Se perdemos alguém

“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém terás estrelas como ninguém …

— Que queres dizer?

— Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem. E tu terás estrelas que sabem rir!  E ele riu mais uma vez. E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola),  tu te  sentirás contente por me teres conhecido. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto … E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando para o céu. Tu explicarás então ‘ Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!’ E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego …” (p.89-90)  O Pequeno Príncipe  Antoine de Saint-Exupéry com aquarelas do autor. Editora Agir, Rio de Janeiro, 1959.

…, apesar do dia ensolarado

balões

 1 de março de 1869.  –  A imparcialidade e a objetividade são tão raras como a justiça, de que apenas são duas formas particulares. O interesse é uma fonte inesgotável de complacentes ilusões. O número dos seres que querem a verdade é extraordinariamente pequeno. O que domina os homens é o medo da verdade, a menos que a verdade lhes seja útil, o que equivale a dizer que o interesse é o princípio da filosofia vulgar, ou que a verdade está feita para nós, e não nós para a verdade.” (p. 265) 

Henri-Frédéric Amiel  – Diário Íntimo –  Realizações Editora, S.P. 2013.

…, apesar do dia ensolarado. De balões no céu de Torres. Da alegria seguir o rumo sinto um aperto no coração.  … alguma coisa pesa como injusto, inadequado, impróprio, mas sei que é preciso seguir. Elizabeth M.B. Mattos – Torres

balão em torres

O conhecido é poder fazer

 

Bataille com EFEITO

” Se assim quero, rir é pensar, mas é um momento soberano.”

“Dizer que, rindo abro o fundo dos possíveis é uma afirmação gratuita. O fundo dos mundos abertos não tem em si sentido. Mas é justamente por isso que posso reportar a eles outros objetos de pensamento.” (p.235)  A experiência interior, George Bataille, Editora Autêntica, B.Horizonte ,2016.

INTEIRO BATAILLE

Cozinha

Fritei aipim, cortei o tomate. Separei a berinjela: conserva. Do guisado de ontem fiz omelete. Não abri o vinho nem pensei na cerveja. Tá  faltando tudo aqui em casa. Preciso comprar sal, açúcar, arroz e coragem. Bom que tenho a manteiga e o pão. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – Torres

nunca existe?

FOTO linda

Não podemos lamentar o que não temos. Nem imaginar o que teremos se não nos temos. E o que temos é este sonho de juventude – velha que se imagina. Vago sonho de tanto imaginar! Não podemos explicar o inexplicável.  Lembro tanto e tudo que talvez por isso quero esquecer. Nunca ultrapassar a linha do perigo. Nunca existe? Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

DO MITO A VERDADE

O fiel da balança

Hoje o estranhado medo de mais um passo enfrenta sol, balões no céu, nostalgia na madrugada. E a lembrança range, não se apressa. Há um duplo nesta história. Dois personagens se fundem invisíveis um ao outro, definidos aos meus olhos. Diferentes e iguais. Uma conversa ambígua que se descobre, e se estica altaneira quase livre da sombra alheia, sem costuras. O esboço se faz desenho, e logo tintas coloridas sobrepostas fazem o quadro, a tela se define. ElizaBeth M.B.Mattos, Porto Alegre.

Sempre me pareceu muito curiosa a minha incapacidade de anotar qualquer acontecimento presente, como se o presente não tivesse nenhuma face, como se fosse algo que  apenas se preparasse para uma diluição ou esquecimento e em seguida o pretexto de recomeçar uma história, desta feita, no passado e propícia ao devaneio, aos devidos ajustes, todos na dimensão de nossa atenta compreensão O passado como fiel da balança.” (p.39) O nome do Livro* 1949 Francisco BrennandDIÁRIO

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Uma impossibilidade

Penso com fascinação, talvez quase uma inveja, na repercussão do silêncio que a surdez impôs a ele”. Se referindo ao Xico Stockinger. Surdez um tormento para Beethoven. Stefan Zweig, te faço presente deste pequeno livro, que tanto me impressionou, 24 horas na vida de uma mulher. Entender, pensar, ouvir e ver de nada resolve quando me apaixono, ou não aceito a dita impossibilidade. No entanto o encantamento deste tumultuado impulsivo sentimento me arrebata, e tudo fica por conta da juventude interior. Não consigo alterar o destino. Acho que existe um tracejado de lantejoulas paralelo a escuridão do equívoco. É preciso se envolver, enfiar a vontade o corpo e o equilíbrio naquilo que estamos sentindo. A beleza me faz falta neste instante. Careço de afago de beijo do olhar e deste famoso olhar no olhar. Tudo ficção. “Quando escrevo penso melhor”. Eu também, ou não sei …  Pensamento tem vontade própria desgovernada, escrever é mais lento porque atravessa o instante para se instalar na palavra certa. Falar/dizer/ explicar vai com o corpo e se transforma … Existe o abandono que me imponho como se não pertencesse nem fizesse parte disto ou daquilo. Um certo esfarelamento, um confete, ou os restos pedaços de alguma outra coisa que foi inteira/o “[…] um amor que adorei sentir por ser um amor sem sofrimento, um amor silencioso e à distância que se deleitava com o próprio sentimento do amor. ” Estou dentro desta sedução com o prazer intenso de amar o amor. Afinidade eletiva pode levar/trazer/desencadear sedução. O espaço público será nosso ferrolho, ninguém alcança ninguém. Posso correr esfogueada nesta brincadeira. A correspondência é sedutora/ pessoal e pública ao mesmo tempo, … explica Choderlos de Laclos, Relações Perigosas , Carta XV do Visconde de Valmont à Marquesa de Meurteuil , “É assaz honesto de vossa parte não me abandones à minha triste sorte. A vida que levo é realmente cansativa, tanto pelo excesso de repouso como pela insípida uniformidade. Lendo vossa carta e os pormenores de vosso dia encantador, fui vinte vezes tentado a pretextar um negócio, voar a vossos pés e pedir, em meu favor, uma infidelidade a vosso cavaleiro, que, afinal, não merece tanta felicidade. ”

A história da sedução das palavras supera olhar e voz. Estou seduzida sim. Como não estaria? Quero também contar do amor que tem nome e data e fim. Não, não tem finitude o amor que embalamos com doçura, termina a paixão, é verdade, mas o tal amor está lá altaneiro e impositivo. Tens razão, “conhecimento recíproco, informação e convivência”.  O recíproco tira o ficcional e entra no real. Realidade existe sem ficção? Assim mesmo, meu amigo amado, – adoro esta expressão porque ela se derrama ou se mistura com amor e amizade, – sei que me agarro em amor novo/velho/ imaginado, e ou lúdico para voltar/renascer/ acontecer menina. Aberta/pronta livre para o novo/velho amor. Resvalo em confidências. E me encanto não exatamente com o que vejo, ou com o que acontece, mas com este emaranhado de sedução que subverte a rotina.

E não mencionei a carta do dia 28 de março de 2017, a mais sedutora de todas elas. Elizabeth M. B. Mattos

tinteiro

Madonna col Bambino Giovanni Bellini

Nossos rostos próximos, vejo no vidro, meu reflexo e o seu, unidas as mãos. Suas mãos deslizam sobre o vidro, ela se volta e me fixa. Você prometeu. Não deveria ter me procurado. Crepuscular cidade, desconhecida, e como sempre deserta. Deserto caminho. De uma esquina a outra, no entanto, de um prédio a outro, das lucarnas para o solo, dos porões para o teto, como se em toda parte houvesse fios esticados, uma tensão ressoa. Um som, um zumbido. Tenho problemas. E odeio perguntas. Uma mulher que não conheço ainda e me ignora. Ela tem o menino no colo. Está coberta por uma manta. Eu sei que esta é a minha mulher. E eu lhe digo: Por que não segue comigo? Por que não manda as cautelas para o diabo? Não vejo apenas o seu corpo, não no sentido comum, quero chegar a você. Nos queremos porque nos pensamos. Eu sempre estou pensando em você. É bom pensar em você. Não fica aflita. Amar é o prazer de  pensar no outro. Pensa em mim.menino vestido

Estou grávida

livro e mulheres criança

Qual o fato novo para mudar radicalmente? Estou grávida. Parece extraordinário que esteja neste estado. Entre livros e quadros, o beijo. Estou grávida. Altera tudo. Precisava confessar.  Na brincadeira o abraço do abraço o beijo agora reflexão. Não posso fazer nada. Já te disse que os filhos, os filhos chegam antes dos amores. Não é pecado.  Sou abençoada. Depois que nosso filho nascer, eu me ponho a te esperar, de certo virás me buscar, e  nunca mais nos deixaremos. Abraço erotisado outro beijo. Amar sem tempo livre livres no embalo. Pés enterrados no barro da argila, e o grande Xico Stockinger  fará novas escultura em bronze, ou ferro e madeira. Seremos o amor do amor aos setenta,aos oitenta anos.

Acabei dormindo na madrugada, agitada. E às cinco da manhã levantei louca de sono. Não estou ainda desperta. Sinto frio. De natureza acalorada, mas de noite, preciso de cobertas  e meias de lã.  Falar/saber de você é estar/ficar completamente desperta  alerta. Sim, sou cheia de medo. Contida, lenta, tensa, contraída, assustada. Tímida, alguém já me disse.  Atordoada agitada súbito no turbilhão. Preciso voltar a dormir. Apaixonada pelo texto do irlandês John Banville …  Puro prazer.  Repeti tanto te gosto te gosto te gosto te gosto que parece surrealista expressão não sentimento. A ficção tem voz e cheiro, e  aparência.

