Crônica

download (2)Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. O atropelo, o susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, a mulher morta na calçada.  Criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três com muito medo. Solução chegando,  polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa. A crônica. O relato pequeno dos dias de hoje. Ao mesmo tempo, na memória do amor crianças se abraçam: Valentina, Lucas, Anita, Stella, Franco, João, André, Laura, e ainda o Ricardo, a Marina e Antônia, todos  amados amores que chegam no mesmo sorriso. No abraço. Na expectativa. Nossos filhos.

Do amor

Nem sempre conseguimos dizer. Não sabemos falar o que importa, mais difícil escrever, ou  pintar, ou fazer música com o sentimento do amor. É no silêncio, na sequencia lenta que apreendemos.  Então pequenos fragmentos tomados como banalidades se erguem poderosos. A beleza transborda na memória… Eu queria poder estar na ponta do fio, e saber que estás lá segurando a outra ponta.

 

Muro de ar

 

O amor tem recantos secretos, indizíveis, confusos, plenos. Este muro de ar impede o grito, o beijo, a risada. O sentimento preso se protege quando aquietado, sereno. Quando a luz quebra. Ar, vento, espaço, coração abertos… Então nos expomos inteiros.

Cometi um erro. Adultos devem evitar exprimir coisas que possam constranger as pessoas. Devem evitar proferir, impassíveis, palavras que os impeçam de se cumprimentarem na manhã seguinte.” (p.149) 006 (3)

“- Foi uma pessoa misteriosa – murmurou o professor, contemplando as gaivotas voando bem alto no céu. – Eu me pergunto se continuo a me preocupar com ela mesmo agora.” (p.162)

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“Parei de me preocupar com as intenções do professor. Sem aproximações. Sem afastamentos. Cavalheiresco. Feminino. Um relacionamento superficial. Decidi que seria assim. Sóbrio, longo, sem exigências. Por mais que tente me aproximar dele, ele não me dá chance. Parece existir entre nós um muro de ar. À primeira vista tão leve a ponto de não se poder segurá-lo e, quando contraído, acaba repelindo tudo. Um muro de ar.” (p. 207)

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A valise do professor. Hiromi Kawakami

Encontro

Eu a conheci quando o marido ainda vivia. Trabalhavam juntos na loja: vendiam livros. Tinha olhar escuro, espiava sem atrevimento. Aliás, radiografava. Dela a seleção de notícias afixadas na parede do fundo da pequena livraria. Também as resenhas, críticas. Indicação de exposições, bom filmes. Curiosidades. Logo na entrada a mesa redonda com revistas. Mariela e eu ficamos amigas. Encontro feliz com poemas, a escrita, as tintas, sigo indo pouco ao cinema.

A janela

Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início: inseguranças, frustrações. O desencontro. Antônia arrumou a minha mala, ponderou sobre tudo que eu precisaria nestes vinte dias fora de casa. Olhei para ela, mais cansada. Toda a sua agilidade… Movimentava o corpo pesado pela gravidez com leveza. Os meus planos? Sobrevivência. Olhar pela janela, olhar pela janela, olhar pela janela. A mesma vida repetida. Pressão. Quero fugir. Está tudo pronto. Artur colocou gasolina no carro, revisou os pneus… Aprumei o corpo.  Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2014 – TorresFoto0034

Endereços

E cartas. Vencem as cartas. Vozes telefônicas atropelam-se, estranham, choramingam e nem sempre se entendem ou comunicam… Hora errada. Tempo curto. Ânimo perdido, voz lenta, linhas cruzadas… Ou o telefone interceptado.
Há prazer na escrita, agora, escancarada, moderna e restabelecida. Assim, todo rabisco, toda a ideia se transforma em texto. Todo o texto,  leitura.  As cartas são o quebra cabeça; nelas a vida aparece aos poucos, aos soluços, na emoção confessional de quem pretende fazer-se vivo na descrição parcial. Uma escrita truncada? Relato, crônica, a carta sem seqüência, fragmento. Prazer, quase vício. As cartas são franjas da escrita. Esperam o momento certo. São degustadas, relidas, jogadas no lixo, ou perdidas.  O curso… Ou ponte. Caminham lentas, e chegam mansas. As cartas caminham…E chegam atrasadas. E na madrugada tu lês, depois rasgas. Chagam apressadas, e antes de leres tu rasgas. Foi em janeiro, já é outubro e o verão se atrasa, não importa. Devagar, eu te esqueço. Não importa o que digas …não acredito separar o possível do impossível, mas estou voltando a quietude. E isso é bom. Elizabeth M.B. Mattos – Lisa – Beth ou Eliza – Torres 2018

 

Boa gula

Engole-se o outro no amor :

Se não me afogas, resistiremos ( talvez ) a toda maré.  

Mas se não me afogas, não nos afogas.

Ontem  chegaste a  Porto Alegre ( ou a Torres). Hoje tua ansiedade telefônica . . .

Gula enlouquecida de amor.

“- Podemos pescar trutas no rio aqui perto. E as verduras e legumes desta região são muito bons – explicou lentamente Kojima. Embora soubesse que eu estava me esquivando, ele procura manter o autocontrole, agindo como se não se importasse em absoluto. Pepinos recém-colhidos, batidos levemente com a faca, com polpa de ameixa salgada. Berinjelas frescas cozidas em tiras finas ao molho de soja e gengibre. Repolho posto em conserva em pasta de farelo de arroz. Todos pratos caseiros, mas com legumes e3 verduras de sabor mais apurado, ele explicou.”(p.143 )

A valise do professor. Hiromi Kawakami, 2012

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