leve

Eu me sinto leve, exulto porque troquei meu horrível lustre de pingentes por spots que iluminam; exulto porque o homem arrumou a cortina que tinha se ‘arreganhado’, ou porque as buganvílias estão florindo; as cores se misturam… Ou porque os bifes ficaram delícia, e as batatas perfeitas. Tomo meus quinhentos banhos por dia, perfumo aqui e ali e abro a revista entusiasmada, Ônix e eu damos pequenas voltas e eu penso que fiz exultantes caminhadas! Ganho um pote de amoras gigantescas do meu neto, e a conversa flui…,e eu gosto. Acho que me excedo nesta satisfação transbordante de ser eu comigo. Então, escuto/ouço a vizinha explicar vida pra filha, também a interferência do pai, e a conversa desgostosa entra pelas janelas da cozinha. Vou pendurar a roupa, e, me surpreendo com caras e bocas dos que estão voltando mais cedo do trabalho, ou se desencontrando mais cedo. Céus! Sexta-feira fecha a semana, ontem, saíram pra comer pizza, e hoje farão caretas? Escuto portas baterem… Ainda não escureceu. E me surpreendo a lembrar/pensar conversas daqui e dali! A vida dá mesmo alguns apertos, rasgos, faz costuras doloridas! Será que os desvios ajudam?! E o verão? Ainda cinzento, carnavalesco. Estou cansada. Não é hora de dormir. Vou dormir. Amanhã embaralho as cartas e vejo a sorte! Todos se aquietarão de noite! Elizabeth M.B. Mattos 2021 – dezembro de 2021

“As lembranças da felicidade passada são as rugas da alma!”

Quando se é infeliz, é necessário expulsá -las do pensamento como fantasmas zombeteiros que vêm insultar nossa situação atual: vale mil vezes mais abandonar – nos às ilusões enganosas da esperança, e sobretudo fazer boa cara à má fortuna, evitando introduzir alguém na intimidade de nossas desgraças. […] a força de ser infeliz gente acaba por ser tornar ridículo. […] O tempo as levará, disse eu pra m consolar; ele carrega tudo e nada esquece, ao passar; […] O silêncio e a escuridão tornam-se meus intérpretes, e me desvendam a sua marcha misteriosa; não é já um ser de razão que o meu pensamento não pode abranger, os meus próprios sentidos o percebem.”(p.169) Xavier de Maistre Viagm ao Redor do Meu Quarto

Desta viagem definitiva eu procuro manter os detalhes posto que não estás ao meu lado. Quando acordares da tua dor eu vou te contar o que aconteceu: acumulei em dobro as fagulhas da possíveis alegria para te mostrar. não armei árvore de Natal, não coloquei coras, não abri o presépio. Rezei mais vezes. Em caixas guardei o canto dos passarinhos e fiz pequenas mágicas de amor. A gentileza de te esperar! Logo, não importa o mês, festejaremos o teu aniversário, o natal, e a tua recuperação. Te amo. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

sentimento

Sentimento escapa pela fresta da armadura…, e, faz coisas sem comando, indisciplinado! Indesejável, excessivamente, generoso sentimento! Vento refresca a noite indefinida e perfeita. Bom prazer de viver! Invoco teu nome! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

Senhor, tende piedade, piedade dos loucos e das loucas! Charles Baudelaire

Em Mauriac, o homem vive, respira, choca – se com outros homens, vai para casa com o peso das misérias acumuladas do dia, dorme, acorda angustiado e retoma os miúdos deveres quotidianos. É vulgar, não aspira ao heroísmo, resvala mais facilmente para a decadência. Mas pode -se sentir nele o silencioso nascer da barba, o cheiro íntimo, individual, do seu corpo, o cheiro que cada corpo carrega sobre a terra (faro de cão e de romancista). E isso é mais sugerido do que contado.” Carlos Drummond de Andrade no Prefácio de Thérèse Desqueyroux – Cosac Naify – François Mauriac

Sim, eu sempre retomo, transcrevo porque “vai para casa com o peso das misérias acumuladas do dia, dorme, acorda angustiado e retoma os miúdos deveres quotidianos” não acrescenta, nem retira nada do que faço brincando de ser feliz. Somos estes seres tão minuciosamente descritos, vivos que Mauriac descreve. Estamos atolados em todas as frases, em toda insanidade, em todo desespero. É assim mesmo que amamos e odiamos. Por que não posso sublinhar? Ao retomar o livro para reler sinto o prazer…, e prazer importa sempre. O perfeito existe. Quando penso um pouco na minha vida acalmo o coração: tu existes. Mas, volto ao Mauriac. “É a galope que ele nos conta a história de Thérèse Desqueyroux, com resíduos de monólogo interior, fazendo luz sobre os objetos e os fatos, mas a lembrança deles. Dir-se-ia que a história se desenvolve no escuro, apenas, de quando em quando, uma lanterna passeia nas trevas, e a essa claridade sem aviso as coisas se apresentam na sua humanidade e ignóbil realidade.”

Detesto indicar leituras, não leias se não te fisgou: todos os livros são, por princípio, horríveis / desagradáveis / inúteis horríveis, apenas serão mágicos e perfeitos quando chegou a tua hora de ler / o teu encontro. Como fazer sexo com paixão. E a intimidade de vocês será diferente. Eu amo de um jeito. Eu me atiro, eu enlouqueço, e, outras vezes, eu me contenho, não consigo beijar, nem sentir, dor, nem cheiro. O amor ao amado é sempre novo. Mas posso mencionar os olhos castanhos, a estatura média, o sorriso a seduzir, o beijo apressado, e a palavra… Os braços certos para me apertarem no abraço certo. Então, relerei Mauriac pela quarta vez…Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 -Torres –

dia com jeito de verão, alegria de grande alegria, presença de amar muito, e certezas, todas as certezas

estranheza

Esquisitice! O dia entrou cansado pela janela! Perfeito fazer, perfeito acordar. Mas não escapei do cansaço! Ele se instalou ao meu lado, espiou o jornal, atravessou a sala, recolheu as almofadas espalhadas… E já com sono, fechou, devagar, os olhos. Estranheza logo no amanhecer! Vou voltar para cama. Estou cansada, como o dia cansado! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

pessoal

Ir às comprar, florir a casa, pendurar roupas no varal. Arrumar/limpar, filosoficamente, a geladeira. Dezembro espiando. E sempre, sempre, te amar um pouco mais. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

O que era mesmo que eles queriam mandar ao diabo? A experiência. Aquela experiência pessoal, por cujo calor de terra, por cujo realismo, o Impressionismo se apaixonara há quine anos, como se fosse uma planta miraculosa. Agora, diziam que o Impressionismo era lânguido e confuso. Pediam controle da sensualidade, a síntese intelectual! Síntese para eles seria o contrário de ceticismo, psicologia, análise e dissecação, em suma, das tendências literárias dos seus pais. Até onde se podia entender, não falavam num sentido muito filosófico: o que compreendiam por ‘síntese’ era antes o anseio de seus jovens ossos e músculos desejosos de movimento livre, saltar e dançar, recusando qualquer estorvo da crítica. Quando lhes servia não hesitavam em também mandar a síntese ao diabo, junto com a análise e toda a reflexão. Então afirmavam que o espírito tinha de ser estimulado pela seiva da vida. […] Que palavras fantásticas usavam! Exigiam o temperamento intelectual intelectual. O estilo de pensamento rápido, que salta ao peito da vida. O cérebro afilado do homem cósmico. […] A reformulação do homem dentro do plano de trabalho mundial americano, através da força mecanizada. O lirismo aliado à mais imensa dramaticidade da vida. O tecnicismo, espírito da era da máquina.”[…] p.(p.287) Robert Musil O Homem sem Qualidades

Neusa Demartini

“As recordações são maldosas, pois vêm quando não as queremos e deixam de vir quando mais as necessitamos. Stacha, querida avozinha, tu mesma evocaste tuas memórias quando quiseste recordar, ou elas vieram, traindo-te, quando tu as querias esquecer. Pensaste friamente em proteger-te contra tuas lembranças, e esqueceste-as, deliberadamente, para não sofrer?”(p.104) Neusa Demartini – Vozes da Ancestralidade

A leitura atravessa. Estremeço. Não adianta ponderar / o texto se explica. Eu sinto.

azul

Madrugada azul e pensamento azul e vontade de estar contigo, e afinal, estar… Escuto o piano. Escuto tua madrugada, e me aconchego. Sinto o teu cheiro. Que o sono /volte/chegue! Sem dor, e voltamos a adormecer nos sonhos. Elizabeth M.B. Mattos / Torres acordando o verão

reflexo

Em ti existe / permanece / acontece tanta luz! Reflexo / ou pó de ouro em teus cabelos! Aperto os olhos para poder te ver/enxergar/ olhar, quase me cegas! Abraço o teu brilho. No olhar, tua força. Ah! não imaginas a falta que me fazes! Teu beijo. Esta dor modula o dia na despedida. Eu ainda tenho tuas lágrimas… ElizaBeth M.B. Mattos – novembro de 2021

fisionomia

Sa physionomie annonçait son âme. Il avait le jugement assez droit, avec l ‘esprit le plus simples; c’ est, je crois, pour cette raison qu’on le nommait Candide!” (p.137) Voltaire Candide, ou L’ Optimisme / Romans et Contes

Voltaire, pseudônimo literário de François Marie Arouet, nasceu em Paris, França, no dia 21 de novembro de 1694. Descendente de família burguesa, entre 1704 e 1711, foi aluno do Collège Louis-le Grand, em Paris, uma das mais importantes instituições de ensino da França. Iniciou o curso de direito, porém não terminou. (Google)