Este eu queria que fosse meu

Não consigo ir adiante. Não posso forçar minha mão a escrever a sequência. Por esse caminho, não há mais por onde se segurar. Tudo é mentira, qualquer coisa é verdade: só resta deixar-se levar, deixar-se cair neste vazio. O pior é que isso também seduz. Inspira uma folga, um caminho desimpedido. Como negar que também há nisso um consolo, um prazer para ser saboreado?
Compreendo as virtudes do exercício que comecei: enfiar-me na pele dos outros, tentar refletir do seu ponto de vista, crer de dentro da sua crença, ir para trás das suas palavras e experimentar o mundo visto dali. Mas essa barafunda, esse labirinto de afirmações plausíveis e disparates, de circunstancias documentadas e deduções delirantes esgota as forças mesmo do melhor ator. Em suma, inventaram um personagem bem difícil de representar: Emílio Vega e a sua pintura. ”

“Havia às vezes um prazer quase sufocante em poder ver tanta gente ir e vir à sua volta sem ter de falar com ninguém, em ter de ouvir ninguém, sem ter nem mesmo de se importar se estavam todos indo rápido para o inferno. […] ser ignorado era tão semelhante a ser livre que a liberdade mesma se torna supérflua. ” Rubens Figueiredo Barco a seco  

Este livro é especial. Único. Baseado na vida de um pintor: Giovanni Battista Castagneto (1851-1900) O PINTOR DO MAR – A obra de Castagneto pode ser considerada, no Brasil, como o melhor exemplo de uma pintura que mostra o gesto criador, inclusive se comparada com a produção abstrata da arte contemporânea. escreve Carlos Roberto Maciel Levy (outubro de 1982)

Um ao outro

Abracei uma saudade juvenil de amores de verão. Vou recortar cartões, recolher as fitas. Derramo um sorriso nas teclas do computador.
Tu escutas do outro lado do fio. Rimos. O que é mesmo que dizíamos? Conto do ateliê. De Iberê Camargo a terminar o imenso quadro azul. Tropeçamos sem tinta em memória das cartas guardadas. E, sem estarmos no cotidiano da calçada, temos um ao outro.

Indiscrição

É como se tudo estivesse em jogo, como se fôssemos apenas nós dois na cidade. Se eu tivesse que dar uma definição de felicidade, seria esta: a felicidade não precisa de nada além dela mesma, não precisa ser sancionada.
Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz a sua maneira” é a frase de abertura de Anna Karenina, de Tolstói. A única coisa que eu poderia querer acrescentar a isso é que famílias infelizes -, entre famílias, em especial marido e mulher infelizes – nunca são infelizes sozinhas. Quanto mais pessoas para promover, melhor. A infelicidade adora companhia. A infelicidade não suporta o silêncio, especialmente o silêncio desconfortável que se instala quando tudo é solitário. (p.9-10)
Você não precisa saber tudo sobre o outro. Segredos não impedem a felicidade.” (p.251)

Perigo juvenil, reencontrar

O dia se inicia na chuva. Tranca-se a porta, fecha-se a janela. Abre-se ao sol, ao suor. As horas riem umas das outras. Os fenômenos exageram nos ventos furiosos. Granito. Destelham, afogam, e hoje o dito tempo se abre ensolarado, irônico. O mundo gigante de nuvens como me contou a pequena: enormes, entre cores, brancas, brancas, e o preto, o azul, azul. Ausência e presença. O livro é igual. Qual é a guerra mais eficiente? A cada boa linha, ideia, nova suspeita. Debate intenso, nos violenta. Acorda. Esmurra. Entristece, não vitaliza. Adormeço. O Jantar Herman Koch é assim, incompreensível como o dia. Como a insistência de correr, de parar, de estar perto e longe. Amar um dia, desprezar no outro. Apaixonar-se pela luz de um olhar, modificar-se, apaziguar-se. Adoecer. Adoecer porque dói a dor de não ser tudo. Ser inteiro! Não o mundo está ao contrário, ao teu contrário, ao teu avesso. Vamos costurar estes livro. Lançamentos perdidos, esgotados, uns sobre os outros, a se contradizerem! Guerra de futilidades, de exigências, cicatrizes, internas. E risadas de escárnio! Bolsos recheados de injúrias! Afirmar o que sou assim, aquilo, exijo isso ou aquilo? Não leiam O Jantar de Herman Koch. Aliás! Parem de ler! Não leiam nada, olhem as fotos. As fotos. Ou fiquem apenas olhando, pela janela, o tempo acaba passando mesmo. E olhar já é aventura suficiente.

Ao te escrever cartas vou me alongar nas velhas leituras, assim, tocamos no passado com a cautela das metáforas. E também nos escondemos desta euforia juvenil tão perigosa! Elizabeth Mattos – julho de 2015 – Porto Alegre

Azul na memória

Derramam azul no rio. Derramam azul nas calçadas. Ao vento, no sopro do sonho.
Quanto sol nesta chuva! Venta no molhado deste outono. Escondidas no bolso do avental as amoras também derramam azul na minha memória. Escrevo um bilhete para acolher tuas palavras… Elizabeth M.B.Mattos – Torres julho de 2015

Apressado

Ouvir a voz, escutar a risada. Tocar no outro é importante. Temos que corrigir este tempo apressado. Esquecer o futuro flutuante. Desdobrar o conhecimento de passado, meio atropelado, respirar para reconhecer a história. Esquecer esta perseguição pela visualização de sucesso imediato. Do texto pronto. Uma fotografia, não a experiência. Neste registro do imediato se perde o detalhe, a sutileza. Também o resguardo necessário para amadurecimento. Temos que agarrar melhor a quietude, o silêncio. Exercitar a o dia de hoje num desdobramento manso, maior, mais generoso. Exercício para deixar de correr. Respirar.

