ingênua sinceridade

Morno, pegajoso, qualquer coisa assim neste outubro a se despedir, ou inaugurar o feriado lotado.

Eu? carrego/sinto/festejo prazer inexplicável. Por quê? Intenso sentimento, meu. Café madrugador, velhos discos chiando, e as canções francesas, eu comigo, e o resultado de leitura perturbadora. Conversa inexplicável!

ingênua sinceridade” toda sinceridade é ingênua e constrangedora, nua, despida e ameaçadora (ah! faz pensar! acorda aquelas almas anestesiadas, um livro)

cavado o seu refúgio” com certeza, o refúgio pode ser o ferrolho de oscilação, imposição: conviver exige / gostei demais disso, afinal, sem refúgio somos apenas evidentes! Ah! Pressa de existir! No refúgio somos outro sou a outra, sou aquela, sou nova, e velhíiiiiiiiiiiiiiissima!

fermentação implacável” sentimento horripilante e, desencontro inexplicável!

“habituar – se à vida” / outro recorte: “evolou-se deixando – os esvaziados” Constatações simples: “Se era feliz, deveriam ser também”

áspero e violento” / “dores da vida / dores da pobreza” : a comentar os registros, agora estou com fome! E vontade de música outra vez, concentração nos sentires. George Simenon / Crime Impune / Eu volto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 –

impressão

” – Você vai sair à tarde?

Aquelas palavras tão simples, tão banais, pareceram-me carregadas de sentido, como se escondessem entre as sílabas ideias que nem Viviane, nem eu ousávamos expressar. Demorei a responder, não porque tivesse dúvidas quanto às minhas intenções, mas porque fiquei um momento em suspenso naquele universo um tanto angustiante, mais real, no fundo, que o cotidiano, e que dá a impressão de expor o reverso da vida.” ( p.7) Em caso de desgraça George Simenon

Li durante a noite, dormi de dia. Escutei pelas frestas da minha concentração… Depois dormi na inquietação da leitura e sonhei, como se eu mesma fizesse parte daquela incerteza tão certa, sonhei e senti o medo aflito… Talvez eu viva muito sozinha, ou para dentro! Talvez eu não deixe/permita/ sinta a vida chegar do jeito certo (!?!!), talvez a janela escancarada misture o real com o irreal. Alegria pessoal, e desejo com música, com prazer. Fora do mundo, e dentro, possuída por tudo que me rodeia. Luzes em excesso, outras tão…, sim, sou uma pessoa/um alguém a resmungar, a se inquietar, a ser feliz! Feliz com o reencontro com Simenon: ansiosa também. Que poder de remexer por dentro! E tão corriqueiro e objetivo. Não sei explicar. Agarra no primeiro parágrafo, no segundo já não penso, deixo de ser. Logo eu mesma estou no terror, na aflição do não confesso. E o meu fazer doméstico empurrado para depois…, logo a cozinha precisa de limpeza, os quartos de ordem, o dia de clareza. Vontade de voltar a ler, os olhos ardem, e a cabeça está desarrumada, a caminhada mais apressada…Procuro outros livros dele, acho que emprestei alguns, não estão na estante. E…, já não lembro bem, talvez para a Magda? Ou Carol? Não, foi para a Ana. Alguém que me fez uma visita. ” Ainda existem aveleiras”, ” Os quatro dias de um pobre homem”, ” Carta a meu juiz”, ” O homem que via o trem passar”…Os livros. A memória. Preocupada estou com estes lapsos demorados, conversas esburacadas. Estou com medo. O que estarão fazendo as pessoas neste acordar? Como será conviver? Estar junto? Algumas leituras nos arranham…Sim, Simenon mestre! As reflexões estão amarradas, suspensas e…Sim, insone tento dormido tanto! Incoerências. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres – Não telefonei para a Marina, não falei com a Suzana! Não almocei com a filha! Agarrada num livro, enfeitiçada pelos velhos discos que se divertem no retrô toca-discos que o João trouxe! Sou criança.

mabel! céus! tenso!

Genialidade, escavações perturbam, ou sou desavisada! Que leitura/?! Terminei Crime Impume de Georges Simenon! Absolutamente perfeito, a angustia aguda / aperta na garganta! tensão! Que genial! e difícil! E duro!

” Falava como e o fato não tivesse importância, exatamente como se dissesse algo apenas para encher o silêncios”(p.154)

” A verdade é que Michel o desprezava, desprezara – o sempre, o suficiente para não se dar ao trabalho de condena -lo.”

Separei várias joias, estou com sono, mas vou expor / espetacular o livro! Amanhã!

saúde

A saúde é pois um equilíbrio do nosso organismo com as suas partes componentes e com o mundo exterior; ela nos serve, sobretudo, para conhecer o mundo. A perturbação orgânica obriga a reconstituir um equilíbrio mais/fortemente interior / meu/ o teu/ o nosso. Retira / exige a alma, e desde então é o corpo que se torna o meu objeto, ele não constitui mais eu mesma, embora ainda seja meu; não é mais do que o barco em que faço a travessia da vida. Estudo as avarias e a estrutura sem identificar com o meu ser eu, o indivíduo. Onde reside em definitivo o meu Eu? No pensamento, ou antes na consciência. Abaixo da consciência há a espontaneidade e aquele fazer rotineiro, tão meu! Então eu sou apenas a ideia de querer ser EU. E de te querer, ainda.

Recebo a notícia da tua morte / a passagem: espanto e dor: lágrima do que não aconteceu…, somos nós os dois abraçados nas escadas do casarão tecendo a malha que nos envolvia no abraço e no beijo. Tudo fizemos / tudo tentamos para que nossa fosse a vida dos carretéis, das agulhas, dos tecidos e daqueles inusitados desenhos coloridos. Por que a certeza não nos carregou lado a lado…, teus estudos, tua Itália, teus / tuas. E eu? Uma mãe forte / obstinada, e cheia de planos / os dela, os meus. Teríamos sido felizes! Completamente e plenamente felizes. Eu não tinha mapa, mas o sentimento preso nos beijos do teu abraço. Eu te amei menina! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

apenas crianças

Da magia e da incerteza a explosão. Como seria explicar o prazer. Antes examino a mão, também ela se transformou em mapa. Tantos e muitos rios, correntes e uma história de caminhos. Não. Não fico triste. Eu penso como seria te olhar. Depois escutar a voz, depois te saber feliz, alegre, certeiro. Penso naquele menino casando, no irresponsável trajeto de sermos ingênuos, meninos…Era tudo uma grande brincadeira. Ah! Eu sei como é voltar ao sonho: os mesmos sonhos. E caímos nas mesmas armadilhas: o laço mais ou menos apertado. Alguém pronto (o inimigo) pronto para apertar. Por quê? O que faziam nossos pais enquanto brincávamos de ser gente grande, eles também apreendiam a conquistar o mundo. A questão disciplinar da educação, de entender a criança como ser completo, demorou a ser/ter entendimento objetivo. Éramos apenas crianças, flores ou urtigas, no jardim. Folhagens domadas ou selvagens… Crescemos? Não sei. Minha mão teclando diz que sim, mas a vontade de cirandar de cantar de me esparramar nesta alegria inesperada diz que não. Sou a mesma da nossa meninice, és o mesmo, talvez, não sabemos bem/exatamente a pessoa que somos: estamos no jardim. Tu existes: isso de existir é perfeito. Elizabeth M.B.Mattos – 2021 (do amor)

aparentemente

Aparentemente estás vivendo quadrante bom. Administração de si própria. Lembrei de ti e da tua intelectualidade. Tive uma vida pouco ortodoxa. Aventuras. Eu me dei conta, – nos constantes balanços que fazemos, – que se as aventuras fossem menos impulsivas, eu elegeria o cérebro com equivalência maior às pernas. Teriam sido muito mais contagiantes e talvez reduzidas a um número menor que os dedos das mãos. Passado. Não desprezo. Mas eu poderia ter sido mais esclarecido… Pessoas como eu não trazem consigo tesouros do tempo, trazem aventuras, talvez, enredos interessantes e curiosos. A foto do teu perfil mudou. Flores. Quando este balanço estava em andamento fui procurar a foto daquele perfil: um tesouro da adolescência. Este veio, sem aventura. Beijo

Yin-yang

forças fundamentais opostas e complementares”

Aparentemente: boa palavra. Estou vivendo, devagar, uma volta para o tranquilo. O mesmo do mesmo. Conversas existenciais. Tento achar meu eixo, que não seja o complicado! Impressiona a “cara mapa”! O tempo! Devagar retomo as leituras. Estupefata com a memória a esfarrapar “coisas” engraçadas… Organizo espaços para a cadeira que encomendei… Faço listas do que gostaria de comprar. Hoje, café preto com bananas fritas. Feijão, laranja e peixe. Balas de goma. Enfim! Incoerências de sempre. Demoro para achar isso, perco aquilo, e os dias da semana esperam, atrapalhados a outra semana, aquele de estar escondida no teu abraço. Acalmei ansiedade ao te escrever. Retomo as cartas. Amigas telefonam. Embora eu me esconda, ou pense que estou reclusa, tão perto! Estou ao teu alcance. Abro a escotilha. Relações, o social, faz bem, tu sabes. Minha intelectualidade, sobrevivência desorganizada… Eu me irrito por nada ter feito, e faço! Como um jogo. Enfim! Não, importa. Os livros, um atalho, e o campo: livros por todas as peças. Preciso esquecer. E, literalmente, esqueço tudo. Elegeste corretamente. Tens a energia verdadeira e a melhor da vida. A correta. E tua inteligência, tua intelectualidade e o que sentes te faz FORTE. Eu te admiro. És bom neste jogo de viver. Nenhum livro, nenhuma leitura de fora para dentro, substitui o teu de dentro para fora… Aventuras / sensações / vibrações importam. Agarrar em vez de ficar a olhar. Tuas mãos importam, sempre serão o farol. Cuida delas. Eu, muito agarrada em ti, resolvi me fortalecer, e também me afastar. E devagar, como te disse, voltar, olhar para trás nos meus passos, com cuidado. Sonhar sonho, desejar desejo, ou seja, esquecer. E como mágica, mandas um bilhete – carta. Bomba. Engulo o silêncio necessário, e festejo tua volta. Tuas cartas. Teu pensar, teu jeito de ser e fazer. Há que se apreender / agarrar. Esta coisa de ler é vício. Um vício como qualquer outro. Como o álcool, a maconha, ou as balas…,ou, o vício de te amar. Como viajar. O sexo / o social / o mundano. Como… Nós nos formatamos. Sabes o mais lindo/o perfeito? Usas as mãos, és ortodoxo. O que tu tens é tão absolutamente genuíno! Bom teres escrito. Que bom estares aí do outro lado. Um beijo. Beijo eu sei dar. Eu acho. Eu te beijo tanto e tanto! Intelectuais são pesados, completos, introspectivos, poderosos, e complexos. Não sou assim. Ainda não. Na outra encarnação, serei, agora eu me esforço para te amar melhor. Outro beijo. O texto / uma carta / e chegas por inteiro. Tens o time/ o jeito certo, a narrativa saborosa. Acertas ao contar, não deixas escapar, pulsa quando escreves e contas, eu sinto. Não posso roubar a história, mas tu podes. Contar tantas / muitas, inventadas, reais. Estás a sentir enquanto escreves, não importa, mais nada, arrisca. Eu sou tua. Desdobra uma narrativa da outra: especiais / as tuas e as nossas. Perfeitas.

Acordar biologicamente como o orgasmo, prefiro gozo. Acontece espontâneo, estimulado pelas entranhas secretas do prazer. Gosto demais, e, como no gozo, prolongar o momento sem relógio.
Ler e te escrever –, um turbilhão: o cérebro está mais na zona do prazer do que na zona da organização. Responder, uma temeridade.
Fragmentos! Foto atual, não surpreende que o tempo trace novos contornos. Importante que cuides e ames estes contornos, sem mal dizê-los. Certamente, ajustada à realidade da aventura do tempo: não tens mais a beleza hoje daquela inatingível Beth. Liza ou Elizabeth. Sentir que não te olham é fortalecer uma pequena dose de mal querer. Os velhos aprendem a olhar, sem se revelar, menos afoitos.
ser olhada e fazer com que olhem. amar-se. Saber que foi, pode ser e será cobiçada.
pecado…contida…travada…expectativa…espectros da ancestralidade miscigenada de influências históricas religiosas. Se forem berço de conforto: ótimo! Se forem grilhões: rompe, avalia custo/benefício. Pecado é o que mesmo? Conheço apenas os 10 mandamentos. Fora disto?! O maior pecado é o desprezo ao seu semelhante, deixando-o a própria sorte: este está entre aqueles os dez.
Já te disse, no francês sou fluente, limitado a três palavras, com sotaque péssimo. Assim, confesso que a minha biblioteca são mais do que três livros, mas não muito mais. Literatura prática: necessidade do conhecimento do momento, e a curiosidade do saber despreocupado, diferente do teu. Nos complementamos. Li menos do que devia, e, com certeza menos que podia. Bom me sentir na zona de conforto.
Neste momento acordo com a sensação de uma presença sensual. Natural. Olhar fixo nos olhos. Um cheiro suave e íntimo. Silêncio. Se despir, inteiramente, sem desviar os olhos. Se aninha corpo a corpo com leve tremor, íntima. Silêncio. Calor. O único movimento são os dedos sobre os pelos do ventre, como seda, deslizando com suavidade…, e não podemos mais escrever /descrever: já foi feito / repetido, violado e recomeçado.

Meu querido WFKHXZ: a releitura quente das nossas cartas é/mostra necessária força para seguir aos 90 anos, e sentir vida pulsando (aos 40, ou mesmo 30 anos) em festiva jornada de prazer / gozo / explosão. Posso mais / ainda mais: cuidar do corpo, do brilho,… Tua presença assídua desenha alegria; desconfio / sinto a boa / certa escolha. Nossas evidentes e certeiras diferenças desenham íntimos e perfeitos: nós. Não precisas ler nenhum livro, li por nós dois, vi os filmes que importaram, assisti os jogos necessários. E tenho o que precisamos. O sol nos pertence. E o mar te ama. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

tranquilizar e enfeitar e comer bolo de chocolate: encomendei na padaria, estou feliz…viva a irmã! viva a sobrinha amada!

(…) nas beiradas, pelas beiradas. Sentimentos frios, inacabados espetam! Eles querem se derramar, ou gritar, estão contidos/amarrados. Eles se esfregam uns aos outros. Carinho apressado. Não são. E ninguém dorme tranquilo. Não choveu como eu queria que chovesse: faz sol, aquele dia perfeito para um dia perfeito, mas está estranho/colado, amarrado, preso. Não é um bom momento. Ah! Há de passar! As lâmpadas novas chegaram. Clarão da/ na luz de cabeceira, dourado. Separei um livro de Georges Simenon Crime Impune, de Ítalo Calvino Os Amores difíceis, e também um livro de Dashiell Hammett. Vou dormir. Perfumei a cama. Amanhã será um simpático dia de festejos! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

1847-1881 AMIEL

“29 de agosto de 1870 (noite). – Meu pecado é o desencorajamento; minha desgraça, a indeterminação; meu pavor é ser enganado, e engando por mim esmo; o meu ídolo é a liberdade; a minha cruz é querer; o meu entrave é a dúvida; a regeneração; o meu gosto mais constante é a psicologia; meu erro frequente é desconhecer a ocasião; a minha paixão é o inútil; o meu fraco, ser amado e aconselhado; a minha tolice, viver sem finalidade…

Tu não libertaste a tua individualidade, não descobriste a tua missão, ou pelo menos estás sempre recaindo no indefinido a esse respeito. Detestando escolher, resignar -te, limitar -te avançaste somente em um ponto, o conhecimento de ti próprio e em linhas gerais o conhecimento do homem. Quanto a todo o resto, recusaste, declinaste, perdeste. – Podes dar conselhos, esclarecer, tornar compreensível. É alguma coisa? Mais valeria pregar, pelo exemplo, sobre a educação de si mesmo.”(p.160) Henri-Frédéric Amiel – Diário Íntimo

E toda reflexão, qualquer entrega, ou confissão se esparrama por 2021. Alerta ao tempo/período estacionado, ou as ponderações -, a cada pressão…, sim estou engasgada nos mesmos sonhos: quero sonhos, pastéis, sanduiches prensados, bolo de chocolate e uma casa sem espelhos -, estupidez envelhecer… Envelhecer não traz ciência nenhuma, mas clareza. E a leveza da noite engasga o sol do dia. O que é preciso ser dito se atravessa: pratas na mesa posta, copos de cristal, e louça especial = mansidão. O perfume das flores. Eu te abraço com toda a ternura, entrego meu corpo e o despejo, meu olhar, embarcamos na nave… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

apressado bilhete

Eu te escrevo, mentalmente, todos os dias. Tenho planos: um roteiro detalhado (vais gostar das novas ideias). Dias ensolarados me desviam do trabalho. Faço pequenas caminhadas. Sinto o corpo cansado. Escuto música. Leio menos. Levanto cedo demais. Dias de luz acordam festivos, mas o verão não manda recado, sinto frio. Escrever exige exercício, atenção, esforço e cuidado. Não consigo arrumar, limpar e festejar. Quero flores. Quero aquelas saladas fantásticas que sabes fazer, quero bebericar e conversar…

Não desanimo desanimando, tu sabes. Gosto de pensar que me conheces e imaginas a preguiça, as pequenas manias cheias de braços e pernas, também a caverna, embora o sol anime, aqueça, traga ideias, logo, logo mesmo já me esqueço dele, imagino a chuva o temporal. Ontem consegui desenhar e completar pequenos esboços, as cores pontilharam…, ficou bonito. Lembrei de todas as aulas, mas faltou a tua energia. Pequenas, grandes, enormes dificuldades para aceitar o limite.

Eu me assusto: assombro! Desvio. Não vou me prolongar. Apressado bilhete para dizer do meu amor. Ou da minha ausência. Sentimentos misturados. Logo!? Sem lógica. Este logo parece tão, imediatamente, possível. Espero ansiosa tuas cartas, depois, as chamadas telefônicas, depois me acomodo no silêncio. Ele faz parte do nosso jogo. Um beijo apressado, num bilhete disfarçado de carta, E N O R M E. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – ainda com frio. Torres