Luxo e excelência

Oskar Metsavaht“Por que compravam do Monsieur Louis Vuitton? Não era por causa da marca, mas porque ele fazia bem-feito. Quando você se dedica a fazer algo bem-feito, uma aula bem-feita, uma plantação bem-feita. Tudo isso é um ato nobre e ao mesmo tempo sofisticado. Fazer um vestido bem-feito é algo sofisticado. Então sofisticado e nobreza são a mesma coisa. Luxo vem de nobreza de espírito e todo o mundo esquece. Os esnobes estragam tudo isso. O novo luxo é a nobreza da ética e a sofisticação da estética.”

B4 ano 02 – 2013

Entrevista de Heliosa Marra com o gaúcho  Oskar Metsavaht  da OSKLEN

HOJE PRESENTE

Nostalgia! Borboleta faceira! Euforia. Floração no tapete… Engano de menina. O amor alucina. Confunde. Amigo amor amado. Embate. Lamuria… Vou espiar pela janela, vou sentir o cheiro da grama e do jasmim. Vou me lambuzar no doce imaginado. É o mel.  O sorvete. Tu és fatia com chocolate deste passado que aperta. E queria que fosse apenas o presente! Nostalgia. Vou ler o teu livro agora. Gostei de saber (ou adivinhas) que me pensas. Me pensas porque eu te penso. Amas-me porque te amo eu. Somos um eixo. Não só sistema que se comunica em duas pontas: tu, eu. Tenho saudades de ti. De te olhar, te tocar, sentir, enrolar-me em ti. Juntar-me a ti nas conversas e, depois, prolongá-las nos corpos juntos, integrados.

Tenho saudades de te amar.

Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2013 – Torres

Longo e pedregoso caminho

O longo e pedregoso caminho: oficina das letras.

Diante do espelho olho, escolho, atravesso e busco o início. Volto a pensar no motivo, na voz, nas palavras, na escrita ela mesma, aquela que precisa estar aqui, agora, presente, comigo nesta disposição de fazer, de fazer um começo, um meio e um fim. Emparedar as palavras, cutucar idéias. Casa de livros lidos, sublinhados, relidos, olhados, entre eles, o meu. Deixar a inveja passar, o ciúme parar. Recolher o que me resta, ou vasculhar no que já existe de pronto, de feito, de bom, de trágico, por que não? Melancolicamente eu me arrasto na nostalgia sem tristeza, sem medo.

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No primeiro dia li e reli desordenadamente todos os itens. As possibilidades! Transitei entre uma e outra. Escutei Cortázar. Não consegui ouvir a música.  A irritação me paralisou. O limite de habilidades, paredes. Depois peguei o livro O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe ao acaso como determinado… Escutei a voz dele. Voltei ao texto: “As raparigas tinham uma ferida que nunca curariam. Estaria para sempre exposta, e por ela sofreriam eternamente. Os homens haveriam de investir sobre essa ferida de modo cruel para que nunca pudesse sarar. A Isaura não sabia ainda que era para que sofresse que lhe calhara ser mulher.Talvez, com sorte, pudesse ser um pouco feliz antes de morrer. Mas apenas um pouco e com muita sorte. A Maria dizia que isso não sucedia a todas. Apenas às mais merecedoras e espertas. Porque facilmente um erro estragaria tudo. O amor, dizia ela, estraga-se. E tu não querias ser ordinária.” (p.40)

Encanta a editoração, o diferente, o cuidado, a cor da pintura-capa. As orelhas surpresas, enfim, o livro-objeto visual. Escolhi o texto ao acaso, mas não tão ao acaso porque logo salta a questão desta ferida-dor permanente da mulher Isaura, mulher Beth, ou Isabel, ou Elizabeth, diz Maria desta sina de ser infeliz porque “o amor estraga-se”. E logo esta coisa de apenas “as merecedoras e espertas” poderiam ser minimamente feliz. Tão sina, tão bíblico como o pecado, tão Eva. Embora libertas de algumas tantas dores segue a mulher carregando pedras. Desgarradas da vida, empacadas na esquina sem saber se dobramos para direita ou para a esquerda… Temos a sina da dor, da fatalidade deste sofrer vaticinador dito por Valter Hugo Mãe.

No segundo dia mandei desesperados bilhetes. Confusas comunicações. O eu surpresa e o eu medo. Releio e reconheço o titubeante, e o perturbador. E a menina Elizabeth diante do que é preciso enfrentar. Outra vez na Rua Vitor Hugo, 229. Petrópolis. Porto Alegre. Abandonada na beira da calçada, sem conseguir entrar… Todos saíram. Ninguém na casa? Ninguém que importe. Se o movimento segue, se as janelas estão abertas, se os cães estão ao meu lado… Não vejo nada. Outra vez, sozinha. “[…] uma ferida que nunca curariam. Estaria para sempre exposta, e por ela sofreriam eternamente.” Preciso reagir. O trabalho é pesado. Difícil. Competitivo. As pessoas esperam que eu o faça. Exaspero-me sem coragem. Recomeçar. Reagir. Não importa que esteja sozinha. Não importa que não saiba fazer. Os brinquedos não são meus. Não sei ler nem escrever. Vou apreender. “Talvez, com sorte, pudesse ser um pouco feliz antes de morrer.” Sinto o cheiro da comida, e caminho devagar para a cozinha.

Retomo o susto, e volto ao trabalho. Ler tudo outra vez, e escrever.  […] “uma oficina rica em disfarces”. Leituras atrasadas. A disciplina me falta. E a rotina é difícil. Tenho que apreender tudo. Ler e escrever, desafios. O final é o começo.

Uma surpresa ter leitores. Prazer o diálogo. A publicação vale como herança. Troca de valor, encontro e aceitação. Alguém pegou minha mão. É reconfortante! Uma remota ideia do para sempre… Longe de ter encontrado o caminho, mas vejo a sinalização. Isto é ótimo. Obrigada.

Primeiro exercício: 001 (9)

Toda homenagem é um deleite para um artista, duplamente agradável se vier junto com a juventude.” (p.117Sempre, seu Oscar Uma biografia epistolar – Oscar Wilde. O prazer de ser homenageado de ser jovem, de fazer e ser visto, de escrever e ser lido, deleite. Encantamento. O prazer de ser reconhecido enquanto artista, ler lido, enquanto se escreve. Refazer, fazendo. O deleite, prazer, prazer, prazer, prazer de ser reconhecido, olhado, lido. Escrever pode ser a juventude do sempre. Do ser compreendido enquanto se faz, reconhecido porque se fez se faz. Trabalho. Trabalho, e outra vez trabalho acabado, feito, reconhecido. Perpetuado porque se disse. E se a juventude deslumbra, aumenta, e faz estremecer… Ser jovem fazendo, criando, produzindo e… Estremeço no duplo fazer de receber homenagem e ter tempo. Ser jovem é tempo aberto. Certeza. Juventude e reconhecimento a festa.  E junto o prazer de ser reconhecido. É duplo, duplo encantamento. E dizer é  ler, pensar, reconhecer, e pensando poder dizer. E dizer é se recriar, se refazer, se reconhecer ao escrever. Os livros fazem companhia, conversam, e me transformam. A transformação do relacionamento. A cada envolvimento, uma nova pessoa, ou desdobrada pessoa. Somos diferentes. Facetados. A cada hora do dia uma disposição. Agora mesmo enquanto teclo tenho pressa de terminar, e logo a nostalgia do acabado que só foi iniciado. Segurar o tempo importa. Deixar passar também importa. Ontem. Hoje. Agora. É para sempre. Escrever. Ler. E ainda Oscar Wilde. (p.200)

“Para Max Beerbohn

28 de maio de 1897

Meu querido Max, não tenho palavras para expressar minha enorme alegria ao encontrar seu presente maravilhoso esperando por mim em minha saída da prisão e ao receber as doces e encantadoras mensagens que você enviou-me. Eu achava que a gratidão era um fardo por demais pesado qualquer um carregar. Agora sei que é algo que deixa o coração aliviado. Para mim, o homem ingrato tem os pés e o coração de chumbo.”


