peste e guerra

Nunca estive na guerra, ou campo de batalha. O sangue a escorrer dos olhos… Mesmo cegos atiraram. Atiraram sem parar. Virulência absurda, parece ficção, mas não é. Querem  a guilhotina… Foi promessa. Céus!E.M.B. Mattos – Os ratos saíram das tocas, vorazes.  É a peste. julho de 2020

frio frio frio e silêncio

O estranho nesta reclusão é o gigantesco, enorme silêncio. Ele se prolonga: há todas as possibilidade de linhas telefônicas, videos, vozes e risadas, mas o silêncio é/fica/está maior, – fantasma grandão. Casado com o desânimo. Aquele entusiasmo de limpar, ordenar para o depois/um amanhã de alívio desaparece, e se esconde. Cozinhar perdeu a graça, e esvaziar as prateleiras, cuidar da casa uma monotonia silenciosa. Namorar não faz sentido / sonhar? Imaginar, ter ou ser ou possuir: remoto. Agora a chuva. A chuva esperada, necessária…, uma barreira. O vento sacode tudo, mas a água faz música nas calçadas. A janela é o posto. Amolecemos a imaginação em baixo das cobertas. Beth Mattos – julho de 2020 – INVERNO

Dinah Silveira de Queirós e Jorge Amado

Por que citar e nunca dizer? Porque as palavras escapam: tudo dito/escrito ou pensado. Claro! Não esta pandemia a sufocar, interferir, apertar a cabeça. Tortura premeditada (a surpreender), uma gota d’água a pingar. A solitária. Punição de crime que desconheço. Não aprendo a ver nem a pensar o principal/essencial. Este ter desmedido, obsessivo se dissolve em tocar, beijar, abraçar. Estar / não estás. Tanto demoras a chegar! A decidir.  Parecia simples e perfeito: rir juntos. Por que não vieste? Beth Mattos – julho de 2020 – Torres – prisioneiros, os dois.

Ia bem descuidada pelo braço de João Maria, subindo e descendo encostas, vencendo distâncias, de maneira a bem conhecer da natureza da ilha. Na parte oposta àquela em que desembarcamos havia alguns montes, todos com seus cimos de rocha; variavam as cores. Eram uns cinzentos, outros lembravam a ferrugem, e outros muito vermelhos se mostravam, embora todos no alto possuíssem uma touca de neve, brilhante e limpa.

– Logo que fique melhor desta maldita ferida, subirei a um desses cimos, para ver toda a ilha e maus além dela! falou João Maria.” Dinah Silveira de Queirós  Margarida la Roque

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Com o seu corpo cobriu o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapoã, a brisa veio pelos ais de amor,e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia, no céu e no inferno aleluia!” Jorge Amado –Dona Flor e Seus Dois Maridos 

Escuto a tua voz a ler em voz alta, retomas o ritmo do amor nas leituras que já foram, mas voltam. Tu te escondes. Eu me escondo. Que importa? Eu ainda te escuto.

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loucamente

O terreno proibido, a terra demarcada, o sinal de alerta. E interrompo o processo. Criar, ou  viver. O talento de dizer: poder. Sou prisioneira do sentimento. Apaixonada. Perdida com a perfeição de Nabokov. Investigo o texto nos detalhes. Chegou a edição L O L I T A, pela Alfaguara, vi o filme, depois nada. Leio devagar, retomo encabula, entendo o porque deste volume não estar nas estantes possíveis. Claro! Tudo me surpreende! O escritor encontra o caminho  da transgressão.: “Alguém me contou mais tarde que ela fora apaixonada por meu pai, e que se dera à leviandade de aproveitar – se dela num dia de chuva e esquecer – se de udo assim que o tempo melhorou”. O livro é escrito na primeira pessoa, uma narrativa confessional:” Cresci, menino satisfeito e sudável, num mundo muito claro de livros ilustrados, areia limpa, laranjeiras, cães amigos, vista para o mar e rostos sorridentes.” Alguém resiste a simplicidade, esta precisão e já o verbo crescente. Maravilha! Páginas iniciais. E chego a de número dezesseis:” De uma hora para outro, descobrimo – nos loucamente, desajeitadamente, desavergonhadamente, torturantemente apaixonados um pelo outro; e inutilmente, devo acrescentar, porque aquele frenesi de posse mutua só poderia ter sido mitigado com o efetivo consumo recíproco e a assimilação de cada partícula da alma e da carne do outro; mas lá estávamos nós, incapazes sequer de nos acasalarmos como as crianças dos cortiços logo teriam encontrado uma oportunidade de fazer.[…] Ali, na areia macia, a poucos metros dos adultos, passávamos as manhãs inteiras esparramados num paroxismo petrificado de desejo, aproveitando cada bendito desviou no espaço e no tempo para tocar – nos; a mão dela, semioculta na areia, arrastava – se lenta na minha direção, seus dedos finos e morenos num avanço de sonâmbulo cada vez mais próximo; então, seu joelho […] E o texto avança para a página dezessete assim, segue a desnudar alguma coisa proibida sentida, escondida. E segue: “Folheio e torno a folhear estas memórias desoladas […] Sei também que o choque da morte de Annabel, consolidando a frustração daquele verão de pesadelo, transformou – o num obstáculo permanente a qualquer outro romance por todos os frios anos da minha juventude.” (p.18)  Vadimir Nobokov Lolita

