Ovide

” Tandis que tu es libre encore de tout lien, voici l’ instant propice pour choisir celle à qui tu diras:’ Toi seule as su me plaire.’ Elle ne te viendras pas du ciel sur l’ aile des vents; la belle qui te convient, ce sont tes yeux qui doivent la cherchr.”(p.5) Ovide L’Art d’AIMER

aconteceu, ou não aconteceu?

Nunca saiu de casa, não sair faz sentido. Aventurou-se numa viagem ao exterior, ou duas, atravessou o Mampituba, e, chegou a Santa Catarina. Evento. Sair de casa…, dificilmente saímos, somos empurrados, estupidamente, abrem a porta e nos empurram, ou gentilmente, há de se saber?! Então a figura tem qualquer coisa de patética. Descarnadamente patética. Casar-se pode ser uma solução magnânima, outra triste figura, a esquálida mulher insignifante e má. Resultado? Dois patéticos. Levemente transparente (isso existe? Levemente para mal querer? ou a transparência faz parte da arrogância?). O tal jogo de sobrevivência fotografado e ‘ventilado’, as fotos servem para documentar o indocumentável / o risco de quere tomar atitude: evidência do ridículo da escolha…, o pavor da solidão. O incerto, na dúvida burocrática. Céus! Estes degraus parecem palacianos, mas não são. Reflexões sobre um encontro casual entre abrir e fechar a porta.

Olalá! O feito e o não feito, ou será que foi assim, ou nem foi? Tomar consciência. Tomar consciência antes da ação ou depois da ação. A bomba! Como se faz para tomar consciência quando a ação, por assim dizer, engatilhada, e não se decide a assumir, quer o aspecto do já visto, do já feito, do já passado, quer o do ainda não visto, do ainda não feito, do ainda não passado? Estou resfriada, gripada, com algum vírus, algum mal estar rondando…, e a vontade de dizer se arrasta… Então, vejamos, em que instante da manhã (agora é quase meio-dia) minha memória parou de funcionar? Não quero detalhar se ele me olhou, ou falou por falar, disse por dizer, ou se apenas passou reclamando, também ele, saindo da neblina, dos chuviscos de hoje. Este outubro de sombras e sombras atiça os nervos, amolece a vontade, esconde a voz. Abrir ou fechar a porta? Que importância relevante pode ter isso? Estou outra vez com fome. Não, ainda não posso me sentar e teclar, qualquer pensamento se esfumaça. E a memória se afunda. Elizabeth M;B. Mattos outubro de 2021 – Torres

Georges SIMENON

“Uma coisa é certa: para escrever com a clareza e simplicidade de um Simenon, é preciso ter o que dizer e a coragem de dizer. Ou melhor, a coragem de publicar, porque no caso de Simenon era maldição mesmo, ele não conseguia não dizer. Isso para mim, define o escritor de verdade. O resto é figuração, ou carreirismo.” Ernani Só – Zero Hora / Sábado, 17 de julho de 1993 – Segundo Caderno

erros refletidos

“Não cometer uma ruindade gritante é um modo de tomar consciência de que não se é mais jovem. […] O útil seria nunca falar em juventude na história, mas deixar adivinhar isso, justamente pela recusa de se soltar. Talvez quando muito, no título: Juventude terminada. E, no fundo, o pensamento: Aí está, não farei mais essas coisas; cometerei agora erros refletidos, erros de limitação, não de universalidade”(p.161) Cesare Pavese O Ofício de Viver

Erros irrefletidos, igual complicados. O erro fundamental será sempre aquele que não se pode consertar; (risos) na verdade, não consegui acertar, estar equívoco, sempre?! Uma constante. Distraída, confundida. Apreender sem interromper o vento / a brincadeira: impossível. O melhor momento? O das bonecas, fossem de papel, pedrinhas, de pano, de louça ou os maravilhosos bebês com rosto de louça. Os brinquedos nos carregam…e atrapalham, a vida do faz de conta importa mais do que viver. Ou estou sempre brincando? No faz de conta. A pensar! Festas, risadas, o sem compromisso, o jogo… Fazer comidinhas, embalar os bebês, trocar as roupinhas, lavar as panelinhas, empurrar os carrinhos, chutar a bola. O exercício. Ler e escrever foi tipo tortura. Esconderam o sol, tiraram a sombra, desligaram o som. O silêncio ficou feio! Bem! Inventa -se, imagina- se e até governar / ter poder pode ser tão, estupidamente, artificial! E aquelas reuniões enfadonhas, eles brincam de decidir, mas jogo de tabuleiro pode ser, levemente, complicado. (risos) Céus! Estou misturando reis com presidentes, e os chefes…, os que mandam, decidem. Crescer pode ser enfadonho quando não é mais descobrir. E descobrir pode ser…,não sei.

“Não traí porque nunca me fizeram pertencer.” Esta frase me faz pensar. O que seria/será trair? Não estar em tentação. Seguir a natureza, o natural, e acontecer = paraíso. Eu me expresso mal ao dizer, “nunca traí”. Há tantas formas de não estar aonde deveríamos estar! E tantas e inúmeras traições! Equívocos. Prisões e paraísos. A doçura da paz e flores! A voz, a tua voz e teus olhos apertados! O embalo. Eu te agradeço! Preciso contar, voltar, repetir, dizer, e, depois negar. Esta ventania que não termina! Será o vento? Ou este avesso do tempo? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres assobiando dia e noite – e o mar enroscado, com sol a espiar, mas logo espreguiça. Volto a juventude iluminada, caminhar de pés descalços faz bem, comer batatas fritas e bifes acebolados, entrar no mar, banho de chuveiro, tempo demorado na banheira, a nudez, o sono com sono, os beijos, a magreza saudável, engordar sem medo. Avião. Ficar quieta em casa. A limpeza. Fazer aniversário. Esperar o verão. Esperar o frio e muitos cães.

se eu fosse apenas eu

se eu fosse apenas eu, tomaria uma xícara de café com leite, escutaria música e voltaria a dormir, se eu fosse apenas eu, as horas seriam preenchidas com o livro escolhido, ou eu telefonaria. Eu telefonaria para saber de ti…, eu te acordaria, ou eu te interromperia, ou eu iria te encontrar. Quantas vezes peguei um táxi às duas, ou as três horas da manhã para te ver!? (risos) Quantas vezes não te deixei dormir? E, eu, eu se fosse eu estaria te amando desorganizada e. Tu estarias me amando com todas as gentilezas possíveis e abrindo todas as janelas, e as portas-janelas. Nós começaríamos o dia agora/outra vez: a noite chegou para contrariar a natureza, nós dois acertaríamos ser dia outra vez. E tu estarias entre indignado e risonho… Fui me olhar no espelho: o rosto levemente inchado, deformado, meu rosto. O pescoço me dói, as costas…, vou esquentar o leite. Comer um pedaço de pão. Caminhar na calçada um pouco a pretexto de levar a Ônix, não vou ligar a TV. Coloquei um disco na vitrola, tenho dor de cabeça, mas preciso ‘maneirar’ com os comprimidos, controlar as pílulas. Eu deveria ter dormido na hora do sono, fui esticando…fiz isso, aquilo, e mais aquilo, pra escapar, prolongar, errado. A rotina. A rotina exata, ,milimetricamente, a mesma. Qualquer coisa fora da emoção, somando, sacudindo, e acontece assim…desarruma tudo. E estas pessoas novas precisam ser controladas. Precisam se adaptar. Céus! O leite vai esfriar. Vou tentar descobrir o livro. Estou detestando todos os assuntos possíveis: quero uns beijos distraídos, quero beijos e aconchego. Talvez a Magda traga o livro certo para “me agarrar”, ou eu talvez eu devesse fazer uma pequena viagem, ou até o Rio de janeiro, ou até Florianópolis e andaria de bicicleta…caminharia, e tem o aniversário da minha sobrinha, da minha irmã, sairia da casca. OU talvez amanhã eu vá passear pela cidade. Fazer compras. Chamar a moça para lavar os vidros. Talvez eu devesse sair…Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – sair de Torres e festejar as festas

des fazer / des costurar / desimaginar

Os vidros cheios de maresia, de terra. Através dos vidros…,(tudo o que observo,/olho nestes três pontinhos). O sol veio. Logo desaparece. Vontade chega forte, voluntariosa, mas, desaparece. O café com leite, delícia. Depois, a surpresa deste vagar cansado, manso. Sem respirar, por quê? A pandemia com gosto/cheiro forte, mas logo se dissolve: desmancha com o vinho. Não consigo segurar / agarrar: os dedos perderam o comando, a mão, a força. Bobagem! Vou encontrar a fresta, o bom desenho. O quadro de mulheres, o livro se abre em / com explicações. O gosto me agarra pelos calcanhares, eu me sento, outra vez, contrariada. Se a tarde caminhou tão apressada, eu preciso descansar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – impaciente, ranzinza, mal humorada

quantas horas no museu, e a vontade de reproduzir, ou desenhar os pés, aqueles que se movem

“Só os estranhos pensam uma biblioteca apenas como um conjunto de livros. É muito mais: não é preciso ter lido Borges ou Foucault para saber que, para quem estuda, a biblioteca é o compêndio do mundo, senão o próprio mundo; e os livros, todos os livros, são a chave para tentar compreendê-lo. A biblioteca particular do intelectual, então, é “um diário íntimo”, o espelho de uma aventura humana: os livros lidos, os nunca abertos, os encontrados após uma longa busca, talvez por acaso, num sebo, aqueles recebidos por pessoas amadas, ou menos amadas; as dedicatórias, os catálogos dos museus e das mostras visitadas; as marcações rápidas, as anotações nas margens brancas, os papeizinhos redigidos, confiantes de que, no momento certo, servirão. Nos livros ficam cartas, bilhetes de viagem, papéis de hotel; há até quem esconda dinheiro nos livros. Mas, sobretudo, a biblioteca é ordem: para que seja possível reencontrar entre tantos livros os de que precisa, eles devem (ou deveriam) ser organizados segundo uma taxonomia a mais pessoal que se possa imaginar.”

[…]a arte é busca, e não representação, da verdade.”

Giulio Carlo Argan A Arte Moderna na Europa de Hogardth a Picasso

12 de outubro

a mãe morreu neste dia da Nossa Senhora! não lembro da chuva. hoje chove bastante…. eu estava longe, na fazenda. quando o pai morreu eu também estava longe, quando tia Joana morreu eu estava perto. minha tia mãe, brigava comigo, e eu brigava amando, acostumada, moldada, do jeito dela / do meu jeito de querer, desconfiada. íamos para o colégio, almoçávamos juntas, dormíamos no mesmo quarto, o dia e a noite, minha tia Joana! a mãe morreu de manhã no dia da Nossa Senhora Aparecida! ninguém ia morrer, ou adoeceu para morrer, ou era hora, ou…, não era para ser, aconteceu quase no susto. aconteceu para ser assim, rápido, cedo, sem conversa, sem medo… como os anjos são anjos este morrer do pai, da mãe e da minha tia Joana, só aconteceu… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Joana de pé e Anita sentada – saudade sinto delas!
Minha tia, minha mãe! Joana de Athayde e Anita de Athayde Mattos

infantil embalo de criança

deve ser isso

Deve ser isso mesmo viver: esperar, desesperar, montar / fazer, acreditar, e, tudo desmoronar. Recomeçar. Estudar. Estudar. E o tempo, desespero no vento de outubro. Queria o verão das férias, dos anos… Não estou num bom dia! Não achei a linha certa, nem a possível agulha, nem… Vou beber o tal chá. Tentar terminar o livro, E esperar o próximo feriado. Recolhi todos os ovos, como tu mandaste. As galinhas estão inquietas porque já parece anoitecer, e eu cansada sem ter feito nada. Desculpa.

Dançar no baile / na festa, não com o par certo, mas o possível: e não desanimar, sempre se apaixonar, pelo impossível, o menos possível mesmo. O prosaico. Não ver nada / atordoar e não dizer. Claro que não posso voltar nem desfazer, foi tudo mais ou menos assim, atrapalhado. Éramos tão jovens! Estupidamente jovens! E eu? Cega. Tinha lá minhas metas: escrever histórias, abrir o silêncio, encontrar o lugar certo. Ficar longe, e remexer naqueles guardados, também ler os livros certos. Empilhar os necessários, ler. Ler. Ler. Revejo corajosos e elaborados textos/histórias. Costurados, deveriam estar alinhavados, mas agora engessados / não, viraram pedras, não sei esculpir, nem consigo aumentar o verde, trazer o vermelho, desenhar os olhos, abrir as janelas. Reescrever? Impossível. Tudo é supérfluo. Vou voltar para as cobertas. Estou com medo do verão! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021, como assobia o vento! Vem deitar também.