O que eu amava

Segunda-feira silenciosa e morna. Ondulam, visivelmente, temperatura e humores. Remexo nas caixas, nas fotos. Procuro pinhas de duas cores e tamanhos diferentes, e outras coisas mais esquisitas, um coelho. Coisas indefinidas, escondidas. Procuro o sentimento fantasia. Esperança de ser/ter tempo. Transcrevo sonho e vontade. Pacote selado dias especiais, festejos. Cotidiano interiorano. Minhas caixas. A saudade não é visível. Não guardei versos nem prosa sobre lareira medieval de pedras rosadas e talhadas. Não lembro do vento verde de mato horizonte, nem das minhas árvores floridas entre jasmins. Esqueço a escada. Corro patamares da casa da Vitor Hugo. Estou em Petrópolis. Escuto o piano, vejo as teclas. Os dois cães pretos espiam esparramados de preguiça na vigília da manhã. Estou lá, não mais aqui querendo sol na babilônia dos meus vasos aquecidos / esquecidos depois da chuva.  Pinhas diz o poeta, pensa saudade. Pinhas catadas, viajadas, esparramadas… Segredos pequenos, fechados em buil zipper: segredos presos nos sacos com zipper, clipes, grampos, sacos feitos na medida: vida empacotada que andou do campo pro mar, do mar pra cidade, pra cidade pras caixas ventiladas por venezianas, espremidas, construídas.

Volto ao livro da Siri Hustvedt O que eu amava, detenho-me na capa que traz uma tela Jean-Siméon Chardin (1699-1799): estou nos museus que nunca estive. Estudo arte, escrevo, sofro, construo instalações: caixas e portas, pinhas e livros. Movimento as dores, as cores, e as pessoas, toco em feridas abertas. Fecho a porta do meu quarto, o silêncio não vem. O silêncio, eu perdi…

Não escrevo, penosamente transcrevo:  “Eu não quero que as palavras cheguem nuas, como chegam pelo computador. Quero que cheguem cobertas por um envelope que você vai ter que rasgar para poder tirá-las de lá. Quero que exista um tempo de espera – um intervalo entre o momento da escrita e o momento da leitura. Quero que a gente tenha cuidado com o que diz um para o outro. Quero que os quilômetros que nos separam sejam longos, reais. Essa vai ser a nossa lei – vamos escrever sobre o nosso dia-a-dia e sobre a nossa dor com muito, muito cuidado. Nas cartas, eu apenas conto a você sobre o meu desespero, não é o desespero em si que vai à carta. E eu estou enlouquecida. As cartas não podem berrar. Os telefones sim. […] Toda a correspondência é crivada de perfurações invisíveis, pequenos buracos deixados pelo que não foi escrito, mas foi pensado.” (p.213-214) Siri Hustvedt

Agora, meu amigo amado, escrevo ansiosa, fora do palco. É preciso secar o pânico, a tristeza do desânimo, a síndrome escolhida. Reler tuas cartas: os rótulos e padrões são destruidores. A beleza não termina, muda de forma. […] Tuas palavras são de quem ama […], uma explosão de desejo, […] a única trilha que mereces. É a alavanca de mudar o mundo […] mundano jeito de viver. Louca / distraída / apaixonada / perdida ou achada, eu te quero. Todos os dias o medo terrível que abras a porta. Tens a chave. Abras a porta numa hora desavisada em que a camisola não esteja perfumada, que o tapete possa estar tomado de álbuns de fotografia, caixas e sapatos, e a mesa entulhada, e a pia cheia de louça e copos, as camas desfeitas, a música alta demais… E eu grite de susto, não do toque. Depois enlouqueço no teu beijo. Quantos beijos necessários, como posso recolher os perdidos? Acabei de reler tua carta. Um encontro físico agora, não precisamos, enquanto isso… Todo o ‘fazer bem’ substitui qualquer dúvida. Faz bem! Não pensar! Fazer! Ler, ouvir, fazer silêncio – menos gritar – nunca discutir – são antídotos que arrepiam deliciosamente. Aproveita! Não questiona! A adolescência empurra para a maturidade, como é bom sentir os puxões rumo a adolescência

