Sem nenhum sentido

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Fui reler cartas que te escrevi …  As mesmas e repetidas histórias de abandono, de beleza, e de silencio velado, como criança que se faz aparecer, e depois envergonha. Neuroses não curadas, o meio fato, ou a meia verdade. O mesmo passado num ensaio repetido sem que exista o definitivo. Escrita circular.  A mesma história desorganizada …  Sem desfecho, sem sentido. Contada infinitas vezes, e se interrompe no mesmo ponto. Um colorindo difuso, sem o desenho. Sem consistência. Olhada do lado avesso, ou do direito, pelos lados, mas inconclusa. E me surpreendi com este emaranhado de lembranças. Sim deveria ser organizada. E o inconstante vem junto neste modelo inacabado…E faz muito tempo alguém me disse que se lesse uma carta minha de 50 anos atrás, ou 45 anos atrás ou da semana passada, ou 20 anos ou um mês seria a mesma coisa. O mesmo interrompido e lamuriento fato. Será viver uma insistência enlouquecida de dizer, gritar e nunca compreender?

Do caminho cruzado

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O caminho cruzado do amor impede outro caminho aberto. Emaranhado paralisante, mas florido. Espero. Conversa espichada com livros que  se espalham pelo chão.  Atalho certo e seguro. Malditas escolhas cruzadas! A conversa se joga colorida no tapete…

Acho que vou mexer nos pincéis, e ou descobrir Van Gogh na correspondência que teve com o irmão Théo.

Explicar me aborrece. Ociosidade. E esta é outra prova daquilo que quero dizer. Explicar é sempre dar significado a um fato, um objeto, um sistema de ideias, uma convicção, uma comprovação. Justamente o que deixei para trás. Agora sinto que nada interessa enquanto explicação; interessa apenas a explicação, porque esta nos devolve o fato e o fato, ao objeto, etcétera. Horror as mediações. Uma cadeia: Fulano gosta de um livro sobre Cézanne, porque gosta de Cézanne, que gostava de pintura! Como Fulano está longe da pintura!”    Júlio Cortázar Diário de Andrés Fava, (p.53-54)

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Não consigo dormir

Não consigo dormir

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na minha garganta. ”

O diagnóstico e a terapêutica

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos, noite após noite pelos abraços, ou pelas ausências de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma necessidade de dizer estupidezes. O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá – lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia  e tudo” (p. 90-91)

O Livro dos Abraços,  Eduardo Galeano

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A Flor da Inglaterra

O livro só poderia ser mais perfeito se eu estivesse lendo em inglês, mas esta é uma edição Companhia das Letras, 2007.

A leitura se mistura  a um determinado período da minha vida: pessoa …, considerações. Experiência, frustração, limitação. Por que esperei tanto para ler?

Preciso pegar a mala, e ir ao seu/teu encontro. Estou, agora,  em completa tristeza, e não sei explicar….. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2016

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A Flor da Inglaterra

” Talvez devesse mesmo trabalhar, pelo menos por algum tempo. Remexeu na pilha de papéis. Onde estava aquele trecho que tinha revisto na véspera? O poema ia ser imensamente longo – ou melhor, iria ser imensamente longo quando ficasse pronto -, dois mil versos, mais ou menos, em rima real, descrevendo um dia em Londres. Prazeres de Londres era o título. Um projeto enorme e ambicioso – o tipo de coisa que só devia ser tentada por gente que dispusesse de um infinito tempo livre. […]  . As ocasiões em que ele não conseguia trabalhar eram cada vez mais frequentes. De todos os tipos de ser humano, só o artista afirma que não consegue trabalhar. Mas ainda assim é verdade; existem mesmo ocasiões em que não se consegue. O dinheiro, novamente, sempre o dinheiro! A falta de dinheiro significa desconforto, preocupações mesquinhas, escassez de tabaco, uma permanente consciência do fracasso – e, acima de tudo, significa solidão. Como alguém pode deixar de ser solitário ganhando duas libras por semana? E na solidão nunca nenhum livro descente foi escrito. Não havia dúvida de que Prazeres de Londres jamais seria o poema que ele imaginara – e não havia dúvida, tampouco, de que jamais ficaria pronto. ” (p.45)

GEORGE ORWELL      A flor da Inglaterra

Como ilustra Elizabeth Barrett Ele diz tantas verdades cotidianas. A escassez material é uma droga e enfeia tanto as nossas vidas. Com ele não há enfeite, nem quando descreve o presente ou quando prevê o futuro da humanidade.

 

Nossa conversa …

Voltou o sol. As calçadas estão possíveis, e as pessoas abrem janelas e se animam. Vou mentalizando o que pretendo te dizer e vou construindo enormes parágrafos como se pudesse lembrar vinte minutos depois …. Esqueço. E na rotina já estou envolvida a limpar isso e aquilo. Quero acordar a vontade de reciclar, renovar, mas me vejo apegada, rastejando os olhos pelo apartamento sem me desfazer de nada…amontoo. E o que deveria ser não apenas iluminado, aberto, espaçoso e agradável fica superlotado de lembranças. Há qualquer coisa no ar, na memória nos pequenos e grandes desencontros … Um ranço que não sei definir. No entanto, meu amigo, sei que temos aquela afinidade da palavra, da ideia, do fluxo sei lá bem o que é. Nossa conversa se mistura como se fosse uma hera invasora que sobe muros, árvores e se esparrama perdida, sem começo, e acaba apenas suspensa cheia de vontades e perguntas ansiosas.

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Onde estás? Quero retomar a fala, e os resmungos também. Sigo amorando, mas muito menos do que gostaria. Os dias são pequenos dentro da rotina de levantar fazer o café varrer aspirar polir aqui e ali e sair. Abrir um livro, fazer uma citação, olhar fotos, abrir e fechar caixas. Ir de uma janela para outra. Sonhar. Pensar: onde estás? Por que deixamos de ser apenas nós para nos impor uma representação teatral, não fosse saber que estamos sempre nesta exposição enlouquecida que é viver. Eu te penso. O dia amanheceu mais claro depois de chover cinzento, enfiado a trovejar por três dias e três noites…. Viajo pelas estantes limpando livros, separando os que não lerei, os que vou doar, os que vou esquecer, mas também separo aqueles que, possivelmente, vou reler se tempo houver…  Circular e misteriosa relação.

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A verdadeira pátria

“A verdadeira pátria do homem não é o orbe puro que subjugou Platão. Sua verdadeira pátria, à qual sempre regressa ao fim de seus périplos ideais, é esta região intermediária e terrena da alma, este dilacerado território em que vivemos , amamos e sofremos e, em um tempo de crise total, somente a arte pode expressar a angústia e o desespero do homem, pois, diferentemente de todas as demais atividades do pensamento, é a única que capta a totalidade de seu espírito, especialmente nas grandes ficções que conseguem adentrar o âmbito sagrado da poesia. A criação é essa parte do sentido que conquistamos em tensão com a imensidão do caos. ‘Não há ninguém que tenha alguma vez escrito, pintado, esculpido, moldado, construído, inventado, a não ser para sair do seu inferno.’ Absoluta  verdade, querido, admirado e sofrido Artaud.” (p.69)

ANTES DO FIMErnesto Sábato