Sem esconder

Sem esconder

Voltar no tempo e ser jovem! Patético. Outra vez disposição. É tão rápido! Sem retorno. O que foi mesmo que fizemos? Nada.

Mantas enroladas ao pescoço, e a juventude coçando por dentro…

Une épave…

Épave em francês é o que sobra da ruína, um destroço. O resultado final. Tão menos!

Esta oxidação exaspera!

BORIS VIAN

“Na vida, o essencial é fazer julgamentos a priori. Parece, na verdade, que as massas nunca têm razão e que os indivíduos estão sempre certos. Evitemos tirar disso regras de conduta: elas não precisam ser formuladas para serem seguidas. Só duas coisas importam: o amor, sob todas as formas, às moças bonitas, e a música de Nova Orleães ou do Duque Ellington.”

BORIS VIAN – A espuma dos Dias – Ed Nova Fronteira, 1984

http://www.youtube.com/watch?v=ojY1Sj1-E0Q

http://www.youtube.com/watch?v=gjndTXyk3mw

Outro sol

 

Gostoso este abril que termina! Que termina… Ontem tive um acesso de nostalgia. Passado de presente que se estica… Mal entendido! Vaidade com mimo ligeiro…

Ontem inquieta! Diferente. Cidade ao vento! Não queria ficar, nem sair, nem voltar. Hoje nova letra! Silêncio com cheiro do café. Estou a me dizer que sou feliz! E tanto! Vida possível… Experimento  letras graciosas! Desenho aberto! Caligrafia redonda, esparramada, contida… Onde estão teus cadernos, os lápis, os desenhos? E a cor certa  da laranja, do abacate? Domingo é  bom e silencioso…

Brincadeira esta piação de passarinho.

Testamento

Testamento

“Estes dias encontram-se entre os mais difíceis… A aversão pelo não-realizado corrói o meu corpo a ferrugem; nem mesmo o sono traz algum alívio – na semi-vigília o sangue pulsa nas têmporas como passos pesados que não se acomodam. Se eu te pudesse chamar…, mas com isso ruiria o meu último bastão: este tribunal em que me reconheço. Tu mesma escreveste recentemente que eu não conto entre aqueles que se deixam consolar pelo amor. E estavas certa. Pois, ao fim e ao cabo, o que me seria mais inútil do que uma vida que se deixa consolar.”(p.135)

Rainer Maria Rilke – O testamento – Imagem da capa: Katia lisant (1968-1976), de Balthus (1908-2001), óleo sobre tela. Balthus Klossowski De Rola /Keystone

LUIZA

001 (3) - Cópia

ENQUANTO VOCÊ DORMIA.

Enquanto você dormia o café estava sendo passado.
Enquanto você dormia havia choro pela casa.
Enquanto você dormia as remelas estavam debaixo d’agua.
Enquanto você dormia o sol já havia puxado minhas cobertas com suas garras afiadas e maldosas.
Enquanto você dormia nós escutavamos o restinho de silencio se misturar ao rumor da antiga porcelana.
Enquanto você dormia a janela da cozinha, dos quartos, da sala e porta do quintal já estavam abertas.
Enquanto você dormia estavam todos enfileirados, lavados e escovados. Um, dois, três.
Enquanto você dormia, em alto e bom som, ecoava pela casa minha música preferida e os pássaros cantavam lá fora.
Enquanto você dormia.
Enquanto você dormia estavamos, prazerosamente, lutando por mais cinco minutos.
Enquanto você dormia o sino já havia tocado.
Enquanto você dormia tudo despertava.
Enquanto você dormia o passo aumentava seu ritmo.Por fim, enquanto você dormia,  tudo fazia mais sentido.Luiza Mattos Domingues.

Olhos com vendas

“Durante muitos anos, Marianne deixou que uma parte dela ficasse sem uso. Tudo que uma educação tradicional sufocou. Sua visão de vida foi construída sobre convenções e falta de fantasia; o amor, em grande parte, era um sentimento de dependência. Ela tentou apoiar sua vida em outro ser humano, com a crença otimista de que ele tinha força bastante para ambos” (p.178)

Liv Ullmann neste texto explica Marianne, personagem de Ingmar Bergman em Cenas de um Casamento. Velha e nova mulher! Ainda hoje apoiamos toda a vida numa única pessoa. O casamento é o indivíduo, tudo o que ele nos proporcionar: dinheiro, sexo, risadas. Não importa que valor. Juventude, influência, segurança. Aquele elo da chamada felicidade que não está na própria pessoa, mas no outro. Poder. O único condutor. Sem julgamentos, apenas convenções.

Algumas fazem o que Nora fez. Batem a porta atrás de siNora fica à porta e diz: ‘ Não sei o que será de mim. Não sei para onde vou. Só sei que não posso mais me incomodar com o que os outros dizem. Preciso encontrar meu próprio caminho. ’ Não é aí que estão as possibilidades da vida? Não necessariamente chegar, mas sempre estar a caminho, em movimento.” (p.179)

Na literatura encontram-se personagens da vida real, ou vice versa. É curioso nos reconhecer, ou identificarmos a Sonia, a Maria Helena, a Ismênia, a Lúcia… Olhos vendados! Não é preciso entender…

Nora personagem de Casa de Boneca de Henrik Ibsen.  Liv Ullmann interpretou Nora no cinema, e no teatro.

Mutações –  Liv Ullmann – Editora Nordica – 1978.