E já estou no ritmo apressado…Outra vez.

O abraço

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Escrevo mentalmente todos os dias. Ou pelo menos ajusto a conversa. Quando estou contigo explico, conto, digo, ou melhor, atropelo teus ouvidos. Liberada.  Avoluma-se a voz, a queixa. O anedótico também. Quando estou na tua sala, estou no lugar certo. O jantar que me preparaste perfeito naquela quinta-feira, perfeito! Esqueço hora. Dou-me conta que falo demais. Rápido. Um assunto no outro como se mais que amiga ali estivesse o anjo, o mestre, o médico, ou sei lá quantas em apenas uma pessoa. Abuso. Confio.  Cutuco. Perguntas por que não exponho, frontalmente, os meus motivos… Penso no desconforto. Não mudaria nada. Talvez, apenas aprofundasse o mal estar. Importa ter esta, ou aquela angústia explicada? Fechar a porta distraída. Esquecer a janela aberta. Quebrar o copo, e estar a me desculpar? Passados tantos anos já não importa o que dizemos. Estes velhos e sólidos sentimentos que se batem, agitam o ambiente se cristalizam. Explicações soam falsas. Pode romper o elo. A conversa agitada de ajuste fustiga, confunde. Deixa de ser importante. O abraço resolve melhor. A terapia explicaria, mas não mudaria a situação. Não é mais o discurso que importa, mas estar uma diante da outra. A passividade do amor…

Sonho dentro do sonho

“Quanto a ter medo dos espaços vazios entre os números, você alguma vez contou para o David que o número de números é infinito? Mais de uma vez. Não existe último número, eu disse para ele. Os números continuam para sempre. Mas o que isso tem a ver com a história? Existem boas infinidades e más infinidades, Simon. Já falamos antes de más infinidades – lembra? Uma má infinidade é se ver num sonho dentro de um sonho dentro de outro sonho e assim por diante, sem fim. Ou se ver numa vida que é apenas um prelúdio etc. Mas os números não são assim. Os números constituem uma boa infinidade. Por quê? Porque, sendo infinitos em número, eles preenchem todos os espaços do universo, apertados uns contra os outros como tijolos. Então estamos seguros. Não tem por onde cair. Mostre isso para o menino. Ele vai ficar mais tranquilo.”

Entre a rigidez o aborrecido. Fiquei lendo, presa. Amarrada. O autor e a forma. Gosto. Fiquei do lado de fora lendo  A infância de Jesus. Distopia? Existe outro J.M. Coetzee.

Barro Seco

Em toda a forma de ser há incoerência; extrema incoerência na rigidez dos acontecimentos, os mais perfeitos. A vida se desmancha em calamidades, eu me transformo em barro. Construo muros. Esculpir, martelar. Tecer as tiras de couro do açoite, forjar correntes. Impossível fechar os olhos: tudo volta sempre e sempre a exigir para si um espaço próprio, um estreitamento a superar o outro. Percebo que antes de qualquer ato ou vislumbre esbarro no meu eu. O que me acontece hoje está no passado sombreando. Repetidas vezes o mesmo… Eu me escondo atrás de máscaras. Mas o medo volta. Entro na lembrança, e lá estou exposta ao insuportável provável. Oscilo entre a percepção da existência e a ilusão.

Abro o livro.

Não queria escrever, mas acabei por me resignar. É só para saber até onde fui parar, onde tudo foi parar. A princípio eu não escrevia, eu só dizia. Depois eu esquecia o que tinha dito. Um mínimo de memória é indispensável se a gente quer viver realmente.”

Samuel Becktt, Malone Morre.

Chove tanto, expliquei

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Lembro-me do fogão a lenha aceso, polido. Dos estofados novos. Também do brilho nos cobre. As sopeiras ordenadas. Festividade constante: estado de espírito. A casa acontecia todos os dias…  A cada tempo um tempo. Jardim renovado, árvores crescidas. Cães estabanados. Diferente. Carolina, muito depois, habitar. Criar alma.  Hoje é diferente. O tempo que parecia preguiçoso, grande ficou atormentado, atabalhoado. Espremido. Novos tentáculos. Sabe o que imagino? A vida deve ser feita de pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações… Eu, por exemplo, fico querendo arrumar e arrumar outra vez, arrumar repetidas vezes o mesmo armário. E os livros? Empilho. Revejo. Separo para me desfazer destas pilhas, colocar outra seleção naquela estante. E quase não tenho tempo para ler, espiar, acariciar. Foge o dia. Depois, estaciono na poeira, nos odores. Enquanto outro lado da imaginação deseja uma sala completamente branca. Móveis brancos, espaço. Casas italianas, mediterrâneas? Sem tapetes. Sol e calor. Tudo isso porque está cinzento, chove tanto, e sinto uma friagem entrando no corpo…

Hoje ela me fez uma visita. Contou da primeira edição da novela Viagem pela Alma. O livro experimento…

– Sem plano, um dia depois do outro… Criou corpo, identidade. Explicou. Se aos pedaços é como escrevo, pode ser experimentação. Mesmo assim, ainda sinto uma brutal solidão.

E ficamos silenciosas. Na diferença, o inferno. No silêncio a paz. Enlouquecemos, ou nos deixamos ficar na superficialidade da relação.  No afeto morno.

Enchi a minha xícara com chá. Voltei ao livro que estava lendo.

Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir, a saber, que tipo de ser ele era como iria viver, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”

Becket, Samuel. Malone Morre. São Paulo. Códex.F-QM Editores Associados Ltda. P.26.