apenas um beijo

Se eu pudesse te dizer …, seria bom se eu pudesse.

Se eu pudesse no beijo consumir o meu desejo …,

estremecer, e te esquecer.

 

Se eu pudesse dizer do desejo de te querer,

querer mais e mais …

Ah! Se eu pudesse!

 

Beijo retido contido proibido represado.

Apenas um beijo.

Elizabeth M.B.Mattos – abril  de 2018 – Torres

Flávio Xavier “A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: – É o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.” (Nelson Rodrigues)

eternidade

Pensei que estávamos apenas no começo:

a casa mal-e-mal nos alicerces.

Mas provavelmente estava concluída

e eu não sabia. ” Lya Luft – O lado fatal  – (poemas)

Recado de amor:

“Minha vida mudou muito. Casei -me de novo, com a escritora Lya Luft. (…) A paixão inquieta e dói, seja na carne, seja na alma dos apaixonados, e tem raízes no meu ‘ fatal lado esquerdo’.

O amor é coisa curiosa: por nos aproximar da vida dá -nos uma experiência de eternidade, e por isto mesmo nos mergulha na finitude, para aceitá-la e salvá-la. Morte e amor andam embolados. O amor nos faz famintos de eternidade, e a morte é a porta desse indizível barato.” Carta de Hélio Pellegrino, 1986)

 

 

 

carretel

Obsessiva nas arrumações. Dispersiva memória a flutuar sobre isso ou aquilo. Memória de lembrança. Anistia de tempo. Olho no passado. Alguns recortes. Leio jornais. Não, não sou eu a encontrar citação: a citação me atropela / insiste em se apresentar esparramada, impertinente. Livros invasores a me perseguir. Descabidos, arrogantes e histéricos. Ou seriam esquizofrênicos? “Nikki, quais são suas primeiras palavras? Diga para mim. O quarto de criança que ela voltou num extremo está o quarto de criança; no outro, Paris – o primeiro, um lugar impossível de reaver, o segundo, impossível de controlar. Ela foge da Rússia para se esquivar a fim de se esquivar das consequências do seu casamento desastroso; ela foge de Paris a fim de deixar para trás o romance desastroso. Uma mulher em fuga da desordem. Em fuga da desordem. Em fuga da desordem Nikoleta. Mas ela carrega a desordem consigo – ela é a desordem? Eu era a desordem. Eu sou a desordem” [1]

Mágica a cada página em branco. A estória verdadeira atrapalha pesa, e assim mesmo não me devora, então invento outra para disfarçar. Esquecimento na caminhada matutina a dar voltas, e voltas, voltas ao redor de mim mesma até ficar, levemente, tonta. Sento no banco da praça a lembrar que não sou Nikki, nem Philip Roth, e que tudo o que faço/ produzo é o/um ensaio exaustivo de ser eu, … eu mesma eu mesma, a mesma, desaba nesta aba de roseiras. Atravesso o incrível deserto: a memória.

Quanto tempo fiquei a pensar naquela tatuagem, … estico o braço e vejo carretel fio e aquela audácia festiva. Paris ficou em Paris atravessei apressada preocupa pegando o trem para Limoges. E estava, assim mesmo, em Paris no verão daquele julho esquisito. Inteiro e meu. Penso nos gatos que ficaram a entrar e sair pela basculante, talvez não me esperem. Aliás, ninguém espera por ninguém: apressado viver antropofágico/ mágico.

Pensei encontrar biblioteca e livros cheios de remissivos. Tracei a pesquisa no mapa de quarenta dias. A pintura autobiográfica numa biografia escrita. Desenrolar os carretéis de Iberê Camargo, e pelo fio desenhar um autorretrato possível também meu: penso estratégia. Volto para Henry Miller penso Anaïs Ninn.

Cheguei a Domme. Entrei no Hôtel L’ Oustal de Vézac no meio do vale, com um castelo em cada ponto cardinal. Um sobre Feyrac, Beynac, Marqueyssac e Castelnaud.

Preciso chegar a Rocamadour. Não posso esquecer Rocamadour. E todas as referências se misturavam, atravessam as páginas lidas, e todas as que adivinhei sonâmbula. E.M.B. Mattos – abril – 2018 – Torres

[1] Philip Roth – O Teatro de Sabbath – Companhia das Letras – tradução de Rubens Figueiredo (p.235)

 

deixar de lado

Por que dois passos, porque não pode ser caminhada/ encontro?

Eu fico. Não corro perigo.

O que é correr perigo?

Escolher. Abandonar o que não pode ser deixado de lado.

Penso: tudo pode ser deixado de lado quando não interfere na sobrevivência. Urgente respirar pensar descansar, e ficar tranquila/permanecer. É muito esquisito/estranho o motivo pelo qual eu me inclino nesta, e não naquela outra direção. Famosas carências… e, ainda esta droga de contagem regressiva. Apenas porque tempo, horas bandidas, não estão a me esperar … e eu gosto tanto da vida!, e do mar, e de um bom vinho! Elizabeth M.B.Mattos abril de 2018

Peço desculpas pelo você que de repente se integra numa Beth ou na Liza, ou Lizabet mesmo, ou More (como eu gostava!) ou Elizabeth

lugar-morada

Estacionada dentro de mim mesmo imagino a velha torre na praia …,  onde o prazer de sobreviver tece encontro particular entre um copo de vinho, uma colher de doce de leite, e um ensopado prazer de estar vivo. Este metódico e módico ato de respirar  pode ser perfeito se o mar for testemunha. O mutante indecifrável prazeroso perigo de águas salgadas. Assim esta torre tem um posto/lugar diante do mar. Morada ideal. Própria a um sonhador de amor. Terei permitidas e proibidas preliminares do prazer a cada amanhecer. Manhãs preguiçosas e abusivas … depois,  depois olhar o mar ou caminhar. Enterrar os pés na areia num arrepio continuado. Águas geladas que acordam  a vida. Elizabeth M.B. Mattos – Abril de 2018 – Torres

Eu Floripa tênis e azul

excesso exigente

GUCCI GUCCI.jpg

Devagar, hora a hora, dia a dia. Mergulho no luxo e no prazer. Memória-lembrança. Esgaçado sentimento. Limite do não aconteceu acontecendo. Explosão de escolhas apertadas. Capricho do excesso exigente. Tanto borbulhar natural. Não disse isso. Perguntei aquilo. Rejeitei, fiz assim, … miúda saudade de conversa pequena de madruga inteira: dançar e rir exigir e querer. Lembrança inchada esparramada. Modena Milão olhos azuis o italiano … tua voz Marco Frignani não esqueço, nem do sorriso. Veludo seda delícia: cerejas naturais. Prudente de Morais mar samba dança Bar Lagoa. Desfiado no melhor este capricho manso do luxo e do amor. Do cheiro, do sorriso da saudade física. Saudade fervente estranha inquieta. Ávida presença-vivida.

a mais linda

Sofisticação torrense. Silêncio pequeno que se esconde gigante. Mar (de amar) a resmungar derramado aos meus pés …  Subindo uma alegria inquieta continuada.

caixa gucci

 

Da caixa salta o passado presente neste outono de luxo.

Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018 – Torres