desaba o mundo

Se o mudo desaba, ou sai do lugar, ou os planetas se chocam, ou a noite é para sempre noite, ou pior, o sol não sossega, e sem sombra… pois é, quando as catástrofes se sucedem, vemos filmes, perfeitos ou não, nada pode ser mais completo e divino do que a realização, o resultado de um filme ou das séries que reinam poderosas. Jogar cartas, dominar a música. Se o mundo desabar…desabaremos com ele. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

subterrâneo

Este mundo subterrâneo posso ver pela janela: não apenas mar, lagoa, dunas e aquelas ondas nas pedras. Pessoas, motos e sustos, sussurros. Sinto o medo pela janela. Pessoas entrelaçadas por vozes ameaçadoras, inquietas e olhares vigiando. São as frestas falando, mostrando… E já não podemos fazer nada. O calor castiga o tempo. A horta estressada, apesar da proteção, cuidados dá problemas… Onde estão os meus tomates? Bem! Temos uma oliveira no jardim. O gramado verde deve ser a boa chuva: verão molhado. Como será o inverno? Este tempo danado que não termina de passar, nem planeja, sacode a pessoa, e todos os sonhos. Todos? Projetos assustados. Assopro as velas, festejo. Acordo… É assim. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024. Chegaram as contas, pontuais, o correio não atrasa. Eu fico exausta até terminar de contar.

redimir

Por mais palavras que sejam pronunciadas a cada momento numa cidade para expressar os desejos pessoais das pessoas, uma jamais se encontra entre elas: a palavra “redimir”. Posso presumir que todas as outras, as palavras mais apaixonadas e as mais complicadas expressões, e até relações marcadas como exceção, são gritadas e sussurradas simultaneamente em muitas duplicatas por exemplo, “você é o maior patife que já encontrei”,” ou “não há outra mulher mais linda quanto você”. Estas experiências tão pessoais poderiam ser representadas por estatísticas. Mas ninguém diz ao outro: você pode me redimir, ou ” seja meu redentor”, “faça isso por mim.” Aconteça o que acontecer, coisas possíveis e impossíveis, muito comovido ou não, mas ele jamais dirá redimir, redentor ou redenção. Uma barreira. Como explicar isso? Não sei. Uma lágrima sim, redenção não. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres Suponho que ninguém reparte ou divide de verdade / mas ama, odeia, perdoa, confessa, redimir não…

eu te admiro

o que significa: eu te admiro

admiro em ti exatamente o quê? a pessoa / a trajetória / o que poderia ser e não foi… as respostas. de uma forma esquisita, muito minha, não faço perguntas, ao mesmo tempo sei que me consideram invasiva, imprópria, crítica, excesso de crítica ou de indignação. como gostariam que eu fosse? prestativa? ativa? gentil?

concluo que não fui uma mãe gentil, nem sou agradável, não tenho empatia pelos problemas?!

reconstruir uma mãe gentil

falar sobre o assunto / ventilar as arestas melhoraria minha capacidade de ser gentil? melhor?

afinal, o que significa, então, quando alguém te diz: eu te admiro? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres com que roupa eu deveria estar neste verão escaldante? quem, de verdade, se interessa pelo que eu penso. pensar importa?

Nous nous touchons, comment?

Nous nous touchons, comment? Par des coups d’ailes,

par les distances mêmes nous nous efleurons.

Un poète seul vit, et quelquesfois

vient qui le porte au-devant de qui le porta.

