Crônica

download (2)Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. O atropelo, o susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, a mulher morta na calçada.  Criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três com muito medo. Solução chegando,  polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa. A crônica. O relato pequeno dos dias de hoje. Ao mesmo tempo, na memória do amor crianças se abraçam: Valentina, Lucas, Anita, Stella, Franco, João, André, Laura, e ainda o Ricardo, a Marina e Antônia, todos  amados amores que chegam no mesmo sorriso. No abraço. Na expectativa. Nossos filhos.

Do amor

Nem sempre conseguimos dizer. Não sabemos falar o que importa, mais difícil escrever, ou  pintar, ou fazer música com o sentimento do amor. É no silêncio, na sequencia lenta que apreendemos.  Então pequenos fragmentos tomados como banalidades se erguem poderosos. A beleza transborda na memória. Eu queria poder estar na ponta do fio, e saber que estás lá segurando a outra ponta. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2014

 

Muro de ar

 

O amor tem recantos secretos, indizíveis, confusos, plenos. Este muro de ar impede o grito, o beijo, a risada. O sentimento preso se protege quando aquietado, sereno. Quando a luz quebra. Ar, vento, espaço, coração abertos… Então nos expomos inteiros.

Cometi um erro. Adultos devem evitar exprimir coisas que possam constranger as pessoas. Devem evitar proferir, impassíveis, palavras que os impeçam de se cumprimentarem na manhã seguinte.” (p.149) 006 (3)

“- Foi uma pessoa misteriosa – murmurou o professor, contemplando as gaivotas voando bem alto no céu. – Eu me pergunto se continuo a me preocupar com ela mesmo agora.” (p.162)

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“Parei de me preocupar com as intenções do professor. Sem aproximações. Sem afastamentos. Cavalheiresco. Feminino. Um relacionamento superficial. Decidi que seria assim. Sóbrio, longo, sem exigências. Por mais que tente me aproximar dele, ele não me dá chance. Parece existir entre nós um muro de ar. À primeira vista tão leve a ponto de não se poder segurá-lo e, quando contraído, acaba repelindo tudo. Um muro de ar.” (p. 207)

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A valise do professor. Hiromi Kawakami

Encontro

Eu a conheci quando o marido ainda vivia. Trabalhavam juntos na loja: vendiam livros. Tinha olhar escuro, espiava sem atrevimento. Aliás, radiografava. Dela a seleção de notícias afixadas na parede do fundo da pequena livraria. Também as resenhas, críticas. Indicação de exposições, bom filmes. Curiosidades. Logo na entrada a mesa redonda com revistas. Mariela e eu ficamos amigas. Encontro feliz com poemas, a escrita, as tintas, sigo indo pouco ao cinema.

A janela

Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início: inseguranças, frustrações. O desencontro. Antônia arrumou a minha mala, ponderou sobre tudo que eu precisaria nestes vinte dias fora de casa. Olhei para ela, mais cansada. Toda a sua agilidade… Movimentava o corpo pesado pela gravidez com leveza. Os meus planos? Sobrevivência. Olhar pela janela, olhar pela janela, olhar pela janela. A mesma vida repetida. Pressão. Quero fugir. Está tudo pronto. Artur colocou gasolina no carro, revisou os pneus… Aprumei o corpo.  Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2014 – TorresFoto0034

Endereços

E cartas. Vencem as cartas. Vozes telefônicas atropelam-se, estranham, choramingam e nem sempre se entendem ou comunicam… Hora errada. Tempo curto. Ânimo perdido, voz lenta, linhas cruzadas… Ou o telefone interceptado.
Há prazer na escrita, agora, escancarada, moderna e restabelecida. Assim, todo rabisco, toda a ideia se transforma em texto. Todo o texto,  leitura.  As cartas são o quebra cabeça; nelas a vida aparece aos poucos, aos soluços, na emoção confessional de quem pretende fazer-se vivo na descrição parcial. Uma escrita truncada? Relato, crônica, a carta sem seqüência, fragmento. Prazer, quase vício. As cartas são franjas da escrita. Esperam o momento certo. São degustadas, relidas, jogadas no lixo, ou perdidas.  O curso… Ou ponte. Caminham lentas, e chegam mansas. As cartas caminham…E chegam atrasadas. E na madrugada tu lês, depois rasgas. Chagam apressadas, e antes de leres tu rasgas. Foi em janeiro, já é outubro e o verão se atrasa, não importa. Devagar, eu te esqueço. Não importa o que digas …não acredito separar o possível do impossível, mas estou voltando a quietude. E isso é bom. Elizabeth M.B. Mattos – Lisa – Beth ou Eliza – Torres 2018

 

Boa gula

Engole-se o outro no amor :

Se não me afogas, resistiremos ( talvez ) a toda maré.  

