ainda, meu querido

amado, perdido? não. sempre achado… na onda, na quietude, no inesperado de um bilhete, meu querido.

um belo dia a gente se muda? não sei. acho mesmo que o movimento dos solavancos são encontros / bons / definitivos, e, de repente, os mesmos e as tais idas / mudanças. explicar? o som do piano, a voz do vizinho… aquela insônia, o gosto da via/do rumo. a tua presença. ficar para sempre. uma risada… o teu silêncio e minhas decisões ruidosa. saudade.

o fato é que é fácil entender que há um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. Mas isso é porque, aos poucos, nossa época foi conferindo cada vez mais valor à mudança, inclusive como fim em si mesma, a mudança é o que todos querem. Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso; quem muda é iluminado, e quem não muda é obtuso. É o que nossa época decidiu. Por isso, fico feliz que você tenha se dado conta (se é que entendi direito a sua carta) de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado. Penso em você. (p.280) Sandro Veronesi – O colibri

estou deixando o tal tempo passar: tua voz ecoar. estou esperando a memória desenhar, e… vou interpretar. antes, durante, depois. saudade apertada. um beijo. ah! pensei ainda… será mesmo de ti que sinto saudade ou do amor, da expectativa e das minhas próprias risadas? todos os dias digo / acerto / planejo contar / dizer como foi viver e ser feliz assim… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

imaginação

Ninhos e conchas. Habitar e proteger. Estou a imaginar / o lugar / a casa / o cuidado de morar – proteção. Como explicar? Passei o dia a limpar, ordenar e reorganizar. Descanso o olhar no que está arrumado, limpo. Penso: enquanto me abrigo, eu me protejo. Cobrir e se esconder alimenta a imaginação. A criança transforma os seus dedos em personagens… eu brinco. O claro escuro: dia e sol. O quente e o frio, aventura. A sombra também é habitação, explico. Teu olhar me encoraja. A rua Dario Pederneiras, a rua Vitor Hugo, sigo o mapa. Volto, devagar. Vejo a casa, os jacarandás. Referencias de amor. O coração de uma rocha. Senti saudade. Saudade de estar contigo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres, mas poderia ser Porto Alegre, talvez o Rio de Janeiro, ou ainda Rio Pardo, Santa Cruz do Sul: plantei árvores e amei. Aonde, exatamente, estás?

caixa vazia

novas caixas e caixa vazia. aonde estarei colocando as aflições? misturadas com ansiedade e com os medos? separei aflições, guardei as ambições e coloquei a dos choramingo na caixa verde no alto do armário. Só alcanço com escadinha. começou uma chuva mansa. o cinzento do dia aquieta a alma. vou reler as cartas / responder aos amigos e empilhar os acertos. o piano entrou e… a música conversa. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres – primeiro dia sem jornal… passos pequenos para entrar na minha vida, apenas minha.

beijo leve, clandestino

um beijo leve, clandestino. as mãos se juntam, não apertadas, tocadas. todo e qualquer gesto emoldura felicidade. eu te amo. e foi para sempre, tua primeira viagem, teu primeiro Rio de Janeiro, tuas pequenas férias e nossa liberdade. não importa a história toda, volta o ingênuo e bom encontro: o amor. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

meu querido, querido

quando viajas, quando vais, o sono se inquieta e todos os caprichos pulam de cama para cama, não durmo… o dia começa a se sacudir na noite, fico enjoada. frio, calor, um arremedo de inquietude e… tu já foste. sei, vu me acomodar e te esperar. beber um leite morno, come o pão que deixei no fundo do pote, uma gel[eia…ou manteiga. passo um café e sento pra esperar o amanhecer. amanhã te conto das saudades que amontoei na gaveta e fechei com chave. vou ser outra amanhã. um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

madrugada engole o dia e

madrugada engole o dia e se espicha inquieta, num acerto incerto dominado pela angustia e as questões pequenas brotam como margaridas e se impõem… os pingos crescem no meio da casa. e os motivos… quais motivos se pedem. era uma história contada, fotos datadas, cartas ordenadas…uma canseira de certezas, o cheiro do apartamento responde a saudade do tempo, nas não sei bem o que desejo…arrumo devagar a gaveta, esqueço as caixas…eu me esforço. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

coisas inesperadas e saudade crescendo…não posso ir, então, o sorrisão se espalha por aqui.

atividade consciente

A alma é essencialmente ativa, e a atividade de que tenho consciência não é senão uma parte desta minha atividade consciente. Ou seja, faço tanta coisa instintivamente… no impulso, no vácuo para não dizer, inconsciente mesmo. Fico querendo afirmar. Afirmar que o dia é quente e faz sol, afirmar que o inverno foi frio, frio, mas nem tanto assim… Sempre tem o mar a contar histórias diferentes. Assim, viver é doce / surpresa meu querido. Sabes o que eu queria te dizer, meu amado? O que parece impossível, é, muitas vezes apenas uma impossibilidade toda subjetiva. Impossibilidade do momento, não absoluta. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2025 – Torres

apressada feliz, eu acho

Dia de conversa apressada. Soluço no ar, depois risada. Sempre com o mar… Ah! O ir e vir muda/transforma. Prazer de viver invade, resolve, e abraça. V i v e r! Descoberta de sentimentos misturados, saudade vagarosa e boa de certezas: estou. O que eu posso contar da minha vida? A história inteira… Completa. A calçada, jogo de pular, buracos nos canteiros. Luz do dia, do sol, da lareira, dos abraços abraçados. A gente sente saudade de pai, mãe, de tios, dos primos, e, das correrias de ser criança. E lembra do susto que foi crescer. E cá é verdade, pensar machuca um pouco, a inteligência ela mesma, é dolorida, mas sem doer a vida fica nuvem passageira, não fica? Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2025 – Torres

com alguém

não quero perder a minha história, nem navegar de história em história… fico presa / ancorada na rua Vitor Hugo: penso Humaitá, ou caminho pela Redentor… vou caminhar/ viajar até Rio Pardo, Santa Cruz do Sul e sentar na praça. quando fecho a porta, ou me volto para a infância, estranhezas acontecem… não, não vou… quero ficar ancorada na minha história de menina. eu vou / fui me apaixonando, tanto e tantas vezes! perdidamente. quando não amo, quando fecho os olhos, existe uma sensação de oportunidade perdida. talvez não haja nada, nunca que possa se equiparar à lembrança de ter sido jovem junto com alguém… apaixonar-se. ser abandonada também aperta, eu fui. mas, quase sempre há o recomeço, o amor tem ondas… um banho de mar, ondas altas, mergulhos, e o sal com sol… a vida. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2025 – Torres

parece complicado

tão complicado e intrincado como parece? tão repetitivo e constante… a gritaria pode ser a mesma em vinte anos, em quinze ou vinte três anos? cinco anos de casada, ou apenas treze? ter dinheiro suficiente, trabalhar bastante… perdoar mais vezes do que amar. arrastar / levar junto / falar mais alto. como decidir o certo? quem ama quem? como é mesmo que a história boa é a bem vivida e, verdade verdadeira, são todas absolutamente mal contadas… o solido são as investidas. a infelicidade coroada de apelidos, de vantagens pequenas / paisagens novas, acervo de praia de / piquenique / barracas e arreia. mar. vamos dar os créditos ao sol, ao mar e as manhãs caminhando pés nas areias. como pode a leitura perturbar, estragar o sono, sacudir a dança, empoeirar a sala. os vidros imundos, tudo com poeira e cheio indefinido. vou colher de botões de rosas. comer um assado bem feito, batatas, arroz e verduras. enfia na bolsa a vontade e caminha; dá uma volta inteira na lagoa / importa. atordoante o livro.se passa na Itália / o mundo precisa ser referenciado, mas DEUS! seremos assim assim tão enlouquecidos? atordoei. afinal viver parece um estado de loucura máxima / e enlouquecer precisa ser diário / comum, com certa continuidade… Marco Frigniani / Modena / RIO de Janeiro, minha terra, por que estou em Torres? não quero mais ficar. Vou para Recife. Com certeza, irei. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2025- Torres