“Experiências do sentimento, estranhas experiências do sentimento, as quais muito mais tarde se acumularam naquela determinada vivência que – de modo muito aproximado – circunscrevo à imagem do revenant, contestam-me o direito de me absorver na amada (mesmo sendo infinito o espaço que ela oferece). Por mais que eu tenha de reconhecer a lei nesse domínio, parece-me que me encontro ao mesmo tempo constrangido e despótico em seu meio. A minha consciência mais profunda me atormenta, e o medo que me distrai não aquele medo da criatura diante da doce aniquilação que provém do cerne do amor; é o horror de um abandono que sempre me agita e me exorta, dizendo que não compete a mim dispor de minhas inclinações: como se o patrimônio de meus sentimentos fosse repartido e eu me tornasse pobre, como se eu amado, e amante, retirasse um quinhão há muito exaurido de heranças desconhecidas e já destituídas de sentimentos. Em algum lugar, na amplidão do espaço de meus sentimentos, emerge uma inquietação, uma contrariedade; lamentos que não compreendo sopram em minha direção; levam-se ameaças em meu ser: já não me sinto concorde comigo mesmo.” (p.64-65) Rainer Maria Rilke O testamento

Explicar revenant – eu devo? Aquilo que volta, o fantasma que me persegue, aquilo que parece que terminou, mas está lá, outra vez dentro de mim, grudado. O sentimento que não termina, aquilo que quero sem querer mais, já não sei, mas está lá presente, a remplir / encher e transbordar meu sentimento inquieto. Pensei. Será que eu quero mudar de lugar, de casa. Sair desta vida agora para seguir não fazendo, não sendo ou para encontrar, achar, o que não tenho? Mas se eu nunca tive, como será procurar? Se não sei exatamente o que quero apoiado apenas no que não quero? Será diferente se eu estiver noutro lugar, não farei ou farei as mesmas e muitas coisas e ainda outras, que nem faço? deslocar-me não é suficiente. Preciso saber aonde / lugar, momento, sei lá, quero chegar e o motivo, o porquê de toda esta reviravolta. Atirada neste meu nada / no não fazer como vou, de fato chegar no fazer, na construção exata do meu querer? Confuso. Grande confusão… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2026 – Torres


