descuidar

cuidar, não podemos descuidar, mas podemos apertar, minimizar, amassar a vontade no barro do jardim, e nos cuidar

cuidar, cuidar, cuidar, para viver…, não te apressa, eu te espero, eu te cuido. Beijo para XYHZKJM /maio bonito, bonito

sem óculos

eu procuro sem óculos, não encontro: vida e obstáculo

a idade me fez/faz usar óculos,

eu, desavisada, sigo quero ver/olhar sem ver, engraçado!

não encontro: ufa! basta colocar óculos,

pronto, encontrei!

coisas de beth atrapalhada

amanhã o jardineiro vai me devolver buganvílias e grama

estou insegura, insegura…

Alguém me escreveu está história: Eu estou apaixonada, então, este alguém me faz sonhar

Fotos de João Brentano – Praia da Cal – Torres – Rio Grande do Sul / Brasil

[…] XYXZ resmungava e ressonava. Desistiu. Saiu. Uma manhã linda. Outono. Frio encorajador da estação. Cores estarrecedoras. Mar como nunca tinha visto, como sempre a cada fração de tempo diferente, mas desta vez mais, tanto, mais diferente ainda…Fome. Café. Esqueceu que Alter também tem fome. Não havia comido. Apressado e atabalhoado como é. Tinha desaprendido o real aroma das padarias, tão mecânicas eram suas andanças… Como sempre, encontrou amigos – não amigos – conversou. Riu. Ouviu as novas da CPI. Falaram no friozinho outonal. Observou como eram lindos e amigáveis, todos. Não observava mais, recluso, tanto tempo. Ao menos desse jeito. Ficou com a sensação que os óculos estavam virados ao contrário, para dentro… estranho.
Assustado, lembrou do XYXZ lá, ressonando. Voltou correndo e olhou aquele corpo estirado na cama… (quase como na música). Ressonando. Entranhou-se sinuosamente através da pele. Reassumiu seu ego, mantendo fraternidade com o alter. XYXZ estremeceu, abriu os olhos. Alter, sorrateiramente, fez com que XYXZ colocasse os óculos como deve ser: voltados para fora. Encolheu-se de novo, como manda a etiqueta do mundo Alter. XYXZ percebeu/sentiu aromas mágicos esquecidos. Abriu as cortinas e foi atropelado por aquele universo de cores e amigos que lhe dirigiam largos sorrisos. Tinham passado correndo antes ou será que estavam lá sempre…,um mistério que não valia a pena desvendar pois agora estavam lá!
” ZMYBMK

Obrigada pelo texto. Transcrevo. Tudo és tudo, tudo sou eu. Fragmentados, eu sei, mas… Os cruzamentos do amor, a vida, a vida ela mesma a se misturar no desejo. Desejo, aquele desejo possuído de ser, ser outonal, manso e apenas tu. Surpresa. Eu posso te abraçar e te beijar devagar, sem apertar. Encostar meu corpo no teu, devagar. Feliz de/por ter encontrado naquela gaveta a ternura que se desmancha nas mãos e escorrega pelo corpo feliz. Beth Mattos – Torres

André Gorz

Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou de uma conversa. ‘Se eu pelo menos pudesse saber o que se passa na sua cabeça.’, você dizia às vezes, diante de meus longos devaneios em silêncio. […] Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você.’ Então escreva!” (p.21) Carta A D.

sem intuições ou afetos, não há inteligência, nem sentido”

estacionada

Estacionada, apertada. Trancada a porta, fechadas janelas; mas o sol está lá… Vou caminhar, caminhar…, caminhar, caminhar até cansar. Compreendo a quietude e o silêncio. Tenho o mapa para chegar a Rocamadour, tenho certeza. Então vamos! Estas acordadas na madrugada revolucionam a vontade. Aceito e estremeço. Beth Mattos