Tudo lento como se estivesse curvada, às vezes acocorada, usando meus bifocais a catar ensimesmada tuas palavras, teu sentir, teus arrepios. A carta aberta com cuidado por ti, com certeza rindo de mim. Saltará uma boneca de papel com as roupas, um desejo, um beijo materializado. Coisas esquisitas, no fundo uma perdida manhã de carnaval, ou uma segunda-feira de sol. A chuva empacotei também. Amigo-conhecido, desconhecido: fecho a caixa, posto saudade indefinida, queimo pinhas no fogo aceso da lareira, bebo o vinho. Como te amava, como me amaste eu vou te amar…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres

uma volta no tempo das fotos

Se falta ar / se aperta / se não compreendo nem entendo, olho fotos / viajar pode dar certo… Beth Mattos

Santo Ângelo, na casa da Mariazinha e do Telmo
Com Vera Mattos, minha madrinha na casa da rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis
Torres, veraneando com a Magda Franciosi, na SAPT
patota de Petrópolis, aniversário da Magda

do amor que sinto por ti

Amor deveria ser desmaterializado, como fantasma, imaginação. O amor não deveria ser justificativa disso ou daquilo, nem andar solto por aí a enfeitar cadernos, ou estar nas gavetas. Do amor, se amor fosse o nome deveria ser servidão necessária, completa e obscura. A servidão que abre espaço para o outro ser e respirar e fazer até crescer. O amor tem / deve ser silencioso, manso e cuidadoso, quieto. Agigantado fica musculoso, cheio de poder! Toca o céu, mergulha fundo demais ou no escuro ou na luz, devastador. Engole tudo e termina acaba por triturar aniquilar o que pretende amar. O amor não deve existir como astro, ou como selo, ou como explicação para toda e qualquer loucura. Se colocar no lugar da pessoa a fantasia colorida, saímos a dançar. Desaparece o desejo físico, o tesão. Desaparece o alucinado desejo de querer se satisfazer/ ou satisfazer. Permanece / fica/vira encenação para ser aceito/a entre todos, para exibir no baile, nas calçadas, entre amigos, no bar. O performático atuar / representar destrói qualquer possibilidade de satisfação, tira do foco / exclui o sentimento. Tira do foco o desejo, a tesão. Se necessários / importantes são estes artifícios: passeios imperdíveis, viagens extraordinárias / incríveis/ cenários suntuosos, cuidado! Desconfia. O sentimento desaparece. Os pretextos se transformam em essência. Fantasia e malabarismo nada acrescentam. A igreja, o altar, os convidados, a pompa da cerimonia, a tal mencionada / sonhada viagem, o banquete, e as pessoas também são acessórios luxuosos, supérfluos. Este cenário camufla / esconde / atrapalha / abafa os gritos, as risadas: tira a fome, afoga, aprisiona no vazio. Eliminam a dor. As palavras matam, assassinam. Se fosse possível desmaterializar o sentimento, desvirtuar (tirar o véu da virtude/destas mentiras formais / convencionais), deslocar, eliminar palavra. Nós nos jogaríamos um nos braços do outro naquele gramado, naquela praia, naquela praça, naquela cama. Tu e eu, eu e tu. Vejo, sinto, pressinto, sinto outra vez, desconfio do amor. Já tirei a roupa, já me deixei tocar e beijar. Subi as escadas, desci as escadas. Vesti o estampado de verdes e avermelhados, o mais curto, depois o mais longo. Usei decotes insinuantes. Uniformes e meias escolares. Andei nas pontas dos pés, unhas pintadas de vermelho (porque eu gosto). Calcei os sapatos com saltos altíssimos, e as sandálias brancas. Encontrei as botas… Sentei sem modos, cantei nos teus ouvidos desafinando. Ensaboei o corpo para que tu pudesses sentir o perfume e me pentear depois da chuva. Embarrados, afundando os pés e cavando com mãos para plantar cravos, violetas no canteiro das rosas. Ah! O que choramos, o que gargalhamos já esquecemos. Não é amor, somos nós dois do jeito que somos. Inventamos. Experimentamos. Desafiamos, descobrimos o corpo um do outro. O mundano dos excessos a escandalizar os vizinhos puritanos deixamos / permitimos o tesão desejo alucinar. Homem / mulher/ criança juventude/ velhice / desesperança ou…, tudo igual. Exausto sentas na frente da televisão, aumentas o som, procuras o canal dos jogos, os teus preferidos, abres a cerveja nem tão gelada… Vou saindo devagar e eu te espio, dormes na cadeira, os sapatos jogados, a camisa aberta (esqueceste de fechar os dois botões, o rasgão do arame farpado parece maior… E ontem estavas tão elegante para viajar!

Ah! Esqueci de te dizer que comprei os chocolates para a Páscoa – terás o que distribuir. Não sou a mulher mais bonita, não sou a mulher mais inteligente, não sou intelectual, ou especializada, se vasculhares nas minhas gavetas e remexeres e procurares vais encontrar pedaços engraçados/divertidos de te amar, desejar, fantasiar e fugir… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres (já estou na praia, outra vez)

https://amorasazuis.com/2021/03/24/32956/

O fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera é um musical composto e co-escrito por Andrew Lloyd Webber, baseado no romance homônimo de Gaston Leroux. As músicas foram compostas por Andrew Lloyd Webber, com letras de Charles Hart e letras adicionais por Richard).

confessar e pensar

Ao confessar se desvia, ao contar se esconde. Quando diz…, esquisito! Eu completo, e me engano, tu acertas, eu me surpreendo. Sou o que desenhas na tua lembrança/memória, e gosto de mim quando estou em ti / contigo. Volta logo. Simenon escreve/diz que uma pessoa não morre enquanto permanece viva na memória de alguém. Estico os dedos, as mãos, os braços e posso te sentir, tocar porque te penso… Beth Mattos – março de 2021 – Torres

“[…] un être ne meurt pas tout à fait tant qu´il reste bien vivant dans le coeur d´un autre” George Simenon – Memoires Intimes – suivis du livre de Marie -Jo

do passado

Existe o tempo, aquele tempo que não espera, existe uma estória, uma história -, e na verdade não esquecemos nada, nada, nada, nada. O passado segue hoje. Pois é assim… (te apressa)

Apenas continuamos a caminhar. E os fatos atropelam: precisamos reagir, sobreviver. Sem machucar ninguém. Ninguém. (difícil, eu sei)

E se vamos levantar a cabeça, sair, esquecer, recomeçar, igual seguir, ou começar, o tempo volta, e nos atropela. Será a memória um bem, um mal, uma permanência? Beth Mattos – 25 de março de 2021, em algum momento desaparecemos.

comigo ou sem migo = o mundano da vida

Rio de Janeiro 1976/ 1975 – Viúva Lacerda – Largo do Humaitá

Espetáculo, palco e vida na plateia, contigo (escolha minha/ gostaria que tivesse sido tua), sigo a linha e a tua voz, tuas inquietudes positivas, teu agora… e esta tristeza enfiada no quarto, na sala, distraída e revolucionária. (24 de março de 2021 – vacinada em Torres)

Aquarela de Marina Pfeifer / março de 2021 -Florianópoles – mastercopy do aquarelista John Yardley

1.

Reli as confissões, não exatamente confissões, estas deixo com Santo Agostinho, digamos, relatos atropelados, tuas grandes e boas histórias salvas na minha memória. Claro, não te perdi em nenhum momento, e te encontro/reencontro em outros tantos momentos esquecidos, agora lembrados, (por que não fui seduzida, desencaminhada, ou achada por tuas artimanhas?). Colei o que escreveste, às pressas, na minha memória, arejei nomes e lugares. Aborrecida por não ser eu contigo. Nem eu comigo como sugeres. Não protagonizei nada. E, casualmente, fatalmente, estávamos, tu e eu, nos mesmos corredores. No mesmo palco, com os mesmos holofotes. Escutar tua voz, acertar os intervalos. Dançar, escutar Roberto Carlos, (Eu te proponho!) ou mesmo Aznavour, ou…, céus! Elis Regina. E dançar, assistir filmes arrastando as cadeiras, jogar cartas, e praia e praia e sol e sol. Fizemos tudo juntos, separados pela rede.

2.

Se agora aos setenta, bem, por/com sorte, aos oitenta, me fazes retomar / repensar / cuidar destas vontades reprimidas, deste tesão (vontade grande / desengonçada) guardado. Se alucino durante a reclusão confusa desta pandemia, sem data, sem atino, eu te gosto. Se pudesse esquecer tudo, pegar tua mão e fugir, se contigo ou sem tigo, eu sairia da tristeza? (Vamos lá rir de nós dois, consertar o passado, ouvir música no escuro.) Um beijo, dois, ou três beijos escondidos no breu da noite escura/preta/ estrelada; ah! O concerto de violinos, alegria musical, engraçada (?), não, alegria séria, seríssima, e ousada. Transgressora e, um pouco, ou muito satisfatória. Escondida de mim, escondido de ti mesmo, de todos, dançaríamos ou não, dançar não, mas provar desta estranheza de fazer o proibido, que pode ser livre, um agora, ora… Ou um escândalo amoroso…, eu espero: amorosidade = generosidade. Cúmplices. Numa adolescência compreensível. Com fantasia, agarrados no impossível, suados pela caminhada, desconcertados neste conserto com música, a música das tuas canções.

Investigo. Converso com Poirot, embora ocupadíssimo, abre a porta. Num envelope com data entrego mais uma mecha dos meus cabelos. Explico o assassinato, e num sorriso confiante, digo que foi teu conselho resolver este caso descabido. Ele me olha integrado. Resolve me atender. Explico que estava familiarizada, com o trabalho de Maigret, mas devido a preciosa indicação… Eu entregava minha vida aos seus cuidados. Contei em detalhes a tentativa de suicídio (não aconselhada por ti), e, logo, imediatamente, rechaçada por mim. Da tristeza do momento. Preocupação de deixar a pobre peluda, minha Ônix, desacorçoada a recomeçar a vida com outro dono, coloquei o problema da cozinha, dos quilos excedentes, e desta vontade ensandecida de te beijar, numa espera lenta de reviver a vida. Ele me fez sentar. Escutou paciente. “A sedução física, funciona e se mantém no mental…, imaginário.” Explico apressada, amor avassalador, leio em voz alta as cartas escritas por ti. Reflexões, e vou logo perguntando: Como posso curar esta loucura sem cometer outros assassinatos, sem invadir portões, seduzir cães para roubar-lhes o dono? Sempre os cães! E querer o que de fato/razão não me pertence. O gramado, o jardim, o calor, as alucinações. E já suada e ansiosa. Com medo da pandemia, das sirenes, e da polícia, que sem máscara me interpelaria… Sou eu mesma que cometo estas loucuras? Desatinos de morte? Quem está envolvido? Tantos desparecimentos determinantes e não mencionados / descobertos. Serei apenas eu a responsável? Preciso de ajuda.

3.

Aquela tristeza aguda da melancolia  trava qualquer alegria, e o ânimo se espicaça apático. Estou a me questionar o que significa alegria? Saúde.  Estarei doente? Uma coisa feia escondida dentro de mim, alguma coisa que não se explica. Dores de cabeça  ou qualquer coisa presa na cabeça, nos olhos, nos pés,  neste estado  permanente de desconforto… As boas e as péssimas energias. Frestas / portas   abertas…Toda força  desaparece, quero voltar para mim. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021

Foto de Ana Moog – março de 2021 – Praia da Cal – Torres

Não fiques triste!

 Ne sois pas triste.  Nous avons vécu un beau rêve. Vivemos um bom e bonito sonho. Eu me agitei. Sem certeza / com certeza. Seria/serei a pessoa descrita na tua carta? Ou projeção mal resolvida. Tão estupendo, mágico! Pensar que estarias em Torres… Não era/é possível voltar no tempo. A vida em carrossel, mimos aos meus olhos. Li e reli tantas vezes tua carta!

Escreves/descreves tua/teu personagem sublinhando o excepcional: quero colar tua imagem/ideia/descriçãocom a possibilidade de ser eu. Não sou embora possa desejar querer, profundamente, ser pedaço vivo da tua descrição e abraçar/ ser a mulher excepcional. Sabes bem destas coisas sonhadas / destas metas traçadas com o rigor do bom desenho: alcançar o topo, tocar naquele infinito impossível do sonho… Quando imagino, lembro, e te busco nas conversas, lá está o sonhador / o sedutor, e também o guerreiro. Tens o teu pote de ouro, cheio de moedas: teu jardim florido, e tua primavera particular. E nunca estás sozinho. Seduzida por tuas palavras desejo eu mesma voltar ao Amoras pelos teus olhos, e colorir com rigor e beleza. Tirar os vestígios mal resolvidos de uma solidão que grita mesmo estando povoada.

