O personagem

“Não vivemos mais o tempo em que podíamos degustar Hamlet sem nos preocuparmos demais com Shakespeare; a curiosidade grosseira pela anedota biográfica é uma característica de nossa época, misturada pelos métodos de uma imprensa e de uma mídia que se dirigem a um público que sabe ler cada vez menos. Tendemos todos a levar em conta não o escritor que, por definição, se exprime em seus livros, mas também o indivíduo, sempre forçosamente disperso, contraditório e inconstante, oculto aqui e visível acolá e, finalmente, talvez acima de tudo, o personagem, essa sobra ou esse reflexo que às vezes o próprio indivíduo (é o caso de Mishima) contribui a projetar, como defesa ou bravata, mas que, aquém do qual, o homem real viveu e morreu dentro desse segredo impenetrável que é o de toda a vida. (p.10)

MISHIMA ou a Visão do Vazio, Marguerite Youcenar. S.P.  Editora Estação Liberdade,2013.

Medo da Loucura

“Sou a mulher mais cansada do mundo. Estou cansada quando me levanto, A vida requer um esforço que não consigo fazer. Por favor, me dê aquele livro pesado. […] Sinto um grande terror de sua compreensão pela qual você penetra no meu mundo; aí, estarei revelada e terei que compartilhar meu mundo com você.

Mas Jeanne, o medo da loucura, somente o medo da loucura nos impulsiona para fora dos recintos da nossa solidão, para fora do sagrado da nossa solidão. O medo da loucura incendeia as paredes da nossa casa secreta e nos manda ao mundo a procurar contato caloroso. Os mundos autofabricados e autoalimentados são tão cheios de fantasmas e de monstros.

Conhecendo apenas o medo, é verdade, um medo tamanho que e sufoca, que fico de boca aberta e sem fôlego, como uma pessoa privada de ar; ou em outros momentos, sem ouvir, de repente surda para o mundo. Bato os pés e nada ouço. Grito e nada ouço do meu grito. E aí, às vezes, quando me deito na cama, o medo me toma outra vez, um grande terror do silêncio e do que virá deste silêncio em minha direção, a bater nas paredes das têmporas, um grande medo crescente, sufocante. Bato na parede, no chão, para afastar o silêncio. Bato, canto, assobio insistentemente, até afastar o medo.” (p.166 – A casa do Incesto)

A casa do Incesto & Outras Histórias, Anaïs Nin. Ed. Rosa dos Tempos. 1991

Devaneio ocioso

1.

Da realidade as possibilidades, – as mesmas possibilidades repetidas! Realidade, o curso segue até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não significa, só o imaginado. Veste-se inteira de azul! Então, importa o escritor, o leitor, o fazedor de pensamentos. Afinal, devaneios ociosos são apenas realidades não nascidas.

2.

É o limite que leva ao caminho certo, ao que se deve ou não fazer. O limite faz/ é o corpo e a alma juntos. O limite decide o  que um dia possa ser feito…

ESTOU DE COSTAS OLHANDO UMA ESCULTURA LINDA foto

Não entendi

– O que faço do meu tempo enquanto estamos os dois recolhidos a pensar? Invento.

– Claro que estou a me jogar nos seus braços. Certezas absurdas, danada que sou! Louca para ser amada, cortejada!

Misturo o cimento depressa, levanto o muro, mas plantarei a roseira longe dos cinamomos. Deixarei a janela aberta. Houve tempo de tomar demorados banhos. Dos lençóis brancos. Travesseiros. E, janela aberta pro amado.

Está tudo explicado no que não foi escrito… Não entender faz sentido. É o princípio.

Abandonada

Isabel sem possibilidade de preencher insatisfação, estupefação. O recôndito prazer burguês latente inviabiliza o sucesso. O mergulho na empresa, raso. Saltos altos, bons decotes, e sucessivas cirurgias plásticas qualificam a tarja. Brincos de falsas pérolas iluminam cobiça. Evidências desqualificam. O livro da moda, o chá gourmet, a torta de café, o chapéu de abas, o cobiçoso prazer estampa tristeza miúda. Bons vestidos. Corpo esguio, desfeito no jeito importado deste interior europeu bem brasileiro. Amores sacudidos por desvios. Não se trata de apaixonar, ou enamorar, mas o gancho fétido do açougue que promete carne nobre do animal sacrificado… O sangue pinga na bacia de alumínio, higiênica. Azulejos brancos, chão de mármore. A saliva escorre pelo canto da boca entre beijos.

Ruas estreitas, janelas fechadas. O piano dedilhado, e cerejeiras no parque.

Carrega desprezo, e raiva! Mas o sorriso se apresenta gentil e delicado! Habituada àquele modo de falar não se preocupa sequer em consolar. Coleciona pequenas anedotas que realimentam especulação, julgamento, e consolo.

– Você faz sempre o que dizem seus pais?  Não tem um modo pessoal de pensar?

-Talvez o tenha em demasia.

Debaixo daquela janela pode ser o começo, o lugar certo. Debaixo daquela janela pode ser abandonada. Omissão, ruptura, infortúnio. Ser ignorada, reconhecer limitações, debaixo de uma janela.

Lacunas preenchidas pelas folhas do cipreste. Omissões agudas cobertas pelo jasmineiro. E desejos ambiciosos escondidos no arbusto de buganvílias brancas. Deita na grama alta do jardim. Debaixo desta janela Isabel esconde a ganância.

Abandonada debaixo daquela janela, enjeitada…

Perdas e Danos

Decidimos o percurso do desastre. Conscientes ou não, explicitamente, ou implicitamente. Reservado, lacônico, inseguro. Viajo nos sentimentos. Solto amarras. Confiante menino!  Dificuldades, afetivas. Tendência de ver o mundo filtrado por sonho seguro. O que significa estar/ entrar na vida de alguém? Você pode ser obsessão: a mala que eu não pude abrir.

 

“É preciso sair deste torpor. Vou caminhar, reaprender. Quando choramos por aqueles que morrem no viço da juventude – aqueles que foram privados de tempo para viver -, choramos por alegrias perdidas. Choramos por oportunidades e prazeres que nós mesmos jamais chegamos a conhecer. Temos certeza de que, de alguma forma, aquele corpo jovem teria conhecido o desejo e o prazer intensos que procuramos em vão durante toda a vida. Acreditamos que aquela alma jovem, inexperiente, presa na armadilha daquele corpo jovem, poderia ter sido livre e conhecido toda a felicidade que ainda buscamos. Dizemos que a vida é bela e que proporciona satisfações profundas. Tudo isso nós dizemos, enquanto caminhamos como sonâmbulos, percorrendo o nosso tempo, através de anos feitos de dias e noites. Permitimos que o tempo caia sobre nós e se vá, rápido como as águas de uma cascata, acreditando que nunca se esgotará. E, no entanto, cada dia que nos toca – e a todos os homens do mundo – é único, irrecuperável, finito. E é apenas mais uma quarta-feira.”

(p.16 – 17 – Josephine Hart, Perdas e danos.)

Você marca o dia

Você se perdeu no caminho, mais ou menos do mesmo jeito que apareceu, no repente. Misturou pontos atados de outras histórias.Você apareceu naquela tarde de luto, entre a morte e a vida do amigo pintor. Você estava lá marcando presença cercando o mito Iberê Camargo. Todos estavam lá. Acaso fúnebre, mas amoroso. Chegava de Buenos Aires, numa das suas infindas idas e voltas, na procura ansiosa de nova casa, novo rumo. Construir em pedras gastas o passado. Enterrar a cada folha escrita uma memória meio esquecida.  A luta desmancha, acelera o desmantelamento, confunde o real. Neste momento nos conhecemos, antes das memórias esquecidas.

Abafada pela tristeza do último olhar, pela dificuldade da fala, escutei sem ouvir. Queima, como Hiroshima (a cidade queimada, a cidade de cinzas, a cidade de morte), a voz de Iberê… História não vivida, mas imaginada em cada detalhe do inacabado em pinceladas no gigantesco quadro azul, o último. Três personagens se afastam e convergem no grito solidão.  O pintor imagina o escritor omite desvia. Você foi o ritual de passagem, – transição da narrativa: o pintor pinta, o jornalista escreve. O fio do acaso. Como se meu amigo pintor, antes de morrer, entregasse em tuas mãos um pedaço de amor para ser vivido. Se ordeno a lembrança daquele dia esbarro em você. Alinhavei o romance do mar e lembranças agrestes do artista pintor. Na sacada debruçada no penhasco você incluía notas de rodapé, títulos. Estendeu o braço acolheu olhar e manuscrito. Se pudesse soubesse escrever memória! Dou-me conta da falência das palavras: escrever seria, sempre, antes de tudo, ler.

Releria Javier Marias escreve na sua trilogia: SEU ROSTO AMANHÃ.

“Minha memória está tão cheia que às vezes não a suporto. Queria perdê-la mais, queria esvaziá-la um pouco. Ou não, isso não é verdade, prefiro que ainda não me falhe. O que eu queria é que não houvesse enchido tanto. Quando jovem, você sabe, a gente tem pressa, e teme não viver o suficiente, não aproveitar as experiências bastante variadas e ricas, a gente se impacienta e acelera os acontecimentos, se possível, e se carrega deles, faz estoque, a urgência é muito estranha. Ninguém deveria ter este medo, nós, velhos, deveríamos ensinar isso a gente, mas não sei como, hoje ninguém escuta os velhos. Porque no fim de qualquer vida mais ou menos longa, por mais monótona que tenha sido, e  anódina, e cinzenta, e sem turbulências, sempre haverá demasiadas recordações e demasiadas contradições, demasiadas renúncias e omissões e mudanças, muito passo atrás, muito arriar de bandeiras, e também demasiadas deslealdades, isso é certo. E não é fácil ordenar tudo isso, nem mesmo para se contar a si mesmo. Demasiada acumulação. Demasiado material brumoso e amontoado, e ao mesmo tempo muito disperso, demasiado para um relato, até para um relato apenas pensado. E não falemos das infinitas coisas que caem no ponto cego do olho, toda vida está cheia de episódios literalmente invisíveis, você ignora o que aconteceu porque simplesmente não viu, não teve a possibilidade de ver, boa parte do que nos afeta e nos determina está tapado, como dizer, não se ofereceu à visão, subtraiu-se, não houve ângulo. A vida não é contável, e é extraordinário que os homens tenham passado todos os séculos de que temos conhecimento dedicando-se a isso, empenhados em contar o que não pode ser contado, seja em forma de mito, de crônicas, anais, atas, lenda ou gesta, versos de cego ou cantigas, de evangelho, vida de santos, história, biografia, romance ou elogio fúnebre, de filme, de confissões, memória, de reportagem, dá na mesma. É uma empresa condenada, falida, e que talvez nos traga menos benefício do que danos. Às vezes penso que valeria mais abandonar o costume e deixar que as coisas apenas passem. E depois se acalmem.” (p.109-110. Vol.1) Febre e Lança.

