Um taça de chá

Ela corre como sonâmbula. Tapeçarias, quadros, degraus, lustres, hóspedes, garçons, camareiras, e coisas passam voando por ela.  Algumas pessoas olham admiradas, cumprimentam, estranham que ela não veja. Não sabe, não vê.  As pernas com uma rapidez inexplicável, escadaria abaixo. Corre sem destino.  Medo insensato, inominável.

É uma penosa morte. Esfriamento e congelamento pedaço por pedaço. Terminou.

Estou liberta. Esforço diário, contínuo para vencer ao apelo das chamadas confraternizações, reencontros. Afinal estivemos todos hospedados no mesmo hotel. Há que recomeçar a costurar, pedaço por pedaço os rasgos do coração. As exigências internas… Não é uma despedida, é uma espécie de morte. Olha para a xícara de chá quente. Sim, vamos tomar o chá.

– Como está frio hoje! Ou é esta bruma cinzenta que me assusta?

FILEIRAS Vitório Gheno

Vitório Gheno

Vitório Gheno homem-pintor de vida e produção intensa! Reconhecido artista. Retrata seu mundo com posição crítica. Aldeias Urbanas ou Ilustrações Gráficas de livros e revistas nos revela o melhor do artista. Retratos ou Crônica da vida cotidiana. É mestre. Nesta exposição da série FILEIRAS agrega e renova. Bom no traço, na cor. Artista completo. Hoje da GARAGEM DE ARTE rua Luciana de Abreu, 450 – Moinhos de Vento – Porto Alegre. O evento.

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Facebook: Nádia Meucci

Ensaiando

Se eu soubesse…Contaria as letras, escreveria azul.  Concordância verbal, nominal. Verbos, conjugações e subtrações. Multiplicações, frações. Humildade úmida? Discrição, incerteza. Vou ensaiando pensar.  Existem fotos, pincéis, paisagem e figuras, lápis, esquadros, papel.

Sentei no muro da casa. E comecei a contar  um, dois, três…Fechei os olhos. Quatro, cinco, seis. E não chegaste pra me explicar. Não vamos ao cinema Ritz…Hoje hoje é domingo, eu acho…

RECORTE

Busco a memória intacta, o passado ventoso. O frio… A geada branca e negra. E para que serve se não escrevo? Nada gruda no bloco de papel. Páginas soltas. Caixas. Veladas letras! Muitas palavras, mas nada dizem… Este tempo termina, recomeça, vai e volta. Então num beijo longo, num abraço quente vou acordar produtiva. Filhos adultos voltam às costas… Atentos ao amanhã explodem com vidas alegres, mãos dadas, caminham. Outras crianças crescem! É a ordem das coisas. Nascer, crescer e morrer… Então me debruço no peitoril da janela com aquele sorriso de prazer, e com abandono tranquilo de mãe feliz. Inspiro-me ao te escrever… Com sentimento de missão cumprida, acabada. Está na hora de viver outra vez dentro de mim. Gosto de redescobrir, de fabricar, de moldar e de pintar. Ouvir… Ouvir e desdobrar o nó daquela emoção. Ler cada vez mais. Assusto-me a cada revelação que me surpreende na mesma mesmice. Somos assim tão iguais, tão irmanados na violência, no amor, na traição, na paz, nos suados gestos de descobertas amorosas…  Na paixão, na indiferença e na traição! A fome, a sede. Inquietação, agitação e solidariedade. Não é espantosamente surpreendente sermos todos tão iguais e repetidamente iguais? Não existem paredes nem muros. Estamos sentados ou deitados. Sempre caminhando naquela imensa praça chamada mundo. Com granadas, com barras de ferro. Com raiva roubamos. A quem? Quebramos vidros, carros e ferimos pessoas. Mergulhamos nos lagos nadando sem rumo. Exaustos todos dormimos ali mesmo nos gramados comunitários. E aqueles outros se fartam de bolo, peixe e vinho… Engraçado! Vejo também os magros, sujos e acuados! As crianças abusadas… Todos na mesma cama verde! O Papa abençoa, o mar conversa… Há dança, música e encenação! Tudo aberto ao tempo. E lá estamos estupefatos. Como vamos carregar o teclado pra digitar? Teclar freneticamente contando o que é hoje. Mais tarde colocamos nas estantes estas histórias incríveis. Afinal quem é quem? Somos iguais: nem robôs, nem mutantes, nem temos poderes especiais! Ludibriamos!  Nos enganos nos escondemos. De um, de outro. Voltamos. Gritam palavras de ordem aos meus ouvidos! Não compreendo. Sinto frio e medo. Tanta desordem! Desigualdade? Não. É uma preguiça espreguiçada, acomodada. Deixamo-nos roubar cientes da incapacidade demorada de aprender, de reagir. Sucumbir parece uma ordem! É um fazer. Estamos todos de mãos dadas neste carnaval humano na grande praça… Apertados um contra os outros. Bom que posso ver meus filhos, meus netos, meus irmãos, meus amigos, meus pais, tios, meus amados… Todos juntos e libertos. Pode ver aquele monte, aquele da figueira milenar… A figueira vive muitos anos, não é? Debruçada no peitoril da minha janela imaginária vejo que estão alegres e limpos. Estão salvos. Salvos desta horda de estranhos humanos!

 

 

 

De volta às cartas

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Antônio Carlos:

Eu te conheci no livro O rapaz que suava só do lado direito. Gostei!  Agora Dançando com o destino, nas primeiras páginas, reencontros. Obrigada. Um dia Nelson Nonoai nos apresentou, falei com Resende e Yolanda. Obrigada por estares aí produzindo.

Fui indelicada contigo. Não te avisei do livro autografado…  As cartas… Ainda gosto tanto delas! Da velocidade envelopada, selos, carteiro. Tudo me agrada! O telefone é uma voz distante. Saudade do Paulo, do Hecker Filho… Não desapareceu, não. Ainda por aqui, mas sem dar cutucadas duras ou amigas, picantes e sustos. Porto Alegre 2013 diluída, mudada, agitada e silenciosa! Amigos bavards, amourex, cumplices? Vou abrir as portas, descobrir e então te contar. Estou lendo Dançando com o destino de Antônio Carlos Resende, o meu amigo autor. “A conversa dos amigos que liga terras e alma não é verdadeira. Sou um ser humano comum com dinheiro. Sou de direita? Sou de direita para não despertar meu pai, que jogou todas as suas esperanças em mim. Trabalhou, comprou terras, fazendas, dizem que passou pra trás dois ou três fazendeiros. Me apresentar como cara de esquerda apressaria sua morte. Vão querer o quê? Que se derrame sangue?” (p.144)Tanta coisa pra contar!

Nestes dez ou quinze anos fui solta, perdida e reflexiva. Busco a memória intacta, o passado ventoso. O frio… A geada branca e negra. E para que serve se não escrevo? Nada gruda no bloco de papel. Páginas soltas. Caixas. Veladas letras! Muitas palavras, mas nada dizem… Este tempo termina, recomeça, vai e volta. Então num beijo longo, num abraço quente vou acordar produtiva. Filhos adultos voltam às costas… Atentos ao amanhã explodem com vidas alegres, mãos dadas, caminham. Outras crianças crescem! É a ordem das coisas. Nascer, crescer e morrer… Então me debruço no peitoril da janela com aquele sorriso de prazer, e com abandono tranquilo de mãe feliz. Me inspiro ao te escrever… Com sentimento de missão cumprida, acabada. Está na hora de viver outra vez dentro de mim. Gosto de redescobrir, de fabricar, de moldar e de pintar. Ouvir… Ouvir e desdobrar o nó daquela emoção. Ler cada vez mais. Me assusto a cada revelação que me surpreende na mesma mesmice. Somos assim tão iguais, tão irmanados na violência, no amor, na traição, na paz, nos suados gestos de descobertas amorosas…  Na paixão, na indiferença e na traição! A fome, a sede. Inquietação, agitação e solidariedade. Não é espantosamente surpreendente sermos todos tão iguais e repetidamente iguais? Não existem paredes nem muros. Estamos sentados ou deitados. Sempre caminhando naquela imensa praça chamada mundo. Com granadas, com barras de ferro. Com raiva roubamos. A quem? Quebramos vidros, carros e ferimos pessoas. Mergulhamos nos lagos nadando sem rumo. Exaustos todos dormimos ali mesmo nos gramados comunitários. E aqueles outros se fartam de bolo, peixe e vinho… Engraçado! Vejo também os magros, sujos e acuados! As crianças abusadas… Todos na mesma cama verde! O Papa abençoa, o mar conversa… Há dança, música e encenação! Tudo aberto ao tempo. E lá estamos estupefatos. Como vamos carregar o teclado pra digitar? Teclar freneticamente contando o que é hoje. Mais tarde colocamos nas estantes estas histórias incríveis. Afinal quem é quem? Somos iguais: nem robôs, nem mutantes, nem temos poderes especiais! Ludibriamos!  Nos enganos nos escondemos. De um, de outro. Voltamos. Gritam palavras de ordem aos meus ouvidos! Não compreendo. Sinto frio e medo. Tanta desordem! Desigualdade? Não. É uma preguiça espreguiçada, acomodada. Deixamo-nos roubar cientes da incapacidade demorada de aprender, de reagir. Sucumbir parece uma ordem! É um fazer. Estamos todos de mãos dadas neste carnaval humano na grande praça… Apertados um contra os outros. Bom que posso ver meus filhos, meus netos, meus irmãos, meus amigos, meus pais, tios, meus amados… Todos juntos e libertos. Pode ver aquele monte, aquele da figueira milenar… A figueira vive muitos anos, não é? Debruçada no peitoril da minha janela imaginária vejo que estão alegres e limpos. Estão salvos. Salvos desta horda de estranhos humanos!

A carta está grande demais. Longa demais. Vou descansar um pouco. Amanhã escrevo contando a viagem ao Rio de Janeiro. Do livro que ficou me esperando… A volta de Azul (avião pequeno, rápido). Dos joelhos ardendo, dos cuidados da irmã. O sono… As sobrinhas, a menina Stella. Linda e risonha! Os médicos desencontrados, as amigas tagarelas, o repouso. Saudade engraçada da Onix, do Chima… Dos cães. Da fidelidade! As revistas Abril esperando. O aniversário da Magda.

O restaurante da Lizete Zepka rua Auxiliadora,248 – Los Reyes, luxo branco, importantes telas e a magnífica comida! Da exposição na Garagem de Arte galeria de arte da Rua Luciana de Abreu.  Vitório Gheno apresentará a sua série mais recente – Fileiras – resultado de suas inquietações a respeito do mundo escreve Nádia Raupp Meucci.

Das cartas que não foram escritas. Do Blog: amorasazuis.com

E também do prazer amigo. Da redescoberta! Chá no dia de tanta chuva e frio! Chá, biscoitos de chocolate, bergamota! De Santa Cruz do Sul. Do meu cansaço. Dos livros lidos. Do teatro São Pedro aos sábados! Dos joelhos que doem. Dos negócios feitos. Do desconforto. Da ausência. Desta inquietude casada com angústia! Dos filhos que viajam, da África, destes amores velhos e recentes. Volto a te escrever meu amigo!

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Revisão: João Brentano

Casa Lar

Casa, o inteiro. Nosso lugar onde um pensamento ou sentimento não sofre interrupções. Música, mar, cheiro de terra.

A solidão que se faz encontro.

O lar é a pura vida instintiva que funciona tão bem quanto uma engrenagem bem azeitada, onde tudo é como deveria ser, onde todos os ruídos parecem certos, a luz é boa e os cheiros nos acalmam em vez de nos deixarem alarmadas.Não é importante como passamos o tempo nesse retorno. O que é essencial é qualquer coisa que propicie o equilíbrio.

O lar é isso. Não há só tempo para contemplar, mas também para aprender e descobrir o esquecido, o enterrado, o que está fora de uso.” (p.357) Clarissa Pinkola Estés – Mulheres que Correm com os Lobos