diga quem amas e te direi quem és

A narrativa dos sofrimentos e das lutas da vida de cada homem, é, pois, um ensinamento para todos os outros; seria a salvação de todos, se cada qual soubesse discernir o que o fez sofrer e compreender o que o salvou. Foi com esta mira sublime e sob o domínio de uma fá ardente, que SAnto Agostinho escreveu as suas Confissões, que foram também as do seu século, e que ofereceram, a várias gerações de cristãos, o mais eficiente auxílio. (p 15) George Sand A História de Minha Vida

amor do amor para amor

Estás junto a mim, minha mão está envolvida

Pela tua. Meu corpo firmemente apertado contra o teu.

Minha boca grudada na tua…

Somos um único ser, inseparáveis.

Será a batida do teu coração ou do meu que sinto?

Não será o que soa e se avoluma em meu sangue

Um eco do teu sangue?

Não existe eu, nem tu. Benditas sejam as fronteiras.

Profundamente submerso, como todo o mundo

Está o que sempre nos separou. – E até que

O doce milagre se renove, e o sonho

Também seja devorado pelo fogo – torrente de desejo,

Imagino que somos, fomos e seremos – para sempre – um.

1914 – Melanie Klein – (p.77-78) O mundo e a obra de Melanie Klein – Phyllis Grosskurt

amor pesa

A literatura descreve, a nossa mestra, este peso de morte. Grita, faz escândalo. Evidências da vida sacodem o homem, mas, embora seja aliada, não consegue evitar /impedir que morram e sofram ou sejam mutilados… A inteligência, como o amor, vai roendo devagar as pessoas. A consciência empurra… Esquisitices que não consolam os inteligentes, ou os menos dotados. Respirar pode ser assim difícil. Ser o escolhido também: a disputa do amor quando se está desavisado é maior / perigosa. Envolvido com as benesses de ser amado / o escolhido… A inveja pegajosa destrói, mesmo a criança. Concorrer! Haja músculos! Escudos e lucidez. Ás vezes, o excesso de amor amolece… ou se transforma em armadilha. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

movimentos irregulares

O amor nos torna surdos. E da lua aos porões da terra pode-se sambar e desejar, outra vez, o poder – ah! este gosto amaldiçoado do poder está na pele e se sacode, dança e reconduz o letreiro da vida… Respirar, viver, suportar e chegar, viva, ao poder.

Je n’ai certainement pas assez de sport dans ma jeunesse pour supporter ainsi les mouvements irréguliers de mon coeur. Cela fatigue tellement, ce mouvement perpétuel du bonheur ao malheur. Avec Alice, j’alternais sans cesse entre les mouvement d’euphorie où je voulais l’emmener en week-end sur la Lune et les moments de violence intersidérale où je l’ aurais enfouie au coeur de la Terre. Je pense qu’ elle ressentait exactement la même chose. Habituellement si douce et si chuchotante, elle était capable de crier subitement, de déverser des sons stridents dans mes oreilles amoureuses. Nous étions dans la valse des tonalités. Et je n’ étais pas loin de penser que l’amour rend sourtout sourd.(p.24-25) David Foenkinos

O amor nos torna surdos. E da lua aos porões da terra pode-se sambar e desejar, outra vez, o poder – ah! este gosto amaldiçoado do poder está na pele e se sacode, dança e reconduz o letreiro da vida… Respirar, viver, suportar e chegar, viva, ao poder.

Este ensejo de seguir, dizer, escrever, e não imobilizar… Faço um esforço enorme para seguir acreditando que amanhã deve ser amanhã ensolarado, fresco, corajoso e não sonolento e ardido. Imagino flores, sinto o gosto dos chocolates, perfumo o tempo e os jasmins se acomodam míudos na janela, respiro. Respirar é preciso. Abro as pequenas gavetas, reordeno, descubro cadernetas e mistérios empilhados, reencontro a desordem numa calamidade triste… penso nas caixas, preciso voltar a investigação das fotos, dos desejos. Acordar a vida, não deixar o tempo ir contando regressivo, ou amordaçado. O cheiro dos equívocos devem se misturar aquelas alegrias certas de acreditar. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres porque São Paulo pode ser um tempo definitivo, será?

ainda

Sol. Azul e uma fresca… ainda sem ânimo. Sem pensar, sem pitangas nem amoras. Sem vontade. É o envolta…, a volta. Equívocos certos. A dor de doer, aquela água apertada. A China, o Japão. A beleza, vejo. A janela escancarada, todas as janelas, e o setimento no quarto escuro. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

varal

De ponta a ponta, atravessa a área o meu varal, e, se abro a janela as conversas saem pra calçada ou enfeitam a buganvílea assustada daquele lado: esqueço de molhar, de podar, de acarinhar… Mas tem noite comprida como esta de hoje, então, aproveito e vou lá pra conversar um pouco. Resolvo os problemas pendentes, os vidros mal cuidados, a poeira já sossegada, mas ativa… Resolvo o jardim dos vasos. As relações se esvaziam descuidadas… e os amigos se perdem, as folhas voam, e a vergonha desaparece. Quanto descuido! Não tem estrela no céu, noite fresca, silenciosa, domingueira. Toda uma semana pra acordar deste torpor de dormir errado, fazer errado. Que susto! Sair do susto demora, eu sei, passos pequenos e cuidados grandes! Vai passar… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Fotos de Pedro Moog – março – São Paulo

amor incondicional

Ah…Teo, essa história de amor incondicional, é de uma ingenuidade quase maligna. Porque o amor é de natureza viva e, como tudo o que é vivo, tem suas exigências. Não tenho ilusões: é preciso, sim, fazer alguma coisa para sermos amados. Assim como é preciso fazer alguma coisa para sermos odiados. Assim como não fazer nada é, de certo modo, já estar fazendo alguma coisa. (p.204) Carla Madeira A Natureza da Mordida – Editora Record – Rio de Janeiro – 2022

insanidade

Não está presente, a insanidade, apenas nas bruxas más dos contos de fadas. Sempre existiu, mas temos medo de detectar e apontar, até de diagnosticar. O limite é quando alguém começa a deixar de sentir odor, perspectiva e repete, repete, repete e se repete. Hoje lendo a Zero Hora fiquei estarrecida com a coluna do Flávio Tavares. Que pena! Que lástima! Elizabeth Menna Barreto Mattos – março de 2023 – Torres