Bolachas recheadas, amêndoas, mel e leite

1.

Bolachas recheadas, amêndoas, mel, um caneco com leite. Um cacho de uvas rosadas, leite e banana, uma colher de sorvete. Duas fatias de pão preto, duas fatias de peito de peru defumado, alface, tomate, pepino em conserva. Camarão refogado, pão e salada verde: folhas de rúcula, alface americana, e salsa picada. Um abacaxi de Terra de Areia.

Vestido de estampa: amarelo, beterraba, verde, e marrom. Cabelos cacheados, presos por um grampo. Algumas pontas escorregam pelo pescoço. O decote comportado, mangas japonesas. Os olhos estão desenhados com lápis preto por fora, e outro avermelhado. Os cílios são longos. Boca rosada. Brincos pendentes. Grandes, e no pescoço, dois colares de pérolas barrocas, e dois de cristal. Ainda corrente de elos douro. Flores colhidas no campo nascem junto as cercas: amarelas e roxas. Posso convidar as meninas para uma conversa de esconder, separar, brincar…Segredar.

Um dia um homem mais velho, rico, bem rico, bem velho me convidou para jantar. Eu fui. Noite de risadas, escritos, bilhetes seguiram outras risadas, noite de não dormir. Nunca mais voltei. Esqueci de mim. O nome, o português, a nova língua aprendi em um mês, falo russo. Alongo as pernas em calçadas, restaurantes, espetáculos e beijos. Veludo, rendas, joias, tardes de sol. Sono, sonhos entre sonhos.

2.

Morreu o escritor e jornalista Antônio Carlos Resende

Igual a ti só no infernoRoubai-vos uns aos outros. Fiéis infiéis, Jairo e seus diabos.  O rapaz que suava só do lado direito, estes são da memória.Vou sentir saudade do amigo.

Resende, Antônio Carlos:  O rapaz que suava só do  lado direito, coleção RBS Editora Globo, Porto Alegre, 1979.

“Tomo hoje a decisão de começar a análise e vou logo contando pro cara,

A página final, o trecho do suicídio, é sem dúvida um belo exemplo de arte literária, nenhuma concessão ao lugar comum, nem ao sentimentalismo, somente o ritmo de uma espécie de pressa lenta, e uma ânsia funda que se adensa na dança das palavras. Na linguagem, a espontaneidade coloquial do falar gaúcho. Tanta coisa a ser lembrada, dita, escrita.

Bife na chapa, ovo frito, batatas, uma cerveja. Na madrugada de ficar ao teu lado. Vou comer um cachorro quente daqueles secos, com pouca mostarda. Beber Coca-Cola. Chorar. Chorar bastante. Ler o que ainda não li. Hoje é só bobagem… Faz tanto tempo que é só bobagem! Comprei violetas para tua mulher. Levarei lírios e rosas. Perfumam. Não sei o que faço.  Aprendi tanta coisa com teu cuidado! Obrigada amigo!

A mesa estava cheia de coisas boas para comermos…Um café preto. Teus incentivos.

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Eu minto

“Eu minto e ela sabe que eu minto e que eu sei que ela sabe que eu minto e aceita isso sem zanga nem sarcasmo, verificou o médico. De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velázquez.” (p.30)

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

A Beleza

images (1)images (2)downloadA  Beleza é o símbolo dos símbolos. A beleza tudo revela, porque nada exprime. Quando ela se nos mostra, revela-nos todo o ardor do Universo.” 

“[…] a crítica, a mais elevada, trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita – pelo menos assim supomos – a descobrir a intenção real  do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou. E é mesmo o próprio espectador que empresta à bela obra suas inúmeras significações, no-la torna maravilhosa, a põe em novas relações com a época, de sorte a torná-la uma parte essencial das nossas vidas, um símbolo do que aspiramos, ou talvez, daquilo que após havermos desejado, receamos conseguir. “(p.121)

A Decadência da Mentira e Outros Ensaios, Oscar Wilde,

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Imago Editora, São Paulo. Tradução e apresentação, João do Rio.