escada perfumada

Nove janelas e portas abertas. Escadas perfumadas. Gramado aparado. Jasmins e buganvileas atentas, e o céu azul. Cobertas e lençóis e travesseiros perfumados.  O vento visitou a casa inteira. O espelho se debruça interessado nos meus cabelos brancos revoltos embora presos por um grampo. O vestido solto no corpo traz uma leveza azul. Troquei as cadeiras de lugar. As mesas e os quadros, os quadros revisados se acomodaram. Espero pela tua visita com jeito novo. Comprarei flores no sábado, descasco as laranjas. As maças se amontoam no prato verde. E os livros? Estes não posso comandar, independentes, soltos, e temperamentais estão soltos pela casa e fazem barulho. Conversam, Gargalham e são impertinentes. Não liga para eles. Devemos encontrar um jeito / uma forma de coabitar / estar / ficar por duas horas ou três e assim mesmo continuar com nossas peculiares explorações interiores. Será na segunda visita, talvez na terceira vez que encontrarás silêncio, paz e vontade de ficar um pouco mais… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

 

Recado velho

Estamos tão completamente, absolutamente, velhos que imagino poder beber uma taça de chá, ou café  contigo sem que isso constranja ou aborreça tua jovem esposa (ou mulher, ou companheira), ou não? É a segunda vez que eu, formalmente, por escrito, te convido. Um dia chegaste a aceitar, agora lembro, mas sem tempo, hora ou lugar.

De certo já bebemos o chá e eu esqueci. Desculpa. Danada velhice que me aterroriza! A tua juventude segue… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

biografia da autobiografia

Sempre a retocar a autobiografia, a história deles, delas, a minha. Encontrar os amados. Redefinir e acrescentar ao currículo os livros lidos, os possíveis. Ninguém quer  saber de confissões arrancadas de dentro, aos pedaços. Há que ser apenas a verdade.  Dos maridos infiéis ou  desastrados. Das separações ou injustiças.  A linha deve ser luminosa, redefinimos. Mãe inteligente, pai provedor, carinhoso e gentil. Avós presentes. Tios generosos. Irmãos atentos, prestativos, acolhedores. Sobrinhos gentis, netos encantadores. Primos e primas bem sucedidos. E um quintal, um jardim.  Aquela poderosa bicicleta. Amigos, e todas as festas. Brinquedos. Música. Quero lembrar dos bailes, das aulas de francês, dos bons professores, da melhor escola de inglês. Do colégio escolhido. Dos inumeráveis amigos. Do bom lugar de viver. Ruas com jacarandás floridos, e calçadas iluminadas, brincadeiras incansáveis e noites de verão. E da beleza, naturalmente. Ao escrever as cartas aflitas na madrugada, removo a tristeza e…

Inúmeras vezes, repetidas vezes, reescrevemos o amor. Aqueles que terminaram porque se esgotaram. Os arrancados do amor porque já morreram. Os sonhados. Revisamos amigos: antigos e velhos amigos, e namoramos o novo. Aquele que não se aproxima, e está tão perto! Misterioso motivo apertado na esperança de que o presente, o dia de hoje importa mais. Nós nos iludimos e corremos, interrompemos qualquer alegria na imaginação do impossível. Somos o que não podemos.  Somos eternos. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

se

se eu tivesse aberto os braços…

menos reticências, mais coragem.

fiquei assustada (desculpa), mesmo livre:

janelas e portas escancaradas e vontade,

vontade de sonhar e de ver.

se eu tivesse entendido… Eu não deixaria tu ires embora sem me explicar.

todas as pistas,

tínhamos / temos o hoje e o agora.

Olha pra mim… E me surpreende.

Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torresmesa sombrio e beleza

de amor

“1. É uma das ironias do amor o fato de que é mais fácil seduzir com segurança aqueles por quem estamos menos atraídos, a seriedade do desejo adia os jogos de indiferença necessários, a atração provoca uma sensação de inferioridade com a perfeição que atribuímos ao amado.” (p.35) Alain de Botton Ensaios de Amor

acender

A declaração dele certamente fez seu coração se acender.” J.M. Coetzee – Verão – (p. 107)

Interrompo a leitura: tanto em tão pouco tempo!

