pensar não é razoável

pensar se tornou jeito fácil de se atordoar… as conexões enlouqueceram: mistura de cor riso alegre com riso nervoso. aos poucos desaprendo a historia (começo / meio e fim) / Carol, socorro? Preciso de ajuda. Lembras? Ordenar um livro, alinhavar um conteúdo, separar histórias de estórias, emoções de verdades. T/á confuso. política deixouou de significar, virou remexer talheres, acomodar empatias / que graça! afirmo que detesto mingau, talvez uma canja, ou quem sabe um sagu. quero meus velhos autores, aqueles que eu me envolvi de amor / de escancarando… Fui visitar, na Noruega. viajei / atravessei mares. agora esta coisa de roupas, as roupas? deveria arrumar o armário? limpar as louças e fazer comida? tá fácil comprar prato pronto. mas, mas estou a engordar mesmo fazendo academia… estou arredondando. será bom? um chá me salvaria / uma tarde de silêncio / nenhum investimento, nem dever dinheiro, caminho perigoso… os bancos fazem coisas incríveis! / floresta/ dança/ canto desafinado. Tá tudo errado. Estou apavorada. Tenho que endireitar o tempo, as contas e as tardes. Mais sono, sono fora de lugar, sono de brincar não de dormir. Será que o mundo vai aceitar a paz / teremos paz e dignidade ou a guerra será em baixo / por baixo do tapete. brincadeirinha. Arrepiar / assustar a notícia. Vou me enfiar nos lençóis e ficar quieta / talvez acorde nova / diferente. aqueles bons milagres. quero escrever um texto / dizer que acredito e dizer, também, que vou me esforçar. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 Torres com sol / deveria dar certo pensar? e se não mudar nada. só flutuamos? vou correr para o mar / de manhã e de tarde. viva o mar! vou apenas descansar.

brincadeirinha pra cá e pra lá

os nomes voam, voarão, e se repetem, os mesmos.tr oca isso e troca aquilo. um é estátua, o outro dá o grito, alto, escondido não, não te mexe, não te mexe, ou sai do jogo… tudo com sol, exercícios e vigilância… não tem mais graça, nem piada, nem certezas, é sério: agora te faz de morto… ah! brincadeirinha cruel de vingar… quem disse que viver é coisa séria? eu vou é me vingar! Elizabeth M, B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

organizações

as organizações estão mesmo cada vez mais organizadas, a inquietude já não causa espanto nenhum. os desencontros muito bem compreendidos e os espaços, suficientemente, arejados. ao saber/ gosto das palavras, dos bons exercícios… claro, acordos fotografados, com mulheres ou sem mulheres, divulgações adequadas. respostas para cá, respostas para lá: abacaxi e verão. segue o rumo e o tédio: envelhecer tem gosto de adoecer e a conversa cheiro azedo, desesperado, suficientemente, investigado. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro – 2026 – Torres com gritaria de criança no corredor.

fofoca

velha na janela, espia. história curiosa. pela janela eu vejo ele sair, ela chegar: ele chegar, sair outra vez, ela fica ou volta? ela? não sei. não sei… não almoçam em casa, almoçam no tempo… eu acho, ela lá, ele cá… isso, afirmo, no inverno e no verão. engraçado ser dois tão separados assim… hoje quem fica sem ficar? sei lá. deve ter gente assim, amarrada, sem respirar… deve ser. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

eu queria te cuidar, ajudar, curar e estender a mão, fazer alguma coisa, mas de nada adiante se tu mesmo não queres, nada disso e muito menos minha ajuda…

afinal, viver é querer, um pouquinho, três minutos, se possível, cinco minutos por dia, mas querer… aquele esforço mínimo. eu diria, se amar, ninguém pode te amar se não te amas, minimamente… consciente ou inconsciente amar e desejar. para alimentar o recém nascido, não basta ter leite, ele precisa querer viver e se alimentar… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

janelinha

noite cheia de janelinhas… sonhos pensamentos, vozes da televisão ligada… notícias, mil vezes as mesmas… e sono, uma vida dupla tão boa! cheia de eu mesma a ser eu mesma divagando, ando… diva! aquele prazer de ser eu mesma inteira. hoje amanheço assim, inteira. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

beleza

beleza importa? experiência do sentimento, estranhas experiências do sentimento, a beleza é vivência, não é? o que a gente sabe sobre beleza, o que outro vê… não é? ou o que a gente sente por dentro? esquisitices… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

A propósito, diga a meu pai que as eleições correram aqui como geralmente correm por lá –

atas falsas, livros roubados, capangas, atentados contra a liberdade do cidadão e outras asneiras em que se pegam os políticos da oposição para atacar a gente do P.R.C. Tolices! Os jornais do governo naturalmente dirão que houve inteira liberdade no pleito, que tudo andou às mil maravilhas. Mas eu trabalho em dois jornais de oposição… O interessante é que, um dia depois da eleição, um colega me perguntou se o nosso partido tinha vencido. E eu perguntei qual era o nosso partido. Era o Liberal. Nós somos liberais. Mas eu não sabia… […]

O que eu sinto é morar numa terra onde só se pode conseguir alguma coisas com muito reclamo. Aqui tudo se resume nisto: cada sujeito faz propaganda de si mesmo. Um indivíduo que é burro fala em voz alta, de papo, grita, diz asneira e às vezes chega a fazer figura diante de outros que são mais burros do que ele. Um animal que tem algum talento afeta uma atitude ultra-humana, quase divina – não conversa: prega; não dá sua opinião coisa nenhuma: afirma, assevera, pontifica. É dogmático como os padres da Igreja. Enfim, tudo reclamo. Um tipo escreve um livro e vai, ele próprio, engrandecer, pelos jornais, o livro que escreveu. Muitas coisas más conseguem tornar-se boas assim. Eu digo comigo mesmo que o meu vizinho é um asno; mas tenho interesse em dizer em público que ele é um gênio. É o elogio pago. Tudo reclamo, em toda a parte, a toda a hora, sob todas as formas. Há joias tentadoras nas vitrines, sobre uns estofos magníficos; as mulheres enfeiram-se, pintam-se, estudam gravemente a importante sustão do vestuário, para aumentar o valor de uns encantos fictícios; os jornalistas escrevem, convictamente, que o “o sr. barão Fulano, falecido ontem, em seu palacete à Rua X, era a maior manifestação literária de nosso tempo.” Uma praga! às esquinas, às portas dos bares, sujeitos sérios, rigorosamente vestidos em vastas sobrecasacas negras, dirigem-se, em altas vozes, à multidão: – “V. Exa. conhece a Tomatina? Os senhores já provaram os biscoitos do Sincrano? Experimente as pílulas do dr. X”. Está a gente muito tranquilamente tomando uma xícara de café, quando um indivíduo se levanta e pôe-se a gritar: – “Escândalo! Patifaria! Maroteira!”

Voltam-se todos. Será algum barulho? E o homem bate com a cadeira no chão, dá um murro na mesa e continua a berrar: – ” Imoralidade! Então os senhores já viram tão grande indecência? Miséria! Escândalo!” E, quando a curiosidade dos circundantes chega ao máximo, o homem sorri e diz muito calmamente : – Descansem meus senhores. Não é aqui nem agora. É hoje à noite, no Recreio. A nova peça A Moratória Conjugal uma peça de gênero livre, somente para homens. Uma verdadeira imoralidade! Vão hoje lá. Uma pândega! Veja a senhora como as coisas aqui são. E o pobre diabo que for tímido, que não declarar que é um gênio, é uma criatura morta. Um rapaz meu conhecido apresento-me a um poeta, dizendo que era um literato. E eu caí na tolice de dizer que não o era.. Dei uma grande patada, não há dúvida. Eu devia ter ficado calado ou, melhor, ter entrado a dizer sandices sobre arte e sobre outras coisas que não conheço. Era o que eu deveria ter feito. É o que todos fazem… (p.44-46) Graciliano Ramos CARTAS 1892-1953 / Rio de Janeiro: Record [1981]