Luiza Domingues

“Noite

Se um dia eu não fosse mais nada,
Se um dia eu não fosse mais sonho,
Se fosse esquecida no tempo,
Se não houvesse mais corpo para gerar calor,
Se nada mais me saísse das ventas,
Aí então não haveria mais drama, não haveria desejo.
E, sem medo nem zelo,
Sem cuidado e sem pudor,
Minha morte teria chegado.
Minha pele se encontraria enrijecida sob a terra fria,
E minhas mãos não mais serviriam para afagar. 

Recife
Julho de 2014

Luiza Mattos Domingues

 

LUIZA no tempo

Lu e Valentin

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A mesma

Um certo agito, tumulto, mas tudo no mesmo lugar. Ontem. Hoje me deixei ficar para ordenar o que ficou para trás das tantas idas. Sentimento estranho: partidos afetos. Mas está no mesmo lugar, o certo. Então, a massa corpórea se alarga, mas permanece, estranhamente,  a mesma. A beleza deve estar lá resguardada, e, se lágrima houver será a mesma… Objetos, pequenas lembranças fazem trilho na memória. Angústias novas misturadas as mais antigas. Outras. Diferentes. Vontade de tempo semeado para grandes colheitas… No entanto, tudo está restrito ao horizonte do oitavo andar. Claro que já borboleteei por lojas, e comprei outono. Calças leves, blusas bem soltas. Hoje o frio se apresenta. Boa chuva, bastante chuva, ventania, e raios. Depois aquele cinzento riscado, meio iluminado. Gosto. Gosto muito. Como se a infância voltasse…Longos invernos, fogo nas lareiras, e a gostosa sensação de permanência, de aconchego. O  gosto da longa infância, de sonhos, de certezas concretas como chocolate quente, e a boneca desejada.  Olhar pela janela! Dou-me conta que este jeito que me toma o corpo, a alma, sempre foram meus. Acrescido de novas amarras afetivas. A soma de novos, com velhos afetos parece excesso. O excesso minimiza o real. Aquieto inquietude. Não, sou apenas eu mesma, mais consciente, mas a mesma. Sou como sou, dividida. Aberta ao teu olhar, teu abraço, e assim mesmo esquiva. Transbordo confissões pequenas, domésticas interpretações, risíveis. Eu, a mesma.

Risca do Céu, 24 de julho de 2014

Convergência

Amor, sentimento desavisado, ingênuo, inconsciente. Arrebatamento fulminante. Pouco a pouco, a verdadeira forma. Positivo ou negativo? Surpresas pipocam, boas ou ruins, todas desavisadas. O sentimento se desvia no desencontro. Afinal, o que é mesmo que chamamos de amor? Convergências?

Onda gelada

O frio, a onda gelada que se acomoda no céu, escreve cinza. Riscados da chuva contínua afirmam, – inverno.  Há dois dias caminhei verão pelas calçadas. Suco gelado. Os humores da terra consoantes aos nossos. Mutantes, volúveis, incompreensíveis. 

Impertinência

Necessário e primitivo silêncio. Quietude, uma dádiva. Impertinência. Interrupção. Melindres. Rotina, continuidade. Comodidade. Idade. Há que se pensar, duvidar, esperar, ouvir. No tédio, o fluxo se constrange com excessos. Atravessar buzinas, vozes. Desviar, acelerar, cuidar, fazer, correr. E o menino se encolhe aflito. A futilidade se transforma em exigente prioridade. Atropelo as calçadas. Abusiva correria. A negligência se acomoda na mesa do chá, durante o almoço, sente preguiça no entardecer. Boceja. Desperta, à noite, acesa em novidade.  Sessão de cinema urgente. Espetáculo, vitrines… Delicias, iguarias. O verbo comprar se conjuga sem concordância. Impaciência sem hábito, equívocos. A gaveta se ressente apertada. Qual era a cor daquela blusa? O telefone tocou duas vezes até cair a ligação. O bolo, o doce, a salada, o vinho, os queijos reclamam. Pequeno mal estar impiedoso, maligno. Frívolo, e inexplicável. Poeira, gavetas, estantes, tesouras, cadernos, cobertores, toalhas, xícaras. Sequencia eloquente. Impertinência…

Jean-Paul Sartre

“Na verdade, o escritor sabe que fala a liberdades atoladas, mascaradas, indisponíveis; sua própria liberdade não é assim tão pura, é preciso que ele a limpe; é também para limpá-la que ele escreve. É perigosamente fácil ir logo falando de valores eternos: os valores eternos são muito descarnados. A própria liberdade parece um galho seco: tal como o mar, ela sempre recomeça; não é nada mais do que o movimento pelo qual perpetuamente nos desprendemos e nos libertamos.”

(Que é a literatura, Jean-Paul Sartre

“A leitura é um exercício de generosidade; aquilo que o escritor pede ao leitor não é aplicação de uma liberdade abstrata, mas a doação de toda a sua pessoa, com suas paixões, suas prevenções, suas simpatias, seu temperamento sexual, sua escala de valores.”

O mapa

A procura do perdido. Pequeno sucesso no encontro. Óculos. Um carnê, o creme, o livro, aquela anotação, a fita durex, a tesoura, sem mencionar velhas fotografias. Tesouro a ser descoberto em  caixas. Gavetas sumidouros, prateleiras misteriosas em armários ornamentais. Porque o mapa existe. Está lá na memória. O mapa existe. Encontrar exige tranquilidade. Nada de angustia, ou pressa, ou elucubrações. Apenas uma silenciosa paz. Mentalizar. Descontração. Então, o perdido se apresenta com alívio. Nenhuma urgência, apenas o prazer de ter encontrado. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2014 – Torres