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panqueca obsessiva

Céus! Café da manhã orgia. Depois, o que posso fazer? Caminhar no chuvisco, dar prazer ao prazer. Tenho a calçada de manhã, de tarde também, antes de dormir, rápido, para olhar o céu… Bom que acordei cedo. Luzes acordam. A chuva  se movimenta forte e faz música. Beth Mattos

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Pavilhão de Mulheres

Eu gostaria de tê – lo conhecido quando ele era jovem gigante,  pensou Madame Wu. Ela continuou sentada, numa paz perfeita, absolutamente imóvel, as mãos cruzadas, os anéis brilhando suavemente em seus dedos. Isso mesmo, André quando jovem devia ter sido uma visão extraordinária para uma mulher. Ele era bonito mesmo na meia-idade, mas quando jovem devia ter sido um deus. Depois, ela sentiu pena daquela jovem mulher […] Mas, em algum lugar de seu coração, ela ainda pensava em André, com amor ou ódio. SE fosse uma mulher de coração pequeno, haveria de odiá – lo; se fosse uma mulher de coração grande, não o teria culpado e ainda continuaria a amá – lo. Ou talvez não pensasse mais nele. Era possível que ela estivesse simplesmente cansada e além de qualquer sentimento, como pode acontecer com as mulheres, quando seus corações e corpos são usados demais. Era a fraqueza da mulher que o coração e o corpo estivessem unidos; quando o corpo era usado demais, o coração também se desgastava, a menos que tivesse amor, como o que ela sentia agora por André. A morte a aliara do corpo dele. Se ele tivesse vivido, poderiam  perder suas almas na armadilha da carne. Ela ficou surpresa ao sentir nesse instante um súbito movimento do sangue.

‘Sou uma mulher, apesar de tudo,’ pensou ela, um tanto divertida. […] Notando pela porta aberta como o luar estava maravilhoso sobre as suas orquídeas, sob os bambus, […]  Pearl S. Buck – Pavilhão de Mulheres – (p. 250)

Quem não leu este livro? Madame Wu há de ficar para sempre na literatura mundial, como uma das mais fascinantes personagens femininas. Pavilhão de Mulheres é considerado um dos melhores romances de toda a extensa e brilhante bibliografia de Pearl S. Buck, Prêmio Nobel de Literatura em 1938.

pensei em ti

Penso todos os dias. Hoje mais do que ontem, e antes de ontem, e sempre… Foi o vento a sacudir as vidraças. A gritar forte nos meus ouvidos, violento. Foi o sol de hoje. O silêncio da tua voz gritando… Não era o vento, eras tu, meu amigo. E o frio de inverno lasqueado. Penso em nós dois, no teu abraço, no beijo lento. Volto às conversas perdidas! Eu te ouvia e…, e sem terminar deste dormir, no sono da insônia, eu te ouço. Sigo teu pensamento, teu inquieto, e completo galope de amor. Penso em ti tanto, e tão demorado!

Corri para o espelho, acendi todas as luzes para poder ver, procurei os óculos, eu me inclinei para enxergar. Desenho a estória. Desenho o tempo que não tivemos/ fantasiamos intenso, tu e eu. Eu contigo… Demorei no olhar triste de te pensar a me olhar também, assim, demorado, como sabes fazer quando me apresso a calçar os sapatos, enfiar os casacos, e enrolar o cachecol. O tempo passou…Posso repetir cem vezes, mil ou o número incontável, sem rimas, apenas dizer/ assoprar: idade não importa, nem a distância, nem o silêncio sonolento… Quero ser imprudente. Corro ao teu encontro sem cortesia, sem civilidade, sem lógica. O tempo vai/segue preso, acorrentado ao meu corpo: eu mudei, e teu olhar sem pudor, pois é…, não me deixa imaginar juventude. Não explico. Quero o que eu era antes, antes de saber que eu te amava e eu te amava, não imaginas o quanto!, na loucura deste verbo, assim mesmo, eu te amei… Quero entrar na tua fantasia, na tua infidelidade, no meu descaminho… Digo, envergonhada, no escuro do teu abraço… Bom teres pensado em mim!, eu sei, do mesmo jeito penso/pensei em ti, com desejo, não importa que faça vento, ou sol, ou tanto frio, ou tanta chuva! Penso em ti todos os dias. Elizabeth M.B Mattos – julho de 2020

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lendo....

detalhes da loucura

Quase enlouqueço: perder a cabeça por detalhes acontece. O meu detalhe? Súbita vontade de comer doce, que fosse doce para doer, como os doces portugueses; poderia ser apenas ovos moles, recheados com ameixa ou… Delícia! Delícia das delícias. E não tenho nada doce ao alcance da mão. Então a ideia! Já não me atrai a cozinha, mas emergência é sempre emergência. Encontro a batedeira, mas não a pá…, (onde raios alguém – que devo ser eu mesma -, colocou a pá?) Começo a me irritar, o armário não está lá na ordem desejada! Aliás, boa bagunça! E são aqueles profundos, e tanta coisa esquecida bem atrás… Ufa! Tirar tudo para lavar e arrumar, e mesmo assim, preciso de escadinha! Resmungo. E as claras, como vou fazer? Já cortei as bananas. Comprei o raio da batedeira para bater claras. Não, não sei fazer suspiros, mas torta de banana. Também uso para minha torta fria (aliás, receita da mãe). Super fácil, mas se as claras forem bem batidas, a torta respira melhor, a outra, a de peixe, (risos). Queria comer sonhos, beber café, mas chove, chove, o que, aliás, é bom para a terra seca e cortada pelo frio, o planeta agradece. Que seja na medida! Não posso comprar sonhos, nem pastel. Tenho que encontrar a pá, ora essa. Penso nas bananas. Depois, quero continuar enfiada na cama lendo. Céus! Como faz frio!  Queria contar que estou apaixonada por Nabokov. Bom que LOLITA vai chegar, sou assim mesmo, obsessiva. A casa virada porque estou a fazer arrumação/limpeza nas estantes. Limpar e ordenar (adoro este verbo), pena que eu seja exatamente ao contrário, desordeira. Eu me perco nas fotos, nos papéis, nas gavetas  a transbordarem esquisitices. O inverno dos invernos, igual ao tempo de ser criança, da rua Vitor Hugo (saudade outra vez, Nilton tem razão, temos que fazer uma reunião e passear pela rua, ou pelas nossas lembranças, juntos, voltar no tempo). Céus! Começou a ventar e a chover. Coitados! Sim, tem pessoas ao relento, pelas ruas… E eu a pensar em lareiras com nós de pinho chorando, fogo. Gulodices e bananas…, e no luxo de ficar enfiada nas cobertas. Acho que está pronta: aquela torta elementar das primeiras idas para cozinha: bananas e ovos e doçura completa. Vou passar o café. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres com chuva e frio.

 

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chuva a molhar

Escuto a água bater nas vidraças,  a terra encharcada brilha. Frio molhado. A natureza agradece. Acordo e vamos até a calçada, as duas, chove. De toalha em punho uma secação enérgica… Café com leite, pão com manteiga e mel. E a vontade de voltar para a cama. Desordenado amanhecer: quatro horas da manhã. Vou terminar o livro de Nabokov. Impressionada com o prazer, surpresa rítmica desta narrativa. Não deixa espaço/ nem fôlego para fazer meus habituais picotes. Mas, igual uso o lápis e transcrevo:

Nossa vida, juntos, era alternativa e, quando penso em todas as pequenas coisas que morrerão, agora que que não podemos delas compartilhar, […]”

Dou uma chorada por dentro a pensar solidão. Festejo quem  despeja um olhar, sente sabor, ou dá um abraço (que inveja!). Ler oferece a possibilidade de entrar na alma senão do outro, na tua mesmo para escarafunchar no insólito, e te sacudir.

Não posso deixar de sentir que há algo essencialmente errado acerca do amor . Os amigos podem altercar e se separar, os parentes próximos também, mas não existe nunca esta, este pathos, esta fatalidade que se agarra ao amor. A amizade não tem jamais esse aspecto de condenação. […] Podemos ter mil amigos, mas apenas uma companheira. […] há apenas um número verdadeiro: Um. E o amor, ao que parece, é o melhor expoente dessa singularidade.” (79-80) Nobokov  A Verdadeira Vida de Sebastião Knight.

Estou  viver num destes prazer continuados e pacíficos, no ritmo certo do corpo. Choramingo ausência. Reviro as cartas, a saudade (já ficou miúda), acalmo. Sigo na desordem de agarrar e limpar os livros. Escada aberta e prazer enfileirado. Descobertas. Separo, apalpo. Encontro velhas fotos. Tomo um café, e divago. Viver neste ritmo  manso pode ser bom, bom, bom! Beth Mattos – junho de 2020 – Torres, finalmente chove bastante, muito, espero que seja o suficiente.

suzana e eu

” As lembranças da felicidade passada são as rugas da alma!”

“Quando se é infeliz, é necessário expulsá – las do pensamento como fantasmas zombeteiros que v~em insultar a nossa situação atual: vale mil vezes mais abandonar – nos às ilusões enganosas da esperança, e sobretudo fazer boa cara à má fortuna, evitando introduzir alguém na intimidade de nossas desgraças. […] á força de ser infeliz, a gente acaba por se tornar ridículo.” (p.169) Xavier de Maistre  Viagem ao Redor do Meu Quarto – tradução de Armindo Trevisan – Editora Mercado Aberto

Pequeno volume de 172 páginas, um monólogo a ser relido, afinal, descreve o segredo de pensar. Pensei: agora que não podemos mais ter para mostrar, o ter se transforma, devagar, em ser… Ser para nos reconhecer. Bom exercício.