vergonha da nudez

Uma vez, um tempo, no tempo esparramei amor. Esparramei cheia de vontades tardias insistentes. Quando veio/chegou o novo, eu me encabulei. Coisas de amar! Não para sempre, mas revirado amor de dentro que explode em campos de luz… Como esconder o passado, como explicar, ou como dizer que ele, o XKJMCLY, me deixa insone, viva e feliz, terrivelmente alegre?! Terrível alegria, inexplicável e viva?! Eu te escrevo, meu querido, para de contar dos caminhos atravessados, peço desculpas por estar distraída, tu me entendes! Logo estarei no caminho outra vez, ou… Tu sabes, estarei no teu abraço.

Then, as all my souls be / Emparadis’d in you (in whom alone / I understand, and grow, and see), /The rafters of my body, bone, / Being still whith, the muscle, sinew, and vein ,/ Which tile this house, wil come again.” (p.80) John Donne – Poemas Eróticos – Assírio&Alvim – A Valediction: of my name in the window / Uma despedida: sobre meu nome na janela

“Então, como todas as minhas almas se unem / No paraíso que és tu (em quem unicamente / Eu compreendo, e cresço e vejo),,/ As traves do meu corpo, os ossos, / Estando ainda contigo, farão os músculos, nervos e veias / Que telham esta casa, retornar.” Tradução de Helena Barbas

trama

pendurei-me em cada palavra dele, este amor ocupa todos os lugares do mesmo jeito, posso lavar e passar, esfregar e perfumar; na música, no meu passo miúdo, meu vigor. pura sensação! sou criança, e….,e….como é bom! como é bom que somos crianças! e vou, sigo, lindamente, quase às apalpadelas, sorrindo de maneira estranha, sorrindo escondido, depois com o corpo, olhando nos olhos. Sou eu a me sentir linda! Poderosa e tua! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

cestas, caixas e potes com tampa

Sinto-me cálida, viva, alegre, porque a vida é cálida, simples e alegre apesar de… Sou fácil de contentar. No meio de um riso ou da turbulência de uma aventura eu prossegui. Nisso reside a desvalorização / vou ser o meio (nem começo, nem o fim) que deixa cada fibra de meu corpo cansada e ansiosa. Posso te esconder num caixa pintada de amarelo, mas gosto dos verdes coloridos: caixas, pedras, e os vermelho do coração. Tu sentas, fumas um cigarro, silencioso, eu te amo nos teus presentes extensões tão do passado! Vou beber todas as garrafas azuis e , de pois, terminar a cozinha com os olhos cheios das notas do teu piano. Eu te perdi. Não te perdi? Tu assim o quiseste. Então, eu preparo meu nono esforço no teu corpo magro, e acerto quando colo/firmo a tua pele na minha. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021

Vou escolher uma caixa colorida e te apertar, passar uma fita. Ou na garrafa mais redonda e transparente, tenho rolhas! Bem bonitas, meu amor!

o amor que sinto por ti

O amor que sinto por ti é como um vento: uma mensagem chegando de longe, e ela não parece verdadeira nem falsa, sensata ou absurda, mas comove como se um leve e doce exagero me caísse no coração. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

reescrever

Dificuldade de escrever. Peso, e desânimo! Quero, eu também, dar uma volta para ver a cidade iluminada, sentir o sol, e estar… Levantar os cabelos, usar o colorido e ser acolhida! Depois ser eu outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

insegurança

Às vezes a insegurança não é senão insatisfação diante das seguranças comuns (aquele mundo arrumadinho, ordenado que estamos vendo, ou tão caótico que nem enxergamos, percebemos). E no ar/ em mim, ou no mundo, o jeito distraído, contra toda a ordem lógica, contra a vontade clara: uma nuvem de chuva neste verão quente. Nada é mais estranho do que a irresponsabilidade e incompletude das eventuais subjetividades. A roda gigante do Parque de Diversões! Ou o Carrossel! Não desanimamos, e nossas crianças serão vacinas. O ano que vem teremos que votar, com lucidez. No ano que vem ficaremos, afinal, adultos! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2021 – Torres

Elizabeth Bishop

O limite onde o que mais merece ser dito é quase impossível de dizer. É sempre IMPOSSÍVEL dizer tudo, não consigo o frontal/a verdade descascada das nuances -, seria o abismo. Quando mencionas “universos paralelos” sublinhas a vida, os sentimentos e posições sociais e envolvimentos políticos que desconhecemos um no outro, sei os teus, mais bandeiras desfraldadas, mas sinto o tanto/ o abismo: não me conheces porque, pois é, como te explicar sem dizer? A verdade tem uma conotação trágica. Para sobreviver / ou dizer / ou brincar, ou mesmo ser é preciso a máscara do teatro japonês. Por que te digo isso? Porque gostaria ter te sentido de outra forma, noutro tempo. E que mesmo em vidas paralelas tu me adivinhasses… Escorrego! Caio na tentação de voltar a te amar, e o amor não tem voltas, tem gemidos, gritos e lágrimas e sorrisos…, e presença. Não. Não sou como tu és, mas te vejo quando me olho no espelho. E nunca nos demos as mãos… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro – Torres

” Por falta de alguém com quem conversar (estou terrivelmente sozinha aqui), acabo de reler as suas três cartas que foram remetidas e re-remetidas até chegar às minhas mãos em Nova York, e conclui que os meus magros bilhetes são ‘vergonhosos’ – e que eu a coloquei numa situação desagradável com aqueles poemas ruins.” (p.73) UMA ARTE As Cartas de Elizabeth Bishop

vida por hipótese

Cada dia uma experiência / não coisa de experimento científico, mas mergulho. O que pode acontecer quando mergulhamos numa piscina bem funda, destas feitas para saltos mortais, tentar resistência, e voltar até a borda! Feliz! Crianças testam limites… Eu sigo nesta roda de emoções! Elizabeth M.B. Mattos

Dos tempos da juventude em que se começa a tomar consciência de si, e que mais tarde é tão comovente voltar a contemplar, ainda havia na sua lembrança, várias ideias amadas, entre elas a expressão ‘vida por hipótese’. Ainda significava coragem e voluntária ignorância da vida, quando cada passo é uma audácia sem experiência, desejo de grandes acontecimentos e aquele sopro de revogabilidade que enche o jovem quando este entra, inseguro, na vida. […]Uma sensação excitante de ser escolhido para alguma coisa é o que há de belo e certo naquele cujo olhar examina o mundo pela primeira vez. Se vigiar suas sensações, a nada poderá dizer um sim sem reservas: procura a possível amada, mas não sabe se é a certa; é capaz de matar sem ter certeza de precisar fazê-lo. A vontade de sua própria natureza, de se desenvolver, proíbe-o de crer no acabado; mas tudo o que enfrenta parece ser acabado […] nenhum princípio é certo, tudo se encontra numa transformação invisível e incessante, no instável há mais futuro do que no estável, e o presente não é senão uma hipótese que ainda não superamos.” (180-181) Robert Musil O Homem sem Qualidades