finalmente

Olhei para ele: estava mais velho, mais velho que ontem ou antes de ontem poderia ser envelhecer. A roupa desleixada, mas o olhar não era triste, nem infeliz, nenhuma gota de amargor. Nos braços o pacote, também flores, e a correspondência. Dois livros. Agradeci. Em casa preparei um chá. Não tinha fome. Nem vontade de folhar uma revista. E a televisão? Talvez eu fosse uma das poucas pessoas que não assistiram um filme nesta semana, nada. As notícias entram pelo rádio. Um velho hábito. Estou cansada. Fisicamente dolorida, o apartamento estava sujo: era urgente, amanhã termino. E poderia ser diferente, sigo pensando. Poderíamos todos envelhecer devagar aos sorrisos.  Os cravos e as rosas no vaso e o perfume se mistura com o aramo das goiabas. Lembrei que a mãe detestava cravos. Talvez por serem amassados ou tingidos, ou porque deveriam ter enormes canteiros de cravos em Guaíba. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e agora chove

o sopro

image 2 interessante.jpgFarelos, fragmentos ou estranhezas.

Não estás em lugar nenhum. 

Será que ainda te reconheço?

O moço de olhos azuis, ou são verdes? Apressado, gelado. Eu te aqueço.
Abro o baú do tempo e retiro a manta que tua mãe tricotou.
Perdi o você depois que te conheci,
Nem sei por que cedi.
Elizabeth / Beth Mattos e penso nesta coisa complicada dos nomes F.H.T. Um nome, uma pessoa, outra, e depois ainda outra… Mudar na ventania, desaparecer no mar… Em abril de 2020 / Torres Lagoa do Violão sem frio, com epidemia a rondar.

A Blusa Amarela

Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevski mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D.Juan frajola.

Deixai a terra gritar amolengada de sono:
Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o sol!
Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

Talvez seja porque o céu está tão celestial!
E a terra engalanada tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

Mulheres que amais minha carcaça gigante
E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.
Atirai vossos sorrisos ao poeta
Que, como flores, eu os coserei
À minha blusa amarela! Vladimir Maiakovski
1913 – tradução de Isadora Coutinho Guerra

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Catálogo de Brotos

Ana Luiza Job, Elizabeth Mattos, Heloisa Pegas, Marta Luiza Aranha, Tânia Maria Borges, Suzana Correa Sores, Suzana Machado, Maria Beatriz Peroni, Isadora Medeiros Ilsa de Castro Matte, Consuelo Zabalesta

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Catálogo de Brotos 1961 – Cotillion Club  (da rua Salgado Filho / Porto Alegre / RS)

 

 

 

não foi brincar

…,poderia ter sido apenas brincadeira como sempre: toque de audácia, brejeirice de rapaz: ciência de sedução. Houve um tempo em que os amigos fizeram coroas, depois foram embora com seus jogos a ser eles. Mundo às avessas, sempre mais do que deve ser menos. Solitário quando a ordem se esparrama… Turbulento e lotado na algazarra. Tão menos quando transborda! Uma  garrafa de vinho, um pouco de queijo e o pão, todos os tipos de pão. Todos os festejos, todos os sorrisos, todas as brejeirices, todas as tuas risadas, sim, tu me alegras. Eu ainda quero todos os meninos que estão em ti. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

P.S. Esta epidemia a revirar cabeça com mortes e mortes! Que revirada de vida. Sinto saudade de alguma coisa dentro de mim: de uma cor, de um jeito, daquela volta, daquela trava, daquela rebeldia de não dizer, não ir. Sabes o que me acontece? No/do proibido recomendado volto a desejar encontros, conversas soltas. No proibido, desejo ser normal, gentil, social e faceira. E agora? Está tudo mesmo proibido. Eu desapareço na normalidade do sinal: não socializo porque obedeço, deixo de ser eu. Abril pode ser um mês perigoso. Não vás morrer!

azula o céu

Venta no verão. Atrasa a estação, atrasa a vida, atrasa o amor amado, envelheço. Venta tanto! Depois azula o  céu para amanhecer. Li tua carta transferindo os trabalhos para janeiro… Lá os projetos voltarão robustos e alegres, os meus se perdem. Sim, a cada passo um sorriso.  Abraço. Afagos também se esvaziam.

Tu sabes a magia. E outro novo jeito de fazer… O estranho, meu amigo, ser sempre o mesmo peso, o incerto passo de aprendiz… No teu caso, voltas, chegas, refazes, reviras o tempo inquieto, como marinheiro em alto mar! Vão e voltam…, entre os muros  do castelo. Eu te digo, teremos sol. Teremos luz e margaridas no campo. Olha! Não há beleza maior… E eu posso te amar e tu me abraças. Depois desapareces, eu fico a te esperar porque nós, as mulheres, embalamos os filhos. Nos Contos de Fadas era assim, em todas as histórias. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres