espiar / verbo

piar / ar / deve ser o ar falando como os pássaros. espiei espreguiçando e estavas ainda dormindo. sai da cama devagar para te surpreender com o festivo. o movimento de ontem alterou a rotina… confiante e festivo estavas. o inverno se surpreendeu… estamos velhos mas amorosidade nos salva e coroa. Bom dia meu querido! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Porto Alegre

conversa íntima

meu querido: estou atrasada nas cartas, sim, gosto de usar a palavra carta. vejo teus dedos compridos, magros, abrindo devagar os envelopes, e podes, tu também, imaginar minha ansiosa ansiedade lendo tua longa e amorosa carta. ciumenta, imagino quantas cartas de amor já escreveste! quantas outras escreverás que não serão para mim. enlouqueço. enlouqueço apenas um pouco, ainda não posso pensar na fogueira, no pinhão… mas as noites geladas, frias já estão aqui. então, meu querido amado, eu te penso na loucura boa de te amar. volta logo. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

minuto segundo na hora

a hora de começar está perdida / assim mesmo uma palavra depois da outra a história sussurra e se estica e bate, quer entrar. não entendo por que o porquê, porque estou desfocada? então, eu me sento para escrever sem vontade, sem plano. as notas / as palavras precisam dar-se as mãos… começar está no querer, naquela vontade inquebrantável. também na disciplina, no encantamento… nas margaridas todas daquele jardim. eu plantei, semeei, acreditei que elas cresceriam, as minhas margaridas.

neste frio tão frio elas não estão exatamente felizes, mas reagem, eu cuido, eu cuido dos sonhos, das vontades, das palavras, procuro os vasos perdidos, e vou acomodando os sonhos e as saudades devagar. Faz tanto frio neste inverno. Estou aqui para sentir. Elizabeth M. B. Mattos – 2025 – Torres

Francisco, obrigada. Foi tão bom! De volta o gosto do que vivemos, tu e eu, meninos e adultos. Explodimos o coração juntos – tão fácil, tão bom. Únicos. E quando escuto tua voz acontece tudo outra vez.

frestas

Ela entrou na sala inquieta esperando resolver tudo bem depressa. O tudo a perseguia obcecado. Resolver imediatamente o assunto. O problema estava lá, distraído com o sol que se abriu… A luz rara do dia aqueceu as frestas, parcialmente, resolvido. Quem estenderia a mão? Queria que o assunto suavizasse… De repente percebeu que o drama era ela mesma, seus incautos vinte anos. Ela. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2015 – Torres

sensação prematura

Frio. Segue frio por aqui e muito. Antes o frio chegava e bastava ter/acender a lareira: energia da vida, boas cobertas, claro. O frio se acomodou dentro dos meus ossos, congelou vontade e paralisou. Quero aquela alegria solta da vida… O luto não termina. Perdas curiosas se esticam, crescem. Habilidades desaparecem… Estou presa no silêncio. Dificuldade diária com certezas arbitrárias / confusão natural / natural por que estou viva? Faz frio aqui / cinzento londrino constante / outro jeito da vida! Olhar frio / friorento e velho / sim meu querido, sensação prematura do envelhecer posto que chegar aos 100 anos pode ser verdade… Então, falta muito. Frio sem palavra / grudado nesta coisa dita vida. Parece o fim do fim sentir frio, ter corpo gelado ou coisa semelhante. Que as lareiras sejam possíveis… Que os planos aqueçam. Que / que / que eu possa pensar. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

volúvel

hoje acordei com a sensação não só de que fiz as melhores escolhas, mas também tive/tenho sorte! aquela coisa antiga de boa estrela… pois é, eu tenho boa e preciosa estrela… nunca estou sozinha. ISSO é muito bom! muito bom! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres freio frio frio frio frio e frio frio frio frio frio…

às vezes, às vezes, tudo fica tão pesado!

extraordinariamente, pesado! a leveza está / se esconde num canto diferente hoje / e / eu visito, com saudade, a menina que fui. quanta extraordinária certeza! daria certo. fiz tanta coisa pequena, estranha, esquisita, tão menos! acovardada do sonho… escolhi errado, e poderia ter dado certo, mas eu me perdi nos desvios. tão esquisito pensar agora, eu te perdi sem nunca ter te encontrado. JCKCL Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

dos velhos

jovens a se espelhar em jovens / olhar vivo para a surpresa / velhos devem conviver com velhos amparados e socorridos pelos jovens (é verdade) /a dignidade de viver exige autonomia… verdade, o ideal seriam mesmo as grandes família misturadas, a conviver. casas grandes abrigando gerações: os avós, os bisas, as crianças… estamos setorizados. as conversas se quebraram… apreender, estudar não é mais prioridade, as conversas são relatos, não experiências… os gestos e os odores se completam. conviver importa. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

ALICE no País das MARAVILHAS

Caiu no poço, caiu, caiu… MA, eu lembro / era/ foi tudo um SONHO. Leio a leitura / o fato? Por que a surpresa? Era sempre sonho… Não. A leitura ou o fato de cair? Escuto… Mas é proibido pensar / falar. Haja céu! Nuvens! Flutuação. PROIBIDO. PROIBIDO proibir (interrogação) Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres