Truman

 

Truman | Crítica

Ricardo Darín comanda co-produção entre Espanha e Argentina que faz rir e chorar com mesma facilidade
MARCELO FORLANI

Apesar do rosto de Ricardo Darín em destaque no pôster de Truman (2015), não é o ator argentino que empresta o nome de seu personagem ao longa do espanhol Cesc Gay. Truman é, na verdade, o nome de seu cachorro, elemento central que servirá de fio condutor à trama – o McGuffin tão caro ao Hitchcock.

Desde o momento em que Tomás (Javier Cámara) viaja do Canadá para a Espanha para visitar seu amigo Julian (Darin), o que se vê na tela é um filme que segue a cartilha dos projetos independentes de comédia dramática com pitadas de bromance (a relação heteroafetiva entre dois amigos).

Durante os quatro dias que passam juntos na Europa, os dois levam o tal cão para conhecer pessoas dispostas a adotá-lo. A cada casa, a cada bar, a cada parada, os dois vão revivendo e revitalizando sua amizade, que está com os dias contados e, mesmo assim, cada vez mais forte.

Trata-se de um filme carregado de emoções, mas sem pesar a mão para a dramalhão. Com a mesma facilidade que arranca risos do público, o cineasta catalão também faz escorrer lágrimas pelo rosto do mais duro espectador, algo que só é possível porque tem em mãos dois ótimos atores, cuja química é inegável.

Um belo ensaio sobre solidão, amor, amizade e despedidas, Truman é um belíssimo filme. Suas falas são precisas e seus silêncios, de apertar o coração.

Nota do crítico (ÓTIMO) críticas de filmes

Dois irmãos

Não é você a me espiar. Sinto. É o irmão que se aproxima… História invertida. Cabeças trocadas, outro corpo, outra vida. Dois a se juntarem num só. A mesma ama de leite, o mesmo medo, o mesmo vazio. Não é você ainda, mas a força dos sete meses que se lança… Eu importo? Ou competir importa? Não sei a diferença entre você e eu, e ele. Os irmãos, ambos pertencem ao meu imaginário.

Pedro esqueceu os óculos em cima da mesa. João deixou a rosa. Pedro trouxe um vinho. João a risada.

Dois irmãos dois afetos. Três amigos. Duas intimidades. A vida. Como explicar? Esta relação entrelaçada de angustia, tédio, carência, transbordamento, somos nós. E agora, um filme…

Truman, o filme que pode fazer chorar, o melhor, o diferente, o que pode nos impressionar. O bom cinema.

PrêmiosPrêmio Goya de Melhor Filme.

IndicaçõesPrêmio Goya de Melhor MontagemPrêmio Ariel de Melhor Filme Ibero-Americano

Um filme de Cesc Gay com Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi, Eduard Fernández. Dois amigos de infância, separados por um oceano, se encontram…

 

“É muito bom esquecer as coisas desagradáveis. Mas isso não as torna críveis, como não as torna justas. O senhor me ama mesmo de verdade?”

(p.48) Aventuras de uma Negrinha que Procurava Deus, George Bernard Shaw

 

Bainha Aberta

Importa o equívoco. Faz toda a diferença perceber o detalhe. A palavra sussurrada, o silencio a escutar. Entrar no universo do outro, sem sair do nosso, apenas estar lá por uns minutos, mas completamente, estar com o outro por inteiro. Derramar afeto.

A distorção da realidade, de Steve Jobs: “Não faça concessões,” importa encontrar o  resultado perfeito, “A viagem é a recompensa“. Como repete meu amigo Dado.K.C. No percurso da jornada, o prêmio. É a caminhada, a ideia, o sonho que nos move em direção a. Todas estas máximas recorrem ao amor. Acariciar, proteger, e confortar. Gestos cruciais para nossa sobrevivência. Então, o sorriso e a palavra importam.  Pode ser a evidência. Foi amor, ou descaso? O fazer acontecer, a conquista, e o desdobramento acalma a efervescente carência. É preciso trabalhar. Seguir. Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2016 Torres

 

Beleza emociona

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Chuva na beira do mar… Areia molhada encolhida, presa naquela sobra de mata Atlântica. Selvagem outono. Mar agitado, dançando frenético. Esta chuva leva, lava, abre o mar inteiro. Conversa com o vento.  Deslumbramento. Vestido cinza escuro. Esverdeado. Babados rendados. Espuma de sal, em cascata. Nove ondas. Volumoso oceano. As pontas do vestido nas pedras, sem areia.

Não fotografei o prazer abraçado no vento. Quero tudo pra mim: serra, mar, praia, vento, tempestade e chuva.

Ainda Steve Jobs

“Lembrar que vou morrer logo é a ferramenta mais importante para me ajudar nas grandes escolhas da vida. Porque quase tudo – todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo do fracassou ou da dificuldade – simplesmente desaparece diante da morte, deixando apenas o que realmente importa. Lembrar que vamos  morrer é a melhor maneira que conheço para evitar a armadinha de acharmos que temos algo a perder. Você  já está nu. Não há por que não seguir o que dita o coração.” (p.475)

Discurso de Formatura em Stanford, Steve Jobs in Steve Jobs por Walter Isaacson

Quando pensamos na fugacidade da vida nos alargamos no prazer de reencontrar, fazer acontecer, espreitar, arriscar. Importam os dois passos em direção a …

Quando as coisas se resolverem neste país, eu vou pra França, prometo.

Dado.K.Corbetta soma e sublinha, e eu agradeço: “Beth, teu cara é realmente inteligente, e pro ativo, a grande verdade é a finitude, aceita-la, e sabermos da nossa pequenez , me leva a crer que temos que viver o melhor possível dos nossos caminhos, com intensidade , coragem e criatividade.
Lutar sempre por nossos objetivos e busca-los sempre de uma maneira ou outra .
Deixarmos rastros na vida , nos torna mais vivos e plenos!”

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Manoel Puig diz…

Será mesmo?

Não há nada pior do que ficar calada. Mas eu, quando fico com raiva, fico bloqueada, e nada mais. Talvez aí esteja a diferença entre o homem e a  mulher, a mulher é toda impulso,  toda sentimento, e se deixa consumir pela raiva, em vez de dizer o que pensa. Mas, na verdade … nesses momentos eu não penso. Quando alguém me atropela, eu não penso. O sangue me sobe á cabeça, e nada mais. Uma reação tipicamente feminina. Por sua vez, um homem, justamente quando alguém tenta atropela – lo, é que se levanta. É preciso admitir isso, que a gente já nasce assim. Beatriz diz que não nascemos assim, que somos educadas assim. Eu acho que é coisa da natureza..

E é lógico, se a gente é atraente, é por causa da sensibilidade, da meiguice, então a gente não pode ser tão cérebro. Ou se é uma coisa ou outra. Senão não haveria atração entre sexos. Cada um contribui com uma coisa. Mas então não deveria dar – me tanta raiva quando alguém me atropela. E além do mais o consegue. Mas aí está o problema, o que acontece é que um homem de verdade, um homem superior, digamos, não superior a mim, porque então Beatriz teria razão e não tem, senão superior de outro modo… Bem, é melhor começar tudo de novo.”

(70-71)  Púbis Angelical, Manoel Puig, Círculo do livro: 1984.

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Depois do mal…

Oftalmologista, variações sobre o mesmo tema. Nada alterado. Fico surpresa. Os olhos, quietos, normais. Escolho uma armação nova, redonda, pequena. Para lentes multifocais? Insisto. Gosto desta novidade colorida.

Quanto tempo? Lerei aqueles volumes empilhados, ostensivamente, na mesa redonda? Não sei. Depois da doença a concepção de tempo se alterou, um dia tem sabor de mês. Mesmo assim durmo muito e, cedo. Fecho os olhos para o sono. Sensação inversa de perder o tempo. A cada noite vivo mais e intensamente para o dia seguinte.

Ontem, de volta, abri todas as janelas, e sentada na poltrona vermelha deixei as horas vagarosas, sonoras avançarem… O som do piano me acalmou, conversou, e se estendeu pela sala. Gosto da música que se movimenta nas cordas. Na mesa redonda, a caneta tinteiro, um caderno fino sem pauta. Um par de óculos. E a banqueta para apoiar os pés.

Emagreci. O corpo pequeno e leve acomoda melhor o passo. O movimento desenha beleza. Gosto de ter emagrecido assim sem fazer esforço. Bebo o mesmo cálice de vinho. Como o pão, a manteiga, o queijo. Sigo nas consultas intermináveis, exames estranhos, resultados demorados. Caminhadas longas, espichadas no entardecer. Vejo pessoas distraídas. Conversas de calçada.  Mansidão. Estou atenta. Sempre fui deste jeito. O jeito de dizer coisas devagar, pausado. Reajo, intensifico o som… Bernstein e Mozart. Perfeitos. Posso ficar o dia inteiro aqui olhando os minutos.

Paulo Sérgio, você esqueceu a ponte aérea? Aquele voo tardio para o Rio de Janeiro? Chegaríamos duas horas da manhã. Confraternização do atraso. Da alegria passarinhando. Como pode esquecer São Paulo? Não posso. O encontro, o suceder de encontros. O sol do verão. Chico’s Bar. Lagoa Rodrigo de Freitas. O corpo que conversa com outro corpo no mesmo ritmo manso da noite, na violência da tempestade iluminada, perfeita. Esqueci as palavras, mas não o gesto. Nem das voltas da musica. Quanto tempo esta paixão de alegria com alegria nos pertenceu?  Não esqueço você. Você imponente, possuído de amor…

O tempo se espreme. Gosto de lembrar. Imagino você sentado na poltrona, pernas esticadas. No copo redondo, amarelo, uísque.

Reencontro virtual porque você não veio me ver. Entre São Paulo e Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro. E o amar do amor.

Tempos difíceis! Você não veio.

 

”  –  Nesse dia eu ia pedir para vivermos juntos. Uma vez na vida eu me controlei, totalmente, e foi por você. Não podia conceber a vida sem você.” (p.134)

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Para a minha prima Odila, a boa lembrança…

 

De ter pensamento

“Se eu fosse pressionado a colocar um rótulo em meu pensamento político, eu o chamaria de quietismo pessimista anarquista. Ou anarquismo quietista pessimista, ou pessimismo quietista anarquista: anarquismo porque a experiência me diz que o que está errado com a política é o poder em si; quietismo porque tenho minhas dúvidas sobre a vontade de se pôr a mudar o mundo, uma vontade infectada de desejo de poder; e pessimismo porque sou cético, não acredito que, num sentido fundamental, as coisas possam ser mudadas. (Pessimismo desse tipo é primo, talvez mesmo irmão, da crença no pecado, isto é, da convicção de que a humanidade não é passível de aperfeiçoamento.”)

Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee. (p.213)