Aposentada, aposentadoria

Posso almoçar às 16 horas. Beber vinho português Vista, Touriga – Nacional 2012, Cabernet Sauvingnon. Gosto. Do supermercado Nacional. Não o mais caro. Bom. Experimentar. Sozinha, é verdade. Cristais comprados no Uruguai, bom preço, boa viagem, aquela coisa que todo brasileiro apertado de grana faz, compras no Uruguai. Foi divertida a viagem: comprar casacos, comprar o céu. Viagem feita, selada. A massa, o espaguete é Barilla, número 8. Claro, coloquei azeite na água, segundo o jeito italiano. Mykonos Millstone, Superior. Extra Virgin Olive Oil, indústria Grega. Não exagerei. Acidez? Não consigo encontrar acidez. Coloquei os óculos, achei, 0,5. O queijo foi ralado na hora, Faixa Azul. É bom. Na hora. Esta coisa do queijo é importante. Tenho este preconceito. Detesto saquinho. Alho. Tem gente que não come alho. Alho, manteiga, umas iscas de peito de franco. Um pouco de vinho. Manteiga, sem sal Aviação. Carioca gosta de manteiga com sal,calor! Podia ser outra, mas, no bolso, cabe Aviação. Azeite bom, manteiga, macarrão, queijo ralado. Um copo de vinho. Almocei. Depois um pedaço de queijo Cobocó da Santa Clara. Terminei o vinho, abri ontem, estas coisas de deixar para o dia seguinte… Aposentada, descasada.
Doce de leita Aviação, e o céu ficou perto. Sem muito charme. Sem um monte de coisas. Podia ser tudo francês, até a conversa, mas ficou assim, no silêncio. Um almoço às 16 horas. Abacaxi da Terra de Areia. Bom! Como é bom almoçar, entristecer, escrever. E caminhar pela lagoa…A lagoa é rasa, a calçada horrível. Estão esburacando uma praça. DEUS! No entanto, o calçamento, importante, cheio de buracos, eu diria, violentado. Calçada? Olho só para o chão. E sigo pelo meio da rua quando as pedras se amontoam…Credo! Tudo esburacado. A cada chuva, novo buraco. Asfalto para as bicicletas. A cretinice das pessoas, minha, acredito que podemos aprender! A cada chuvarada, grande inundação. Paralelepípedos são caríssimos! É caríssimo ser feliz.
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Coragem

Quando alguém enfrenta – ainda que com muita dor, – a sua verdade interior, sofrida embora, sangrenta apesar, ferindo, às vezes, ferido outras, este alguém sente-se bem: a verdade o liberou. Esse tipo de verdade é possível estar a nosso alcance. É a verdade possível de aquilatar.

Existe, também, uma verdade interior. Chegar a ela pode nos tornar livres. Se é possível enfrentar a solidão (ainda que como indesejável companheira), adquire-se o direito de ser. Ser é adequar a vida as próprias características. Adequar a vida ás próprias características é libertar-se através da verdade interior. Liberta-se através da verdade interior é alcançar a possibilidade de ser.

Quando vencerei os meus monstros, como encontrar o fio para retornar? Como empreender a viagem, e ser?

O amor deveria

Terça-feira, cinzenta, amarela, azul. O sol se abre, se esconde. Avisa, não fica.

A Lagoa do Violão encheu. Ventos derrubaram uma árvore, outra, algumas ainda sacodem inquietas. Calçada limpa. Gramado lavado. E a poeira descansa.

Como explicar o encontro, a saudade, e a separação?

A necessidade física, que é a origem e o fim da bela fantasia, tem de fazer parte da vida humana saudável.”

– Sem palavra, sem olhar, sem gesto. Veias abertas, cortes, o derramado sentimento de perda enfraquece… O amor entre homem, mulher, gente…,- cheio de circunstâncias e paciência. Este ou aquele? Certeza? Tristeza? Cansaço. Aceitar, não reagir, enaltecer, pisotear, e depois, esconder?

– Uma corrente de apertos, abraços, beijos, queixas e tremor. Quero contar, explicar, valorizar, minimizar, reconhecer. Verbos encarreirados. A palavra dá voltas, outras voltas. Pontuar, Subtrair.

Singelas histórias no caldo do amor…

“Para haver uma comunhão diária entre seres humanos, estes precisam ser capazes de falar uns com os outros de maneira conveniente e agradável. Isso não significa que todos vão falar ou pensar as mesmas coisas. Muito pelo contrário, Rousseau sugere que o homem e a mulher trazer oferendas diferentes para a festa, mas precisa ser capazes de se entender mutuamente e estar interessados nisso. A comunhão da compreensão e da fala é o elo mais durável entre o homem e a mulher.”

p.109, Amor &Amizade, Allan Bloom

A mesma pedra

Passados trinta anos, menos. Ou mais, o tempo de uma vida. A carta encontrada não surpreende. O escrito, o dito, o pensado, tão completamente, atual! A revelação apequena o protagonista, ou surpreende? Não importa. Curiosidade. – O que permaneceu assim, o mesmo? – O problema, o olhar, o escrito, o descrito sentimento. Ou detalhe de ser como somos, estagnados. Talvez o cenário. Ou aquela específica interlocução. Sempre o mesmo contexto, o mesmo texto. O tempo escreve perplexidade. Como no mito. Carregamos a pedra morro acima, eternamente. A mesma pedra. E, a mesma carta.
Sísifo, na mitologia grega, é obrigado a levantar enorme pedra ao longo de cada dia até o alto do morro, ocasião em que a mesma se lhe escapa das mãos e rola abaixo. Escrevo a mesma carta, sem nunca resolver o significado da ausência.

Elizabeth M.B. Mattos – 2015 – Torres

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Debaixo da janela, abandonada

O que faz sentir. Pensar, voltar a procurar na memória quem somos, fomos…Um texto. O livro inacabado. Retomo. Yasunari Kawabata. Repasso a questão de ser abandonada debaixo da janela.
fui simplesmente abandonada debaixo de uma janela. ” Já escrevi sobre isso. Ser abandonada debaixo de uma janela. A história volta a me surpreender. E procuro, ainda, a minha janela.
Toda pessoa se sente de fato abandonada debaixo da janela.Todos se sentem assim, provavelmente. Sem confessar, é claro. A viagem da leitura leva por aí, carrega, arrasta sentimento. Expõe o que não queremos ser, ou mencionar. É tudo exposição. Fica o estranhamento, estupefacção.
Na juventude, Takichiro tinha um temperamento de artista, mas era acima de tudo um misantropo. Nunca sentira a necessidade de fazer uma exposição de seus desenhos, reproduzidos em tecido. De resto, naquele tempo teriam parecido demasiado modernos e bizarros e, portanto, praticamente invendáveis.
E segue a história do jovem. Angustia esta solidão. Transpira aquela coisa de interno, de reservado, intenso. Elizabeth se debruça consciente na impotência. O jovem ousa, o velho desanima, o remédio? Uma pílula para dormir. Ou o simples, e escondido monólogo.
Depois da guerra, os desenhos para quimono modificaram-se totalmente. As obras que produzira antes, sob efeito de estimulantes, podiam agora ser consideradas modernas, e mesmo apreciadas. Mas, a ele já não agradavam: envelhecera. ” (p.36)
De repente não faz mais sentido. Não agrada, não conversa a cor com a palavra. O fazer. Já desaparece incompreensível, a vontade.
Boa leitura, – Kyoto, de Yasunari Kawabata.

Elizabeth M.B. Mattos –  maio de 2015 – Torres

Excesso de livros

Dependência, vício. Limitador.

Esvaziada do texto, do autor um branco. ou preto. NadaPensar tem  o braço de pergunta por dentro, pelo avesso, na calmaria. Leitura em excesso, turbulência. Assim, limite. Um estímulo reação sem realizar, fazer…

Quieta nestas ponderações sinto aquele medo covarde. Para escrever é preciso liberdade e coragem. Ser o somos! Difícil! Quem somos? Adoecer, pode ser consciência..

“Uma outra medida de prudência e de autodefesa consiste em reagir o mais raramente possível em esquivar-se de situações e de condições nas quais estaríamos condenados ao sacrifício da própria ‘liberdade’, e da própria iniciativa, tornando-nos simples órgãos de reação. Tomo como termo de confronto o modo como usamos os livros. O douto que, no fundo, não mais do que misturar livros – um filólogo de aptidões medíocres cerca de duzentos por dia -, acaba perdendo completamente a faculdade de pensar por si mesmo. Se não se empanturra com os livros, não pensa. Quando pensa, atende ele a um estímulo – um pensamento escrito -; enfim, não faz mais do que reagir. O douto emprega a sua força em dizer ‘sim ‘ou ‘não’, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais…O instinto de autodefesa enfraqueceu-se nele; o contrário, defender-se-ia dos livros. O douto é um decadente. Vi com meus próprios olhos: naturezas inteligentes, ricas, livres, arruinadas já aos trinta anos pela grande leitura, reduzidos a simples fósforos, que devem ser riscados para dar centelhas, isto é, ideias’. Logo pela manhã, à alvorada, quando o espírito reflui em leveza, ao despertar das energias, pôr-se a ler um livro! Para mim isto é um Vício!”

Frederico Nietzsche, Ecce Homo