outra quebradeira / outra vez pó vezes pó e ruídos e estresses a serem testados, a loucura das reformas… dar novas formas, embelezar, otimizar deve ser isso. Eu me remexo por dentro por fora e não “tiro férias” do lugar, da beira da lagos, do tempo… acho que as pessoas normais fazem isso, se locomovem… eu me pergunto ‘aonde coloquei esta minha normalidade’ insisto em ficar inamovível. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres
Mês: julho 2023
gripe / ranço da impaciência
como se fosse uma coceira / qualquer coisa epidêmica, curiosa, a impaciência pacífica se transforma numa belicosa disposição: um bom sono pode resolver, ou papos de anjos mesmo açucarados, ou suco de amora, ou de morango, uma manga aberta e suculenta! estranhas relações com o prazer, ou o prazer ele mesmo quando me abraças inquieto e desejoso, derramando tristezas…esta vida tão instigante no viver, e o desenrolado mel esparramado a nos açucarar! a ideia de estar ao teu lado me agita! coisas de ser feliz…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres depois de tanto sol, até calor, um cinzento se chama amanhecer.
contamina
certas contrariedades se esticam, e ao se esticarem resvalam, e levam com elas tantas boas risadas, se contaminam…
de todos os caminhos possíveis, recomeçar
temo o peso do fracasso já na saída.
no lançamento, o gosto azedo se mistura, e os soluços pesados trancam na garganta.
tudo é possível, nada mudou, afinal, todos, mansamente, esperavam o bom desfecho, suponho
sinto o descabelado sonho amoroso se desfazer e vejo um negócio, no acerto de contas bem cômodo, enfim… previsível.
o mar está chocolate e enroscado, vai e vem ritmado
o gosto de fel / o cheiro de mel não me salvam…
nem te alertam.
que o dia termine / uma fato.
que o sol, ou a chuva, ou os ventos, ou…
eu espero, sempre espero, espero… Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2023 – Torres – talvez a doçura te abrace!
o cão eu e os livros
não pode ser razoável, nem perfeito, sou eu nesta escolha, jeito. importância enviesada, esquisitices assumidas.
a comida, a minha.
festividade com a xícara do café, garganta dolorida, massacrada de tanto falar e dizer quando a voz alcança… dorme numa hora, revira na outra. calçada no meio da noite, janela escancarada, leite e resfriado.
pode não ser a gripe, nem a droga deste adoecer inquieto, confissão:
envelhecer neste costume, jeito de ser um, uma…
cheia de medo, envelhecer.
talvez eu termine de arrumar, tirar o aspirador da sala, os panos do sofá. receber uma visita, talvez, possa ser acontecimento com chá e biscoitos. agora, hoje, não tenho cadeira para oferecer. alguém chega, fico errada: camisola, pés descalços, cabelo esvoaçado, louça empilhada na pia. camas desfeitas. ocupo os dois quartos, na madrugada vou assistir televisão na cama grande ou esparrar uma leitura engrenada, beber um chá. não exatamente selvagem, nem antissocial, mas esquisita vida de uma escolha certa: sou uma. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres / RS

se pudéssemos
“Se pudéssemos, o que desejaríamos, sem dúvida alguma, seria suprimir o mal. Mas o desejo de suprimir teve por efeito apenas (o gênio permane obstinadamente pessoal) a expressão do desejo.[…]
‘Todos os homens‘, disse Blake, ‘são semelhantes pelo gênio poético‘ E Lautréamont: ‘A poesia deve ser feita por todos, não por um.‘ Quero, de verdade, que se tente, honestamente, como for possível, dar consequências a essas intenções: mas a poesia alguma vez deixou de ser o feito de alguns poucos que o gênio visita?” (p.193) Georges Bataille A experiência interior seguida de Método de Meditação e Postscriptum 1953

Inverno ilumina com cores, dá luz de verão às bergamotas. Desejo, gosto, usufruo… Elizabeth M.B. Mattos julho 2023 – Torres

respingo
Domingo avança morno. Ruídos atravessam venezianas e vidraças fechadas e aborrecem…Ligo o rádio. Estranheza minha. De onde estou posso ver folhas verdes. O vidro da porta-janela está com respingos das novas folhagens, altas, esparramadas, volumosas, encondem as janelas do prédio ao lado. Ias gostar. Sexta-feira afundei-me na compra destes vasos: verdes e verdes para fazer o meu jardim no estreito corredor. Sábado fui ao cinema ver Dogville, excelente filme, talvez o melhor… Depois deitei e fiquei sonambulando no prazer de estar em casa. Nostálgica saudade que sabe ser diluída nas impossibilidades. O curto tempo dos nossos encontros. Diferentes. Não imaginei nenhuma relação homem versus mulher onde beijos e abraços importam. Aconteceu. Enamorados pela possibilidade, ela mesma, do enamoramento. Que vontade eu tive de me deixar acarinhar.
Calor, exaustão, mesmo o desencontro me fez feliz, os impulsos… Gostei do teu olhar. Penso no prazer de cada pedaço de corpo, não uma mulher inteira, mas um braço, um pescoço, um rosto, uma boca: ser possuída pelo desejo do outro. E o prazer caminha lento, manso e morno. Perfeito. Apalpei a vida.
Por que não fui ao teu encontro? Não tinha ceteza. De repente, indecente. Convocar ideias, longas conversas, outras viagens! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023 – papel solto. Porto Alegre

Pedro Moog – São Paulo – julho de 2023
Por quê?
“Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o pr´prio irmão de Júpiter Seguramente tudo isso tem um sentido. e mais profundo ainda é o significado do mito de Narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e aatormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos nós em todos os rios e oceanos. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo.“(p.41)Herman Melville Moby Dick
de morrer
silencioso e dolorido, sem lágrima, o tempo de morrer. sem vontade de ir, no desanimo do que dói, sem memória. eu choro, distante, impotente, eu choro… na calada da noite, sem ruido, como se o sono interrompido se desfizesse em pedacinhos… o ritual inteiro, completo, vai doendo como se fosse faca no peito. assisto a morte passando pela janela. sempre pela janela o tempo caminha… eu vejo, não faço nada. parou o vento, ficou gelado o frio, já tão frio deste inverno, desta noite da insônia acabrunhada, inquieta: sem saber o porque este ir da cama para o teclado, do teclado para a cama. eu escuto, não grito, eu me despeço, e choro. não entendo nada de morrer, eu sinto, e eles se despedem silenciosos… ah! o abraço que nos abraçou! Elizabeth M. B. Mattos – 18 de julho de 2023 – duas horas da manhã, ou antes, ainda antes – ele se despediu em Torres
Jean Marie no verão, José, João
José Maria, João Carlos,
A chuva desceu furiosa e grossa. Das secas? Das imundações? Do verão explodindo. No mar majestade, nostalgia: saudade. Esta é a terceira carta escrita, repensada na palpitação, inacabada. Vontade de dançar, emagrecer para não doer as pernas, voltar do tempo com fartos cabelos, quiças brancos. Não faz fresco nem quente. Volto da caminhada pelos Moinhos de Vento, jantar na Dinarte Ribeiro. Os jacarandás iluminam o imaginário florido. Porto Alegre verão urbano. Dou-me conta: relação amistosa entre homem e mulher, beijo e afagos, olhares bizarros, apertos, bizarro sentir… Preciosos momentos derramados na futilidade social da calçada e deste sopro noturno /ou boemio: rende ilusão. Tempo tomado do sonho. Precipitação. Amor escorregadio, soberbo amor. Desejo? Falso/ incompleto. Volto para as cartas ou João Paulo? Esta relação amistosa entre homem e mulher, beijos, afagos. Não. Cartas. Cartas eu posso completar com associações idiotas, outras boas, soturnas, alegres, mas catalisadora, verdade. Gosto disso. Das conversas. Do olhar e dos gestos, juntamos bebida fala e tempo, acrescento desperdício de tempo na euforia… pas des nuits blanches,mas exaustão, yeux cernés. Pateticamente, dor pelo corpo, noite mal dormida. E segue no dia seguinte, hoje.
Quero guardar este trepidante momento de mudança, chegada no meu lugar, chegada no silêncio entre leituras, cartas, fotos…e, as fotos estão pintando as portas, gosto. Se eu pudesse hibernar para chegar no tempo da pesca, mel, sol e quem sabe um namorico, verdadeiro: urso tem possibilidades. Não quero esvazear o momento. Posso me imaginar na França, entregue aos teus cuidados, ou no campo, ou perto do mar num tempo de recolher a vida dos pedaços espalhados… Tu te imaginas em Porto Alegre, urbano, solto, cheirando a fruta, ao sol dos trópicos. A fala preguiçosa da lingua estrangeira? Talvez tudo se faça na sonolência: noites mal dormidas, um trabalho idiota, a secura da vida, empurrões. Acreditei em histórias que se fecham: certeza dentro das incertezas. Foi assim com o marchand, viúvo, logo se engajou com amiga alemã, namorada poderosa. Apenas dividiu o tempo. Quebrou meu orgulho. Estou desgastada, sem sintonia, triste.Perdoa.
Escutar tua voz ao telefone foi bom. O som da remissão: tu me perdoavas. Assim, eu me aproximava, quieta, acalmada. Confidências entre mares? Nunca poderemos nos encontrar, nem na França, em lugar nenhum. Tempos cruzados por afazees: uma pedra sobre outra perda para reconstruir terra ancestral. Os princípios, disse Juliette. Eu não mandei os presentes…meus equívocos.
Vou te escrever mais. Esta carta ficou longa e confusa. Quero tuas palavras precisas. Sentir o carinho reconhecido no gesto – egoista eu sou. Rígida. O olhar, o toque. Correspondência ao sentimento interno de alma machucada, descrente, justo pela diferença. Quem é mais feliz? Homem ou mulher? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2004 – Porto Alegre. – Foto Marina Pfeifer –

patético desejo
acordo tão cedo! durmo tão cedo! a cidade se movimenta bem cedo! faz frio, bastante frio…vou voltar para as cobertas. o café se acomodou feliz, a Ônix choraminga na calçada, está escuro, mas vamos as duas procurar a grama… acenderia o fogão à lenha distraída: o campo acordaria comigo se estivesse na fazenda! os homens fazem a roda do chimarrão, cavalos encilhados. Ficava eu com vergonha de voltar para cama, uma vergonha descabida / ridícula, mas meu desejo se atava na vontade de trabalhar, ou fazer, ou alguma coisa… a natureza de cada um no lugar possível de cada um… saudade.

os dedos estão gelados, assim mesmo insisto, sonolenta. fora do lugar,estão todos longe, os filhos / guerreiros, e perfeitos. os amados são perfeitos! e desejo o impossível! patético desejo: ter outra vez uma vida para acompanhar/crescer/conquistar/ conviver ao ritmo, na dor, a cada alegria deles, minhas também. …os netos! ora?! os netos seriam nossos holofotes, deles e meus. a passarinhada acordou e se comunicam aos gritinhos, a luz nascendo, vou voltar a dormir…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres – inverno definido, gelado e
