Esticado

Fio do novelo emaranhado na alma enredada. Emaranhado refeito em novo novelo enrolado. Fio entre fios… Linha de outro novelo esticado. Brinquedo de gato. Enfadado sonho. Brinquedo de gato!

Amarela, malhada, assustada bichana… Elizabeth M.B. Mattos – Torres

Os beijos tombavam

Escrever tropeça no que já foi escrito… Respiro. Transcrevo Niels Lyhne do romancista dinamarquês Jens Peter Jacobsen (1847-1885).

(…) os beijos tombavam pesadamente dos seus lábios, como perguntas hesitantes, mas não traziam alívio, não os satisfaziam. (p.155)

 

Como era possível tamanho desprezo pela própria dignidade, um tão cínico desdém por si mesma, que arrastava de cambulhada a ele próprio e a tudo que lhes tinha sido comum, lembranças e esperanças, entusiasmos e idéias sagradas! Só de pensar nisso ficava corado de raiva. Mas, enfim, estava sendo justo? Pois, por outro lado, que fizera ela senão dizer clara e lealmente: ‘ Alguma coisa me atrai para outro lado, me atrai fortemente, mas eu reconheço o teu direito, mais do que tu mesmo exiges, e aqui estou: se puderes conquistar-me, conquista-me, se não puderes, irei para o lado mais forte. ’ (p.159)

O sentido de plantar

Não é possível mudar o curso da vida! Tens os pés plantados na terra do teu jardim adubado…Buganvílias, jasmins, sempre-vivas, margaridas e cravos  te cercam…Teus cabelos se enrolam nas samambaias, e o jacarandá  florido deste verão enfiou um galho  no teu corpo… Estás ali, o cão preto cheira tuas pernas, e deita no gramado. Vigia.

Quando chove, tudo escorre… A terra mais fofa, mais nutrida faz com que teus pés afundem… São pequenas responsabilidades, sem voos, mas tuas! Há quem diga que te abandonaram no jardim! Há quem se espante! Importa? Em nenhum momento estiveste sozinha. Tens os cravos, as margaridas, e nesta estação os junquilhos.

AZUL

Amoras azuis. O céu, o amar, as lavandas, o perfume. Azuis. Tu és azul. A fita do teu cabelo é quase lilás… Existe o vermelho: perigo! E o vestido de tricô amarelo, aqueles minúsculos babados brancos. Meias  brancas engolidas pelo sapato branco de verniz. A franja! Eduardo no colo da Dinda! Santo Ângelo. Ponta Grossa foi depois… Os canudinhos dos eucaliptos. Cartazes com figuras, letras e palavras… Eu não sabia nada das amoras. Muito menos das azuis!

Pedro Gonzaga me perdoa

Não pude transcrever os poemas como eles são, poemas… Perdoa Pedro. Li assim na corrida. Vou reler voltar. E digo: tão bom que é de voltar… Eles estão assim misturados. Perdoa. Ordena pra mim…

Nossos mortos vestem, por invisível regimento, a macabra fantasia de permanecerem iguais em nossa memória. Aqui está o primo… Aqui está minha avó… Aqui está o amigo que tocava piano… Vejo-os todos, atores em reprise, enquanto eu envelheço entre tabacarias e sinagogas, aqui neste apartamento… Enquanto a manhã demora a chegar, meus mortos combinam à meia voz (mas eu os escuto!) uma maneira sutil de se fazerem desnecessários.”

Imperativo. Se puderes pedir uma coisa a júpiter pede uma ilusão adamantina, não a verdade… Somente filósofos e tolos, inquisidores e síndicos estão atrás da verdade. Se puderes fechar os olhos para o real, fecha agora, não te preocupes, antes, aproveita. Hão de acordar-te os credores, a dor no ciático, o fingimento da mulher que nunca se entrega e que julgas siderar com tuas carícias de manual enquanto ela organiza no teto uma lista de afazeres domésticos. Percebes? Somente em sonhos podes ser quem imaginas. Apenas em tua memória seletiva tuas ações recebem a devida camada de valorosa pátina, por isso, nega as fotos. Foge dos amigos nostálgicos, evita reuniões de dez, quinze, vinte anos da formatura do colégio. Investiga menos, questiona menos. Não há fatos, só versões, eles dizem ora, deixem que guardem para si tais patacoadas. Elas não podem te salvar. Se puderes pedir uma coisa a júpiter pede uma ilusão adamantina, não a verdade. Somente filósofos e tolos, inquisidores e síndicos amam a verdade.”

E ainda tem as formigas do colorado. Poema em linha torta para Alfredo Aquino. Inventário!

“Tuas roupas no chão do banheiro misterioso exosesqueleto abandonado, um copo d’água à cabeceira da cama… Um par de meias entre os lençóis, a porta entreaberta e o feixe de luz… O modo como estendias a mão e me tocavas, uma pequena argola prateada na gaveta. E o vento bagunça teus cabelos regime singular do ouro, o sol lambe tuas unhas, e digamos que você tenha sorte… a última temporada com o vinho dos chineses para Mariana…Deitados junto ao rio enquanto as estrelas ardem – cansadas da fútil combustão de nosso sangue impaciente, seguro tua mão, beijo tua boca…”

Pedro Gonzaga é natural de Porto Alegre. Por muito tempo atuou como músico, dedicando-se ao mesmo tempo a escrita… A última temporada é seu primeiro livro de poesia. Editora Ardotempo.