Rainer Maria Rilke / mai 1926 / A Marina Ivanovna Tsvétaïeva

Eu não sei traduzir. É um precioso livro / uma preciosa correspondência salva…

Nós nos tocamos, como? Pelo bater de asas, pelas distâncias, nós nos tocamos de muito leve (?/!?) Apenas um poeta vive, e algumas vezes vem alguém que o leva / carrega a frente /na / para a frente daquele que o carrega / que o leva…

Não sei se compreendi / se errei / quem sabe francês ou alemão ou russo, por favor, me ajuda!

o porquê

Antes a gente sabia o motivo, o porquê de casar ou de ficar solteira, trabalhar ou deixar o tempo sossegado na circunstância. As histórias são todas alinhavadas por barbante colorido, ou preto, e as costuras…, pois é, as costuras bem feitas ou não tão feitas, engraçadas as costuras. Sombras. Às vezes eu caminho na sombra apressada de um dia ensolarado, sombra dos arvoredos, hoje, escassos. E fico a dar explicações. Não peçam… Não existem certezas, mas um amontoado de histórias que puxam outras e muitas lacunas. Por que troquei tanto de nome ao longo da vida? Ficou esquisito… Viver é esquisito. Contar a vida, uma piada. A rir quando damos explicações, o melhor do colorido são as testemunhas: as tias, os vizinhos, os ditos amigos (amigas), ou os inimigos, os tais conhecidos, contemporâneos. Os colégios. Sim, principalmente, quem viveu no internato, de muitas ou de poucas, as escolas nos definem. Mas não me perguntem para nominar: estive em muitas escolas: Estaduais, o Colégio Americano (num jardim de infância de bonecas). O Santa Inês das Dominicanas, nas Agostinianas, e depois no Colégio Bom Conselho, ali perto, só atravessar a rua. Esqueci a congregação. A vocação pra ser freira, irmã, madre ou religiosa passou pelos Canto Gregoriano, pela punição e pelo perdão. Os equívocos amorosos, ah! Loucura de não sentir! Silêncio. Amanhã eu sigo viva, assim, devagar, uma página. Leia isso, e pense nestas sombras. “Enquanto observava os lírios, envolto em sua fortes fragrância, Daisuke se abandonou por completo. E, em meio a esse estímulo olfativo, pôde ver claramente o passado de Michiyo. E nesse passado, percebeu que a sombra de seu amigo era como uma fumaça a pairar em torno dela.(p.225) Natsume Soseki E depois

A sombra que não está mais na nossa vida, e está. Bom viver sem sombras! Mas mesmo num sol absoluto, numa chuva só de cinza, ou digo sei lá como, a ideia e ou a possibilidade de não ter sombra… É remota. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

buracos

Sem glorificações, mas alguns buracos. Pode ser qualificado, mas de qualquer modo é estranho. Longos e preciosos silêncios fantasiados de cotidiano, ou a vida que vai… E vai mesmo. Aos tropeços, esquisita, desbotando. Hora de abrir todas as gavetas, dobrar as roupas com cuidado, eliminar isso ou aquilo, segundo minha tia Joana o que não foi usado durante x tempo (esqueci o tempo) devemos nos desfazer. Ou renovar. Minha tia querida! As vidas longevas são misteriosas, e as curtas parecem hoje tristes! Vivemos mais… Vivemos tanto! E me parece tão bom o sentimento de vida! Mas a doença, o pedaço danificado me dá consciência. A inconsciência pode ser um bom remédio? Sei lá. Os buracos são escuros. Eu caminhava pela casa no escuro desde pequena. Ah! Desde pequena!

“E pela força do hábito, sentia-se arrasado se ficasse um único dia sem ler ao menos uma única página. Por isso, houvesse o que houvesse, sempre procurava dar um jeito de manter a intimidade com as letras impressas. Às vezes, tinha a impressão de que seu único e verdadeiro talento era o de leitor.” (p.192) Natsume Soseki E depois

roteiro

O bom roteiro é a intuição que salva do vento, das chuvaradas, e dos cheiros… Todas as manhãs a surpresa, depois o sorriso, o cheiro do café. A certeza de que não estou sozinha, mas com o sol, e a tua voz. É dia alto quando acordo. Bom dizer obrigada, estalar um beijo vespertino. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – um ano par / acompanhada e cheia de certezas

felicidade

Felicidade? aquele gosto misturado de vinho e alegria e boa comida… claro, sempre o bom sono respirando nas noites e nas tardes mornas. As vozes? Elas chegam… e as canções poema. Bom mesmo é estar viva! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres