de Lispector

Mas voltemos a hoje. Porque como se sabe, hoje é hoje.[…] Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve estar de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca” (p.26-27) Clarice Lispector em Macabéia  e nos meus velhos recortes de tentar, tentar escrever sem ter nada, absolutamente nada para dizer. Gosto de me enfeitar de palavras, já um vício.

Espero tua mão na minha mão. Depois, nem sei. Que este desanimo pesado desapareça no sorriso na vida. Elizabeth M.B. Mattos quase Carnaval num verão que escalda e depois congela, ou quase…WIN_20200209_07_02_30_Pro

cartinhas 2004

PORTO ALEGRE, 26 de maio, 2004 (amanhã é aniversário da tia T.) J., meu amado, eu te escrevo às pressas, nem consegui fazer a carta do L.. Recortei um carro para ele, e outras figuras: eu quero que tu adivinhes o por quê… Isto é, para cada figura tu contas, imaginas, uma história. Faz o exercício. Assim, tu e o L. podem conversar sobre isto. Conta histórias para ele – verás como ele pode apreender. Depois, um conta história para outro, e logo ficarão craques, como no futebol. Eu tive um irmão preto que fazia isto comigo, o nome dele era ODILON, pergunta para a mãe. Tinha um riso branco engraçado. Nós brincávamos juntos. E ele me contava histórias de fadas de bichos. Amanhã te escrevo mais. Vou me arrumar para sair. TE AMO, TE AMO, TE AMO e te amo.

1983

 1983 – Porto Alegre

“Parece que o Homem, condicionado pelo inconsciente coletivo, encaminha-se para um fim inexorável.  Através dos tempos, inspirados visionários inculcaram no espírito do homem a idéia do apocalipse.  Meu trabalho é uma homenagem às mulheres que se deitam acorrentadas nas ruas do mundo para gorarem os ovos da morte, semeados pela terra.     Esta carta também é um grito e um gesto de solidariedade aos que dizem NÃO à prepotência, NÃO a arrogância do forte, NÃO ao holocausto.  Falo apenas em nome da vida. Não tive a intenção de ser original. De propósito, empreguei velhos símbolos, como a criação do homem de Miguel Ângelo.  Nesta hora que importa é ser claro, repetitivo, para ser compreendido por todos. “ Porto Alegre, 1983  –    IBERÊ CAMARGO

 

com o coração

ARTIGOS DE JORNAIS a serem investigados:

  1. OS PASSOS DA ALTA SOCIEDADE
  2. Duas Décadas de Colunismo: um painel variado e colorido de experiências em um, tempo de muitas mudanças. Gasparotto. Ver documento ZH/GAÚCHOS 20 anos -.04.05 1984 – página 7

NOTAS de ARTE

IBERÊ CAMARGO: Correio do Povo 03-01-1961 – página 8

Fim dos “encontros”, começo da exposição. Sexta-feira última, em ato realizado na Galeria Municipal de Artes, encerraram-se os “encontros com Iberê Camargo”, promovidos pelo Setor de Cultura da Secretaria Municipal de Educação de Assistência, dirigido pela professora Istelita Cunha.Compareceu grande número de pessoas, destacando-se a presença do dr. Carlos de Brito Velho, secretário Municipal da Educação; professora Nair Marques Pereira, alta funcionária daquela pasta; escultor Francisco Stockinger. Professor padre Gustavo Pereira filho, Mário de Almeida Lima, Elley  Fernanda da Silva, Ruy Paim, Alice Breickmenn, Alice Soares e professora Maria Anita.

Falou inicialmente Iberê Camargo. Seu discurso publicamos na íntegra logo a seguir, após Iberê, usou da palavra o crítico Carlos Scarinci, que salientou a importância dos encontros. Depois, foi inaugurada a exposição dos quadros produzidos durante o curso ministrado por Iberê Camargo, em dezembro. A mostra permanecerá aberta até o próximo dia diz, no horário das 8;30 às 11:30 e 16 às19:30. Não há necessidade de convite. Os leitores já se podem considerar convidados.

E agora, eis o discurso de Iberê Camargo:

“Esta exposição é um esforço e uma resposta. Não pretendo fazer aqui uma análise dos quadros que apresentamos. Prefiro assinalar o significado deste esforço e desta resposta que trazem inquietações e rebeldia.

Eu me alegro com esta inquietação e com esta rebeldia que  conduzem á criação, condição de ser da arte.

Refiro-me a rebeldia que não exclui o estudo paciente e tenaz, necessário na elaboração de uma linguagem própria e viva. Nestes vinte ano de trabalho em comum, procuramos estudar o desenho, os rumos, a composição, os valores cromáticos e do quadro, enfim, todos os elementos que constituem a linguagem da pintura.

Fomos exigentes nesta busca e também, fomos humildes: abrimos os livros e dialogamos com Kandiski, Legér, Matisse, Braque,Klee, mestres da pintura contemporânea. Para melhor nos informar da evolução dos nossos meios, pedimos e recebemos de Carlos Scarinci uma dissertação clara e concisa.

Agora podemos dizer que o problema está posto: tomamos consciência das nossas deficiências e formulamos nossos propósitos. Este movimento foi uma arrancada. A intenção dos jovens expositores prosseguir associados num atelier livre. Este Propósito já encontrou acolhida no espírito de elite de nosso secretário de Educação da municipalidade, prof. Carlos de Brito Velho. Também contamos com o apoio da professora Istelita Cunha, que teve a iniciativa dos encontros desde a primeira hora, colocou todos os meios á nossa disposição.

Não quero deixar de associar esta iniciativa a professora, Nair Marques Pereira, senhora terrivelmente simpática que participou deste empreendimento.  Estas referências eu as faço para ser coerente comigo mesmo: sei aplaudir e sei criticar!

Celebramos hoje nosso último encontro. Quero lembrar a vocês que a pintura é uma amante exigente: ela só se dá àqueles que também a ela inteiramente se entregam. A sinceridade do artista é condição para possuí-la. Sinceramente em arte significa uma expressiva resposta a vida E esta resposta está no meio que também é fim.

A técnica do pintor seria coisa e pouca valia se fosse mero jogo de cores que o espírito não transformasse na forma e no conteúdo vivente da obra e arte. Sim, pintura não é simples jogo de cores, assim como poesia não é simples jogo de palavras.Direi que pintura se faz com a cor, com a forma e com o coração.

Procurei, nestes breves encontros, transmitir a vocês o pouco que tenho com o fim de fazer discípulos, mas com o propósito de colocá-los diante da pintura de hoje.

Aí estão os quadros! Este é nosso esforço. Esta é a nossa resposta.

Com o decorrer do tempo, nossa voz se tornará cada vez mais nítida, mais poderosa porque nós falamos a linguagem do nosso século. Eu agradeço a todos que colaboraram na execução de nosso pano e faço uma referência especial aos jornalistas Rui Carlos Ostermann e José Monserrat Filho, do Correio do Povo e da Folha da Tarde.

A todos eu ofereço a minha amizade.” Iberê Camargo

Elói Colage

Iberê Camargo e uma aluna no Curso Intensivo de pintura que ora se desenvolve no Museu de Arte do Estado. O pintor dirigiu ontem à noite o debate sobre arte contemporânea, que se realizou também no Museu de Arte do Estado (Teatro São Pedro) – foto no jornal – 1965

MUITO FREQUENTADO O CURSO INTENSIVO DE PINTURA NO MUSEU DE ARTE[1]

O pincel nervoso passeando sobre o vermelho violento, preto, branco.Nelson Wiegert vai dizendo: ”Iberê chegou na hora… Este curso está me fazendo um bem enorme, Iberê traz a gente para dentro da gente mesmo… É. O curso chegou bem na hora exata. Sinto que aproveito muito e muito.”

