a leitura pode ser promíscua / intensa, até dolorida. sim, se trata de paixão. não são leras, frases, mas paixão: a pessoa se entrega e revira a cada explosão de prazer. e fica diferente, mutação. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres como uma foto, o gosto, a somra, o claro escuro – tudo acontece na leitura
Mês: julho 2024
citação da citação
uma citação dentro da releitura J.M. Coetzee Mecanismos interno
Sándor Márai é o autor sobre quem Coetzee escreve, e no caso aqui cita: “Não nos limitamos a agir, falar, pensar e sonhar; também guardamos silêncio sobre algo. Passamos a vida toda sem falar sobre quem somos, aquilo que só nós sabemos e de que não podemos com mais ninguém. Ainda assim, sabemos quem somos, e aquilo que não podemos falar constitui a verdade. Somos aquilo a cujo respeito guardamos silêncio.” (Land,Land…,p.83)
p.126-127 J.M. Coetzee Mecanismos interno
A pensar / o dizer por mais que eu queria contar e dizer, ou me desnudar não consigo. Há o ponto, a questão, inominável. O segredo que não consigo mencionar porque, afinal, não passa de uma sensação, um prazer ou um olhar, o meu. E se explico, digo, acho ou penso, é a minha versão incompleta. E nela existe o detalhe que eu mesma desconheço. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres
não basta querer
Meu amigo: eu escrevia sempre e sempre e sempre. Os passarinhos, os verdes, as escolhas. Sobre a paciência, eu escrevia. Olhos lindos da Letícia. Um filho amigo. Uma casa com piscina. Teus livros. Teus escritos importam. A tua doçura. Não. Não a política. Penso tudo pelo viés / a pensar que de mim sempre viram/imaginam o lado certo / e eu, pela vertente atual, errada. O Brasil não nasceu. Eu desisti de tanta alegria miúda, boa e quente!, talvez por serem migalhas ou confetes / sei lá, o sapateado não faz sentido. Conversar importa, concluo para constatar o desastre, esta minha ilha, este cercado voluntário, e os espinhos me incomodam… Não sou mártir / nem tenho rezado. Choramingo, desespero meu amigo. Desculpa a carta. Os motivos são os mesmos, e ao mesmo tempo, são fatos, creio eu, velhice. Acho uma droga envelhecer. Não é a cara enrugando, os braços depenados, ou a falta de cabelos, mas a não perspectiva, a não crença, ou a crença certa: vai terminar. Este sol, esta chuva, o frio, o calor, as árvores cheias de pássaros, o olhar doce da Ônix. O gosto vai terminar. Estou a espernear para que não termine. Antecedo as noites com grandes / majestosas sestas que acordam no meio da noite e eu… E eu me pergunto, por que está noite? Estou sem sono. Claro. Dormi um amontoado de horas erradas / ou certas. O que importa? Importa que não tenho sono e quero o sono, quero a música, quero bolo e café, quero risadas e abraços. Mas não basta querer… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 Torres




nostalgia rondando
31 de julho de 2024 Torres
Nostalgia da máquina de escrever! Eu me atrapalho com arquivos, detalhes, guardados do computador! Registros. A ciência da facilidade desapareceu, a pensar nunca esteve perto. Perdi a lógica, o fazer ficou tão incrível e potente! Tantas e tantas opções: o óbvio me escapa. Antes, num pedaço de papel, colava ideias. A máquina costurava palavras. O recorte pensava doçura, eu não me importava com excesso. Brincadeira.
Está difícil subir a escadas, pendurar os quadros, passar o café, sentar para ler um livro. O livro escapa, o autor se repete, a importância viaja e a lógica deste frio não me consola: ah! É inverno… Eram / foram / aconteceram tantos invernos longos: nós de pinho, madeira rachada / fogo crepitando, fogo queimando e dançando, colorido e quente – Ah! Óbvio se escreve assim. Eu não sentia frio. O frio festejava o meu poder de ser quentinha. As crianças são mornas e risonhas, aquela alegria saltitante aquece nas correrias pela casa, o movimento aquece, a imobilidade congela. A nostalgia é imóvel JMCLZM. Palavras / letras. Um brinquedo de amar o amor. Arma, desarma. E a tal nostalgia volta como palavra e tempo. Um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres (sussurros da Ônix, minha pretinha canina que envelhece, com nostalgia, ela também?)
gritoooooooooo
um grito preso. quero soltar… deixar sair inteiro, mas ele se encolhe encabulado, e aperta meu braço. converso manso, explico e peço para me soltar.
estou presa nele ou ele está preso dentro de mim? do braço passa para a garganta. sinto falta de ar. abro a janela. o sol! o sol! ainda sinto frio. não se trata de sol, nem de luz, nem de ar, nem de respostas. estou estrangulada. grito.
é o grito. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres

Carlos Lacerda
Estou escrevendo sobre meus joelhos na cama, pois estou ligeiramente resfriada e resolvi ficar de molho hoje para curar direito, já que estamos na época das chuvas […] Imagino que vocês não esteja acompanhando o noticiário político sul- americano – no máximo, o Péron -, mas será que saiu alguma coisa sobre a revolução silenciosa que tivemos na semana passada? Foi uma revolução antirrevolucionária. A revolução para melhorar, que estávamos esperando, foi sufocada, o que significa que o homem que a instigava, que lutava por ela em seu jornal etc., viu-se imediatamente muito ameaçado e teve sair do país. Primeiro ele fugiu num navio de guerra, depois voltou e foi para a embaixada cubana daqui, e foi de avião para Nova York, onde vai passar uns tempos até as coisas melhorarem para ele. A mulher e os filhos dele vão para lá depois.
Ele se chama Carlos Lacerda. Tem 41 anos, é um homem brilhante, completamente honesto, quer ser “democrático”, sem dúvida: meio católico, mas tal como ocorre com muitos políticos e jornalistas daqui, ao contrário do que se dá nos Estados Unidos, também tem interesses culturais gerais, por pintura, arquitetura (ele também tem uma casinha aqui, perto da nossa, que foi construída pelo mesmo arquiteto que fez a da Lota), jardinagem, culinária, bebidas etc. Recebeu o Prêmio Mary Cabot de jornalismo, dado pela Columbia University, uns dois anos atrás, e é claro que é radicalmente contra a ditadura. (p.426) (Carta A Loren Melver / 20 de novembro de 1955) Elizabeth Bishop – Uma Arte – Cartas de Elizabeth Bishop Editora Companhia das Letras, 1995
faltou casaco
neste inverno eu não coloquei todos os casacos necessários, nem encontrei as mantas coloridas, e não tinha mais vestidos de lã. neste inverno eu espiei pela janela.. não vi a banda passar. acho que estavam congelados os tambores. as mentiras são verdades invertidas. não adianta estar a dizer é isso ou é aquilo, eu vi azul, quando o céu estava cor de rosa. a franja não era regular, a voz desafinava, e o filme, credo! o filme tinha /era mar norueguês: coragem e força, vontade. eu vi Jean Lehmans era ela a menina grávida… Apaixonada eu fiquei pelos olhos azuis, os cabelos bem claros, a ingenuidade e a disponibilidade: música, violão cantar, e, ser, assim, entregue. Sob vigilância. Passei todo o tempo da minha vida aos cuidados… Deve ser por isso que ainda estou viva, eu estou aos cuidados de… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres
esforço! tentativa /assunto recorrente… pequeno / murcho, mas festivo.
Para ser eu: derramado pessimismo, baixa autoestima, escorregão. Amontoado de negações para chegar na assertiva.
Uma chuva fina arrasta o inverno. Sigo a mesma, indefinida. O que foi dito sinto hoje, ou foi ontem? Qualquer coisa parece muito. Deveria ser enérgica, animada, decidida… Pois é, mais natural. Suponho. Não tenho certeza que o desengonçado caminhar seja desânimo, ânimo desta idade, talvez. Não consigo entender como tudo (e é um nada, repito) irrita meu dia. Eu me aborreço, vou de um lado para outro querendo. Este julho de 2024 termina. Postura: o outro define. Que estranho! Encerro a pessoa que eu era. Em que momento desapareci?! Este nublado virou chuva, brevidade, ou… Não consigo explicar. Uma energia reduzida num esforço esfarrapado. Não sei contar a história. Preciso, urgente, encontrar a enredo, sem medo. E voltar a escrever.
Luis Vaz de Camões
Queria visto ser, ser invisível; / Ver-me desenredado, amando o enredo; / Tais os extremos são com que hoje vivo! Luis Vaz de Camões / Sonetos para amar o amor / LPM Pocket / 1997 / Porto Alegre (p.61)
Pois esta repetição de amar / amar o amor e amar a saudade que se move para voltar. Repetidamente, na exaustão, a mesma. Voltar pra se revirar, duplicar e ficar… Quente, acomodada e dizer a mesma palavra: chamar sem voz. Derrete e se repete, apalavra, silenciosa. E cá entre nós, coisa minha esta de repetir saudade. Gosto de amor e deste silencio: o nosso. Coisa esquisita estar a dizer o mesmo do mesmo. É que o amor se repete / a saudade se repete. Meu amigo está certo, não se deve mexer em nada. Respirar é muito. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres
quero te perguntar
quero te perguntar das cores do céu, ou como o vento soprou ontem. quero saber se estás feliz e se a vida te cuida e abraça. quero saber se bebes um café vez que outra, ou se comes um pedaço de carne, com certeza legumes e saudades. não sei. pessoas especiais, únicas vivem numa esfera multicolorida, quase transparente, obscura para seres comuns. nunca saberei das cores, muito menos das nuances. soube do Camilo porque estava na televisão exibindo novo filme. arrasta verdades sobre a água. difícil verdade. bem, eu não sei como te encontrar (ou não quero). onde estás, ou se estás… te conto que estou do jeito que sempre fui: velha, transparente, triste e cheia de alegrias súbitas, a sorrir triste. paradoxal? não. minha natureza é esta, mais para rir e enfeitar e sorrir e inventar doque viver. se me escreves vou acordar. um beijo, um abraço e aquele silencio bom, próprio dos que amam…depois sabes, vou falar sem parar, sem respirar, como sempre. do jeito que já conheces. ElizaBeth M. B. Mattos julho de 2014 – Torres
