com vagar, devagar recarrego minha alma: o piano, apenas ele, a luz entrando… e o sono saindo silencioso. os passos arrastados neste amanhecer a se espreguiçar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres se despedindo do ano…
Mês: dezembro 2025
Anaïs NIN
Etait-ce une maladie nouvelle née de notre époque? Pas le temps d’aimer, pas le temps d’avoir des amis, pas le temps de se confier.
Rank transfigure chaque chose par la magie du sens. Ceux qui viennent à lui sont comme les aveugles, les muets, les sourds. Lorsqu’il découvre l’ “intrigue”de leur vie, cela les intéresse. C’ est d’un intérêt sans fin, rempli des surprises. (p.20-21) Journal 2
som
meu querido: tanto, tanto a te contar das coisas quietas de dentro. tanto a te contar das saudades pequenas e daquelas enormes que me assombram. estou com medo. medo de envelhecer e de me perder. impaciente, agitada, escorrego entre os gritos e as ideias tomadas de sentimentos enlouquecidos. deves estar quieto, introspectivo ou catando brilhos, sei que gostas de brilhar: retomar o tempo de direito perdido. cansei de te explicar, não foi perdido. aquele tempo, meu menino, desenhou tua história assustada de herói… chegaste entre abraços e abraços e apertos, festejado. isso foi bom e lindo. uma vida brotou e teus livros foram escritos, tua casa construída, teus amigos te protegeram e voltaste ao português. voltaste. eu te beijo. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres
acho, não tenho certeza

não sei o porquê de amontoar tantas letras e seguir, seguir. escrever escorregando numa vala, numa ideia, tropeçar, sujar a roupa, não parar, escrever. quando menina queria que fosse um livro de verdade, uma história. ela iria embora, e ele não se importaria, ninguém diria nada, ela iria para não voltar. mas voltou, voltou / cortou o tempo, fatiou e desenhou o antes e o depois com as mesmas convicções. perdoou a decepção daquele casamento desfeito, e recomeçou a colorir a vida deles todos, como se fossem parte dela, obrigação dela ensinar a dançar, cantar e dizer… aprenderam depressa. e a casa, os móveis, e a vida cresceu ali… colada. quando venderam a casa mudou tudo, promessa dele que seria bonito, limpo e novo. e foi. eram apenas eles os dois colocados um ao outro, amorando o amor, recomeçando. Elizabeth M. B. Mattos- dezembro de 2025 -Torres
íntimo
A música é cura / cura forte / feitiço contra qualquer mal. Entro noutra estória / enredo. Qualquer música, canção. MARAVILHA! Hoje João aniversariou / cortamos o bolo de manhã! Como saiu ontem de noite estava meio dormindo, meio acordado (risos). Estou em casa tentando arrumar este EXCESSO de discos / separar os que escuto / os que devem ser doados… passo pequeno para a ordem. Verdade, limpeza e ordem definem.
Empilho roupas e tudo vira confusão… ou dobro, seleciono. Higienizo armário… tudo isso me faz bem, muito bem. Ou escuto a música, ou penso, ou escrevo e sinto misturado num prazer de tempo que ‘se aflige’ / haverá tempo físico para ordenar esta desordem confusa? O que a vida é? Ou se faz? Tão intenso s sentimento que me imobiliza. Enlouquece e se espalha… enraíza e depois floresce, também vira mato, e inço, às vezes, violetas.
Este caminho não é o que eu procuro, assim mesmo escrevo, obcessivamente escrevo: excessivos decotes, sensualizados gestos. Nada disso procuro, busco algo mais calmo, mais íntimo, cativante e profundo. Não sei como expressar porque não estou dentro dos sentimentos. Passo o dia atordoada: limpo, esfrego, cozinho.
Deixo o tempo escorregar pelo ralo como se fosse uma torneira aberta / esquecida, abandonada, sem uso… a água sai rola escorrega. Quero outra vida. E penso retornar a Porto Alegre: escutar outros sentimentos. Apenas movimento, afinal, altera muito pouco quem eu vou ser / o desenho rascunho escorrega do lápis. Estou nostálgica de ser eu, apenas eu mesma. Outra vez recomeçar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro – 30 de dezembro de 2026 – Torres
Feliz Aniversário!
a dor física
Existem momentos em que a passagem do tempo é percebida de forma aguçada, em especial quando se experimenta a dor. A enxaqueca, que surgiu sem mais nem menos quando eu tinha meus catorze anos, com a cólica, interrompeu minha vida cotidiana. Enquanto eu parava o que estava fazendo e aguentava a dor, cada gota de tempo que caía era uma conta feita de várias lâminas. […] Seguimos em frente na beira do precipício invisível que se renova minuto a minuto. Ao fim deste tempo que vivemos, damos um pequeno passo e, sem interferência ou hesitação, pisamos no ar com o outro pé. Não porque somos especialmente corajosos, mas sim porque não há outra alternativa. Nesse momento também, também sinto esse perigo. Caminho imprudentemente em direção ao tempo que ainda não vivi e ao livro que não escrevi.” (p.12) HAN Kang O livro branco – Editora Todavia São Paulo – 2023
dei a mão a olhar e transcrevi cada palavra para que eu pudesse, com ela sentar, na mesa de um bar e assim, como ela, pudesse escrever sem escrever / irmãs ficaríamos sentadas o tempo necessário. e eu, iludida, acredito que escreveria e contarei, chorarei, sairia mais forte e conseguirei, ou será que vou morrer antes porque está próximo, insônia amorosa, ruídos, cheiros, não sou eu, meu querido. Tua mulher, a legítima te acolhe, não podes ficar comigo /somos comprometidos noutro amor. escorrego para minha cama sem convicção. Tu não vieste. Elizabeth M. B. Mattos .- dezembro eu conto que trabalhar durante um ao na televisão me fez crescer. Escuta Lucas.
sou
Agitada, amorosa, ansiosa, egoísta? Assustada. Tenho mania de limpeza, obsessiva, compulsiva, agitada, pois é, inquieta. Depois, sonhadora, agarrada na vida, no suspiro, na saudade generalizada, na expectativa. Acredito no amigo, no trabalho, no jardim florindo, nos amigos e nos abraços, no beijo, na conversa madrugada entra, no whisky com gelo, sem gelo se for bom. Gosto de coca-cola, guaraná e água gelada. Batatas fritas. Balas de goma. Café com leite. Doces de ovos, goiabada com queijo. Amigos e amigas. Gosto de gostar. E leio leio muito, obsessiva se tenho um bom encontro, um autor amado, encontrado vira íntimo. Amanheço e adormeço no livro / com o livro: Leio devagar, releio capítulos, escrevo nas margens, sublinho. Volto no livros… Gosto de piano, dos clássicos, das canções em francês, dos autores japoneses, coreanos – pois é. Esquisita sou mesmo. Gosto da chuva, das trovoadas. Este ano senti frio, muito frio. Gosto do mar resmungando… De banhos, muitos, muitos. No chuveiro, na banheira, no chuveiro… tantos! Os cheiros, os cheiros são como desenhos. Tinta e expressão, cuidado e zelo. Cheiros são gulosos. Ah! Como são gulosos! E gosto do bom feijão, de arroz e batatas, guisado feito por mim, moído na hora. Gosto mais do que desgosto… As frutas me seduzem, todos Todas. Os sucos… os gramados, as margaridas, os amados amores. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres – gosto dos anos pares, redondos, de números. Gosto de gostar.


gosto de cartas, de mensagens, gosto da vida.


gosto de coisas bonitas, do amarelo, do vermelho, do verde e cinzentos, dos marrons, das cores, dos pincéis e dos lápis


gosto de cinamomo, violetas, rosas, flores e musgos











gosto de gostar, pois é



gosto de gostar, eu sei.

gosto do JAPÃO e do japonês.
delícia de lágrimas
quando o verão choraminga, derrama lágrima grossa protesta de tanto sol e calor, aproveito o frescor destes soluços. gosto. quando jovem, menina, as lágrimas desciam fáceis. tão bom! quando virava soluço, se resolvia num abraço, um beijo. boas lembranças! envelhecer tem a risada do passado! molecagem do tempo. a vida se derrama nesta boa memória. tintas excitadas se misturam na tela… pintar sem desenho, tão bom! pincéis, lápis numerados, canetas mágicas! escorregar no texto alegra. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres – calorão neste verão! despedida florida de um inverno rigoroso – as estações estão, aos gritos, se colocando nos seus lugares precisos…

ANAÏS NIN Journal
Journal 1934-1939
Tout le monde est jaloux. Certains l’admettent, d’autres non. C’est une perversité d’ être jaloux du passé parce que le passé est d’ordinaire fait de cendres. Mais avec l’artiste le passé survit sous une autre forme; et je comprends ceux qui sont jaloux du passé d’un artiste. Il devient un monument. Examinez le passé de la plupart des gens et vous trouverez un cimetière bien propre ou bien une urne avec des cendres. Examinez, par contre, le passé d’ un artiste et vous trouvez des monuments à sa pérennité, un livre, une statue, un tableau, une symphonie, un poème. (p.265) Anaïs Nin Journal 2 (1934-1939) Éditions Stock, 1970
queria escrever sobre esta coisa do ciúme e sobre o passado e o tempo de escrever e respirar isso tudo… tanto e tanto se agita ao mesmo tempo… e estamos na beirada dos festejos, das fitas… vou voltar ao assunto. agora, só o registro da Anaïs