metade

A metade, o meio não deveria me satisfazer, metade de indolência, ou de preguiça, ou de remoto desânimo feliz, fico pela metade, na metade. Dia ensolarado. Beleza particular, cheia, vamos pegar o inteiro! Caminhada metade. Faço metade da arrumação. Não estão em ordem os livros, nem as estantes definidas, nem as louças, nem o lugar certo. Um dia quero arrumar fazer bonito, ter tempo para nada fazer, sem culpa. A poltroninha nova vai definir tudo, nada de leituras na cama, mas sentada, comportada. Vamos ver! Almoço, fico na omelete, meio copo de vinho, meio tempo, meia fruta. Meio sol, meia lua (se for pão francês, delícia), meio livro. Sim. Milhões de páginas, metas importantes (Grande Sertão, 4321, Escritos, Bela do Senhor, Bíblia, O Homem sem Qualidades (já na cabeceira) para terminar de ler, não. Vergonhosamente, metade. Hoje especialmente feliz eu me disponho a vencer a fazer a ser gentil, alegre, a ler desavergonhadamente. Foi mesmo Rocamadour a definição, vou voltar a França, um dia indefinido, claro! Pensamento metade. Quero salvar o tempo, o sol, e tua poderosa generosidade. E a CPI da COVID por inteiro a digerir, Brasil importa, ou também pode ser metade? A luz por inteiro, e a noite completa, por inteiro. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

entre ele e mim amor e resistência intensidade insuportável

assumir que o pensamento nunca é dissociável das violentas peripécias do amor” Alain Badiou e Nicolas Troung

te amar / uma experiência pelo prisma da diferença “o mundo praticado, vivenciado, examinado e vivenciado a partir da diferença e não da identidade.” amo te amar nesta incerteza perdida, sem evidência, nem certeza, nem tato. Inventamos este nosso querer fugindo negando, escondendo e por isso nosso: “o amor é uma reinvenção da vida / O amor inventa um jeito de durar ao longo da vida“.

despir-se

entregar o próprio corpo

ficar nu para o outro

renunciar ao pudor

por que eu não seria justa comigo? por que eu não me posiciono como principal, por que te quero sem me quereres? por que sou imaginação, não sou eu? (as perguntas se desenhariam na página inteira, acotovelando -se confusas,

as armadilhas de ficar / será que é amor se amarrar nas surpresas de um filho / objetivo futuro definido? O outro me entrega o fato consumido do sonho desmaiado: se lhe dou o filho, o amor é bom e eterno / amor de negócio/troca de acertos, “papai, posso ficar”? Estacionar?

Se tu me amas, se eu te amo renunciamos

matemática ativa / estranhadas somas / subtrações / divisões, mas a multiplicação deve entrar neste céu. Céus! Já não é amor, mas um negócio. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

Rocamadour

Sim. Persigo sonhos pelos/através dos livros. Feliz / alegre e com sofreguidão. Este, eu materializei, fui a Rocamadour. Realizei. ROCAMADOUR. E não tirei fotos. Tenho a/na memória viva, excitada, feliz de lembrar a subida árida, amarela. Aqueles rochedos. E chegar… Beth Mattos. Amo a França do meu jeito esquisito, antes a língua, o francês, os exaustivos estudos, os autores, as “pegadas” da minha mãe, como não poderia deixar de confessar, a biblioteca…, mas Henry Miller e Anaïs são meus, muito, bastante, completamente meus. Li os Trópicos, de Câncer e Capricórnio com sofreguidão, e tudo que pude do que ela escreveu e senti o erótico o sensual, o proibido.

preguiça

espreguiçando este jeito novo/desconfiado de me olhares, eu te sinto indo…,

devagar a te afastar.

o tempo limite de amar, talvez…, ou a liberdade do grito, te sentes preso?

não sei.

Não gosto das amarras, mas das certezas. Faz sentido? No silêncio vou consumindo a energia inteira que me deste, que tenha sido livre e boa

sem artifícios, apenas encontro amar amor amado

saudade é um assunto sério

eu te estendo as duas mãos, mas não te prendo, não me prendes, tenho gosto de “eu por mim e possível” Beth Mattos – maio de 2021 – Torres iluminada pelo outono escabelado (venta um pouco), pela abundancia das frutas