“E, eu estava me apaixonando por Chloe — ou melhor, estava apaixonado, porque a coisa já tinha acontecido. Experimentava aquela sensação de euforia ansiosa, uma sensação feliz de um despencar irremediável, que todos aqueles que sabem que devem ser a parte atuante do amor sempre sentem nesse começo vertiginoso. Porque, mesmo naquela tenra idade, eu sabia que há sempre alguém que ama e alguém que é amado, e, nesse caso, sabia muito bem qual dos dois eu ia ser.”(p.141) John Banville, O mar, Nova Fronteira,  Rio de Janeiro, 2007. Por que escrever quando todas as coisas já foram ditas todos os recursos usados. Por que amar quando as histórias de amor são as mesmas, iguais.  Por que perguntar a resposta. Continuo empilhando livros que não lerei. Esquisito sabor de amoras e pitangas gosto fresco de outono secura por dentro certeza incerta. Livros pelo chão, roupas nas cadeiras objetos passeiam a minha volta.  E a droga da memória se remexe, e o mundo me atordoa. A perna segue doendo. Vou colocar os tênis caminhar com a Ônix. Tenho mais do que posso ser…Em excesso transbordo. Cuida bem de ti meu querido amado. ElizaBeth M.B.Mattos – abril de 2017 – Torres

mulher e o cão

Escultura de Xico Stockinger

Para GUSTAVO JOSÉ

Contar histórias não sei. Não tenho jeito. Não lembro, escorrego, dou voltas. Não chego. Se te escrevo, eu te sinto, então, eu te digo. Se escrevo volto ao começo recomeço. Explico. Olho para trás e te vejo. Posso dizer você. Você está perto. Estou outra vez na rua Viúva Lacerda, Humaitá, Rio de Janeiro. Muito perto o Parque Laje, logo o Jardim Botânico. Janela bem aberta. Vejo o Cristo Redentor. Aqui é pequeno. Sempre é pequeno onde estou. Do jeito que faço do jeito que é pequeno no teu abraço. No silêncio automóveis circulam na avenida. Ônibus e vozes na calçada.  Sou eu a conversar com Castanheda atenta A Erva do Diabo. Leio releio, sublinho, rasuro. Onde estarão aqueles livros todos?  Olho pro nada vendo enxergando tudo. De Krishnamurti trouxe quatro volumes de São Paulo, depois comprei outros apressada, e me perdia naquele dizer comprido de explicar e voltar ao começo nunca chegando ao fim. Eu penso que entendia. Noites em claro mergulhada nesta certeza  de incerteza que é o nada, mas sou Eu. Adoro lembrar da Ponte Aérea, das galerias de arte, da sopa no final da noite. Daquela pressa para chegar e trabalhar no dia seguinte. Desta juventude insone que me persegue. Até das freiras do Colégio da Providência, em Laranjeiras. Daquela menina/mulher que se imagina comportada segura no pequeno apartamento da rua Viúva Lacerda. Ou era na rua Vitor Hugo quando eu pensei grande me surpreendi adolescendo na André Poente com a Ramiro Barcelos …  Huxley me consome. Confundo tudo. Bebo mais água, muita água. Eu me importo com a lucidez. Passou tanto tempo!  Cabeças Trocadas de Thomas Mann.  Ou Demian de Herman Hesse. As Cônegas não me levaram para o Convento, eu me apaixonei, como as outras, pelo Frei Celso enquanto meditava naqueles maravilhosos Retiros. Entre palestras orações e silêncio. Missas gregorianas, latim, vozes e  mais muito silêncio. Mato fechado nas vizinhanças da escola e também amoras e pitangas. Não esqueço daquele avental com bolsos enormes cheios de pedras e folhas. E o silêncio, as nossas celas monásticas. Oitenta anos agora. Já cresceram filhos netos. Já não vou ao cinema, nem me debruço na janela. Nem vejo o mar ou sento em escadas. Ipanema tão longe! E eu gostava daquele mar. Voltava de ônibus com a roupa molhada no corpo atravessava a rua olhando sorrindo. E depois a Prudente de Morais e aquela sofisticação com cerejas naturais, muita música, muito embalo e tanto mimo! Agora já não como pipocas, nem fritas com cebolas. Ainda gosto de alho, de feijão com farofa. Adoro manteiga. Sou gulosa. Não sento mais naqueles sofisticados restaurantes da Lagoa Rodrigo de Freitas apenas tocando na sofisticada comida de aromas, nem uso veludo italiano camisas de seda, sapatos altos. Não falo francês, nem compreendo o italiano. Não vou a Buenos Aires, nem a Búzios. Não falo espanhol. Ainda ouço as canções francesas, e me agarro nos livros esquecidos da Gallimard. Não vou viajar, não gosto, não quero, mas Nova Iorque me chama, atrai. Vou me perder por não compreender inglês, mas sei de pessoas, de cheiros, de toque. Ouço vozes. De repente acordo em Berlim. Elizabeth M. B. Mattos, Torres. E falo e leio e gosto, e sou metade francesa, metade carioca e leio e te penso. E sei que despertar/acordar ainda pode ser melhor.