terminei o ano meio esquisita. engraçada, desconectada / desfocada? ou desânimo? sei lá. às vezes acho que não vale o passo / nem o mergulho no mar / resta / fica a janela… sou abençoada com minhas janelas. lagoa e céu. cinzento / escuro, estrelado ou ensolarado… e eu, enlouquecida, às vezes, penso voltar pra Porto Alegre / urbano! eu gosto! no mato / na fazenda já ´passou: ovelhas e vacas e cães e… e e e sabores / posso te confessar? não tenho saudade de nada / nenhuma daquelas vidas / zero nostalgia mas uma palavra /escrito espichado / filhos bastiões… e eu me vejo megera e monstra / credo! como eu falo! desculpa. nunca soltei balões coloridos, ou soltei? as mentiras se tornam verdades e vice-versa! fui longe demais / claro que eu teria sido uma péssima freira! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro 2026- Torres
Mês: janeiro 2026
não consegui
meu querido: serás sempre o meu querido amado. eu te escrevo aflita, desnorteada. não sei como te encontrar. estás entre a chegada e a saída num lugar qualquer / não sei. estás no ritmo do teu coração, teu caminho… não comigo. aonde estás? não sei. sigo escrevendo para o antigo endereço, mas as cartas voltaram… por quê? sim, insisto e te pergunto, por quê? entre nós dois deve haver uma serpente, um gato? um susto? uma passarinhada nervosa… aonde estás, meu querido? abri os livros, li poemas, desenhei uma rota, de fuga, de amor… tuas palavras carregam esperança na minha desesperança… assim mesmo desanimada eu te digo, reafirmo, eu amo. mandaste um sopro, não chegou… senti perdas, dores, ausência. explica melhor o caminho. teremos, tu e eu, um caminho? parou de chover, parou de ventar, parou de chegar tanta gente, parou o mundo. aquela história, deixa eu descer e te encontrar… passou tanto tempo, tanto passar… será que ainda vamos, nós dois, sentir gosto de beijo no abraço? Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres (estou te esperando)

pensei: a gente planta estória, alegria, uma ideia
… mas estranheza, a gente colhe fruta madura, alegrias, algumas, mas colhe tanta e tanta decepção! o bom é que constatar estes arranhões e sentir os empurrões… igual seguimos a sentir prazer! amar é tão perfeito e bom… sem definição certeira… obrigada querido, te amar é mesmo muito bom! cada gesto teu… beijo, abraço, o sorriso completa o tempo. obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
dizer a verdade já é uma mentira grande demais
Como será que posso chegar a explicar esta coisa / pessoa estranha que me nomeio? Dou nome ao que penso e sou coloridos diferentes. Ainda choro se lembro que Bambi perdeu a mãe numa fuga dentro do medo: “corre, corre, não olhes pra trás..” gritou a mãe e ele correu…Voltou a vontade de chorar. Abro um livro pra me distrair do sentimento… Descrever o que eu sinto / o que eu desejo ao te desejar, ou sonhar seria ser feliz agora. Mas, te desejar, definir quem sou / caiu em um ensaio de Virgínia Woolf: “Há em primeiro lugar, a dificuldade de expressão. Entregamo-nos, todos, ao estranho e agradável processo que chamamos pensar, mas quando se trata de dizer, mesmo a alguém que esteja à nossa frente, aquilo que pensamos, quão pouco, então, somos capazes de transmitir! ” (p.14) O sol e o peixe

Dizer a verdade sobre si mesmo, descobrir a si mesmo de tão perto, não é coisa fácil.
Sugestão de sempre, intimidade com Virgínia Woolf /esquisitices de ler e depois escrever, não resisto as citações, e lá vou mergulhar em uma citação de Montaigne / Ensaios sobre este dizer a verdade de si mesmo: “Não temos notícias senão de dois ou três dos antigos que trilharam esse caminho […]. Ninguém, desde então, seguiu as suas pegadas. É um empreendimento espinhoso, e mais do que parece, esse de perseguir um passo tão caprichoso quanto o de nosso espírito; de penetrar as profundezas opacas de suas dobras internas, de selecionar e fixar tal quantidade dos mínimos aspectos de suas agitações. E é uma distração nova e extraordinária, que nos tira das obrigações ordinárias do mundo: sim, e das mais recomendáveis […]”
Empreendimento espinhoso / eu diria, uma armadinha / e, simultaneamente, uma salvação. Ao tentar contar / mostrar / descrever ou sei lá como explicar, o motivo pelo qual o arroz com ovos fritos e a salada foi deleite, mas descascar o abacaxi penoso…, não sei explicar. Deixar o tempo sair de dentro de mim como as torrentes de chuva grossa… e, assim se alterar com sol… É complicado ser feliz! Há uma suprema dificuldade de ser aquilo que sou / ou me imagino ser. Inquieta, fico a me mudar do Rio de Janeiro, para Recife, de Porto Alegre para Torres, ou inverso. Uma roda inquieta de lugares, de estar eu dentro de mim mesma. E ou, trocar os móveis de lugar. Comer bifes com batas fritas, mas bem que gostaria de um linguado e batatas coradas. Uma taça de vinho branco. Ou apenas pão com manteiga, geleia de damasco, e cerejas… Sei lá. A tarde derramada de luz mas já é quase entardecer! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
A mentira pode ser uma máscara ou estar mesmo fantasiada de verdade. Como, afinal, eu acredito? Guerra ou paz? Omitir ou discursar? Uaiii! Difícil! Assistir televisão difícil complicou. Uaiii! Que confusão!
meu querido amado
saudade é pedaço sentido de amor. do amor que sinto por ti. recomeçou a chover. chove forte. decidida, pesada. não está entrando pelas frestas, molhando dentro de casa. ela cai forte no telhado… acorda o mundo. a passarinhada deve estar bem quieta, os filhotes aquecidos. queria te contar que comprei bons abacaxis na feira, milho e tomatinhos… boa caminhada. mas estou bem no tempo de fazer artes… vendo um filme turco todo charmoso… esqueci as cascas no fogo, sim, eu ia fazer “um chá de abacaxi” como disse o neto… o silêncio da casa e a chuva forte. troco de cama, reviro nas cobertas, abraço os travesseiros, fico a pensar no que fazer, no que comer, no que ler ou escrever… tudo recheado de ansiedade. como posso te explicar, meu amado? sinto saudade do abraço, dos sussurros, achas bobagem? somos velhos? não, meu querido, não somos, ainda temos um ao outro e todas as nossas pequenas possibilidades sussurrantes. estou te esperando com saudade, quero dizer, com desejo. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
Enquanto te escrevo a passarinhada se pôs a gritar… Acho que os dias amanhecem mais cedo… Alvoroço! Pensei que seria apenas eu a sussurrar… Meu nariz tá gelado, estou com as meias de lã. A temperatura do meu corpo, estranha… Sinto a cabeça. Não podes acreditar que esqueci de comprar leite, e também as bananas… Combinei com Luiza que logo irei para Pernambuco. Será que vamos discutir muito ela e eu? Em que janela eu gostaria de me acordar? Que tempo será este, de outra vez, mudar de casa? Os passarinhos aquietaram, também vou tentar voltar para o ninho

rei rainha
cavando o jardim, plantando batatas, limpando chaminés, panelas, cozinhando, consertando as cercas… costurando as bainhas, repassando os lençóis, arejando os travesseiros, perfumando a casa, serão sempre reis e rainhas… nasceu rei, nasceu rainha. o lugar seja qual for não esconde a coroa, a gente é / pode -se ver a cada gesto ou sorriso. não importa o que está vestindo. coisas de rei e coisas de rainha. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
o inverso é engraçado… o novo rei tropeça, a nova rainha tropeça depois, e, não sabem sorrir… ou seja –nascemos quem somos, valorizamos ou não ser quem somos… a escalada social não se trata de dinheiro, é mais longa do que se possa imaginar…
- por favor, me traz um margarida…
miúda esta culpa, constante
vida longa, vida curta, intensa ou aos soluços. sozinha não posso / sou outro, com o outro, sinto assim… não existe caixa, parede ou sei qual jeito para me isolar do sofrimento e desta culpa insistente, miúda que amargo. cada decisão me parece definitiva, florida, ou insignificante, sofrida, existe decisão arrependida? existe. confessar, apalpar resolve? pedir desculpas? chorar, resolve. como pode ser difícil apenas respirar! o que importa? não desistir. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
céu tempestade, calçada cheia e muita expectativa
literatura: gosto e sabor
mastigar, sentir o cheiro, abocanhar, engolir devagar… lento, lento, aos pedaços e aos soluços. a leitura se derrama no dia, entra pela noite e se instala nas frestas. posso respirar, posso caminhar e dar voltas pelo jardim, cuidar da horta, molhar as plantas, fazer a poda… cuidar. limpar a casa, exterminar os cupins, fazer a panela brilhar e passar roupa, amar aos poucos, na entrega feliz da entrega. risadas, beijos caídos, abraços sem vergonha ou mesmo envergonhados… amar e cuidar e molhar… a leitura chega deste exercício que atravessa a quietude de observar. sem o ruido da risada… posso caminhar entre livros maravilhada, mas não me seduzo fácil, palavras precisam ser as certas: coroadas. ler por ler não é ler… bem, pode ser brinquedo, passar tempo, outra coisa. porque ler e amar, amar e ler são verbos sérios, intensos. a entrega é completa, absoluta. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026- Torres
morte silenciosa
ganchos perigosos, mortes silenciosas: suspiros! volto ao começo do nada e posso nadar por piscinas iluminadas… o mistério de viver é prolongar. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres
