Valentina e o tempo. Uma luz de encanto, a certeza de que o certo é ser como o mundo: iluminado. Um rastro de atitude… Perdi umas fotos, encontrei outras.
Perdi o texto (joguei no lixo) -, importa a ideia… Gavetas sem atrativo. A tal alegria espontânea ou exibida desaparece. Estou a procurar. Ela me faz uma falta danada! Comidas da fome! Abrir um vinho importante: mesa completa.
A chuva e o cinza, a calçada vazia. O tal silencio importante! Café preto com bifes salvam! (risos) Tomates, é claro. Gosto. Espírito. Igual sinto saudade daquela Beth animada, festiva sem festa. Estou procurando. Notícias gastas, e misturas ao tédio. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
“Escrever é ocultar-se. O escritor, apenas pela beleza de uma imagem, acredita ter acesso a uma vida nova”
Viver é um arrastar-se nas horas a serem vencidas, entreolhar, desejar sem precisão, e desperdiçar… Acho que assisto uma comédia trágica quando me debruço no entardecer, ou quando as horas não passam, mas se arrastam. Escrever é preciso, único jeito de navegar nesta terra escaldante. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
adjetivos contraditórios e se completam na velhice e antes do completo amadurecimento… Pensei – dois períodos em que não medimos a fronteira. Vai terminar mesmo, no galope do tempo com palmas ou vaias, e na adolescência, temos certeza da chance / da conquista. Tropeçar, fazer errado ou muito bem, igual, vai continuar está para começar o período de ouro da vida / envelhecer, vamos fechar as janelas e a porta. Nada de sentir medo, mas pânico. Eu ainda não domino as possibilidades…não posso esquecer os filhos, as irmãs, os netos. Sou eu mesma, mas tem toda uma circunstâncias. Tantas amarras… Tem solução? Ou seremos sempre tão contraditórios?! Alguém lê o que escrevo? Vamos nos reunir para podermos rir também. Preciso parar de costurar. Tem um ponto. Um ponto solto, errado, refazer? Elizabeth M.B. Mattos janeiro de 2024 – Torres.
” O grande defeito da democracia é o de todos os déspotas: o fraco por seus aduladores e cortesãos, o favoritismo para com as incapacidades agradáveis, em outros termos, aversão aos capazes independentes. Entre nós, as superioridades insinuam-se ainda às vezes através das malhas da eleição, mas a maioria dos eleitos é já do grande monte, e até da pacotilha de última qualidade. […]
O que há de fastidioso neste mundo é que são os ignaros que dirigem os que sabem, e os ilusionados que arrastam em suas tolices os que não compartilham das suas ilusões. Sempre, e em toda a parte, a vontade supera de fato a inteligência, o que equivale a dizer que zomba a força da razão; e que o sentido fatal do movimento histórico está às avessas do bom senso.” (p. 331) Diário Íntimo Henri- Fréderic Amiel – Escrito entre 1847 e 1881 – ano da morte de seu autor – impresso no Brasil, maio de 2013 – Realizações Editora
Para viver mais do que para morrer, existem motivos que não consigo explicar, eles ultrapassam a capacidade das palavras ou das minhas explicações… Parece meio maluco escrever sobre isso porque eu adoro estar viva, desmedidamente, adoro a vida e o prosaico da vida. Ou seja, o prazer de respirar, de rir ou chorar, tocar… Como vou explicar? Talvez eu querer dizer: eu amo. E minha incapacidade crônica fica margeando o sentimento. No entanto, o que eu faria, se coragem eu tivesse? Olhar nos teus olhos e dizer: eu te amo, eu te amo, eu te amo. Imobilizada, muda, alienada, ou sem responsabilidade, inútil, eu te amo. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
O grande desgosto ocupa o palco e arruma jeito / forma de estar na plateia, ou seja, se transforma na maior evidência e se consome, e me consome… Não se fala/pensa ou diz alguma coisa, pensa noutra coisa, apenas no desastre.
Amanheço pesada, atrapalhada, cinzenta. A chuva forte , o vento, a presença imposta, exige. Não posso resolver mais nada. Faço panquecas. Dobro a dose do café. Repasso as frutas. Escuto o mesmo disco, uma três vezes, não ligo a televisão. Respondo os recados no celular, e desligo conexões. Definitivos, os aborrecimentos. Eu não permito que cheguem à janela. Estão todos de castigo, abafados no quarto menor, no escuro. Eu me ponho também no castigo: intratável, apenas gulosa. Que ganhe dois quilos, não me importo, quem sabe quatro quilos? É um sentir em que o tato e todos os sentidos se reviram. Duas latas de leite consensado. Com três fazemos um banquete. Como é difícil brincar com a dor, abraçar a tristeza, sentir alguma coisa. Confesso que o pior desastre ainda é a completa indiferença, começar, aos poucos a desaparecer, diminuir, não comer, não falar, não fazer. O pior é quando o sono se deita na cama antes da pessoa, e não levanta. Paro de respirar. A chuva diminuiu. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Doçura do doce, acho que é assim… Não sei explicar, nem dividir, então, eu me derramo nas história perdida. Perdida? Todas elas vividas, vividas. Intensas. Encontradas na memória, no fiapo do tempo. Sim, foi mais vontade, foi loucura. Foi também acerto, acertei no intenso. Na loucura de ir. Como este vento! Arrancou o lugar do pacífico bom para transformar em revirado de restos. Os restos… A vida tem este contexto. O inverno rigoroso, o calor a maltratar, as tempestades previsíveis. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres entre o sombrio, o sol e a chuva.
Viver, bom demais, na balança, a diferença certa. Igual achei ótima esta de Pavese, em seu Ofício de Viver -, página 229.
” 13 de junho
Se é possível lançar mão da analogia com o dia, a velhice é a idade mais aborrecida porque não se sabe mais o que fazer de si, como à noite, quando a faina diária está concluída.“
Diário de Cesare Pavese de 1935-1950
Não escrevo poemas, não sei dos romances, nem dos ensaios, nem das pesquisas. Nem novelas, muito menos de contos. Forma perfeita. Maravilhosa literatura! Sou a bisbilhoteira das estantes. E as fatias me surpreendem, descobertas! Eu me apaixono, eu fico desatinada. Posso ter os olhos exaustos, a cabeça aos pulos! Coisas obsessivas do amor. Citações chegam em cambulhadas / não sou original. Já foi dito, escrito, citado. Como desistir antes… Envelhecer é o trajeto, antes não posso saltar… Viver é assim mesmo, etapas. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Ah! Tua coragem chega neste ramo de rosas! Jeito bom de mandar flores, rosas de todas as cores, um precioso bom dia. Obrigada. Não sei se mereço. Rabugenta, queixas e pedras, não sou pessoa agradável, nem para se pensar, porque os fluídos devem chegar escuros. Ufa! Desabafo! E penso no teu passeio, nas tuas voltas, neste teu rio de águas limpas, tuas caminhadas e tua alegria. Tuas pequenas viagens soltas! Eu sigo aqui acorrentada neste navio. Os jasmins me salvam, o verde me abraça e o silêncio. A obra do prédio, este ajardinado com oliveiras e palmeiras me parece tão sem propósito, mas, de repente, o céu se toma de um azul e de uma beleza que eu me curvo. Como as férias continuam férias, eu prolongo as cartas. As novas notícias, os jornais e as revistas parecem diferentes! Será verão ou será Brasil? Não sei. O meu ânimo e humor horrível e minha irracionalidade são de um país escuro, suponho. Igual resolvo te escrever. Depois conto detalhes das novidades domésticas… E da nova pintura! Vais gostar. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
São apenas 108 páginas, estou na página 41 -, porque leio assim, muito, muito devagar. Tenho que interromper, fotografar, uso os pincéis para preencher a tela com cores parentes do vermelho, chegam no preto e vão a se esfacelar no rosa com o verde necessário. A tela, os pincéis, o cheiro forte do verão se derrama na tela. E escrever vira compulsão, poema, ou rascunho, conversa ou apenas o dedilhado do piano… são apenas cento e oito páginas. E Fosse não usa maiúsculas, nem ponto final, nem respira, escreve. Juro que estas semelhanças que usei ao longo do Amoras, em meus textos precários e fragmentados, não foi imitando o Fosse (Nobel de 2013), nem de dentro do gelo da Noruega atrás de um Fiorde, nem pela leitura obsessiva que fiz de Karl Ove Knausgär. Foi assim, um presente neste Natal. Um mergulho. E percebo que posso seguir… Outra vez, seguir. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro- 2024 bocejando.
Repetindo: porque afinal tu sempre velejaste, ou correste, ou fizeste esporte, ou saíste a ser isso e aquilo, e a seduzir, tu te especializaste em sedução e eu, eu fiquei a te olhar, a te pensar, a te olhar… a indecisa menina, aquela que ficou esperando o noivo que não chegou (bom que não tenha chegado, teria transformado minha vida num quintal de fundos). Acabei recebendo braçadas de rosas, galanteios e dancei. E chorei bastante, depois, engoli as lágrimas e corri pelas calçadas. Nunca consegui te alcançar, nenhum dos meninos daqueles mágicos veraneios… Atrasada eu. Todos se casaram depressa. Confesso, eu também apressei un mariage. E conheci em majestade o Rio de Janeiro, e casei na Igreja São José, num fevereiro escaldante…
Quando tu estendeste a mão eu apenas sorri e me joguei nos teus braços. Deveria ter te convidado para beber um suco, dar um passeio, olhar o jardim… Eu me joguei nos teus braços… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres