A carta que não mandei

Mandei a carta, ou já nem sei bem se mandei … Eu me perco nos guardados. Ideia velha do para sempre será. Em contos de fada existe a obscura e misteriosa intenção de não terminar… E viver felizes para sempre (engraçado eterno inconsciente) que permanece para sempre. E nada é para sempre. Nem a terra, o mar, nem o sorriso, nem a pedra, nem a história, e menos ainda a presença, o amor, ou a amizade. Tudo tem tempo, validade. Suponho que um dia vou reler, reorganizar, reescrever. … esquisito, mas não vou fazer nada disso. Não há tempo neste tempo delimitado. Assim mesmo guardo bilhetes, cartas, ideias, lembranças. As saudades, e os suspiros. As vontades. O despojamento deveria ser criterioso e seletivo, mas no meu caso é anárquico.  E como estou ficando/ sendo/ estando velha e distraída, ou nem tanto, mas assim mesmo esquecida, imagino que te escrevo e te penso sempre, para sempre… E já contei o incontável. A distância reside neste inexplicável.

Sinto uma enorme saudade do meu pai. Paciente a me explicar o que não compreendia da álgebra, das guerras, e de estudar. Nada acontece sem a visualização da geografia, é no mapa que se desenrola a história. Penso no meu pai de jeito intenso, preciso. E sinto sua presença entre os livros. Ele se materializa. Como já soubesse antes sem confessar, ou pensar. Penso que as idades passam, os interesses, os amores, os amados e fica apenas o vácuo. Penso no meu pai. É o novo se acomodando dentro de mim. Ou é apenas um novo que sempre foi, e vai voltar e vai desaparecer… A tal nostalgia. Afinal o que dizemos se revela no que não falamos. E está dito nas entrelinhas. A sutileza do contexto que não se explicita. Meu amigo querido, amado: sou livre exatamente nos lugares que não sou.

Na guerra, ou matamos ou nos matam. Mas eu vi o que há de pior nos seres humanos, sobretudo fora da guerra. Você não pode imaginar do que um homem é capaz, o que podem fazer o ódio o rancor quando estão bem alimentados ...” (p.203) O homem que amava os cachorros Leonardo Padura

Elizabeth Barrett Browning

Meu amigo querido, amado: preciso te escrever, ou te ver. Remexo nos livros para me aquietar, ou apenas limpar as estantes, e assim apaziguar a inquietude desta primavera gelada. Nos livros as engavetadas lembranças que se desmancham…Tinha tanta certeza de mim mesma! Eu me esquivava, escondia, ou calava porque era certa a certeza de encontrar …, mas, não consigo alcançar. A ordem me escapa. Este ruído insistente, violento, e de carência me esgota. Explicações. Janelas abertas. A calçada ruidosa e os passarinhos que não se calam! Quando a alma se inquieta o tempo não responde. Bom que o livro conversa e explica.

Como é que te amo? Eu vou dizer – te tudo: eu te amo com toda a profundeza, e a vastidão, e a altura que a alma pode atingir quando foge e procura os limites do ser [ …]. Eu te amo pelas coisas calmas que reclamo à luz do sol altivo ou da lâmpada obscura. […]. Eu te amo com paixão: essa mesmo que eu pus na fé que tive em minha infância e em minha sorte. Eu te amo com aquele amor que já supus perdido com meu bem perdido; no transporte de sorrir, de chorar; na vida que seduz! E hei de mar-te ainda mais, talvez, depois da morte! ” Elizabeth Barrett Browning

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Não vivemos sozinhos …

Estes cadernos, estes velhos diários que se empilham nas prateleiras se alinham com a verdade interna/interior de cada pessoa … Não sabemos nada de concreto/palpável, nem do que acontece no íntimo/alma do outro, por isso estamos nesta ilha de solidão, no meio da apresentação… Confuso  este junto / separado. Nós e os outros, representação. Podemos dizer/falar/comentar qualquer coisa, e não somos nós por inteiro, nem eles, mas a representação. Nestes cadernos, nestes escritos, nesta confissão somos nós no inteiro, mas também um nós estrangeiro. A vida se apresenta aos pedaços, poetando …  Compreendo que somos únicos apenas no momento que somos reconhecidos pelo outro. Intimidade complicada de estar e olhar e ver o outro. Cadernos, diários, cartas desvendam os pedaços para formar este inteiro/completo ser humano. Assim, meu amigo amado, penso, sei, questiono, e quero te dizer muitas e muitas coisas, mas acabam não sendo relevantes porque a distância, o ambiente, a neblina, o sol ou chuva modifica tudo, e não estamos juntos, e nem estás a me ler por inteiro. Os cadernos, os diários, as fotos, as cartas se perdem no porão. Existe um calvário interior, ou na vida de cada pessoa, intimo. Pode ser descoberto, mas não aparece no primeiro olhar.

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“Belo texto , a vida anda o tempo passa , calvários, mochilas todos carregam , mais ou menos espinhosos . De forma que viver é um desafio , enfrentar o mundo outro desafio .
Mas viva a dureza com beleza das coisas boas e singelas .
Guerreiros e lutadores como os Vikings, que se aventuravam jovens aos mares nordicos para os desafios do desconhecido.
Se apequenar nada nos traz de resultado , a vida simplesmente é dura e bela.
Calvário é algo muito cristão é religioso, as maiores batalhas na antiguidade e atuais sempre foram religiosas vide as cruzadas .
Com todo respeito por qualquer crença que aliás são muitas.”

Dado K. Corbetta

Divórcio em Buda

Gosto desta correspondência silenciosa, não diria cifrada, porque conversamos um com o outro e sabemos o que o outro sente, ou vai dizer, ou vai escrever. Há o comentário formal, o recado. Eu, eu transito entre um livro e outro, entre uma paixão e outra. Entre raiva, tristeza, ou na euforia do encontrado. Depois uma certa melancolia porque já terminou… Sempre termina. E outro livro e outro livro. Terminei o quarto volume de Karl Ove,  espero o quinto, e o sexto, mas já sei que é isso, apenas isso: a história de um homem que quer ser escritor, quer escrever. E conseguiu escrever com sucesso. Ganhou vários prêmios. Eu me sinto vazia, estou vazia. Aquele sentimento estranho da despedida. É sempre assim na despedida, ou perto do final …  Depois esvaziamento. Vou tentar agarrar logo outra leitura. Não gosto de despedidas. Sándor Márai nasceu na Eslováquia.  Relação antiga, começou com o livro As Brasas.  Ler tem esta coisa misteriosa de apego. É verdade que o livro se fecha o tempo passa, e …. acabamos esquecendo o detalhe, fica-se com o essencial. Então, meu amigo amado, eu caminho em círculos.

Tento fechar seus olhos, sua boca, abraçar seus braços. Vou ler em voz alta para você. Enquanto leio, passa a mão nos seus joelhos. Beth M.B.Mattos setembro 2016 -Torres

Mas ela me ama …pois é, me ama. Como se costuma dizer: à sua maneira. Qual era a maneira de Anna? Ah, incondicional…. Eu sei, incondicional. Anna não regateia consigo mesma. O que é amar alguém? Por muito tempo acreditei que fosse conhecer … conhecer perfeitamente, conhecer todos os reflexos da alma … talvez conhecer seja o mesmo que amar. Mas isso é apenas uma teoria. Enfim, o que é isso, conhecer? Quanto se pode conhecer uma pessoa? Até onde se pode seguir a alma do outro? Até os sonhos? E depois? Na consciência dos órgãos já não consigo acompanhar. Não devo nem mesmo esperar enquanto cerra os olhos, despede – se de mim e se retira para aquela outra dimensão, para o espaço da noite … porque existem dois mundos, o outro fica além das dimensões conhecidas em que vivemos; e nesse outro mundo talvez vivamos de modo mais real do que no mundo do espaço e do tempo … agora sei que existe outra dimensão, totalmente nossa, diferente para cada pessoa … “ (p.143) Divórcio em Buda de Sándor Márai

 

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Porta aberta

Estou começando a entender, meu amigo, o porquê da sedução quando tinhas doze ou treze anos posto que sou seis, ou sete anos mais velha do que você. A sedução como um marco, um acontecimento de iniciação e magia. Hoje, no agora, a memória chega como cadeau, um presente, para confortar. Outra fatia de viver amor, e lembrar. Presente em pacote surpresa com fita colorida, perfumado, envolvido em seda, dentro de outro papel ilustrado envolto em veludo. Macio e lúdico este presente.  Apoiados nesta boa memória entendemos a conversa. Então, importa saber do alho e do amor, da brincadeira perdida.  Vive – se o intricado, oculto e sensual desejo do lúdico presente. Das bruxas e da solidão. Do agora. A loucura certa, juvenil, acontece hoje. Reavivada lembrança.  Sou a desbravadora do amor. Bonito isso.

Ficou aberta a porta, mas você não entrou, nem desembarcou na minha vida…

A porta segue aberta.

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CARTA e memória

ZOLA A CÉZANNE

Paris, 26 de abril de 1860, 7 horas da manhã

[…] Quando vejo um quadro, eu sei quando distinguir entre o branco e o preto, é evidente que não posso permitir-me julgar pinceladas. Limito-me a dizer se o tema me agrada, se o conjunto me faz pensar em alguma coisa boa e grande, se o amor do belo transpira na composição. Numa palavra, sem ocupar-me do ofício, falo sobre a arte, sobre o pensamento que presidiu à obra. E penso agir sensatamente; nada me dá mais pena do que as exclamações dos pretensos apreciadores que, tendo aprendido alguns termos técnicos nos ateliês, vêm recitá-los com aprumo e como papagaios. Você, ao contrário, que compreendeu como é difícil espalhar, segundo nossa fantasia, cores numa tela, entendo que o ver um quadro você se ocupe muito do ofício, que se extasie ante tal ou tal pincelada, ante uma cor obtida, etc., etc. Nada mais natural; a ideia, a centelha está em você; você busca a forma que não tem e a admira seja qual for sua desculpa, ponha a ideia na frente dela. Explico-me: um quadro não deve ser apenas cores trituradas, espalhadas numa tela; você não deve indagar constantemente por qual processo mecânico o efeito foi obtido, qual a cor empregada, mas ver o conjunto, perguntar se a obra é efetivamente o que deve ser, se o artista é mesmo um artista. Há tão pouca diferença, aos olhos do vulgo, entre um quadro ruim e uma obra-prima! Em ambos há o branco, o vermelho, etc., pinceladas, uma tela, um quadro. A diferença está apenas naquele algo que não tem nome e que só o pensamento, só o gosto revela. […] Aliás, não falo por você; se você tem qualidade, como creio firmemente, não precisa estabelecer essas distinções que acabo de fazer um pouco puerilmente. Cada gênio nasce com seu pensamento e com sua forma original; as coisas é que não podem separar-se sem acarretar uma completa nulidade. […] Mas não me leve a mal se estou assustado, mesmo sem razão, e se digo como amigo: Cuidado! Pense na arte, na arte sublime; não considere apenas a forma, porque a forma por si só é a pintura comercial; considere a ideia, crie bons sonhos; a forma virá com o trabalho, e tudo que você fizer será belo, será grande. […]

P.S. Estou recebendo sua carta neste momento. – Ela faz nascer e mim uma doce esperança. Seu pai está se humanizando; seja firme, sem ser desrespeitoso. Pense que é o seu futuro que está sendo decidido e que toda a sua felicidade vai depender disso. – O que digo sobre a pintura torna-se inútil a partir do momento em que você mesmo reconhece os defeitos de X***.

Responderei à sua carta brevemente. (p.51 )

Cartas da Juventude,  CEZANNE Correspondência, tradução de Antônio de Pádua Danesi, 1992 – São Paulo

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Da pintura para a memória

Éramos tão jovens quando casamos, tão apressados! Lembro do reencontro depois dos sustos com nossa pequena! Então poderíamos retomar, recomeçar, e ficar, definitivamente, perto um do outro. Oscilamos, duvidamos, e nos separamos. Talvez houvesse certeza certa que os filhos seriam elos, amigos e guardiões. Hoje penso que poderia ter feito mais …. Tínhamos o mesmo olhar, a mesma convicção. As mesmas dores, mesma lucidez diante das perdas, dos encontros, da família. Passados tantos anos, e todos separados, conseguimos, ao final da vida, devagar, aproximar a saudade. Eras tu, eras eu, e sentamos lado a lado como se acolhêssemos a vida, juntos. Aceitamos o olhar. Mas foi apenas isso, o olhar. Nunca a mesma língua, nunca o mesmo entendimento. Nunca a mesma sintonia, sempre o estranhamento incerto do momento. Nunca entramos na vida um do outro. Foram ligeiros e passageiros aqueles anos de sermos marido e mulher.  Você embalado na fluidez, ou aturdido: “ não sei do que se trata”. Eu, inquieta pessoa a procurar…

O sitio Arapiranga em Carangola (Petrópolis- RJ) foi nosso. Nós dois a recriar a forte e premente ideia de liberdade que sempre alimentamos. Pintavas no teu ateliê, e eu badalava o sino para te chamar. Plantamos flores, fizemos horta, e nos deixamos ficar a sombra das grandes figueiras. Lemos. Eu estudava o francês no encantamento das minúcias. As crianças tranquilas no silêncio da serra, no nosso silêncio. O telefone não tocava, não nos distraímos com o mundo, apenas um com o outro. Partilhávamos o fogo da lareira. A quietude livre, o silêncio criativo. Música. E nos amamos no frescor desta reclusão. Por isso, disso, sentimos a miúda saudade, e vem o lamento de termos nos separado.

desapareceu aparece

desapareceu aparece fica vai flutua pensa e esquece na folha de jornal a notícia não mais do que notícia e o espelho reflete vaidade sem saudade. Sombra sem sombra sem sentido sem elo sem fio sem chegada. Nada. Só fantasia amiga do amigo? O jornal diminui se extingue se reforma numa forma de revista sem cor, sem notícia, só o ia. Há que ser resumo opinião o certo e o errado o bom lado do inferno escaldante e louco de política malcheirosa deste sem caráter sem ética sem o outro, mas sempre só o eu do eu aberto exibido e assim despido farsante…palhaço malabarista narcisista…Pois é, dia sim outro não, leio o jornal, apressada, nas escadas o jornal do vizinho que se esquece nem liga ou guarda o jornal da escada, esquecido…e te leio.

venta aqui. Venta um vento forte e morno. Do vento e do morno o bom do perfume doce dos jasmins. Espero a chuva. De notícias nem bilhetes nem cartassssss ou telegramas…. O telefone que toca apressado não atendo não falo desaprendo, mas leio. Leio tudo do muito… Assim te envio mensagem ventosa no meio da noite que assobia e não espera, desaparece aparece Albertina