cinza, amarelo e azul

Cores de amar. Da despedida. Amar é deixar ir… Depois lembrar: sentir. viver outra vez. Onda de ir e vir. Cinzenta, depois azul, verde e amarela também. Todos os pincéis se movimentam nas tintas a se misturarem. No sonho. Volta o ontem, tão agora! Tão presente! A saudade se despede devagar, lenta… Ela vai saindo do agora, tão presente no amor! Inteiro na lembrança boa, cinza. Eu vivi e foi tão bom! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

múltiplo

Descrições, conversas. Confissões, danças e segredos se misturam. Domingo quieto, enfeitiçado pela ordem, por este novo desejo de tudo limpar, perfumar. Domingueira da cumplicidade. Andei procurando nas caixas aquela Beth alegre, e confiante. Jesus! Depositei tanta energia em relações quebradas e surpreendentemente insignificantes. Poema mediocre, vaidade exacerbada. Quebrei uma imagem praiana que brilhava. Terminou. Talvez devesse ser mesmo assim… Findas, acabadas devem ser extirpadas. O encontro é sempre no hoje, no agora. Não conseguimos trazer as lembranças com vigor. Pálidas, desfiguradas ficam diante da expectativa de vida. A vida é hoje! Hoje é apenas um vento sacudindo os jasmins. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Ando / tenho / preciso reencontrar o vagar espaçoso e voltar a escrever corrido, escorregar pela memória para deixar escrito o sentimento. Não passam de sentimentos revisitados, sublinhados…Muito bom amar!

caça as bruxas

quem são as bruxas? aonde o feitiço? como dançamos o som destes tambores? o começo e o fim, aonde o meio?

de vez em quando esquecemos de ver e ouvir, e não conseguimos falar. mas exatamente nesses minutos, por instantes recuperamos a lucidez.

e penso que minha lucidez, minha atenção, meu tempo começa a se esticar desnorteado. corro para os livros e volto, imediatamente, para as citações que me fazem refletir, respirar e voltar:

“Durante esses dias estive particularmente inquieto. Ora me sentava um pouco, ora andava de um lado para outro pela casa. Era como um sofrimento, mas antes se deveria chamar doçura do que sofrimento, pois não havia aborrecimento naquilo, mas uma sensação singular e muito sobrenatural de bem-estar. Eu superava todas as minhas capacidades, chegando à obscura força. Então escutei sem som, vi sem luz. E meu coração se tornou algo sem fundo, meu espírito informe, minha natureza insubstancial.

Os dois acharam aquelas palavras semelhantes à inquietação que os impelia pela casa e pelo jardim, e Ágata ficou surpreendida por também os santos chamarem seu coração de algo sem fundo, e seu espírito de informe; mas Ulrich logo pareceu retomar sua ironia costumeira.

Os santos dizem: um dia estive encerrado e então fui arrancado de mim e mergulhado em Deus sem saber.” (p.534-535) Robert Musil O Homem sem Qualidades

assim tomo emprestado um texto, um momento, sigo, eu também, uma voz e recomeço a jornada que me encanta por conta das margaridas, do excesso de luz, e excesso de vento, e excesso de mar, e excesso de beleza… e dou a minha mão… Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

picotada vontade

A vontade picotada, uma surpresa boa. Pera flambada, alegria descompromissada. A boa comida e a fidelidade. Felicidade certa. Fico a pensar que toda a certeza certa transborda. Coisas de boa memória. Se inventada ou real, alimenta. Pequenas descobertas: copos de vidro pintados à mão, delicadeza nunca esquecida. Assim entrei na vida carioca: saltitante, confiante. Embora minha juventude causasse certo estranhamento. E todas as certezas ficaram à descoberto, expostas. Temerária eu fui. A lua perto do Cristo Redentor, o sol quente entrando naquelas tardes ferventes. Para tudo a solução da juventude, uma certa aceitação natural, então felicidade. Não fiz escolha, fui fisgada, em todas as ocasiões fisgada. Sair parecia sempre mais fácil. Entrava, caia e depois conseguia sair… Recomeçar. Acho que não há tempo, idade para recomeçar. Sair pode ser o mais difícil porque exige a disposição de abrir a porta, fechar e sentir o temporal do jardim, do mar, das ruas alagadas. Uma aventura. Aventuras nas telas de cinema, na televisão, na vida real, medo. E a gente foge do medo. Olhar nos olhos do medo, um desafio. A gravidez é uma destas felicidades cegas. Um estranhamento. A paternidade, um susto! Escrever um livro, pintar um quadro, esculpir o sentimento. Tão difícil! As cores nos confundem, as linhas atrapalham… O que nos salva e define? O sentimento. O sentimento sentido, vivido. doído. Então eu vivo! Não é surpreendente? Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Dezembro majestoso, não quente / os dias se fecham para este ano estranhado por espantos. Tão surpresa, tão manso! Preciso ver o mar, outra vez o salgado das águas. Desatrelar o atropelo deste desejo engasgado de ser feliz. Preciso apenas existir na tua memória como tu existes na minha. Boa memória flambada de amor. O nosso.

o que foi que você disse?

“O que hoje ainda se chama de destino pessoal está sendo substituído por fenômenos coletivos e, por fim, estatisticamente comparáveis.” Eu sinto enorme dificuldade para ser eu comigo, solta, inteira… Estou a pedir explicações pelo que sinto, como eu sinto. Parece cruel e ao mesmo tempo tão vago! Volto a citação numa costura necessária.” É como uma leve divisão da consciência. A gente se sente abraçado, rodeado, e invadido até o coração por uma agradável falta de personalidade e vontade própria; mas de outro lado permanecemos lúcidos e capazes de crítica, até prontos a brigar com essas pessoas e coisas tão empoeiradas e arrogantes. É como se houvesse duas camadas relativamente independentes em nós, que habitualmente se mantêm em profundo equilíbrio. E como falamos de destino, é como se tivéssemos dois destinos: um ágil e desimportante que se cumpre, outro importante que jamais descobrimos.” (p.514-515) Robert Musil –O homem sem qualidades – Editora Nova Fronteira

Tão confuso se tornou que eu me surpreendo aborrecida e no vazio, mas nada mudou, ou melhor, eu sigo a mesma, tento ser, apenas isso, respiro e sou. Elizabeth M. B. Mattos dezembro de 2024 – Torres

se se se se a voz

Se eu puder te dizer alguma coisa… seria, não desiste. Tudo começa com as sensações que temos do nosso próprio ser. O bebê apreende e sente o mundo a partir dele… E segue assim, eu acho. Vemos o mundo, o externo, o outro a partir do olhar que temos sobre nós mesmos. Assim, o amor que sentimos pelos detalhes da vida, são os detalhes do nosso corpo, do nosso estar no mundo… Quero escrever sobre isso. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

INSTAGRAM e o poço

Justificar, olhar, acompanhar todas as postagens e movimentos significa estar atualizada, mas eu diria, completamente, desligada, perdida da vida ela mesma. Se vou ver/acompanhar todas as postagens. Pensar sobre todas as frases, e filósofos. Entender observações que ali flutuam, esqueço de pensar. Estaciono. E o dia termina numa flutuação indefinida. E me sinto uma idiota. Feia, é claro, desinformada, é claro, fora do mundo, claro, e transparente. Terei eu que fazer as tais chamadas, caprichar nas fotos e transformar meu feijão com arroz em assados e brindes? Que vida ridícula a minha! É o que devo pensar?! Todos, tudo brilha. Os melhores momentos saltam aos meus olhos, os momentos de uma montanha de gente bonita e feliz! Que maravilha! Que vida idiota a minha! É a conclusão? Escolhas erradas, caminho obscuro, sem alegria?! É exatamente esta a conclusão? Não deveria ter escrito um livro, poetado mais vezes. Encontrado o homem perfeito. Estourado champagne e festejado meus cursos e doutorados, o meu emprego maravilha!? Céus! Como estou atrasada! E o Instagram segue a me monitorar / eu filmo momentos / notícias / e especiais chamadas para dizer: eu existo, como é pouco! Estou aqui entre vocês! Mais linda do que nunca! E o ciclone bala nem sacudiu meus cabelos, nem alterou minha sólida e inconfundível beleza. Preciso esclarecer ao Instagram… Sou um brilho esquecido! É isso? E ficar mesmo, horas, horas a detectar este mundo que conversa ao mesmo tempo… Um mundo idealizado e colhido de melhores momentos e de beleza especial: fotos únicas. E eu? Quem sou? Uma vírgula sem texto. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres