van a dar em la mar, que es el morir.” Ou  a epígrafe citada em francês, e traduzida. Michel de Montaigne, Ensaios, Segundo Volume, I. “Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa cada pedaço, a cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros.”

O estranhamento que sentimos ao tentar nos explicar, nos posicionar com o outro. Às vezes a dificuldade acelera o coração. O esforço é de tentar levantar uma enorme pedra… Suamos, movimentamos todos os nossos músculos, e desanimamos. A diferença, um abismo. Assim enquanto abrimos o livro já nos acordamos, e seguramos a idéia desta pluralidade e estranheza interior. A solidão. E já nos irmanamos através das constatações, as mesmas, em séculos, línguas, homens que seriam diferentes, mas sentem igual abismo uns entre os outros.

Fernando Pessoa também está lá somando, Livro do desassossego, anotações de 30/12/1932. “Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmo. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colônia do nosso ser há gente de muitas espécies e sentimentos diferentes.”

Leitura, um desafio a nos questionar. Não só Gregorius, mas nós todos nos perguntamos: e, se tivéssemos feito isto, não aquilo? Se não fosse assim poderia ter sido diferente? Esta decisão de fazer o que nunca pensamos, ou cogitamos de fazer parece um caminho sem volta. Esta decisão, este passo parece absolutamente definitivo, sem volta. A inalterabilidade da vida nos assegura a tranquilidade desejada. Será que desejamos mesmo estar neste lugar seguro, imutável? Como o tal emprego definitivo após um concurso público por exemplo, um mérito permanente, inalterável.

E o autor nos remete, início do livro, a Georges Simenon O homem que via o trem passar.  As alusões nos aquecem. Em todos, filósofos da vida, por todos as aloucadas e perfeitas decisões quando saímos do para sempre, para o talvez, o inseguro de todo deslocamento. A viagem que Ulisses empreendeu, e tantos retomamos… A loucura da guerra sem certeza, arriscamos, mas também conquistamos a dita liberdade. A leitura tem uma bomba que necessariamente explode dentro do leitor, e desarruma o que estava tão habilmente ordenado. Bombas que não são ao acaso. Livro aberto, leitura feita, e explosão. Bem, nunca saímos igual depois do livro lido. Como acontece com os deslocamentos ou de trem, ou de avião, ao volante de um carro, ou como passageiro. O deslocamento é uma transmutação.

O livro de Simenon, página sete, começa assim:

No que diz respeito a Kees Popinga, pessoalmente, cumpre admitir que, às oito da noite, ainda havia tempo, pois seu destino não estava decidido. Mas tempo de quê? E poderia ele fazer outra coisa senão o que ia fazer, persuadido, aliás, de que seus atos daquela noite não tinham maior importância que os de milhares de noites anteriores?

Teria dado de ombro se lhe houvessem dito que sua vida ia mudar bruscamente e que aquela fotografia sobre o aparador, em que aparecia de pé no meio da família, com uma mão pousada negligentemente no encosto de uma cadeira, seria reproduzida por todos os jornais da Europa.

Enfim, se tivesse procurado em si mesmo, pondo a mão na consciência, um grão de loucura latente que pudesse predispô-lo a um futuro tumultuado, não lhe teria ocorrido pensar em certa emoção furtiva, quase vergonhosa, que o assaltava quando via um trem passar, um trem noturno, de preferência, com as cortinas baixadas sobre o mistério dos passageiros.”

Mais adiante uma frase nos envolve: “Acaso não fazia quinze anos que era assim, que eles estavam assim, petrificados nas mesmas atitudes?”

Retomo ao nosso livro. Ao livre de Pascal Mercier. Fico a pensar como escolheu tal pseudônimo, por pensar, como filósofo usou Pascal? Mas Mercier? Como um merci, um obrigada? Empreender a aventura de ler leva a outro desafio, escrever. Retomo o livro como se fossem minhas as palavras:

“Acontece por vezes de eu ir à praia, sentindo a cabeça exposta ao vento que desejo gelado, mais do que conhecemos por aqui. Desejo que ele me esvazie de todas as palavras gastas, de todos os hábitos linguísticos esgotados, para que eu possa voltar com o espírito purificado, limpo das escórias daquele palavreado sempre igual. Mas na primeira oportunidade que tenho de falar alguma coisa, tudo volta. Preciso fazer alguma coisa, e preciso fazê-lo com palavras. Mas o quê?”

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O livro Trem noturno para Lisboa abre caminho transloucado, mas necessário, para o maravilhamento. A descoberta de outras vidas. A diferença, a diferença para cada um em particular, e assim ao final, a libertação. Liberdade, fidelidade a si mesmo. Discutir/ divagar ou pensar sobre esta possibilidade de ir, e deslocar-se, fechar a porta para um número de pessoas, abrir a porta para outro número de diferentes pessoas. Diferentes, mas humanamente iguais. Sofrimento, solidão. Ausência de amor, de interior. O oxigênio está na libertação, não nos grilhões de relacionamentos estagnados. Ou será a relação uma segurança como aquele emprego burocrata, necessário. Ou em tempo igual de si próprio, no aprimoramento como fez Gregorius como filólogo? Pegar o trem noturno, acordar noutra aventura, a mais séria de todas, a que nos revela e nos faz aceitar quem somos e depois  voltar? Queremos voltar como Ulisses voltou para Penélope? Mas só saberemos se desejamos voltar se entrarmos no trem, sem bagagem, apenas sendo nós mesmos.

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Pelo avesso

VISITAÇÃO

Duas horas de estrada estreita, verde. No cotovelo da rua que termina em jardim, a casa. Abre-se o portão. Abraço inesperadamente apertado. Engole o susto. O encontro surpreende Isabel. Almoço no pavilhão envidraçado. Discos de vinil! Fatia-se o tempo em boas histórias. Do avô, da mãe, deles os dois.

Deita sem estar cansada. Acorda no meio da tarde. Chuva escorrendo, lavando a jabuticabeira, transbordando a piscina. Cores pálidas se espalham pelo jardim. Pode ver também a montanha. A neblina daquele sono sem sono, pesa. O cheiro, o abraço. Improdutivas lembranças. Calça frouxa no corpo. Camiseta branca, larga. Sapatos com o desbotado do bom couro, gastos. E, no desleixo aparente a soberba. Nada poderá quebrar o asfalto. Educado, gentil, manso, inabalável.

O largo avarandado abriga antúrios. O cristal das vidraças. O lustre com placas móveis, brilha. Tapetes, o piano de meia cauda. Grandes poltronas. Pratas e pinacoteca de mestres mexicanos. Estantes de mogno. Castiçais de cristal com longas velas brancas. A bandeja polida coberta por guardanapo de linho chega com o café. Recheio no bolo de laranja. E silêncio.

Nada deixará de ser. Tudo escrito exatamente do jeito que será amanhã, depois de amanhã. A culpa da culpa do outro se rasga ardente. É preciso escrever pelo avesso.

VISITAÇÃO

Duas horas de estrada estreita, verde. No cotovelo da rua que termina em jardim, a casa. Abre-se o portão. Abraço inesperadamente apertado. Engole o susto. O encontro surpreende Isabel. Almoço no pavilhão envidraçado. Discos de vinil! Fatia-se o tempo em boas histórias. Do avô, da mãe, deles os dois.

Deita sem estar cansada. Acorda no meio da tarde. Chuva escorrendo, lavando a jabuticabeira, transbordando a piscina. Cores pálidas se espalham pelo jardim. Pode ver também a montanha. A neblina daquele sono sem sono, pesa. O cheiro, o abraço. Improdutivas lembranças. Calça frouxa no corpo. Camiseta branca, larga. Sapatos com o desbotado do bom couro, gastos. E, no desleixo aparente a soberba. Nada poderá quebrar o asfalto. Educado, gentil, manso, inabalável.

O largo avarandado abriga antúrios. O cristal das vidraças. O lustre com placas móveis, brilha. Tapetes, o piano de meia cauda. Grandes poltronas. Pratas e pinacoteca de mestres mexicanos. Estantes de mogno. Castiçais de cristal com longas velas brancas. A bandeja polida coberta por guardanapo de linho chega com o café. Recheio no bolo de laranja. E silêncio.

Nada deixará de ser. Tudo escrito exatamente do jeito que será amanhã, depois de amanhã. A culpa da culpa do outro se rasga ardente. É preciso escrever pelo avesso.

Vento de areia

Sinto fome de pão com manteiga. Nada está no lugar certo. Círculos escuros, centro luminoso. O mar cinzento se confunde com o céu num risco verde-azul e. Acendo a luz para continuar a escrever. Aguardo, impaciente, a correspondência.

Amor não vai embora, apenas esvazia.  Morre. Um dia olhamos para ele, ou para ela, e dizemos: Preciso ir. E é um alívio, apenas um alívio. As despedidas deveriam ser limpas, e fáceis como fechar a porta. A cada um sua verdade. Porque no amor a queixa é sempre o outro. Palavras não explicam nada. Jean Cocteau escreve: “A maior obra prima da literatura é apenas um dicionário fora de ordem.” A desordem dá o sentido… No dicionário estão em ordem, segundo convenção universal, enquanto na obra de arte literária as palavras se agrupam segundo convenção individual – a convenção do artista, que as associa de acordo com seu código, e seu ritmo.  No entanto é preciso reduzir o sentimento a palavra. E elas tomam formas. Ou deformam-se, e atropelam… É o mundo lá de dentro que salta. Venta de dentro para fora.  E este vento altera a reserva dos Lobos Marinhos, derruba as torres da Guarita, avança nas areias tomadas por casebres em Itapeva.  O vento de areia avança, redesenha. Areia nos cavalos atados. Areia nas carrocinhas dos cabritos. O chalé fecha janelas, mas as redes, na varanda, se sacodem frenéticas. Carregamos o mundo inteiro. Imaginamos.  Assim mesmo a vida segue atrelada aos cadáveres

FRANCISCA ASSIS de Castro

“Tentei refletir sobre o começo da minha história. Há coisas que não compreendo. Mas isso não significa nada. Posso prosseguir.” Malone Morre, Samuel Beckett

1.

Eu me chamo Francisca Assis de Castro. Nasci em Porto Alegre.

O quarto tem três portas – janelas. Duas abrem para o jardim, e a terceira, a preferida, mostra a casa do vizinho, seu Antônio. Uma cerca de madeira nos separa. O florido pessegueiro de jardim. Difícil a sintonia das pessoas! Conversas explicativas. Tédio. Lado a lado, mas solitárias. Na diferença, o inferno pessoal. Será o silêncio? Enlouquecemos, ou nos deixamos ficar na superficialidade para sentir apenas o hálito do outro… Este afeto morno que sopra quando alguém fala. Afeto morno.

Tenho o pé direito atrofiado. Alguém não tem generosidade, outro excessivo ciúme, aquele não tem mãe. Este perdeu a visão. Este outro não apreendeu a ouvir. Um quebra-cabeça demorado e paciencioso. O meu pé dói bastante. O que temos passa, e pela sua natureza efêmera, não possui valor. Assim, neste trajeto ansioso de buscar felicidade perco referencias. Prazer, quietude. Encontramos areia, sonhos que,  inadvertidamente, explodem como bomba. Estes esparsos e mornos pedaços a que chamamos memória se transformam em quebra-cabeça. Ou escrita compulsiva, ou fala incoerente, ou sono que não descansa. É preciso trabalhar. Exercer domínio porque o trabalho traz energia necessária para seguir em frente.

Albertina Maciel Souza, escritora gaúcha, publica seu primeiro livro:  Viagem pela Alma. Um experimento: escrever pressupõe disciplina. E agora, esvaziada, Albertina sente  a  solidão de estar, outra vez, com ela mesma. É preciso recomeçar. Explica. Bebemos o chá do bule vermelho. No fim da tarde volto às leituras e as ponderações. Ela retorna ao trabalho. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2014, de volta ao texto. E nunca chego ao fim, apenas continuo …

Tentei refletir sobre o começo da minha história. Há coisas que não compreendo. Mas isso não significa nada. Posso prosseguir.

“Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir, a saber, que tipo de ser ele era como iria viver, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”

Malone Morre, Samuel Beckett