Enquanto somos nós

Venta. Faz calor. E não é grande coisa para dizer. Virtual, aparentemente, segura esta festa do último dia do ano. Sigo separando velhas fotos, uma caixa para cada filho. Guardei a lembrança, cartões, cartas, pedaços de fita. Memória. Esquisito escrever sobre despedidas. O último ano, dia, este agora que entardece. Fecha um ciclo. E estamos desconectados com o que já terminou. Passou. Hoje é que importa. E será hoje quando abrirmos o livro, olharmos pela janela, e dermos o nosso abraço… O beijo. Sinto saudade. Sempre sinto saudade:  isso é velho. Que seja! Um bom 2016 para todos nós, enquanto somos nós, juntos.

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Fica teatral dizer não

Minha amiga,

Fiquei pensando: esta reclusão filosófica, esconderijo, fuga tem o porquê. Coisa mal resolvida, sentimento atrapalhado.  Pouco dinheiro, pouca vontade. Se eu tivesse outra vez a Vitor Hugo, se a situação fosse aberta pro movimento, se eu trabalhasse… Se eu vivesse! Se cachorro não fosse  importante. Se fosse ainda a Santa Branca, ou Santa Cruz do Sul. Ou Rio de Janeiro, ou  outra Torres, ou Porto Alegre da Independência. Seria diferente. Seria outro eu, seria outra pessoa. Seria o ideal. Antes as portas se abriam, as janelas escancaradas chamavam. O mar estava do outro lado. Mais fácil. Os pés iam direto para a areia da praia. A vida tinha gosto de quero mais. Não existia não, nem não posso, muito menos não quero. Agora é diferente. Dizer não é preciso, incomoda, aperta. Dói. Estraga tudo. Deixa de ser natural, fica teatral.

Tudo grudado na garganta apertando. Machucando. Publiquei. Engraço estas coisas de dizer, escrever pro estranho ler, o eventual, o que não está inserido, mas fica. De repente sabe mais das tuas histórias do que tu mesmo sabes. Dizer feito grito, no meio da rua. Parece justo, resolvido, como tirar a roupa. Feito. Não sei. Parece analisado. Foi tua carta amorosa a me consolar. Fu eu mesma a repetir, a voltar atrás, a me redimir. Está feito. Tanta coisa surge de um simples não. Não sou eu que não a compreendo, sou eu que mudei. Não sou eu a tomar atitudes de preservar, voltar pra dentro, ou filosoficamente defender uma postura x ou y. Sou eu covarde. Quando se abre a porta a intimidade fica toda ali, devassada, ao julgamento do outro, exposta como se não fosse minha, mas de todos. Então  passo a chave. Fecho as janelas. Ou então publico. Sou eu a rasgar o papel, deixar a notícia aparecer. A vida como ela é. Assim sem mistério. Apenas prosaicamente simples. E limitada. Eu mudei. Enrolada em papel, não é de seda, mas jornal mesmo. Respiro. Quero reconstruir. Será isso mais justo ou apenas negação. A mão no bolso? Ou pode ser reconstrução. Salientar recalques, fraquezas. Novo. Esta coisa de se adaptar. Estou outra vez me adaptando. Acomodando os dias num novo quadrado.  Estranhada. Bandeira hasteada, mas, escondida. Ser verdadeiro pode dar um medo enorme porque sempre é mentira.

 

Verão um respingo

Verão cheio destes bichinhos insistentes. Cupins deixam asas para se acomoda. Que horror! Sem falar em mosquitos valentes. Formigas obreiras. E a passarinhada acorda gritando mais do que antes …  Cheiro peculiar , movimento. É verão. Colorido. E o calor aumenta  T U D O  tudo. Bom tempo de estar no lado de fora. Verão faz barulho. Inquieta, desperta. Exibido. É isso. Vou dar uma caminhada pela calçada sem sol, enquanto o dia  acorda, depois fica fervente. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro 2015

Histórias nas fotos

Cada imagem um enredo cheio de entrelinhas, reticências. Exclamações interrogações. O quadro que aparece nesta foto é do pintor Carmélio Cruz.  Óleo sob papel. E minhas crianças: Ana, Pedro e Joana. Viúva Lacerda Humaitá Rio de Janeiro.

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Fazenda Santa Branca – Rio Pardo – Rio Grande do Sul.

Pedro com Luiza, minha caçula, 1986

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Aqui já é Santa Cruz do Sul – Avenida Léo Kraeter , a casa. Escapa o número. Linha Santa Cruz do Sul, a ser verificado os detalhes. A memória que não se garante, volteia. Billy na foto com Luiza e o carrão do Pedro. Cães, sempre muitos cães, e a frota.

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2015-12-14 13.47.082015-12-21 15.35.362015-12-21 15.32.18O bom das fotos é não ter ponto final. A cada uma delas uma história que completa no olhar. Elas tem som, cheiro e movimento. Isso é incrível. Esta última foto minha já foi tirada em Torres Rio Grande do Sul. Elizabeth M.B.Mattos Torres

Sem intenção

Não tenho intenção de ser irônica. É isso mesmo que quero dizer. A frase quer dizer isso mesmo que já disse. Estou velha, e não vou me apaixonar. Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer. Ou fazer o que, absolutamente, não quero fazer.

Uísque não é a bebida certa. Um limão cortado ao meio, gelo, água. A farofa com passas…  Vou beber água com mais limão, sem açúcar. E entender o silêncio. Vou pegar o ônibus da meia noite. Mais silencio. E não vou emagrecer. É tarde. Não vou me apaixonar, e você sabe o motivo. Vou chorar um pouco.

Uma fresta “in amorando”

Sou dura por dentro. Sobrevivente pode ser uma boa explicação… Perdas calejam as mãos, o coração também. Esqueci a memória… Harmonia é uma boa palavra.

O que faço? Sigo amorando, lendo. Devagar, voltando, amassando as letras. E tenho um cachorro. Este ter é pesado, ansioso, preocupado, amigo. Gosto de pão com manteiga, café preto. Converso pouco. Durmo bastante, e cedo.

Há palavras, senhor juiz, que não deveriam jamais ser pronunciadas, palavras que são a justificação de uns e a condenação de outros.”

Em Carta ao meu juiz: “O tempo passa. Subo. Abro o primeiro volume das Memórias de Talleyrand. Possuo uma biblioteca completa de memórias e correspondências. E não por acaso. No fundo, sei o que procuro encontrar aí, e não é algo que me orgulhe. Ao descobrir as fraquezas dos grandes homens e suas pequenas covardias, sentimos menos vergonha de nós mesmos.” George Simenon

Ainda existem aveleiras. Gostei dos dois livros.