palavra passado e Melanie

“Estamos quase submersos em neve aqui. Tudo está coberto de neve e o país está bonito de ver. Eu gostaria de poder praticar esportes de inverno, o que subentende o desejo de ser trinta anos mais nova. (Mas não tenho tanta certeza se realmente ia gostar disso. Já tive trabalho demais para chegar aonde estou – isto é, ficar tão velha quanto sou.” (p. 276 Melanie Klein in O MUNDO E A OBRA de Melanie Klein de  Phillis Grosskurth

Parodiando …, está ficando calor aqui, sem vento, como se tudo estivesse, por um momento imobilizado. Estrelas carregadas de luz. Bonito isso. Devo estar na alegria completa. Viva. E, por um momento,  … volto a Melanie. O desejo de ser trinta anos mais jovem, ou seja, voltar no tempo, ou viver no campo en Provence, no interior da Escócia, no Japão, ou Inglaterra, ou ter um mar particular! Ela sem guerra, eu no sonho.  Transitar na fantasia. Ou voltar para o Rio de Janeiro. Ou milhões de desejos que ter menos trinta, ou trinta e cinco anos propiciaria, penso: Já tive trabalho demais para chegar aonde estou – isto é, ficar tão velha quanto sou. Trabalho /  vida  / conquista / realização,  e censura / contrapondo, vamos incluir, sucesso. Envelhecer é tempo limitado,  mas fazer outra vez, outra vez, outra vez, ter consciência de quem somos … , sucesso. Vou seguir pensando. Elizabeth M.B. Mattos – setembro quase terminando. 2018 em Torres

Japão e Inglaterra

Tóquio, capital econômica do Japão, é a perfeita mescla do novo com o tradicional Com santuários xintoístas e um palácio imperial que se misturam com os clubes de karaokê e convenções de mangá, é possível praticar japonês com os moradores nas lojas no bairro de SHIBUYA DISTRICT, onde fica o novo e confortável centro de idiomas.

E eu fui, … e vi. E me apaixonei: a mania/magia louca de me apaixonar chegou ao Japão. Visita/ viagem imaginária,  o neto no bairro Shibuya District, eu a fotografar cerejeiras.

BOURNEMOUTH …, e estou indo pra Inglaterra. “Um dos destinos  de verão preferido pelos britânicos. No charmoso pier em frente ao mar, você poderá escolher um dos muitos esportes náuticos disponíveis, além de visitar acolhedores cafés, mercados de rua e lojas sofisticadas. Nossa Escola EF está bem perto disso tudo!”  EF Cursos de Idiomas no Exterior para adolescentes e universitários.

As fotos inglesas ainda não tenho, mas já estou a preparar a mala. Fico exausta! E meu francês não me salvará, outra vez o neto há de intermediar. Com Valentina, certamente, irei a França …, e para ela, será Paris ou Limoges, …ou iremos para a Bretanha. Assim eu viajo. Isso é bom. Apenas com eles. Sou tão enraizada em mim mesma! Elizabeth M.B.Mattos

asas e liberdade e idiomas e sair / voltar e amar

Em frente ao mar na Inglaterra, … desta vez perto do mar. No Japão o meu mar eram as cerejeiras.

Le ruisseau

Le ruisseau

Beaucoup d’ eau a passé sous les ponts

et puis aussi énormément de sang

Mais aux pieds de l’ amour

coule un grand ruisseau blanc

Et dans les jardins de la lune

où tous les jours c’ est ta fête

ce ruisseau chante en dormant

Et cette lune c’est ma tête

où tourne un grand soleil bleu

Et ce soleil c’est tes yeux

 

(p.60)  Jacques Prévert

Histoires  poèmes de Jacques Prévert et André Verdel

lire, Le Tendre et Dangereux Visage de L’Amour

[…] c’ est qu’il m’a blessée

blessée au coeur

et pour toujours

Brûlante trop brûlante

bleussure d’ amour

(p.67)

Frank Wan para Elizabeth Menna Barreto Mattos
Obrigada Frank Wan pela tradução.

O riacho

Muita água passou sob as pontes
e também muito sangue
Mas aos pés do amor
Corre um grande riacho branco
E nos jardins da lua
em que todos os dias celebramos você
este riacho canta dormindo
E esta lua é a minha cabeça
onde gira um grande sol azul
E esse sol são os teus olhos.

Jacques Prévert
Histórias e poemas de Jacques Prévert e André Verdel
ler,

O terno e perigoso rosto do amor

(…) me machucou
machucou meu coração
para sempre
a ferida do amor

Gerenciar

 

indiscreta velhice

1.

Escrevo às pressas. Tento te encontrar, não estas. O sábado amanheceu gelado e cinzento. Café forte, piano e o poema de Bertolt Brecht

Fôssemos infinitos

Tudo mudaria

Como somos finitos

Muito permanece

Leio tua carta que conta do leilão no Rio de Janeiro. Não fosse minha vida atabalhoada, correria para teus braços. Tempo de mergulhar neste mar, caminhar nestas areias. Coisa de meninos. Esqueceste de contar do hotel, do café, e dos jornais lidos. Sinto saudade da minha carioquice, da ponte aérea, de Buenos Aires e muito, tanto de Montevidéu, da casa em Carrasco. Avisei  os meninos da tua impossibilidade de visitar, da tua pressa. Ficaram desapontados. Trabalho bastante. Ontem uma curadoria especial montou a próxima exposição. Sucesso certo. O evento trará o moderno contemporâneo conversando com duas gerações. A galeria preta, toda uma concepção de luzes especiais. O trabalho reduz/diminui o tempo que fico longe de ti. Estou a procura do apartamento para melhorar a vida andarilha. Cavernas que se comuniquem …  Ontem fiz um assado com  batatas, gostarias. Abri a última garrafa de tinto. Escrevi cartas. Conversei com os filhos, os teus, os meus e voltei ao piano. Alguém me perguntou por fotos. Não temos fotos juntos. Tenho que te contar que rejuvenesci  ao criar uma livraria dentro da própria galeria. Trabalho com três editoras para abastecer as estantes. Sinto uma enorme sede de leituras demoradas. Sede e ansiedade neste fazer crescente. Idéias se desdobram … Não preciso dizer da saudade que sinto dos teus afagos, tua mão no meu corpo, teus beijos à beira do fogão, e nossas loucuras amorosas pela casa. Então eu danço para ti . Somos o mesmo ritmo. Não imaginas a enorme fantástica chuva! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018

Gaivotas de Walter Galvani

Desde o primeiro encontro com as metafóricas gaivotas eu me debruço no sentido exato da crônica, e de toda atenção, cuidado a ser mantido. Agarrar tema e escrever. Rotina de trabalho, a dedicação ao que de fato é sério, escrever. Escrever. Não bastam ter idéias descosturadas, voejar sobre sentimentos, num agora fugaz como eu costumo fazer. Sei que as gaivotas querem, perseguem um objetivo de urgência. Nesta urgência e precisão está tudo o que importa para escrever. A crônica como relato do agora. Atual, retrato, específico e universal porque caminha pelo que a todos interessa. A fotografia certa através do olhar particular do cronista certo, e que se faz reconhecer. Quando escrevo escapo da rota, do caminho. Sem disciplina, sem trilho, sem fome, ou mesmo faminta não consigo ver nada. E sequer consigo manter-me perto do mar como as verdadeiras gaivotas.

Como já  prometi, pretendo mesmo repassar teus escritos, rever o dito, espiar os temas (atrasados porque não é mais, não é mais o dia da saudade, não é mais carnaval, embora os blocos ainda estejam nas ruas sambando este louco ritmo de poder como diria o velho amigo Iberê, repassar e voltar para responder), o trabalho feito, o material todo sobre a alma da crônica para escrever. Tenho que fazer. Fico a pensar nas inúmeras tentativas do Paulo Hecker Filho quando me respondia a cartas desesperadas, escrevia atrevido, última chamada para o planeta terra, para o que poderia ser lógico e coerente. Escrever tem este lado alucinado de um escrever por escrever, assim desgovernado sem nada dizer. Um monólogo perdido, sem a voz do mar a perguntar, ou responder… Uma gaivota desgovernada. Conversa escondida. Então não é mais crônica. Ou quem sabe a crônica solitária. Loucura estufada, implodida.

Não enviei o dinheiro do mês passado. Nem sei mais o dia que corresponderia ao critério mínimo de uma conversa produtiva. No teu último bilhete me ofereces a organização que peço numa frase desesperada, ligeira logo acima. Estou sempre no pedido de socorro, mas sei que joelhos doídos, pedras, tropeços, tempo, nada podem ser obstáculos ao fazer eu mesma. Quero o produto feito, o pacote com fita e tudo… Ainda não cresci. Crescer é assumir: difícil! Fico aqui teclando depressa porque logo vou limpar aqui, organizar ali, levar a Ônix pra passear, fazer o almoço, sentar-me a ler. Pensar. Escutar música. Perder tempo! Sabes o meu mais novo brinquedo e prazer? Escutar velhos discos de vinil. Selecionar a música francesa, que não é música é palavra como te contei. Ouvir o piano. Descobrir que neste disco está inserido um tempo perfeito, e que aquela capa, só ficou a capa, levaram o disco, e penso que talvez encontre pesquisando nos sebos. E quando me dou conta já é noite. E a noite não tem sido amiga, fica a espreitar. Assusta. Pede o sono. E fico a escutar os ruídos estranhos que estão na cabeça da gente … Então fecho os olhos insistindo no tal sono que não chega. Acordo tantas vezes, e levanto bocejando. Já amanheceu tão depressa! E eu esqueci de fazer mil coisas, ler os livros, terminar de folhear as revistar, tirar o pó, ligar para a irmã, pro filho, saber do José, do Luiz e da Magda, ou da Sandra, dos bebês que nasceram. E já é de tarde.

Vou parar aqui e organizar a matéria das leituras. O tema. Como vou agarrar o tema? Eles estão como bolhas estourando, aparecendo e desaparecendo dentro do balde enquanto fervo os guardanapos. Fazer antigo este! Um beijo para meu amigo Walter Galvani. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 Torres

velhas leituras

Como reagir agindo e seguir o mistério. O sentimento se repete …, e o mundo não é uma realidade objetiva, mas uma fantasmagoria como nominou e pintou Iberê Camargo. Uma fantasmagoria povoada com medos e desejos. Volto ao Amós Oz “[…] uma sensação, uma espécie de voz essencial e longínqua que só quer se fazer ouvir quando estou sozinho, sem pessoas comigo, sem esses desejos ruins, sem essa minha loucura de causar boa impressão e de eletrizar e de surpreender o tempo todo e de me gabar, e eis que o milagre já aconteceu quando fiquei calado, quando me acalmei, quando disse meu Deus, o que sou eu, porque me deixaste viver, para que sou necessário e numa hora dessas vem a resposta simples do silêncio da luz e do pó das montanhas do vento e a resposta é pergunta, é o silêncio: não tenha medo, menino, não tenha medo.” (p.141) Amós Oz –  Uma Certa Paz. Alucinada esta busca do perdido …, daquilo que foi dito na emoção e na paixão. Então eu me pergunto se esta frustração, este silêncio que se já se disse ensurdecedor seja o resultado, o final. Vontade de voltar ao abraço. Tão e muito. Igual e repetido. Já contei este sonho. A mesma memória. Uma figura risonha, jovem, bonita. Olhar castanho, confiável e terno. Eu me ajoelhei, menina, para escutar o que dizia e deitei a cabeça nas pernas dele. E era eu hoje, e ele jovem. Foi boa a sensação. Conforto. O mesmo prazer do beijo. Como se fosse um beijo. Foi só encostar a cabeça, e já era um abraço. Acordei. A vida se arrasta em repetições, às vezes embaraçosas. Se fazer de forte, mesmo não sendo. Esconder coisa nenhuma, a negação da narrativa. Medo danado de ser ventoinha, cabeça vazia, pandorga, pipa, balão, ou coisa nenhuma. E assim abraço as urgências num aperto. Venço o medo e a estranheza.  Fecho janelas, portas. As gavetas. Fico dentro da caixa, escondida e tão visível! E aquela dor que se espalha como atômica. E tudo é apenas imaginação, visão. Vontade de ficar e não remover a pedra. Mas, não imaginas como gosto do sonho. Entro no sonho castanho de ficar ao teu lado. Lugar seguro de acalento, sossego e amparo. Dividir é o jeito de seguir. Mas não consigo te tocar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 . Desculpa se estou a me repetir e contar as mesmas coisas. É o vento. Ventanias da primavera em Torres que fazem o mar voar, avoar e acinzentar, mas hoje faz sol. E o azul na lagoa crespa. E o verde …, o verde e o vermelho nas amoras.NELSON RODRIGUES e UM HOMEM

visões do paraíso

…, que falta  me fazes hoje! Ou da imaginação, da possibilidade, da coragem, da fantasia. E tudo se concentra naquilo que não aconteceu, mas existe, és tu. Que falta eu sinto de ti! Elizabeth  M. B. MATTOS  – 2018 TORRES

Ele continuava tentando convencer a si mesmo de que ainda se amavam. Em seu diário, minimizava tudo o que havia de errado entre eles e insistia na felicidade basicamente imaginária dos dois. Tamanha é a necessidade de amor. Faz com que os homens tenham visões do paraíso e desprezem o fato, patenteado pelos olhos, e ouvidos, de que estão no inferno.”(p.235) Salman Rushdie  Joseph Anton MEMÓRIA