desafio

” Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempe que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível.” (p.39) Herman Melville Moby Dick

“Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o próprio irmão de Júpiter Seguramente, tudo isso tem um sentido. E mais profundo ainda é o significado do mito de narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e atormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos em todos os rios e oceanos. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo.”(p41) Herman Melville Moby Dick

Como uma desgarrada, recolho o livro não lido e me proponho a avançar, simultaneamente, com o Robert Musil que avança no crime, no social, no perdoável, no amor lícito e também no ilícito e o dinheiro. O que eu fiz com o dinheiro, com o trabalho de galho em galho ousando. Já tracei, já senti raiva e aquele amontoado de alegrias necessárias. Festejei a minha relação com Jorge no período tumultuado,do Lalo, o amor adolescente de crianças adolescendo e tantas! Construir cercas, e açudes, e construir casas .ah! As casas! Misteriosas e falantes / são elas que sepultam aquelas alegrias inconfessáveis, as viagens de lá pra cá num baile com orquestra e beleza disfarçam a vida, como passageiros, turistas, vamos vendo os cartões postais, comendo de exóticas iguarias e reconhecendo um mundo, ah! um mundo plural / diferente / outro que não o nosso quintal . E tão nosso quando escolho a beira de uma praia, os mercados de iguarias, as aventuras no voo de Balão. Seja Itália, Turquia, França. Posso tudo e dentro deste olhar/ver/colorir, sou rei, sou rainha, sou dona, sou livre, sou pessoa realizada que posso ir e vir. Avanço / agarro o mundo. Isso basta para abastecer: volto para a cozinha, para a vassoura, para os números, para o marido, os filhos, A cama desfeita, a chefia, volto para o poder.

E deveria desenhar a cronologia / desenhar as curiosidades,por que não?Elizabeth M. B. Mattos julho de 2023 – Torres frio frio frio e frio

esplendor de inverno

foi-se o ciclone, limpou / varreu por aqui… o esplendor do inverno chegou: higiênico, magnífico! desencotro e tristeza espicaçados, retomei / abracei o raio de força que passou junto. volto a escrever, a pensar. cozinhar, ficou delícia a carne picada, e o gosto das frutas, as minhas amarelas laranjas e bergamotas…afinal, sou feliz. Elizabeth Menna Barreto Mattos – julho de 2023 – Torres

PS resolvendo a cortina, que protestou e se “jogou” no chão! espanto e susto! as coisas se manifestam, mas não foi o ciclone, foi de velhice mesmo que ela caiu.

esforço de chegar

a palavra se esforça.

aproveito o olhar e recomeço.

o ciclone veio e já foi para o mar…

mistério de mar, deste ir… gosto de geléia, pão com manteiga, o café. notícias engraçadas

leitura lenta, arrastada, e anotações.

arrumar, limpar, mas não muito. falta manutenção nesta subida.

começo a rir de mim mesma, desta vontade altiva, deste desarrumado de sobreviver.

encabulada, com medo das palavras, das decisões e… vou voltar a me obrigar, a exigir, palavra certa: exigir a exigência: isso pode?! e lá me fui a fotografar o galho atrás das florzinhas brotando…

danada ventania! pois é, eu podei / cortei… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023

O SAL E O SONHO

As letras do alfabeto kazar levam nomes de iguarias salgadas, e os números levam os das diferentes espécies de sal; os kazares distinguem sete tipos de sal. Oskazares acreditam no envelhecimento pela ação do olhar, seja o nosso olhar que recai em nosso próprio corpo, seja o olhar dos outros, pois os olhares lavram e rasgam os corpos com as mais diversas armas e as mais mortíferas, criadas por suas paixões, ódios, intenções e desejos. Só o olhar salgado de Deus não faz envelhecer. Chorar é a maneira de rezar dos kazares, pois as lágrimas pertencem a Deus porque, como a concha abriga a pérola, as lágrimas encerram sempre um pouco de sal no fundo.

Os kazares tem igualmente o culto do sonho. Aceditam que quem perde seu sal não poderá mais dormir. Daí a atenção que se dá ao sono […] Os kazares acreditam que os que habitam no passado de um homem estão como que aprisionados ou condenados em sua memória não podem fazer nada diferente do que já fizeram, só podem encontrar com as pessoas que já encontraram, e nem mesmo podem envelhecer. A única liberdade concedida aos ancestrais, a povos inteiros de pais e mães desaparecidos e guardados na memória, é a trégua temporária dos sonhos. Ali, nos nossos sonhos, esses personagens da memória ganham de novo uma parcela de liberdade, agitam-se um pouco, encontram novos rostos, trocam de parceiros para a raiva e para o amor, voltando a assumir assim um lugar importante na religião kazar, pois o passado, a prisionado para sempre em si mesmo, ganha liberdade e possiblidades nos sonhos.(p.225-226) MILORAD PAVITCH – O DICIONÁRIO KAZAR – Romance Enciclopédia em 100 000 palavras – edição feminina

encontro de amor mal aproveitado

“Só eu saberei se foi a falha necessária. Levantei-me enfim da mesa do café, essa mulher. Não ter naquele dia nenhuma empregada, iria me dar o tipo de atividade que que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja minha única vocação verdadeira. Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo. Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro, razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe a que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar. Arrumar é achar a melhor forma. Tivesse eu sido empregada-arrumadeira e nem teria precisado do amadorismo da escultura; se com as minhas mãos eu tivesse podido largamente arrumar. Arrumar a foma. O prazer sempre interdito de arrumar uma casa me era tão grande que, ainda quando sentada à mesa eu já começara a ter prazer no mero planejar… Olhara o apartamento, por onde começar?” (33) Clarice Lispector A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Livro lido muitas muitas muitas vezes, assimilado -, descobri Lispector quando trabalhei na TV Globo com Célia Ribeiro e era responsável por uma pequena coluna de livros. Encontros de amor prematuros e intensos são tatuagens…

Eu mergulhei nos livros / obra de Clarice! Mais tarde, eu a entrevistei. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres

gentileza de filho

o filho com sessenta e cinco, de certo, a se sentir o cara poderoso! está de carro novo (caminhonetão), deu uma boa ré de onde estava e se colocou na frente do prédio a minha curiosidade de velha estacionou na janela, e, fiquei estarrecida com o que eu vi. o pai, com seus noventa e quatro, se aproxima apoiado numa bengala, e na dignidade abre a porta do carro, acomada a bengala e começa a entrar, claro, a altura dificulta um pouco, eu vejo o esforço, mas, o filho nada… De repente deve ter se impacientado com a demora, então, resolve ir ajudar, claro! com meus aplausos ao idoso, ao chegar do outro lado, o pai já estava sentado, então, fecha a porta e arranca… Jesus! eu não queria isso. e a história deve seguir. a gente / pessoa não deseja isso, no final, envelhecer e nos surpreender com a palavra impaciência versus idosos, quase intolerância, e, no caso, o pai. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023 – Torres

desapreendeu o amor. sei lá, amor passa por atenção, não só obrigação, mas tem que ser natural. este filho é, naturalmente, desligado. desatento, suponho, vive no desamor.

mapa de caminho errado

Este mapa ilustra / define o melhor: o novo caminho. O lugar que serei eu mesma, sem pressão externa. Vencer barreiras passar fronteira e lá estou eu, completa, melhor.

Não pode o essencial ser engolido pelo superficial: vida de vitrine, lisa, transparente, evidente. A nobreza desaparece, digo nobreza como sinônimo de educação. Educação transmitida de geração à geração: não o dinheiro que corrompe e deteriora, mas a cultura e o trato, a beleza do detalhe. O sorriso. Desaparece a pessoa, fica o carro, o excesso. Abafa o ser humano que não se permite saborear ou pensar, nem sorrir. Esquece o valor, a educação, a geração. Esquecido do sentido borboleteia inquieto. Sem origem, não sabe de onde veio, nem para onde vai… Borboleteia. O espírito se inquieta, as aranhas tecem, os valores desaparecem. Torres, depois de uma chuva abençoada que lavou… Elizabeth Menna Barreto Mattos – 10 de julho de 2023

alonga

o dia pode ser maior / enorme / comprido e complicado se/quando faços coisas demais: limpar, ordenar, empilhar e…,também, quando as conversas são longas / densas / complicadas / concentradas. o passado. um/o passado debruçado no que nos restou de ser gente / pessoa. a jornada ou a visão de momentos dobrados / fabricados para conviver. viver como tarefa… neste viver com se inclui desencontros / mágoas e o peso de responsabilidades descartáveis. este alinhamento massacra / exige / aborrece, arranca pedaços que importam. e a lembrança / a memória do sofrimento / da gentileza e das danadas e cruéis sacudidas: 1985 1968 1970 ou 1972 ou 1999 e as datas gritam: foi sempre muito muito muito muito muito muito muito. apenas sentir e lembrar? Elizabeth M.B. Mattos julho de 2023

julho de 2023 Parque Ibirapuera São Paulo Pedro Moog

fogueira / fogo

“Como se vê, nas mais variadas circunstâncias, o apelo da fogueira continua a ser um tema poético fundamental. Na vida moderna já não corresponde a nenhuma observação positiva. Mas ainda assim comove-nos. Desde Victor Hugo até Henri de Régnier, que a fogueira de Hércules continua, como um símbolo natural, a revelar-nos o destino dos homens. Aquilo que é puramente fictício para o conhecimento objetivo permanece portanto profundamente real e ativo em relação aos devaneios insconscientes. O SONHO É MAIS FORTE DO QUE A EXPERIÊNCIA.” (p.43) Gaston Bachelard A psicanálise do fogo

Em todas as minhas pequenas experiências desastrosas com o fogo ficou a sensação de ousar, ou gritar, ou transformar… Há um pensamento de criança que chama e quer, uma vontade perigosa de fazer acontecer e transformar… Queimo panelas, canecas, panos de prato, tapete e vontades, a sopa de ervilha, o frango no forno, queimo as distrações e o passado, as luzes… não sei interpretar nem mudar aquele alerta e concentração… Dizem que temos que reler os bons livros e relendo haverá mutação, temos que descartar os livros ruins / confusos pensamentos, tirar o oco, o vazio das estantes… As descobertas saltam! Sou feliz, pois é, sou de natureza feliz, oxalá eu possa arrastar comigo esta energia até o final. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres um dia de calor, vou caminhar na praia e descobrir que a mágica está neste quente e no frio / na tua palavra misturada com a minha palavra, num beijo que esquece: estamos velhos etão fortes e tão tomados!

Nesta Hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda

Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo

Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio

E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto

Ganhar meio salário

Como só ter direito

A metade da vida

O demagoggo diz da verdade a metade

E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade

Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade

Para especializados clérigos letrados

Não basta girar o povo é preciso expor

Partir do olhar da mão e da razão

Partir da limpidez elementar

Como quem parte do sol do mar do ar

Para construir o canto terrestre

—Sob o ausente olhar saliente de atenção—

Para construir a festa do terrestre

Na nudez de alegria que nos veste

20 de maio de 1974

(p. 270-271) Sophia de Mello Breyner Andresen [ coral e outros poemas] Companhia das Letras – Primeira Edição – São Paulo – 2018