bem engraçado constatar que fico assim: meta, recomeçar e reiniciar. resolvi limpar as estantes, atrás de um livro / um livro colocado no lugar errado, e, naquele momento, urgente. como sinto urgência na saudade de uma pessoa, de outra… claro, tão urgente é a vida e cada sentimento! umas depois das outras importantíssimas, as pessoas. fundamentais… com estas alianças atravessei a vida / e contar história ou estórias passa por todas elas. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres
Mês: fevereiro 2026
desenhar um prego
meu querido: tens sido severo nos teus julgamentos contigo. eu te imagino e eu te penso alegre, de mãos dadas com a vida, querendo e conseguindo. desenhar um prego / gostei, mas deve ser difícil mesmo / viver, esperar e esperar também / envelhecer é sentir os dedos ou ter câimbras ou insônia, ter medo. sei lá. sentir tá apertado! eu te quero querendo e conseguindo. divagações! um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

outros tempos / a juventude no Rio de Janeiro, a maturidade Torres e o neto – Lucas / ficou bom o recorte, eu acho.
experiências do sentimento
“Experiências do sentimento, estranhas experiências do sentimento, as quais muito mais tarde se acumularam naquela determinada vivência que – de modo muito aproximado – circunscrevo à imagem do revenant, contestam-me o direito de me absorver na amada (mesmo sendo infinito o espaço que ela oferece). Por mais que eu tenha de reconhecer a lei nesse domínio, parece-me que me encontro ao mesmo tempo constrangido e despótico em seu meio. A minha consciência mais profunda me atormenta, e o medo que me distrai não aquele medo da criatura diante da doce aniquilação que provém do cerne do amor; é o horror de um abandono que sempre me agita e me exorta, dizendo que não compete a mim dispor de minhas inclinações: como se o patrimônio de meus sentimentos fosse repartido e eu me tornasse pobre, como se eu amado, e amante, retirasse um quinhão há muito exaurido de heranças desconhecidas e já destituídas de sentimentos. Em algum lugar, na amplidão do espaço de meus sentimentos, emerge uma inquietação, uma contrariedade; lamentos que não compreendo sopram em minha direção; levam-se ameaças em meu ser: já não me sinto concorde comigo mesmo.” (p.64-65) Rainer Maria Rilke O testamento

Explicar revenant – eu devo? Aquilo que volta, o fantasma que me persegue, aquilo que parece que terminou, mas está lá, outra vez dentro de mim, grudado. O sentimento que não termina, aquilo que quero sem querer mais, já não sei, mas está lá presente, a remplir / encher e transbordar meu sentimento inquieto. Pensei. Será que eu quero mudar de lugar, de casa. Sair desta vida agora para seguir não fazendo, não sendo ou para encontrar, achar, o que não tenho? Mas se eu nunca tive, como será procurar? Se não sei exatamente o que quero apoiado apenas no que não quero? Será diferente se eu estiver noutro lugar, não farei ou farei as mesmas e muitas coisas e ainda outras, que nem faço? deslocar-me não é suficiente. Preciso saber aonde / lugar, momento, sei lá, quero chegar e o motivo, o porquê de toda esta reviravolta. Atirada neste meu nada / no não fazer como vou, de fato chegar no fazer, na construção exata do meu querer? Confuso. Grande confusão… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres

começo animada
animada, animadíssima, vou ordenar, limpar e embelezar, mas logo, tão imediatamente, sinto vontade de comer abacaxi, folhear outra vez o livro, beber o suco e despejar a preguiça inteira entre travesseiros e sono. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres
envelheci dos trinta para os quarenta anos…
depois vivi… vivi com tal e tanta intensidade que nada mais importa / claro, quando se vive a vida, não as plásticas de embelezamento e enganação (sou contra) /nem as dietas e convenções, estou me referindo a viver: acordar triste, chorar. estar alegre porque a borboleta é pura beleza! viste? pousou tão perto! porque hoje comprei cerejas… mas tô com saudade das laranjas / do sol de inverno… saudade do beijo apressado, de te mimar… tanto tempo longe! dos trinta anos para os quarenta era um jogo de xadrez e soluções, em cheque: entendi bem, o tempo passa… alegria transborda: sinto a exata sensação de estar aonde estou e feliz.
