Despedida

Rua Redentor. Um dia de paz no Rio de Janeiro.

tumblr_nb4gclMDHx1qd8ajzo1_500

No fundo de seus olhos azuis houve um lampejo, um brilho intenso de tristeza. E raiva. Que cena tão simples havia sido lembrada? Tão mansa e tão dilacerante. O dia que tudo terminou? Ou a certeza que neste tempo já não há mais luz? A entrega definitiva, sem volta, sem perguntas esvazia expressão, altera voz, e olhar. Os sonho não são mais os seus sonhos, nem suas as escolhas, ou decisões. Aos poucos assimila-se a vida do outro… A esta entrega chamamos amor. Perdoa se eu o feri ao abandoná-lo, também não deixei de me ferir. Descobrir o vazio, este enorme nada também doeu. Temi você pensar que eu me reservava a parte mais agradável de nosso amor sem me preocupar em deixar-lhe o lado desagradável. Não é verdade. Se fracassei em dar-lhe a felicidade que um grande amor deveria proporcionar, também me senti muito infeliz por fracassar. Você me fez falta de todas as maneiras, em todos os instantes, e a ideia de meu erro, por mais de uma vez me fez absolutamente infeliz. Assim eu procuro reestabelecer a mesma convicção, vozes, odores, toques, rosas, petúnias, hortênsias e cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Sem esquecer das amoras azuis, e das lágrimas que me sufocam neste momento de adeus eu beijo teus olhos.

Foto do Blog http://thefullerview.tumblr.com/

Portão Azul

 

Escreve Javier Marías, o espanhol: “[…] e o que tinha falhado era o tempo, que talvez nunca passe totalmente, ao contrário do que costumamos acreditar, como tampouco nunca deixamos de ser inteiramente o que fomos, e não é tão raro escorregar no passado de um modo tão vivo que este se justaponha ao presente […]” Então eu me ponho a ler devagar, errado, desconcentrada. Dispersiva, parando, bebericando chá, comendo abacate, querendo café, suco, fatia de bolo, bergamota. Ou vou solta num olhar através das vidraças, imagino o outro lado. Procuro, volto à página interrompida… Qual página? Já não importa, está na trilogia Seu rosto amanhã. Inoperante. Atabalhoadamente, adoro esta palavra, resolvo te escrever sem preencher, minimamente, o programa. Amadeu, em Trem Noturno para Lisboa, discursa sobre o uso necessário das palavras, e afirma estarem gastas, vazias do sentido primeiro, sem sentido, ou escondidas num contexto diferente, já código, ruídos, comunicação, nem poesia, nem cuidado. Palavras perseguidas, ou preenchidas por visões pessoais. Lobo, preto, lustroso, inquieto, pequeno, desconfiado, fiel, medroso, teu. Atabalhoadamente volto a escrever. Vou abrir a porta, acender as luzes.

Portão Azul, junho de 2014.

100 anos de Iberê

Iberê Camargo:

Pintor brasileiro. O sentir colorido pressente o espaço de um mundo, acede a verdade na obra.  Nele não apenas o traço definitivo, mas a cor. Não é pura representação, enfeite, ou adorno, a arte, mas também ar. A verdade do sentir. A diferença da percepção, as estruturas intencionais. Ou não? O sofrimento da ausência, irrisório. Pensar a tela Solidão. Quem perdeu definitivamente o contato não tem consciência nem do contato nem da perda. Nossa intimidade com o mundo é flutuante, a pintura definitiva, como cartas. Vamos sublinhar as pessoas, a arte, assim permanecem. Cem anos de Iberê.

Junquilhos

Meu amigo, em tempo:

Também eu assinalei esta passagem. Amadeu introspectivo, vigilante. Ao ler o fragmento, de imediato, parei. Levantei os olhos, fechei o livro. Voltaram, enfileirados, acontecimentos que antecederam escolhas. O velho amargado desejo de casar. O silencioso momento do nascimento. O medo que antecede ao filho. A tomada de decisão apressada. As inexplicáveis rupturas. Mentalmente, fiz a lista destes cortes doloridos, todos, mas ainda assim, propulsores. A dor, a resolução, a caminhada. O silencio imperioso. Prosaicamente se acomodaram nas caixas, nos maços de papel, nos arquivos, paradoxalmente presentes em objetos, fotografias. Segredos dos segredos que levam ao inferno. Ou para o inferno? No entanto, sem estrondo, sem notícia no jornal, sem grito se torna definitiva a escolha. Sangue escorre como lágrima, escorre.

“ Na verdade, a dramaticidade de uma experiência decisiva na vida é de uma natureza inacreditavelmente silenciosa. ” (p.48) Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier.

Sim, meu amigo, a tua leitura caminha com a minha leitura. No mesmo tempo!  Hoje escolhi junquilhos para colocar no vaso.

Portão Azul, lugar nenhum, em junho de 2014.

Coisa difícil…

Um rasgo de luz no céu. Frio, como se fosse inverno, mas é outono. Das laranjas, dos cítricos, e do fogo, aquecendo, ainda pouco, sem pinhão. Ou com pinhão? Vagares esquecidos. Cristovão Tezza:Todos os significados reais estão fora das palavras. ” Gostei da liberdade, do casamento aberto. Respeito ao amor. Mesmo amor aos filhos que não compreendemos, e aqueles que abandonamos, sem o desespero de envelhecer, apenas uma costura para encontrar o sentido da vida. Assim o livro O Professor vai se compondo, fácil assim, mas não é. Ainda: “É impressionante a rapidez, a eficiência com que o ouvido brasileiro procura e descobre todas as nuances ocultas de significado no evento da fala enquanto as palavras todas discorrem sobre outras coisas que não têm nada a ver, e é impressionante como também respondemos com palavras que estão longe do que importa, mas deixando nas frestinhas da sintaxe os sentidos secretos do que realmente queremos dizer. ” 

” – Em outras palavras, professor: o ouvido brasileiro é o ouvido mais apurado do mundo para interpretar o não-dito e responde a ele. Ele se alimenta daquilo que não é dito. A percepção brasileira navega quase o tempo todo no subentendido.” (p.140-141)

 

Portão Azul, depois do começo. Ainda em junho de 2014.

Imperfeito Dia

Meu amigo:

Segue cinzento. Desfiz as malas depois de viagem inteira sacolejando nas voltas da angústia. Gavetas abertas, duas portas do armário escancaradas, e as roupas na mala. Escolhi chá, como tu sabes, evito café preto. Protejo as noites da vigília. Sentei naquela cadeira perto da janela olhando sombras. “Quem é que conhece as verdadeiras razões dos seus temores? ” Voltei a repetir em voz alta a frase. O suor no inverno, o fogo no corpo, e esta respiração ofegante acusa medo. Fico imóvel, espero que passe. Não sabemos de onde chega, mas sentimos. Se olhares o desenho das nuvens, também tu, meu amigo, vais estremecer. Encobre esperança, esconde o riso, silencia o piano. Faço um esforço para abrir os olhos. Medo. Temor, insegurança. Esbofeteada no meio da calçada, surrada, espremida na voz ríspida da notícia que se espalha. E a cada empurrão, duas, três horas para recompor o ânimo. Estes esbarrões, estes gritos, nomes indizíveis flagelam. O cheiro da maconha, do álcool, deste desmedido alienamento assusta. Já nem sei se quero encontrar razões para temores. Acostuma a covardia. Ingenuidade, credibilidade, palavra nem importa. Agressão nos envelhece num átimo. Estou covarde.  Da viagem posso te contar que as feras na África oferecem menos perigo do que as nossas esquinas.

Nota:

Imperfeito dia! As propagandas, e as ‘figurinhas’ das revistas estavam repetitivas… Desanimador o jogo!

 

Portão Azul, ainda 19 de junho de 2014.

Das cartas de junho

Como é que se escreve uma carta depois de tanta ausência? É preciso dizer, confessar o meu engano. Começo a entender a situação. A vida que planejei – sonhei -, planos, expectativas -, essa vida se apaga entorpecida. Não posso voltar ao ponto zero. Como explicar? O futuro como uma cidade nunca visitada. Uma cidade do outro canto do país. Viajei de um lado para outro, com todos os pertences empacotados, chegando tantas vezes, e não encontrando… O percurso marcado claramente no mapa, mas quando chego, dou-me conta que o lugar não é aquele, não mais, ou nunca foi. A cidade que procuro desapareceu – talvez nunca houvesse existido. Uma sensação de ruptura. Numa vida, havia uma cidade para a qual viajava. Em outra, se tratava apenas de um lugar que havia inventado. Desta incerteza, ou desta obviedade o meu terror! Não vou conseguir chegar, e já não tenho mais forças para recomeçar. Buscar o que nunca existiu? Voltar para casa. Acertar o tempo de ficar, de permanência sem espiar, sem sonhar, sem querer avançar. E avançar justo para o lado que não tem estrada, nem cidade, nem nada. Interromper a esquizofrenia da invenção. Da poeira. Dos embates, quixotadas. Este descalabro por estar lá, ficar, ser reconhecida. Nunca deveria ter ido, nem tentado! Não existe pode ser entre as pessoas, não existe voz… Há qualquer coisa de mágico no saber ficar, entender que mesmo pela janela, o outro lado da sua rua é a referência perfeita. Se existe âncora, se existe paz, não está nas cidades visitadas, no caminho percorrido. Não se trata de prisão, mas certeza. E sequer de contar para o outro, ninguém ouve. Palavras são moedas. Desconheço numismática. Estou equivocada. A saída? Escrever para você.

Acabei de reler os dez capítulos da tese: Um só Pintor, tantos olhares! Recolhi velhos cadernos de francês, folhei livros separados em pilhas, por assunto, ideia sua. Sentei no sol do meu tapete, mas não compreendi nada sobre o lugar para onde voltei. Estou perdida, meu amigo.

Albertina Martins Cardozo

Portão Azul, 19 de junho de 2014