sonoro domingo amanhece

Ônix acompanhando o dia nascer. Passarinhada numa festa fresca e limpa. Chuvarada carrega um tanto e tudo para a lagoa, lagoa… Não vejo o mar. Devo comprar um maiô. Voltar ao mar, salgar o corpo, pintar o cabelo, estremecer o tempo. Estou naquele limbo indesejado: pacifico, inquieto. Tanto a ser feito sem definir! Um pinguinho de isso ou aquilo, e sou eu sem coragem de contar. Beth Mattos – janeiro de 2021- Torres.

chuva e palavra amiga

destes dias amorosos, inquietos e completos

quando tu chegas, e me abraças: não falamos, e assim quietos deixamos o coração acalmar

eu te perdoo: dias , meses, ou ano sem notícia, eu te perdoo, tão logo / apenas nos beijamos

impressionante como esquecemos todas as ausências!

hoje foi um destes dias completos. Beth Mattos

radar

Sinto o que acontece. Pressinto. Covarde, nem sempre assumo a palavra, fujo. Omitir pode ser ruim, assumir complicado. A lucidez perturba. Convencer difícil. Uma cabeça pensa e gira e se alimenta, e o outro? Escorrega. O inimigo se aproxima, manso e ardiloso. A vida se estende por caminhos estranhos. (Sinto medo, não por mim, mas por ele, estremeço.) A ingenuidade / a tolice: o crédulo indefeso, não enxerga, acredita com boa fé e perde. Alertar faz o coração se agitar, a responsabilidade, assusta. Não se envolver, covardia. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

desacorçoada


Urca – Rio de Janeiro

15 de janeiro de 2021 / sexta-feira . Desanimada. Sim, desanimada. Três  dias imobilizada, terça – feira, na metade da tarde, cortei o pé direito,  fundo. Bastante dor. Esta imobilidade me deixa exausta. Não encontro o sono, nem a preguiça. Preciso me acomodar na cadeira, ficar quieta, mas… De natureza agitada, cada dia fecha uma semana, uma enormidade: tempo e vontades a serem engolidas. Hoje coloquei roupas na máquina de lavar, pendurei, depois dormi um pouco.  Mais um pouco. Outro pouco. Parada necessária. O freio corta o dia, faz dois maçantes dias.  Parada necessária alonga: esticam as horas. Não leio nem escrevo. Eu me aborreço.  Coisas  presas da rotina interna, não do dia: ranço da alma. Café com leite cansado. Cansado deste nada fazer. Cansado de esperar. Estancar, curar, costurar o pé. Que se feche a pele. O vidro rasgou bem fundo. Rasgo vermelho, costurado. Espectadora. Então, me preocupo com a Ônix a querer passear. Também ela entristece desacorçoada… A natureza de fazer/ polir/ limpar se afunda.  Foi só  um corte, mas deixo que seja rio turbulento e agitado. Lembro de outros desastres de pressas desastradas.  Esperar, acalmar e enternecer, verbos necessários.  Desenho interrompido,  voz sem música.  Dia cinzento e fresco. Temperatura limpa, quase invernosa.  Súbito chegam as fotos  do Rio: sinto saudade. Saudade atabalhoada da juventude livre. A conversa se espalha. Depois, monólogo, conversa enroscada. Estas paradas necessárias esfumam / colorem / interpretam… Efeito pandemia: tristeza. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres 

desordem nos espíritos

“1905

Eu me lembrava de ter lido não sei onde que Belloz observava que, quando a desordem anda nos espíritos, as leis tornam – se numerosas e são sem cessar as reclamações de novas leis que nada conseguem, porque o indispensável é reformar os espíritos, para o que elas são impotentes.” (p.48) Lima Barreto – Diário íntimo Fragmentos – Mercado Aberto – 1997

anfíbios

A releitura devolve o tempo. Reflexão. Um amontoado de passado nos livros lidos / relidos. E já escapa porque envelheço, eu me agarro nos galhos da alegria. Eu me enfio nas malas dos filhos, e dos netos para estar com eles, onde estiverem, invento. Não muda o destino. Não permanecerei, sou transitória. É preciso dizer adeus. Perdas são encontros internos. O Planeta Terra deve permanecer, mesmo ao se transformar: ele é o infinito. Ou também não é? Beth Mattos

O homem é um anfíbio que vive simultaneamente em dois mundos – o mundo da realidade e o mundo por ele próprio fabricado – o mundo da matéria, da vida e da consciência e o mundo dos símbolos. Quando pensamos, fazemos uso de grande variedade de sistemas de símbolos: linguísticos, matemáticos, pictóricos, musicais, ritualísticos. Sem esses sistemas de símbolos, não teríamos arte, nem ciência, nem lei, nem filosofia, nem sequer rudimentos da civilização; em outras palavras, seríamos animais. Os símbolos são indispensáveis. […] As soluções coletivas, a que muitos se apegam com tanta fé, nunca são adequadas. ” Para se compreender a miséria e a confusão existentes em nós mesmos e, portanto, o mundo, temos de encontrar dentro de nós mesmos a clareza que nasce do Pensar correto. Tal clareza não se presta a organização, pois não podemos permutá – la entre nós. O pensamento do grupo organizado é puramente maquinal. A clareza não é resultado de asserção verbal. O pensamento correto não é produto ou mero cultivo do intelecto, nem é tampouco, conforme a padrão algum, por mais digno e nobre que este seja. Ele vem com o autoconhecimento. Se tu não te compreendes, não terás base para pensar; sem autoconhecimento o que pensas não é verdadeiro.” (p.7-10) Aldous Huxley – prefácio do livro a primeira e última Liberdade Jidu Krishnamurti / terceira edição Cultrix 1972

Este constante ‘vir a ser’, alcança um estado após outro, gera contradição, não é verdade? Por que então, em vez de encararmos a vida como um desejo permanente, não a encaramos como uma série de desejos transitórios em oposição entre si? A mente não tem necessidade de viver em estado de contradição. Se considero a vida, não como um desejo permanente, mas como uma série de desejos temporários, que variam constantemente, não há mais contradição.” (p.63) Jidu Krishnamurti – a primeira e última Liberdade

papéis e papéis (começo)

Felicidade. O novo começo já começou. “Como posso ter certeza de que estou vendo o que fazer? Krishnamurti: Você não pode ver o que fazer, pode apenas ver o que não fazer. A negação total deste caminho é o novo início, o outro caminho. Este outro caminho não está no mapa, e não pode ser colocado em nenhum mapa. Todo mapa é um mapa de caminho errado, caminho antigo.” Acho/suponho/ penso que estas palavras ilustram bem o que devo fazer agora da minha vida. O importante é encontrar o novo caminho. Aquele lugar onde serei eu mesma sem as pressões externas. Coragem para vencer barreiras, passar fronteiras em direção ao que eu realmente quero. O difícil é desenhar/mostrar/saber/ entender o que eu quero. Escrever basta? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro – 2021 Torres

1966 – Rio de Janeiro – quando ler seria/era/ mais do que leitura, mas compromisso acelerado com meta e descobertas

Enamorar – se

Tens razão, precisava deste encontro com as francesas. Foram três dias intensos: exercitei conhecimentos de língua, pensei francês. Discuti a pesquisa, alinhavei novos aspectos pertinentes: psicanálise, vida interior. Senti o sol. Caminhei na areia, mergulhei no mar. Deixar – se ficar para ver as pessoas. Bebericar café, comer doces, pensar sorvetes e rir / sorrir. Vi e reconheci amigos; falei com quem não falava faz muito tempo /tanto tempo! Livre e feliz. Por quê? Porque estava/eu me sentia reconhecida, integrada, dona de mim mesma a fazer aquilo que sou eu. Como é importante estar no teu próprio universo, compreender necessidades, e entender o que está por dentro, O meu conceito. Definitivamente, preciso concluir o Doutorado. As portas abrirão para novas oportunidades. Nunca mais amarrada, mas pronta, independente. Intelectualmente livre, fisicamente solta, completa. Quero encontrar a minha forma de escrever e quero te amar. Continuar enamorada. Viver a paixão como uma transgressão exemplar, de direito, como valor. A nossa paixão erótico-sexual. Pensar amor. E o prazer surge e se afirma como direito, sem culpa. Estar enamorada, desafiar instituições e buscar outro valor. A natureza do amor reside nisso, em não ser apenas capricho pessoal, mas movimento portador de projetos. Estou acostumada a medir cada coisa pelo padrão do tempo físico do relógio (com lente de aumento). Esqueço que na sexualidade extraordinária do amor, o tempo é diferente. A minha saudade não conta os dias, mas se agarra na lembrança do teu corpo, no suor, no cheiro, no desejo. Para nós dois, agora, uma noite juntos corresponde a mil ou dez mil anos. Neste estado tem-se, exatamente, a eternização do presente. O impulso vital à procura de novos e diferentes caminhos. A sexualidade se transforma, explora a fronteira do impossível. Horizonte da imaginação. Da inteligência à imaginação, ao ardor como explorou Vladimir Nabokov, direto à paixão: desejo de te beijar inteiro. Ter – te outra vez, deixar – me tocar, apertar. Beijo queima o corpo.  A fusão da paixão subverte, transforma, rompe laços anteriores. A força revolucionária de Eros restrita a duas pessoas. Assim, quando te penso eu sinto cheiros que não sentia antes, percebo cores e luzes que não via habitualmente. Ainda quero assistir o filme pictórico contigo. Nossa vida intelectual se amplia, percebo relações anteriormente inexistentes e obscuras.  Um gesto, um olhar, um movimento, percebo teu passado, infância. Sorrindo neste momento: eu te vejo arrumas as roupas para a viagem, colocar na mala os sentimentos para usares comigo. Posso compreender teus sentimentos, os nossos. Posso sangrar, mas sigo no desejo. Intuímos, tu e eu, o sincero e o falso, nos tornamos sinceros. Eu te espero. Tu me esperas. Estamos prontos, os dois. Ah! Meu querido! Desejo de estar no corpo do outro, um viver e ser vivido, fusão de corpos que se prolonga como ternura pela fraqueza, ingenuidade, pelos defeitos e imperfeições, assim amamos. Posso aceitar as desculpas, o pedido de perdão… Eu agora estou apaixonada. Identifico as mãos, a forma do rosto, a massa quadrada do teu corpo, a voz, o teu nariz, a boca, o cheiro. Os sinais. És tu, somos nós. Perdoa se te escrevo num mar tumultuado de contradições de perda e encontro. De saudade. A espera de uma hora se converte na espera de anos, de séculos. A nostalgia do instante da felicidade… Basta uma breve separação para ter certeza de que és inconfundível. Eu te quero do mesmo jeito que tu me queres, sem relógio, existe apenas a urgência do abraço, do beijo. Não há palavra, mas toque. Chegar indo embora… Então, volto a te imaginar. Divido casa, comida. Também o rádio, o futebol, a música e o meu silêncio. Estamos, os dois, juntos, lado à lado, no mesmo espaço, no mesmo mundo, diferentes, juntos, nós. Quando o fruto aparece, a flor desaparece. Nós nos propomos coisas irrealizáveis. Posso pedir felicidade, mas felicidade não é uma coisa. Posso perder minha medida. Posso comer bem se assim te agrada, mas se estou/sou apenas eu, não me importo. Para te encontrar e ficar contigo, estou disposta às viagens cansativas: dormirei nos teus braços tão logo chegue. Não comer, não dormir não importa, agora. Nada me cansa porque estou feliz. Talvez no dia a dia eu não suportasse viver assim, mas agora, agora respiro. É essencial eu te encontrar. Por isso, se me chamares por/ao telefone, tão logo leias as minhas cartas, estarei /irei correndo ao teu encontro. Não há contabilidade possível. Confissão e absolvição. Eu te amo nesta corrente. A exploração do possível, o esforço de chegar… O perfeito é estar no teu abraço, quieta. Elizabeth / Eliza / Liza M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

sem sol

Torres, amanhece sombrio e lento, lento e esquisito como pode ser esquisito o tempo de epidemias e medos e inquietudes. Onde o bom senso e a lógica? Em círculos, enfeitiçados pelo medo… E o príncipe não chega, nem a rainha acorda, o ditador dormiu, a luz se escondeu, o sacerdote boceja. Feiticeiros gargalham… E o povo acorda, dorme e se reproduz como se a vida fosse mesmo comer, beber e copular. Esqueci a música. Voz e tempo se diluem: mais cedo termina o dia, mais depressa adormeço. E acordo estupefata. Por que outro dia? Quero outro mundo, outro caminho para ser eterna.

Impaciência e cansaço crônico. Zero vontade para limite. Cercas me aborrecem. Cercadinhos gramados, floridos irritam. Conversas fúteis e adocicadas da/na mesmice. Ah! Se a raiva explodisse a solução! Gritos com pernas, braços decidem o que fazer. Não tenho paciência para disputas amorosas, desencontros esquerdos. Quero o amor pacífico e silencioso do prazer intenso e da beleza transparente, líquida. Tintas coloridas assumem o mundo: pinceladas esquerdas, ou contínuas, interrompidas ou desenhadas e lá está…Elizabeth M.B. Mattos (10/01/2021 06:29:31)

casamento

Porto Alegre, 9 de fevereiro de 1968

Tenho desenfreada paixão pelo dia 9. Talvez por ter nascido no dia 9 de setembro (9) morado na casa 229 da Vitor Hugo, e o telefone era 32479 e o pai também tinha uma numerologia que recai no número 9… Curiosidades estranhas da memória. Em 1999…, vou contar a história outro dia.