transgressão

toda a manifestação é /ou pode ser /e será transgressão… transgredir sem limite? organizo ou passo de um lado para outro o tempo. busco a lógica ou apenas entendo. quem sou? por que sou? margaridas entram neste meu fazer… revolvo a terra, adubo, rego, observo, conta as pétalas. não existe caminho certo, absoluto, não existe frase correta. ah! as minhas margaridas! não durmo bem como gostaria, mas eu tento entender o sono na noite, fecho os olhos. sigo. caminho, faço o que é preciso ser feito, ou sei lá… faço o sol nascer, a comida ficar gostosa, faço o sorriso do dia, mas não entendo nada. estou a espera, espero compreender, não se trata de aceitar, mas de compreender. por que as rosas não cresceram, e as urtigas invadiram o meu gramado? Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

tirania do literal

vivo a tirania do literal. falar / dizer se transforma em dar um pulo no escuro: perigoso. caminho, e se possível, imagino. imaginação ou lucidez? a essência da ficção é o trabalho solitário: o trabalho de escrever, o trabalho de ler… Elizabeth M. B. Mattos – agosto – 2025 Torres: ainda gelado, limpo e quieto. ruas vazias, hoje, sem vento.

Na Filadélfia, comecei a fazer cálculos que pouco ajudavam, como multiplicar o número de livros que tinha lido nos anos anteriores pelo número de anos que poderia esperar viver, e identificar no resultado de três dígitos não tanto uma intimação da mortalidade, mas uma medida de incompatibilidade entre o moroso trabalho de ler e uma vida moderna superagitada.” (p.199) Jonathan Franzen Como ficar sozinho – ensaios – Companhia das Letras, 2012.

conversa cifrada sublinhada

envelhecer, adormecer, querer e te amar. amor de amar leva os cabelos… a pele, leva junto pedacinhos de memória. certa? incerta. lembro gotas, espio o sol, abro os olhos quando a chuva chega. galopa tempestade e o vento, ah! este vento que sacode vidraças… o sul do rio grande de sul grita, e a moça carioca se encolhe e canta. vida faceira do sol… aonde estou? esta é a Beth Eliza Liza despetalada… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

migalha

farrapo, trapo, migalha e café. devagar. passo pequeno, dor no braço, pescoço, a boca… vontade esguichada. falo / digo, não sei… não escuto. estremeço. noites esquisitas mal dormidas…perdidas. meu querido, querido, amado. sou eu a te chamar. tua distância gelada, permanente, atrás do teu sorriso. nosso riso. alegria nossa, lenta, lenta e doce felicidade de te amar. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

Há pouco tempo, na primavera passada, Encontrava-me num trem francês com Renata, fazendo uma viagem que, como a maioria delas, não fazia por desejo ou felicidade. Renata me mostrou a paisagem e disse: não é linda? Olhei e concordei. Era verdadeiramente belo. Eu havia visto o belo varias /….varias vezes. Várias vezes, por isso fechei os olhos. Rejeitavam os ídolos plastificados das APARÊNCIAS. Tinha sido treinado, como todo mundo, a ver estes ídolos, e estava cansado de suas tiranias. Cheguei a pensar que o véu ilusório já não é o que costumava ser. A porcaria está se desgastando. Estava pensando no poder das abstrações coletivas, e assim por diante. DESEJAMOS mais do que nunca a vivacidade radiante do amor sem limites e cada vez mais os ídolos estéreis opõem-se a isso. O mundo das categorias desprovidas de espírito espera o retorno da vida. A esperança de uma nova beleza. A promessa o segredo do belo.

O LEGADO DE HUMBOLDT / Samuel Bellow(p.23)

ah! ah! tua voz

tua voz misturada ao vento: prazer alegre do encontro. meu querido! atrasada estou… quero te ver logo, escabelada ou abraçada… abraço de bom tamanho, enroscado no teu beijo. ah! este vento cálido e doce, veloz… nosso vento chegando. acordei alerta, mas já tinhas saído. o meu sono embalado forte e… ah! que sono bom! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres encaracolada…

talvez

talvez pudesse ser diferente / o avesso da genética ou o encontro prazeroso com o Eu… a gente descobre devagar o corpo, os sentires. as surpresas atropelam… nunca estou preparada, sou o bebê que choraminga, surpreendido. e, e, e a luta nem começou. ilusão de sol azul. chove, chove, chove… a vida precisa desta água toda entrando na terra. a chuva lava, faz cinza, uma luz estranha entra, brilhante, pelas vidraças. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

deslizando ou caindo?

esta comunicação vazia que faz o dia se aligeirar… comeste frio congelo / coisa séria deste inverno / invernar / frio de verdade… acho que tinha esquecido destes sentir seco, assustado. ou sou eu mesmo a me surpreendo com sentimentos gelados. tão preparada estava para não chegar perto / não transbordar, conter a saudade do abraço, esquecer. mas não é deste jeito que a coisa anda: o esquecer se lembra sempre, sacode sempre, sobressalta. não vou te esquecer. Elizabeth M, B. Mattos – julho de 2025 – Torres

estranheza

acordar, bom. não acordar pode ser bem cinza. sentir o frio, ótimo, ainda é inverno. levantar: esforço extra… abrir as cortinas, ligar o radio e passar o café. pão na torradeira, manteiga. um copo d´agua. e depois aquele silêncio de dentro começa a chamar. desligo o rádio e a passarinhada se manifesta. acordam agitados, ocupados. cinzento o amanhecer, uma chuva qualquer se apresentou… já se foi… repito todos os dias, inverno de minha infância… o que temos de diferente? a tal infância festiva ou triste, de abraços ou esquecimentos. a criança que fomos define tudo o mais?! ah! quantas teorias! precisamos investigar tudo, sublinhar e a gente vai caminhando nestes trilhos… a psicologia definiu, os estudos avançaram, os homens, modo geral, usam plaquinhas que não se esqueçam de lembrar as suas qualidades e os seus defeitos. identificação. será que sei qual é o meu prazer maior? será, será, será? a lagoa está parada quieta, espera o sol, todos nós esperamos o sol. noutros tempos… criança, eu pensava que seria fantástico atravessar o nevoeiro e acordar em Londres. o mundo superlotado pela falta de educação não atrai mais. acho eu. o melhor lugar é a casa, a lareira, o cheiro da sopa, e o café quente. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres