pacífica desordem

esta coisa apertada e atrapalhada… esta vontade forte de tudo ordenar… estantes limpas, os livros quietos, ou cantantes, presentes. o silencio das manhãs dentro das tuas palavras amorosas, urgentes, obrigada meu querido. e agora os discos espalhados por todos os lados, ocupando o imaginário, quando o tempo volta na música, nas velhas cirandas. velhas descobertas. presentes. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres

fazer / fotografar ou sentir

não se deve interromper / deixar de olhar ou sentir / ver tão perto! as fotos da Ana estão… pássaros, terra, olhar, o clic. certeza do momento e sem transformar, enxergar! eu? paralisada com o sol deste dia esplendoroso, sinto a limpeza do vento nas folhas faceiras…

preguiçosa eu me espreguiço: passeio de carro com o João: nossa cidade / não mais balneário. ruas, outras. as mesmas casas, tantos edifícios! tanta luz! esta coisa de olhar, ver, enxergar/ momento de domingo. escreves, e eu acordo. não abro os olhos, talvez o resfriado, a gripe ainda me arrasta. o tempo se alonga como dia… uma história, uma invenção… o sono atravessa a sala, passo miúdo e me agarra. vou dormir, vou dormir errado mesmo, vou sonolejar nesta tarde. e pensar nesta coisa boa de respirar e esperar. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres

agora, há o futuro

“Seguramente, porém, tudo está menos triste doque ontem, muito mais leve, muito menos embaraçante, e de repente me parece que entendo o porquê dessa evolução: ontem ainda havia o passado na frente desse homem, empacotando e amordaçando, que o atormentava com seus horrendos ganidos: agora, ao contrário, há o futuro, e eis de qual grande máquina os carregadores trabalhando eram as engrenagens: do futuro, precisamente, do seu futuro. Um futuro que expulsa cada cansaço dos seus olhos escuros, porque contém o retorno à casa depois de trinta e seis anos, a velhice ao lado da irmã que lhe mandava garrafas de Frascati, os fenomenais molhos de tomate preparados com o segredo aprendido na escola de culinária, o acido da viuvez que se dilui na língua da infância (disse doutor: já a reencontrou), e a serena aceitação de todas as outras coisas que virão, assim como virão,

escrever, eu acho…

eu acho que escrever é costurar pequenas memórias, esticar e fazer o tal enredo, cheio de bilhetes, cartas, áudios, fotos com cheiro de passado ou enfeitando, como árvore de Natal planejada, o futuro. Natal! pois é… logo é dezembro, logo o calendário se mexe, mas eu? eu fico enraizada aqui. Gosto da minha casa, meu canta e das buganvílias… estão a enfeitar o terceiro andar cheia de cachos floridos, não podei aquele lado… / mas elas responderam florindo… ah! a jardinagem! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres

coisas q voltam…

meu querido: sei lá por onde / aonde andas…, ou caminhas, ou estacionas. se os aviões voam… estás perdido na ladeira? espreguiças, tomas uma sopa sem sal, ou batatas cozidas? bananas maduras, pedaços de maçã, bebes chá / água, muita água. pois é, quando faço sopa de ervilhas lembro de ti / dos detalhes / não liquidificar, não fazer torradinhas na manteiga / não esquentar demais… depois lembro os legumes / as frutas… e dos biscoitos e bobagens que deixei de comer. das tuas leituras, tua alegria sem risadas, do fax / e das tuas saudades guardadas nas prateiras / teus roteiros, tua vida dentro das malas. agora, hoje, deves estar estacionado, querendo salvar o planeta, eu sei. sem esta loucura das conexões, assim mesmo perdido nelas. protestas. coisas de lembranças, lembranças são saudades picadas / amor de pedaços, porque tu amas, eu amo, amamos outras coisas, outras pessoas…obsessivos? não. encaminhados… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres

pouquinho

não é muito para recomeçar: uma taça de café, coragem, abrir as janelas e limpar a casa / ordenar devagar. importa dividir o tempo, assumir os espirros e a garganta. voltejar neste novembro / nesta época do ano começava o veraneio em Torres. / vínhamos contando as lagoas, escapando da poeira: carro cheio de mantimentos, cheirando mudança. as férias eram plantadas pro verão/ a boa rotina da vida. o encontro certo com os amigos, os banhos de mar curadores, as caminhadas na areia e a folga das férias / para nós um evento que incluía dançar, jogar cartas, comer pastéis e empadinhas de siri ou camarão, pedir sucos, encontrar sorvetes e ver filmes. Na SAPT cada noite um filme novo, arrastávamos as cadeiras para nos acomodar. E nos daremos as mãos, melhor, os dedos, disfarçados e tímidos. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres / com saudade e plenitude / a vida espremida nesta memória ardente de te gostar

surra / maldade e violência

dói a alma, claro, os olhos, o cabelo, os pés. o corpo moído, dolorido, dobrado, não estica, dói. o pescoço foi torcido com se faz com os das galinhas / os dedos doem, não é deitado que descana, nem sentado, nem não sei…falta água, falta paz, falta ar…estou doente. resfriada, gripada, as canelas não obedecem…Elizeth M. B. Mattos – outubro de 2025 -Torres – a cada espirro sacode o martírio…sou um fiasco, um ai ai ai ai…