8Inverso Editora

As cartas se repetem em sentimentos, ou sentimentos se desdobram em missivas. Este livro, presente de Natal, enriqueceu a sacola do Papai Noel. O amor aprende a ver, e saber o outro.  Presente, – transparência quente deste sentimento.

“Escrevam-me ao menos uma linha, N.D. Eu agora estou indo para um verdadeiro deserto, para a Ásia, e lá, em Semipalatinsk, sinto que todo o meu passado, todas as memórias e impressões, irão me deixar, pois os últimos seres humanos que eu ainda tenho para amar, e que eram como a sombra de meu passado, agora terão de me abandonar. Eu me acostumo tão rapidamente aos outros, e adapto-me tão bem ao ambiente, que não consigo partir, quando chega a hora, sem sofrer muito.

Desejo que você seja muito feliz e por um longo tempo, N.D! Se viermos a nos encontrar novamente, iremos nos conhecer como se fôssemos pessoas novas, e cada um de nós terá vivido, quem sabe, muitos dias felizes.” (p.79

XXIII. Carta á senhora Natalie Dmitrievna Fonvisin: Omsk, fim de janeiro / início de fevereiro de 1854.

 Dostoiévski correspondências 1838-1880, Tradução de Robertson Frizero

Editora 81Inverso

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Santa Cruz do Sul, Travessa Canoas: Ana Maria e eu encantada com a filha…

2015

Atravesso a temperatura de sentimentos atrapalhados, esquisitos, silenciosos, agitados. Estaciono na lagoa pacífica. Entro nas ondas da Praia da Cal. No ônibus, abro caminho entre jacarandás porto-alegrenses.  Respeito sorriso fraterno. Bom remédio com cheiro de vento, de chuva, de palavras. Amados amores, desconfianças. Retomada alegre a cavar felicidade.  2015 agarra o céu, a chuva, lava o cheiro azedo, o pecado da ganância! Vem!  Estende a bandeira brasileira, tapete imaginado! Depois hastearemos honestidade!

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Torta de limão

Estava lá naquela tarde da torta de limão. Cantamos o Feliz Aniversário. Fio esticado, concentração possível: segurar angustia, desvios, integrar, fechar a ciranda. Oscilação no clima de verão: frescor de chuvaradas, calor nas pedras. O cheiro do mar conserta. Gramado enverdece.  Ajusta-se estrelas, piscina, rede, e preguiça. Olhos pregados no fio do bordado, no sorriso furtivo, naquele aperto de mão necessário. Alegria integrada no gosto gostoso de estarmos em casa, tranquilos. E os quinze anos se esticam em passados trinta, quarenta, e no sabor daquele chá…

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Rasgo

Correspondência, Estados Unidos da América, Miguel. Épave, pedacinho de memória. Garrafa de vinho aberta encontrada. Papéis espalhados na mesa. Texto-poema de Jacques Prévert, L’OPERA DE LA LUNE, livro ilustrado por Jacqueline Duhême: delicadeza, beleza desdobrados na mesa de estudo. “Il était une fois um petit garçons qui n’était pas gai”, Era uma vez um menino que não era alegre:  verbo ser, alegre versus triste, menino versus menina.

Em francês desbravar a literatura, e generosamente, ser feliz. Ideias fervilham, ganchos se agarram as pedras. No alto, a lua.  Conquistas. Miguel e a lua. Um pedaço de vida na lembrança de vinte anos passados.

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Nossos iguais

Existe uma nudez vestida, engomada, bem comportada. O corpo encoberto pela gala. Bons modos, civilidade, gentileza, o disfarce da vestimenta. Sem roupa, necessitado, desvalido, fica-se transparente… Gentileza engomada, disfarçada. Ninguém se imagina sem roupa, saltos altos, sem se pensar obsceno… A vida tem este revés de aproveitamento lamentável! Os olhos, a loucura do outro, nunca a nossa!

Chuvarada de ideias

Já começa o deslumbramento do exílio, uma descoberta, um abismo, uma fluidez, dispersão espiritual. Lágrimas. Dor. Um suco amargo, necessário. Recomeçar. O remédio existe! Este velho remédio de se debruçar sobre uma folha de papel como se nela já estivesse escrito o essencial em letras esfumaçadas, acontecimentos do dia: basta recobrir as letras, feito criança aprendendo caligrafia. Como a chuvarada do verão quero fazer depressa…É preciso aprender a vida, difícil! Aquela braçada de hortênsias, um nome novo.

Sem prurido

É preciso hoje, não medo, prurido, nem sombras.

Encontrei num banco da lagoa uma professora conhecida. Alegre. Saia de estampa, camiseta. Boca vermelha, olhos sombreados com verde, voz cintilante. Contou da viuvez de cinco anos, do emprego na Prefeitura de Torres, e apresentou  novo amor apaixonada. Ele estendeu a mão áspera, olhou esperto, e seguiu acomodado no banco, e nas bermudas. Simplicidade domingueira.

Segui o passeio num passo lento, arrastado, atenta as corridas da Ônix. A chuva me surpreendeu. O cinzento refrescou o dia. Os dois riam solto num abraço. Elizabeth M.B. Mattos – Torres na beia da Lagoa do Violão – dezembro de 2014

Invenção

Tenho escrito pouco, ou quase nada: silêncio exigente.

Era de longas, tempestivas cartas! Transbordava, extravasava. Aos bilhetes, telefonemas, longas cartas! E, agora, em dias compridos, o silêncio. Não por falta de fatos, enredos. Pequeno, enorme. Histórias banais, atordoantes, novela. Beijo, abraço, êxtase. Um gato perdido… Intenso. Ou a vida era vazia de emoções (escrever se esparramava). Ou o passado virou invenção.

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A mesma coisa

Sofro no calor. O calor sai pela pele, transforma, e se remexe no corpo. Estranhezas e prazer. Vai-se uma estranheza, encontra-se um afeto, já desafeto, no tempo tudo se transforma, desmancha-se no ar…  Nós nos perdemos nos abensonhados livros que nos abraçam, desgovernados. Hoje de manhã, depois das trovoavas, do parabéns, café e pão com manteiga. Chuva e sol.  Finda a conversa cinza de tantas discussões climáticas volto à livraria pra buscar aqueles títulos com quinze por cento de desconto, como o prometido a cada dia quinze do mês.  Enfrento a pouca sombra, mas vou contando amoreiras, pitangueiras do pomar circular da lagoa.