pássaros

Depois da vã imaginação sinto um forte tremor no coração como se estivesse em tua presença. (E todos os teus vestígios foram apagados, não tenho uma linha, nem a tênue possibilidade para saber se és ou não real.) Tive uma visão do Amor, do homem que certamente és. E de tua alegria preguiçosa. Tua vida nova, ou tua nova vida a porejar de paz… De longe acompanho teus passos alegres e teus pássaros voam pelo outono. Elizabeth M.B. Mattos – março em Torres de 201920140801_134947

Sim, hás de pensar que resvalo na voz do silêncio, outra vez atrapalhada. Eu me esforço para não correr ao teu encontro. Corro pela rodoviária como se atrasada fosse perder o último ônibus. E depois, eu me deixo ficar naquele café. Olho para todos os lados como se fosses me surpreender.

…aceito: nunca virás. Embarco no ônibus e me distraio pelo caminho. Será que foi / é real o teu nome? O que faço com histórias que saltam incomodadas? Liza, Eliza ou Beth, não. Elizabeth (sorrindo)

mesa preta com ibere camargo

 

falar dizer explicar

…esvaziar a alma. Enredo,narrativa, até mesmo conviver, sentir o outro, incompatível. Pensar e se expor suicídio. O espaço vazio da possibilidade se transforma em gentileza e cortesia. Não é possível vender imaginação nem sentimento. E nem é possível transitar entre direita e esquerda. Escrever deve ser desaparecer, falar sufoca. Olhe pela janela. Não saia de casa, não abra a cortina, muito menos a veneziana. Mantenha buganvília folhuda, verde. Cuide dos espinhos. E que o jasmineiro perfume as frestas. Beba chá, e coma maças aos pedaços, ou peras. Use suco de limão na água. E que o chuveiro seja forte e quente. Mantenha os olhos fechados. Corpo entregue ao fluxo da vida, não ouça a voz, mas a melodia… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres

“O romancista e poeta australiano David Malouf nos avisa que o ‘verdadeiro inimigo da escrita é a fala’. Ele alerta particularmente contra os perigos de falar sobre uma obra em andamento. Quando se está escrevendo, é melhor manter a boca fechada, para que as palavras saiam pelos dedos. […] ‘Influência’. A própria palavra sugere algo fluido, algo’fluindo’. Isso parece certo, até porque sempre visualizei o mundo da imaginação não tanto como continente, mas como um oceano. Flutuando, aterrorizadoramente livre, sobre estes mares sem limites, o escritor tenta, com as mãos nuas, a tarefa mágica da metamorfose. Como a figura do conto de fadas que tem de fiar palha em ouro, o escritor tem de descobrir o truque para tecer as águas até se transformarem em terra; até haver solidez onde antes havia apenas fluidez, forma no que era amorfo: passa a existir chão sob seus pés. (E, se ele fracassa, evidentemente se afoga. A fábula é a mais cruel das formas literárias.)” p.87-88  Salman Rushdie Cruze esta Linha.

 

velho quarto

escorreguei

Passo apertado depois da chuva. Encontrar depressa o outono: frutas, casacos e voltar a tricotar. Uma pacífica taça de chá. Um livro de histórias. Lápis apontados, casa limpa: cheiro  de lavando nos lençóis. Nenhum atropelo. Ser eu outra vez. E.M.B.Mattos Voltar a fazer uma volta ou duas pela lagoa, olhar o mar.

boa

tempos difíceis

“Vivemos tempos estranhos” é frase repetida em todos os níveis. Tempos confusos, surpreendentes, cada dia uma chateação maior, uma confusão mais elaborada, uma perplexidade mais pungente. ( Ainda bem que nos salvamos com novidades boas: os bebês que nascem, as crianças que começam a trotar naquele encantador jeito só delas, os amigos que recuperam a saúde, a família que se encontra, os amados distantes que se comunicam mais, o flamboyant delirando em vermelhos surreais na rua.) Lya Luft Que tempos, estes! Zero Hora de 25 e 26 de março de 2019

Não consigo pensar, nem ler nem escrever. Viver e respirar, trepidante. Não consigo achar nem isso nem aquilo. Turbulência crescente. A lógica destes personagens escorrega. Há tanto para navegar!

Carta, gente, memória, tempo, mar, silêncio, tinta, lápis e repetições, não são palavras expressivas, mas minhas. Será? Como se escolhe a cor de uma fruta, de um vestido? Um perfume para ser cheiro. Água, luz, escuridão, neblina. E esta escolha se perde porque nunca pensei em palavras, volteios sobre elas. Arandelas! Expressar. Expressivo sorriso escondido que eu vejo nos teus olhos! As palavras se puxam, ou travam com nossa falta de habilidade, ignorância, desconhecimento. Elizabeth M.B. Mattos

adversário

A violência da natureza com seus exageros, gritos e resmungos, estremecimentos ensina aquilo que os homens não conseguem apreender em bancos escolares, nem com a família. Forma cruel para crescer: lágrima, soluço.

Necessidade de construir o futuro, não apenas derrotar o adversário. O oportunismo é uma praga, uma doença virulenta. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres

destruir

Estupefação com o apedrejamento… Não existe mediação, mas ataque. Impressiona como ódio e raiva,  poder e vilania se manifestam. O encontro não é encontrar a si próprio, mas destruir o outro… E convivi pacificamente com este e aquele. Sem inquérito nem crucificação. Em que momento se assume a direita ou a esquerda, encruzilhada definitiva, não apenas um caminho para chegar nas cerejeiras ou nas laranjeiras, ou passar pelas amoreiras, pelo roseiral, mas alimentar diferenças. Tenho lágrimas.  Não deveria ser necessário o inferno. E.M.B. Mattos