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DESAPARECIDOS

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Estou querendo justificar, mas… Algumas pessoas desaparecem completamente de nossa vida sem que se tenha possibilidade de encontrar, rever, ou saber. Somem. Deixam de existir, ou melhor, de significar. E não ficamos sabendo se morreram ou não. Não, elas significam, mas não estão mais lá onde um dia estiveram, ou deveriam estar. Adoeceram, resolveram não responder, mudaram de cidade, ou de país, casaram, foram comprar cigarros e não voltaram. Um dia pediram desculpas, no outro desapareceram. O noivo gaúcho desapareceu, sem explicação. O Luciano, o Marco. E a paixão de um verão carioca, desapareceu em São Paulo. Todos os Paulos! Nunca brigamos. Fomos felizes todos os dias que conseguimos nos ver. Alegres! Bondade um com o outro. Patrick Durand Lasserve também desapareceu. O Peter e a Alice no Canada. Edy Lima em São Paulo. E meu amigo Joseph! Olivia e Ronaldo, Alda Maria, Sofia, Cristina e Pedrinho Oswaldo Cruz, Ricardo Cavalcanti, Iberê Camargo, Carmélio Cruz, Xico Stockinger, Glauco Rodrigues e Norma. Laila. Sonia. Sofia. Claude, Tereza. Itamara, Cláudia. E Flávio Tavares. Assim como desapareci um dia do Rio de Janeiro… Como nunca mais voltei a Rio Pardo ou Santa Cruz do Sul. Como o livro perdido entre tantos livros naquela estante! Algumas pessoas apenas deixei de ver, não de amar, não de entender, não de pensar nelas, mas elas subiram na nave espacial, sumiram…Posso fazer uma enorme lista! Seria um inventário de amores amados e vidas amigas desaparecidas! Por uma breve, mas intensa onda de pânico, de repente. Ou será que sou eu que não posso vê-las porque perdi meus óculos de olhar? Sou acometida por uma breve, mas intensa onda de pânico. Pedaços do tempo, momentos vazios, e eu esquecemos, mas quero lembrar. Reter, guardar. Ficar, E não posso! Seria como comer “azeitonas gregas do Peloponeso, ligeiramente mergulhadas em azeite extra virgem de primeira pressão da Sardenha e arrematadas com Alecrim”… E volto a beber aquele gole de uísque  necessário para esquecer esta renda rebordada de lembranças, talvez desnecessárias. Outro tempo.

Confusão

Nostalgia da vida. Começo e fim! Felicidade. Choro. Lágrimas! Surpresas. Recomeço, início, princípio, luta. Chegada. Vinho, uísque, água, laranjas, morangos, vinho. E todo desanimo desaparece. Perigo. Alerta! Sem desanimar. Vou. Fecho a mala. Ligo o telefone. Chego. Abraço. Recomeçar. Consigo. Por que não dominamos corpo, e sentimento? Falta exercício físico, adrenalina, coragem! Falta olhar. Sentimento. E todos os braços abertos, estendidas as mãos… E, quase não consigo chegar! Como se as portas estivessem trancadas com cadeados, revestidas de ferro. A caixa! Não!  É preciso lançar-me ao mar, molhar o corpo, os cabelos, mergulhar no tempo e voltar outro para o teu abraço…

Torres Santa Cruz do Sul Rio Pardo Porto Alegre Torres

Torres Santa Cruz do Sul Rio Pardo Porto Alegre Torres

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Em todas as idades Torres. Se houve tempo de mudar, também Torres. Praia, audácia, e paz. Tempo de fazer bolo, compotas. Criança crescer. Santa Cruz do Sul. Bicicletas, trabalho, galeria, jornalismo, amigos, festas. Francês, aulas e aulas, visitas. E aquele silêncio de amar. Livros. Sem telefone. Cartas. Santa Bárbara se construindo nos tijolos da fantasia. Ovelhas, cavalos, o capataz, as madrugadas. Açude e tempo. Tempo aberto no prazer de pensar. Cercas. Amor. Sonhos. Sofisticação no galpão. Coragem. Seca. Nascimento. A casa dos quinze anos na Travessa Canoas, pura magia. Alegria. Vizinhos. Amigos. Lareira. Cães. Fogão a lenha. Churrasco. Feijão. Tempo de fazer tudo ao mesmo tempo. Escrever. Ler. Colônia. Linha Santa Cruz. Terra batida. Avenida Léo Kraether, certezas. Carros. Risadas. Filmes. Gurizada. Adolescência. Golfe.

Interior da Fazenda Santa Branca, Rio Pardo na foto de cima. Casa na Travessa Canoas, Santa Cruz do Sul: Ana Maria nos seus 15 anos e eu. Terceira foto, Pedro na casa da Av. Léo Krather em Santa Cruz do Sul. Pedro com Luiza no colo: Fazenda Santa Branca. E com o capataz, também na fazenda.

Joana com os cães, construção da sede da Fazenda Santa Branca, em Rio Pardo.

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Óculos de ler

001 (3)Perdi meus óculos de olhar, olhar longe, olhar perto. Tristes olhos de olhar… Então, enxergando pouco, faço pouco, vejo menos, nem me mexo. Espero. Perdi na rua, de um jeito idiota qualquer, como pode ser idiota quando se perde aquilo que é necessário. Faço estas coisas. Perco o importante: os óculos, a energia, o bonde, a piada, o sorriso, o lenço, os brincos, o anel, a cabeça quando me aborreço! O livro que quero ler, o que pretendia reler. As anotações. A fala. O sorriso, e seguidamente, perco a ironia. Agora perdi os óculos. Vou lembrar que os perdi até meados de 2014. Justifico. Cansada, ansiosa. Ansiosa e tropeçando em tanta felicidade! Foi assim que os perdi. Eu perdi chamando por ti Francisco… Perdi. E agora encontrei as fotos de estúdio. O livro de contos na pilha da esquerda, ao lado da cama. A conta do telefone, o endereço do hidráulico, a paciência. Comi o bolo de chocolate, não tão bom como o de banana, e menos ainda do que o de cenoura… Perdi a coragem de me indignar, desesperar porque estou sem óculos, e não deveria estar. Droga!  Sem paciência faço piada. Nas calçadas, na grama, nas casas visitadas. Aonde? Amassados, perdidos, tristes, e eu já deixando o vento carregar. Ou as formigas se enfeitarem. Repetindo: sinta o prazer de deixar pra traz o chapéu que o vento levou… Os quadros que o marido selecionou, ou a casa do sonho, os tapetes persas, a louça alemã numerada, os talheres de prata 900, os veludos mal escolhidos, as roupas esquisitas… Perdi os enfeites, o jeito, o dinheiro, mas não a graça! Vamos rir porque perdi meus óculos de ler na lagoa, na areia ao vento. Nos jardins das amoreiras. No vento. Anônima caminhada em direção ao mar

“… não tenho paciência alguma com as pessoas que não sabem abrir mão das coisas, que correm atrás delas a se lamentarem. Quando uma coisa se foi, ela se foi! Está termina e liquidada! Portanto deixe-a ir. Ignore-a e console-se, se é que quer consolo, pensando que nunca se recupera a mesma coisa que se perdeu. Ela será sempre uma coisa nova. Transforma-se no momento em que se vai. Ora, isso é verdade até mesmo quando se corre atrás de um chapéu que o vento arranca da cabeça da gente; e não quero dizer de modo superficial – falo em sentido profundo… Adotei como norma da vida nunca me lamentar e nunca olhar para trás. O arrependimento é um terrível desperdício de energia,…” (p.81-82)

Je ne parle pas français e Outros Contos – Katherine Mansfield

Talvez encontrem os meus óculos, e uma casa de veraneio pronta pra se encher de risadas em janeiro. Histórias e óculos para ler, para olhar, para aumentar alegria de observar! E depois de ter adotado a norma, eu possa sentar e conversar com ela Norma, e todas as coisas que já perdemos…

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