Ela tocou no meu braço, e eu estremeci. Transes da luz, das letras, deste sol que a primavera entregou… No entanto, ainda sinto frio. Não consigo segurar o sentimento, nem a perda, nem teu sorriso. As flores estão / são /  pedaços de memória! Imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019

Amor significa abrir o coração para o ser amado, diz John.” (p.109)

Escrevo enquanto leio, leio escrevendo, enterrada na terra do teu pântano. E o inacabado me espera. Às vezes, agarro, outras, interrompo a leitura, depois vou  ao cinema. Claro! As caminhadas me levam ao teu portão… Sigo a te pensar adormecido em mim. Está escuro por aqui. E o sol ardendo no dia! Está escuro neste pensamento. Devagar, eu volto devagar para dentro do teu sonho. Não deverias ter me contado se era apenas imaginação!

cadeira e flor

pelo sol, no sol do domingo

A carta roubada de Edgar A. Poe, a referência. Teia sem aranha. A sala? Sempre abarrotada de livros, desordem colorida, a minha. Flores perfeitas. Objetos inusitados e o detalhe das mantas e almofadas aquecem a informalidade. Tapetes são infância, estanho o casamento. Porcelanas, minha mãe. Quadros: acidentes coloridos. Café da manhã, o meu pai. Tia Joana, o meu quarto. Livros de arte/com arte: gravuras e recortes. Pilhas de papel. Copos de cristal, eu gosto. E leituras interrompidas. Por que não estou em Paris? Pelo mesmo motivo de não estar em Portugal, nem em Berlim, não conhecer os Estados Unidos da América, nem a Rússia, nem o Alasca, nem a Noruega. Lamento não ter ido/visitado a Amazônia legal, ou Alagoas, ou Belém, ou ter voltar a Belo Horizonte, revisitado as pequenas cidades históricas. Estar em Limoges outra vez. Algumas perguntas conseguem mesmo desestabilizar. Remexem noutras memórias. Desejos ocultos, fracassos, escolhas malfeitas, e a magoa da vida volta. Como forçar a cabeça dentro de uma bacia com água e simular afogamento, tortura ocasional (se é que tortura pode ser ocasional, e o veneno acidental). Não somos o possível do sonho do outro, somos tão absolutamente todas as nossas próprias mentiras. Somos o esconderijo. Maluca lógica do disfarce, do medo, da covardia e do intenso. Sabes do que estou lembrando? De uma noite de mudança, quando as caixas chegaram de Porto Alegre e eu fiquei aturdida e aliviada: desarrumada (é verdade), mas a tristeza da perda se misturou ao bom do teu encontro, então eu me achei, absolutamente, encontrada comigo mesmo, e aliviada. Te joga na cama, mereces! Foram tuas palavras. Estou lembrando das tuas palavras apressadas e escondidas, do teu desvendar já te despedindo (e eu não sabia), da tua resiliência e da minha surpresa. Do homem que não vou reconhecer/conhecer, do menino que escapou da minha memória. E me atropelou. Estou a lembrar desta tua lembrança ardida enquanto temperavas a carne, e do meu descaso comigo mesma, das minhas inumeráveis desistências. Eu lembro que pontuavas minhas palavras com o jogo inteligente e astuto da tua imprecisa e certeira memória. Desenhavas limites. Ainda uma vez/ tantas oportunidades, nós as tivemos!?, ou nunca cruzamos a mesma calçada. Não estou onde deveria estar, e não temos uma rodoviária, um aeroporto, nenhum lugar de passagem para tomarmos o nosso prometido café. Sinto saudades tuas. Não adianta / não importa. Envelheço a cada amanhecer de maneira tão avassaladora! E para tuas mãos, para teu olhar eu teria que guardar a beleza da mulher, todas as voltas do corpo e me vestir devagar como se fosse ao som de Schubert (o quinteto para cordas). J.M. Coetzee idealizou/desejou fazer amor, eu penso nos gestos que nos levariam a loucura certa, na verdade aquela ideia maluca do amor nudez… nem sempre, o depois pode ser também avassalador. O sexo tem voltas repassadas / ultrapassadas / fantasiadas no olhar aberto ao ritual da desconstrução. Ah! Que saudade tenho / sinto das conversas desalinhadas e intensas, picadas, perfumadas pelos odores do verão. Vontade de ficar extasiada outra vez com as revelações e as entonações, as tuas insônias aconchegadas nas minhas insônias. O teu proibido viver esticado e misturado com minha liberdade. A minha vergonha com teu jeito desavergonhado e profano. Livre. Tuas escolhas abertas com minha vida oscilante de empurrões. Saudade de nós dois, deste ápice de te amar escondido. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Ainda em Torres.