‘“– Pois é chê. Ensinar mesmo não estou ensinando. Estou é dando uma mão a este pessoal. Querem aprender, têm vontade de trabalhar e eu estou em disponibilidade de ajudá-los.”

Sobre o trabalho:

“ É sempre bom dar algo daquilo que se sabe, ensinar o outro a ver, a ter uma compreensão do problema pictórico.”

Sobre os alunos:

“[…] prefiro quem vem “despido” de maneirismos e falsos conhecimentos aos quais se agarra sem querer avançar para novas técnicas”.

Sobre os temas:

“[…] engraçado! Tem gente que não quer sonhar, está por demais preso “a realidade e não quer se desligar dela com medo do desconhecido. Não cria, mas copia / reproduz o que foi feito. Enfim… isto é como uma religião (me perguntaram e eu disse que era sim senhor quem quer entrar aqui com seu preconceito…sai daqui somente com o seu preconceito. É preciso um pouco de humildade.”

[1] Eloí Colage

fragmento

Penso em coisas e fatos: os que aconteceram, e os que deixaram de acontecer – pedaços amarrados na lembrança da memória. Nem todas as coisas de nossa vida são lembranças: nós nos esquecemos, e dentro do esquecimento recriamos, temos fantasia na memória: sobrevivência. Enquanto remexo no tempo procuro definições, esclarecimentos. As pessoas…quem tem as respostas?

Aconteceu uma coisa boa para mim, não sei se eu cheguei a te contar, tão rápido  nosso encontro! Conversei com o Nonô, um pouco antes do transplante, um acaso. Ele foi me ver na galeria. Foi engraçado! Percebi o homem bonito, espiando. Sorrindo! E tudo o que sempre vi nele estava ali. Tudo. Tu compreendes? Fui ao  encontro e conversamos, saímos juntos pela rua 24 de outubro, nos sentamos nas muradas dos canteiros, e continuamos conversando até a sua mãe chegar. Tão depressa! Aquela repassada no tempo! Tão importante!Pensei que voltaríamos a nos ver. E por que não o acompanhei até em casa, ou marquei nos rever logo. Por que estou sempre amarrada num cotidiano de fazer automático, tão insipiente! Por que insisto neste ritmo Porto Alegre? O cotidiano será a consciência de sentimentos corretos?

Por que ele ficou no tempo? Por que não tivemos tempo? Ele morreu um mês depois. E nada…As fotos que queríamos ver… O  importante nos dissemos, não adianta lamentar. Não voltamos a nos ver… Não aconteceu… Fiquei com a dor. Estas pessoas, as nossas pessoas, começam a tomar outras formas… E perdemos um pedaço  a cada despedida. Elas definiram/definem são o que importa. Sentimento estranho/ esquisito! Vou voltar para a cama.

Tu já pensaste nisto?  Todo o dia arrumado/pronto como deve ser aquele dia. Será perda de tempo este fazer mecânico… Já pensaste nisto? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 – Torres, a resgatar os escritos passados.  Reescrito ou relido….27/5/2004 01:30:12

das cartas

Estou a esperar a resposta. Acordar cedo e sair, bom. O mundo a despertar! Tu, eu e aquele mais outro que acredita ser bom “pegar um vento, rua quase vazia, o sol aparece entre nuvens e prédios”, e, este gostar de estar no Rio de Janeiro. O mesmo texto.  Depois, esta história de dia só para nós… Puxa!!! Isto também importa: “um dia só para mim, um dia sem ficar com esta ou aquela pessoa, ninguém. Um dia sem telefone. Um dia meu, para gastar sem fazer nada, tudo bem e não ficaria com remorso, ao contrário, até mais feliz”.  Feliz – palavra toda cheia – transborda fazer gostoso: entrar no mar e explodir na água, queimar no sol, ter cabelos outra vez, rir, beber sem ficar tonta, beijar, beijar muito e bom e gostoso, sentido no beijo o outro, e o outro no beijo da gente. Tudo isto é acordar de manhã cedo, sair sozinho, estar no Rio de Janeiro, amanhecer inteiro pro prazer. O beijo ficou em casa. Só hoje.  6/6/2004 15:52:39

DESENHAR, DESENHAR, DESENHAR, DESENHAR, APREENDER, APREENDER, APRENDER, de repente é fazer.

Quero  o filho comigo. Estar muito tempo/ bastante tempo: ficar, sair, andar, não falar, comer torradas com chá. Estar junto, um do lado do outro. Sentir frio. Decidir. Pensar um pouco, quase nada, mas sentir e voltar. Ou levar a mãe daqui com a ideia de que tudo vai mesmo explodir em mágica se ficamos como se estivéssemos, outra vez, em casa, no útero (coisa quente que se inventou e se guarda). Ter casa. Mas, não somos apenas nós mesmos com este mal estar de pele, esta inquietude constante… Quero também a Lú quieta, pequena, menina, deitada no meu colo. Nós e a nossa pele que troca, que muda, que seca, que fica macia neste amor. A pele! Pinta! Desenha. Vou grafitar os vidros da minha janela…

Quando quero que o sol entre abro as cortinas, e fico olhando para as roupas dos vizinhos penduradas nos varais que saltam das janelas deles, os vizinhos. Assim, vou me contando a história das calças, camisolas, camisetas, lençóis com bordados, com quadrados, panos de prato, de chão, blusas. Tudo querendo secar pra sair andando no dia seguinte. Sem hora, minha senhora, eu me digo: depende do sol, da chuva, do vento, da memória de recolher a roupa daquela gente que mora, como eu, encaixotada do outro lado: umas sobre as outras. É a minha janela, estes vidros eu vou pintar, exercitar neles as cores… Enquanto penso ainda posso ficar deitada na minha cama, enfiada nas minhas cobertas com cinco ou seis travesseiros. Espio aqueles varais todos secando no amanhecer.

Vai, meu filho, pintar, desenha. Desenha muito, tudo. A cada folha um rabisco e na outra a ideia do rabisco na palavra, depois a ideia da utilidade do novo no velho. As aulas! Se as aulas seguissem! Acho que é preciso aprender, aprender, envolver os olhos e a sensibilidade toda. As aulas.

Quando escuto uma pessoa mencionar um professor, arrepio. Penso que a cada olhar nós ensinamos, e a cada olhar aprendemos. Usar a dor e a disciplina. Dor e dor e aquele sentimento inteiro contraditório que nos ajudam a fazer. Estar só. É preciso estar sem o ruído do mundo, sem a voz, sem o tato, sem água, sem comida. Só o desejo de fazer, e as ideia de refazer… Parece que tudo está pronto. Acho que o mundo está mesmo pronto, mas há que ser refeito. ( contraditório!) Oxalá possamos assim terminar… Ao menos nosso círculo, terminar em nós mesmos o que ainda não terminamos. Nós é que somos o tema, a ideia, o fazer, o desenho. E saber olhar este inferno ao espelho. É isto Pedro. Ali está o que somos e o que falta. E o que se escreve? De quem é? Para quem é? Eu não sei, não sei. Vou ter que escrever só para mim. É isto. E tu vais pintar e desenhar primeiro para o teu prazer. Acabei de conversar, ao telefone, contigo e com a Cláudia, festejam! Pena não ter ido beijar o magro por mim! Se o encontrarem, abracem. Ele mercê todos os beijos e os abraços que são gostosos de dar. Bebam bastante vinho e beijem muito, muito um ao outro. Muito. O beijo muda tudo, transforma tudo. Toquem um no outro, e isto é bom. Vocês, afinal, podem ser completos nesta mistura de angústia com prazer, de choro com riso, de quietude e tanto barulho o que importa: um beijo. Ter o Rio dentro da gente o próprio sentido… Saudade da vida. Saudade do Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 entre/no velho arquivo das cartas, ano de 2004