informalidade

Informalidade, esforço enorme, gigantesco: tento colocar a casa (as coisas) no possível / ou visível lugar certo.

Sim vou fazer terrorismo.

Tenho a sensação que as cadeiras se multiplicaram / voam / não estacionam. A Ônix se transformou num enorme cão. Os livros saíram todos das estantes.

Céus! Suponho que estejas viajando e viajando permaneces provisório…

Mas logo entrarás chegando! E não terei tempo para respirar. Pânico! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres com vento e vento, também primavera doce.

oscilar / balançar

Oscilar e balançar irresponsabilidade, excesso… É querer se pendurar na juventude  imediata, na urgência de fazer, na exaustão e correria da alegria criança. Quando escrevo estas coisas eu me dou conta que a solidão inteira está guardada nesta caixa colorida de não saber esperar, nem pacientar. Insisto como criança, desisto como criança, choro e logo estou na risada. Faço gracinha e beicinho… E tens razão, está tudo fora do lugar. Eu respondo bem depressa se eu for encerrar, arrumar, polir comprar flores e cozinhar para te esperar…  Não sei. Não sei se o verão vai chegar depois da primavera, o tempo é tanto e tanto! Desanimo. Corre e diz que não, vem logo… Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2019 esperando o André Peifer chegar no ônibus das 23 horas, direto de Floripa! Empilhei livros. Pensei tudo. Só não consegui estrelar o céu. Segurei o frio.

Elias Canetti

Dentre as coisas mais importantes que urdem dentro em nós estão os encontros adiados — trate -se de lugares ou de pessoas, de quadros ou de livros. Existem cidades pelas quais anseio tanto, que é como se estivesse, desde o início, predestinado a passar nelas toda uma vida.“(p.17) Elias Canetti O Jogo dos Olhos (História de uma Vida /1931-1937)

Gosto do autor. Gosto muito. Como tenho o hábito de sublinhar os livros, vez que outra, eu me reencontro com observações e surpresas. Pensei nos encontros adiados e descubro que não quero mais que aconteçam… Temos motivos (????) para adiar e adiar o encontro com pessoas, até esvaziar a vontade de ver, e com autores, é o mesmo. Quando o tempo de adiar se estica muito, o prazer do encontro, a surpresa, o represado se esvazia. Talvez seja a idade, este danado envelhecer que nos dá sulcos e curvas,  deforma… Talvez seja a ciência / certeza de que não podemos mais isto ou aquilo. Até falar / pensar seja esforço. Talvez a ternura tenha terminado em se tratando de um encontro amoroso, ou resgatar ou deixar morrer já tenham o mesmo peso. Ou esperar seja ridículo tanto quando esperançar ou desencantar. Adiar é uma palavra maldita. Adiar tem gosto de impotência / fragilidade, covardia e tristeza. Não querer. Não adiamos a sede ou o sono, pode ser protelar. Não sei.  Fico pensando. Adiar a leitura  já está no desprazer de ler. Adiar alegria, ou gozo, ou a viagem, significa desistir. O ímpeto é jovem, adiar é a velhice. O desejo de encontrar / ver / tocar e saber tem gosto de alegria, do imediato. Eu estou sempre esperando… Ridículo. Sei que o jogo de esconder e encontrar é apenas o meu jogo, como se assim eu fugisse do tempo, e ludibriasse a tristeza. Encontrar me assusta. Se alguém ameaçar bater na minha porta eu vou dizer não, se insistir, não vou abrir. Talvez seja a lembrança da morte, como se chegar onde estou fosse sempre ameaça. Assim, imaginar / fantasiar / protelar seja o truque para seguir respirando… Elizabeth M. B. Mattos – Torres de 2019

perdidos pela vida

Estou a pensar neste destino. Quando a vida de forma abrupta significativa, altera sentimento numa linha nova e colorida. O inusitado. Meteórica pessoa  abre  a nova fantasia. Enterro memórias, e ressuscito estranhados sentimentos… Paralisada. Festiva. E dou – me conta que amorosidade e juventude se abraçam. Posso ser eu sendo outra e viajo solta… Agradeço. O dia nove amanheceu acordando: amor e gratidão. Estupefata! Aturdida abraço o vento. Elizabeth M.B. Mattos. Uma carta diferente, uma emoção peculiar. Devo explicações: eu darei, eu vou te escrever mais e muito. Eu te prometo. Resisto.

Ernesto Sabato escreveu livros apaixonantes como O túnel ou Sobre Heróis e tumbas, romances, e outros tantos não-ficção como Antes do fim ou O escritor e seus fantasmas. Viagem extraordinária a leitura deste argentino que doutorou – se em física em La Plata e trabalhou em pesquisas no Instituto Curie, em Paris, antes de se dedicar inteiramente à literatura e à pintura. Com ele sublinho: “O destino se mostra em sinais e indícios que parecem insignificantes, mas que depois reconhecemos como decisivos. Assim, não raro pensamos andar perdidos pela vida, quando na realidade sempre caminhamos com um rumo fixo, às vezes determinado por nossa vontade mais visível, mas em outras ocasiões, talvez mais decisivas para nossa existência, por uma vontade desconhecida até de nós mesmos, mas poderosa e incontrolável, que vai nos conduzir para os lugares onde devemos nos encontrar com seres ou com coisas que, de um jeito ou de outro, são, foram ou serão primordiais para nosso destino, favorecendo ou atrapalhando nossos desejos aparentes, facilitando ou colocando obstáculos as nossas ansiedades, e  às vezes, o que é mais espantoso, provando estar mais despertos do que nossa consciente.” (p.23-24) Ernesto Sabato –resistência – Companhia das Letras – 2008

 

 

atrás da cadeira

Atrás da cadeira, atrás do preconceito, da religião, atrás do aplauso: e vamos diminuindo, diminuindo, invisíveis. Importa o outro: companheiro, filhos, amigos de sempre, os novos, mas o essencial, o  verde, o azul e o infinito é a liberdade possível. Não dominamos sempre, somos passagem… Aceitar com modéstia o que foi colocado nas mãos: facilidade, vida abastada, tristezas inesperadas, coragem ou covardia, carência. Avançar / recriar / reinventar é difícil, mas se deixar ficar parece mesmo desolador. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

Bariloche a neve e eu

setembro cinzento

Pessoas se cruzam e a energia agarra o possível: não afogues o outro na fantasia da tua vida, nas tuas sombras, e mesmo em tuas inusitadas alegrias! Encontros casuais e fantasiosos eriçam exercitam a partilha, a generosidade do tempo. Se escutas, se ouves te darás conta dos longes, da ventania e da alegria carregada de desejo que está em quem te olha porque o olhar transborda silencioso. Quantas vidas desejamos? Aperfeiçoar as conexões, priorizar o fazer e costurar teus despeçados desencontros. Então, aquele amigo alegre, generoso e traído, volta e posso abraçá – lo na distância do tempo e o meu obrigada será, desta vez mais forte. Eu estava, meu amigo querido, atordoada, não fiz o possível e o impossível, e foste tu o responsável pela minha liberdade.

Inteireza e coragem: ser apenas quem és assusta. Espinhos nos defendem da mesmice do outro, e eu compreendo a natureza das roseias… Naquele momento eu era espinhos.  Hoje não agrado ou desagrado, sou o momento. Exercitar a Elizabeth que estou a reconhecer, encontrar a Beth, rir daquela sombra que me perseguia, não ser meiga nem doce, nem bonita nem feia, apenas existir generosa, atenta, feliz ou infeliz, completa. Descobrir reencontros nos elos perdidos. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

Quero te estender a mão e tocar teus olhos. Obrigada por me saudar, obrigada por estares atento, obrigada. São estes gestos a diferença…

 

De poemas

O coração tem bordas estreitas

E, feito o mar, se mesura

Por um poderoso baixo contínuo

E monotonia azul […]

 

The Heart has narrow Banks

It measures like the Sea

In mighty – unremitting Bass

And Bleu Monotony

 

EMILY Dickinson – Poemas Escolhidos – Seleção, tradução e introdução de IVO BENDER – (p.69) LPM Pocket

À exceção de Kafka, não lembro de nenhum escritor que tenha expressado o desespero com tanta força e constância quanto Emily Dickinson.” Harold Bloom