Mas se não me afogas, não nos afogas.

Ontem  chegaste a  Porto Alegre ( ou a Torres). Hoje tua ansiedade telefônica . . .

Gula enlouquecida de amor.

“- Podemos pescar trutas no rio aqui perto. E as verduras e legumes desta região são muito bons – explicou lentamente Kojima. Embora soubesse que eu estava me esquivando, ele procura manter o autocontrole, agindo como se não se importasse em absoluto. Pepinos recém-colhidos, batidos levemente com a faca, com polpa de ameixa salgada. Berinjelas frescas cozidas em tiras finas ao molho de soja e gengibre. Repolho posto em conserva em pasta de farelo de arroz. Todos pratos caseiros, mas com legumes e3 verduras de sabor mais apurado, ele explicou.”(p.143 )

A valise do professor. Hiromi Kawakami, 2012

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Abraçados

Esta coisa de uma noite, um dia… Não define a contagem de tempo, mas mede  angustia, susto. Mede a dor. A dor física que limita. Grita sem som para dentro, presa.

E o menino, para salvar o avô do fogo, voltou para dentro da casa em chamas. Os dois morreram abraçados. As lágrimas não sufocaram a mãe. Existe milagre, beleza.: amor naquele abraço. Transformação. Encontraram os dois, avô e menino, abraçados. O gesto que estamos esperando todos os dias, o abraço.

As pombas rolas voltam para o velho ninho, mas trabalham na renovação da casa.  

Imóvel, observo.  E agora tenho Virgínia Woolf nas mãos?  Texto perfeito. Invólucro belo. Tratamento cuidado,  – prazer.

“Mas que é, afinal, uma noite? Um curto espaço, especialmente quando a escuridão diminui tão cedo, e tão cedo um pássaro chilreia, um galo canta ou um verde desmaiado se aviva, como uma folha revirada no oco de uma onda.” (p.17) O tempo passa, Virgínia Wolf, Edição bilíngue. Coleção Mimo Autêntica Editora, 2013. Belo Horizonte.)

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Verdade = Beleza + Perfeição

Verdade = Beleza + Perfeição

Jesper Chistian Christiansen é o pintor que está na capa desta Edição de Virgínia Woolf. Perfeição.

Esforço + expedição + Coragem =

“Palavras como: “expedição à verdade”, ou “querendo dizer o que efetivamente pretendemos hoje”, logo me fisgaram. E fiquei a pensar, egocentricamente, em tudo que não consigo fazer: pertencer ao grupo, finalizar uma atividade, um fazer qualquer, ou no meu português capenga. E um não sei mais quanta coisa que me cega, paralisa, e angustia. Nunca deveria ter abandonado a televisão, nem parado de escrever, nem deixado de investigar a pintura, aqueles artistas que estão escondidos, ou perdidos. Reler Kafka, ou ler porque nem sei se era tempo, ou hora. Assim como quero voltar ao Canetti, reconhecer Proust, saber dos poemas. Voltar, fazer corretamente o dever de casa. Sair dos esconderijos. Deveria ter acreditado mais no amor, nos ídolos, nos livros, na beleza. Não sei. O fato é que deixo de pensar positivo num átimo, num susto. Então, durmo dois dias seguidos. Pateticamente emagreço. Ou engordo. Escurece. Questiono a possibilidade. Não o fantástico encontro, mas a dificuldade de chegar perto… Eu quero vôar, como já se escreveu antes, ou voar como se escreve agora, sem acento, ou  ainda apenas defender o tempo, aquele momento, mas não consigo. Preciso apreender  a caminhar, a falar, tudo outra vez, reaprender. Não encontro o caminho. Um permanente giro sobre si próprio, sobre um nada que não avança…

Tenho que dormir dois dias, caminhar uma tarde inteira, e voltar a respirar. Antes limpar a casa toda, passar os lençóis, arear as panelas, polir as pratas, e encerar os tabuões. E então participar da “expedição à verdade,” como propôs Walter Galvani.005 (6)

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