Com certeza despida. Aos teus olhos, nua. Sem pudor ou vergonha. Apenas eu. Entregue ao desejo de ser acolhida / compreendida. Para chegar à mulher passaste pela juventude da beleza soterrada, assim mesmo por inteiro exposta. Uma geração. Não apenas eu. Tantas jovens foram aos mesmos e privados jardins. Ironia? Eu tinha por natural a vida, respirar / ser / e aqueles mimos não foram sublinhados… Eu me deixei atingir na primeira curva. Nenhuma convicção da beleza. Aqui tu me aprisionas, tu me tocas, tu me seduzes como pessoa. Chegas na fragilidade da minha pequena vaidade, no meu desejo mais acirrado e forte: escrever. Escrever. Escrever. Este jogo com as palavras, ou a descoberta de provocar tocando…, e aproximar e estar, imediatamente, confundida com o outro no texto. Céus! Luxúria. Prazer Vitalidade. Comunhão. Numa frase. Ah! Como é bom estar contigo e te escutar, imaginar que somos feitos um para o outro posto que podes me compreender e me sentir como eu me imagino ser e te descobrir como pessoa, eu começo a querer te definir, invadir, também possuir. Estarrecedor! Gosto da palavra merci /obrigada: descrevo/sinto como o prazer da tua leitura. E deste gosto, ao fechar o livro, de intimidade. Eu te agradeço a visita. Eu digo obriga para teus gestos, teu carinho. Eu me sinto lisonjeada, uso a palavra LISONJEADA. Confusão.

Depois de ler tanto e tanto Anaïs e Henry Miller, apaixonada de amor pelo amor deles fiz questão de indo a França conhecer Rocamadour. Estas vontades gordas abraçam e nos motivam. Como eu te compreendo. E me sinto triste e culpada por ter sentido tanto medo. Medo da ElizaBeth que ias encontrar, distante daquela que imaginas existir. E aqui todas as considerações possíveis seriam/serão descrever minha pequena e insignificante vida torrense. Acompanhei tua caminhada. Estou contigo, ao teu lado, seguindo teu caminho que tanto me impressiona! Produtivo, inquieto. Teus projetos fervilham…

Descreves com beleza e com poesia teu lugar de confinamento. Lugar de conhecer a alma. Teu jardim / tua casa / teu tempo de aujourd’hui. Tua voz ecoa no meu pequeno estar. O sonho sonhado era / seria amoroso, não podia ser uma peregrinação de lugares a serem visitados, mas de intimidade. Talvez nem sequer desejada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

Não te acovarda! Parece impossível

Amanhecer agitado. Pandemia presente revirando emoções a remexer convicções. Corto / recorto o ciclo de pensar isso e aquilo. Caminho de um lado para outro prisioneira de mim mesma. Bom que chove, mas não é a chuva que me limita. Sou eu mesma. Mergulho / caio / tento/ experimento outra visão. Envelhecer, assumir estes anos que se encurtam, ou seja, programo novos fazeres, agir, rir mais e seguir com a energia misturada entre estupefação e certeza: continuar, não desistir, não me acovardar.

Respirar, respirar. Respirar. Estranho, demoro a processar esta coisa egoísta rígida de negar, negar, negar. Ontem um amor derramado / hoje aquela fome voraz impensada / depois o pedaço da angustia a ser engolido. Ligo o rádio. A música espanta. Olho pro amontoado de livros empoeirados. Quero alguém que me ajude…Socorro! Não sei o que não me deixa sentir o todo…Agradecer a saúde. Os meus. O positivo, o louvor… Rezar. Rezar. Eu ainda tenho fé? Aos pedaços a me estranhar. Abri um livro e encontro uma foto, um telegrama, e datas, e observações, volto no tempo: 1994-1995. Céus! Quanto significa tempo? Palavra esquisita / péssima. Já passou. Tantos encontros mais importantes, intensos ou fortes se fizeram vida. Esquisito choramingar. Por que um pode ser melhor que dois ou o três, ou o nove ou qualquer outro número? Se existe resposta…, e existe. O que importa é agora, o hoje, mas tudo passa pelo beijo, o carinho, o abraço a lembrança. Ou o dia se esfarela naquele zero / nada / vazio / negação. Se esfarela o dia. Deixei tanta coisa desaparecer atrás do meu sonho de escrever, escrever, ler, ler e nada disso se esgota. Fico atrás daquele sonho grande/ pequeno / espaçoso / constrangedor de te amar sem poder te tocar! No percurso a necessidade básica de empurrar os dias e responder aos sentires de tantos pequenos e amontoados amores. Amassar pétalas de margarida despetalada. Curioso estes esfacelamentos, prazeres e desvios. Que inveja tenho daqueles que entram/aceitam/vivem o inteiro, o completo. Conscientes por terem escolhido e saído do jardim depois de escolher a flor preferida: conseguem segurar/agarrar os espinhos da rosa, e com ela, permanecem até ao fim. Eu estou presa no jardim, entre muros tão altos! E sufoco com o perfume. Feneço/envelheço e não quero. Resisto. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

2.

Complicado sentimento, minha amiga esta coisa bizarra de envelhecer. Não é a pandemia, mas este mal resolvido sentimento de hoje / agora / do tempo/ fato, desencontro com a vida ela mesma. Assim, escrever fica difícil, um emaranhado de mal-estar entre os livros e os papéis, desordem interna. Desorganizo mais e mais a minha vida desorganizando os livros, as estantes, a sala, a cozinha, os quartos, desorganizando meus sentimentos. A precariedade me assusta. E nada me assusta, eu sei. A menina e a jovem amaciada pelos prazeres de uma casa, de uma família em movimento, de um tempo livre nas calçadas. Correrias entre cinamomos a perfumar. Apenas envelhecer dói. Tenho presa na memória a minha mãe altiva / inteligente / viva e corajosa. Ela era fantástica! A beleza se desenhou a sua volta, pelas pinceladas de arte que ela fazia/sabia/definiu e acontecia no cotidiano, entre as paredes da casa da Vitor Hugo -, sempre o melhor. Ontem pensei no meu pai e na vida que eles construíram, especial / fui anotando, semear, afofar, plantar e ver crescer. Um não daria um passo sem o outro. E a minha mãe, mulher definitiva. Forte. Não preciso dizer. Está tudo na biografia dela/ deles. Se eu puder um dia escrever! Mas era ela a poetisa, a artista, dela emanava o desejo de superar. Nos envolvia com o perfume, a doçura agitada e impositiva de que a beleza existe e importa. E tão pouco viver, e tanto o esforço de respirar! Saudade da minha mãe! E do meu pai… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – TORRES

O sol e o peixe /prosas poéticas/ Virgínia Woolf

Somos/estamos mais ou menos perdidos por aí, a querer nos segurar / prender / plantar as raízes em lugar definido. A janela distrai, engraçadas surpresas espiar os vizinhos que se sacodem no/ao sol, também eles procuram, e se refestelam nas conversas. Não saem de pijama nem de camisola. Fazem pose, esperam o tempo passar aproveitam o sol, a chuva, a lagoa, o poder. Casa nos dá privacidade, edifício exige convivência. E este humor tão mal acomodado se enrosca dentro de mim, ora imobiliza, ora sacode. E a leitura se empilha, os textos nos consomem. E os livros não lidos ficam exigentes. E lá se aproxima Virgínia Woolf (A vida e arte – Montaigne). Eu me agito com certezas:

Pois, para além da dificuldade de comunicar aquilo que se é, há a suprema dificuldade de ser aquilo que se é. Esta alma, ou a vida dentro de nós, não combina absolutamente com a vida fora de nós. Se temos a coragem de perguntar – lhe o que ela pensa, ela está sempre dizendo o oposto do que as outras pessoas dizem. Outras pessoas, por exemplo, há muito tempo decidiram que cavalheiros de idade de aspecto enfermiço devem ficar em casa e edificar os restantes com o espetáculo de sua fidelidade conjugal. A alma de Montaigne dizia, ao contrário, que é na velhice que se deve viajar, e o casamento que, sem dúvida, raramente se baseia no amor, está sujeito a se tornar, no fim da vida, um laço formal que é preferível desfazer” (p.15)

E eu fico a me perguntar onde estão minhas verdadeiras e intensas leituras? Num saco de verduras, numa prateleira de compotas, enfiadas num canto do armário, confusas, misturadas. E a música apertada nos discos de vinil ou no rádio, na preguiça de ser diferente, reinventar a forma. Estou pior. Então?! Pelo emprestado, forma, jeito, ritmo, e vontade, desafio. Quero espichar a vontade, esticar a tal alegria corajosa. Troco de país, investigo nacionalidades. Dou risada, escolho ora isso e depois aquilo. Ora, ora… Arrastar o gosto de ser brasileiro por voluntários sem pátria, não se trata de passaporte, mas de história. Envelhecer nos faz perder a identidade, ou encontrar. Arregaço as mangas e recomeço. A bandeira pode ser preta, amarela ou cor-de-rosa, as cores são internas, eu sei. Ando com vontade de sair por aí, claro! Está proibido, então eu quero. Até falar ao telefone, eu quero. Eu quero. Eu quero. Beth Mattos